Setembro – prevenção ao Suicídio Depoimento de uma “criança “ salva pela música:

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“Hoje sou adulta, já fui casada, tive filhos, netos, trabalhei em vários tipos de lugares, estou no final da existência, corpo envelhecido e mente cada vez mais buscando entender as pessoas e principalmente a mim mesma.

Quando eu era ainda muito pequena, fui abusada sexualmente por um ídolo da família. Achava que aquilo era normal, pois eu mal sabia falar, nem sabia escrever, tinha sonhos, espontaneidade, alegria, vivacidade, e fui criando uma ideia de que sexualidade era algo permitido dentro das quatro paredes de um lar, de forma velada, e que nunca poderia ser diferente. Família grande, casa sempre cheia de pessoas, classe média quase alta, pessoas respeitadas em seus cargos desempenhados na sociedade, mas aquela coisa escondida dentro de casa que para uma criança era normal e assim era a vida, ficou registrada de formas negativas no decorrer da vida.

Esta jovem que me tornei era pura como criança, mas com apetite sexual bloqueado porque o certo era aquilo ocorrer somente dentro do lar, de forma velada.

O tempo foi passando, me mudei de cidade, conheci um rapaz que se assemelhava ao ídolo familiar e me casei com ele, porque me prometia proteção. Eu estava desamparada na vida, no lugar onde me encontrava, e me apeguei como tábua de salvação.

Ele acabou por ser um grande torturador desta criança que não havia crescido e aconteceram fatos que a criança ficou assustada e com medo, cada vez mais medo da vida e das pessoas.

Um belo dia, ouvi uma música instrumental, e senti um acolhimento extraordinário como se Deus viesse me salvar. Posteriormente descobri que era uma música clássica do período Barroco. Entrei neste mundo, fui aprender a cantar, tocar vários instrumentos musicais até me encontrar de fato num deles, o violoncelo. Estudei como se aquilo fosse o alimento mais precioso para minha vida, horas e horas e horas estudando, entrando naquele instrumento e ele em mim como se fôssemos uma coisa só.

A música me salvou de minhas dores e das lembranças que de alguma forma foram apagadas para que eu não pudesse decodificar o que estava acontecendo.

Na adolescência, nos meus quinze anos, fui passear noutra cidade com um parente e chegando na casa de uma senhora que era tia mais velha, estávamos esperando-a para o almoço e este parente também mais velho, um homem maduro com família, deu-me um selinho, e levei um susto muito grande, abraçados como se fôssemos o protetor e a protegida, ele me beija na boca, um selinho quase demorado demais.

Algo se rompeu dentro de mim. Eu não poderia confiar nas pessoas, elas me enxergam como um objeto de desejo. Bonita, pura, angelical, serena, alegre, extrovertida, era vista como objeto à venda para qualquer um pegar e experimentar.

Voltei para minha cidade em silêncio total, cheguei e foi correndo pegar meu violoncelo e estudar, estudar, estudar e esquecer aquele fato que este familiar me pedira segredo para não acontecer uma tragédia em família.

E hoje, embora envelhecida, não aparento a idade que tenho por fora, uns dez ou quinze anos menos, ainda sou vista como objeto e isso é algo que fere profundamente o ser humano aqui dentro, a alma buscando alegria na vida.

Recorro sempre à música, pois ela me transporta para um mundo quase perfeito, a música clássica me preenche, me faz entender que Deus soprou no ouvido destes compositores barrocos, um pouco da Sua generosidade para com a humanidade, deixando estes presentes em forma de sons.

Não fosse pelo meu violoncelo, por estas músicas que me transportam para o divino, provavelmente eu seria mais uma vítima do suicídio pois a dor que uma pessoa sente em ser vista como objeto é tão grande e inexplicável, onde forma aquele vazio, aquela falta de compreensão de mundo, aquele buraco negro dentro da pessoa que só é vista para saciar algo momentâneo no outro. Um animal querendo ser saciado por um ser angelical, pois é assim que me sinto – mais anjo do que matéria, mais espírito do que corpo, mais etérea do que sólida.

Que os homens desta Terra evoluam em seus sentimentos, equilibrem-se em seus desejos e comecem a ver uma alma e não um corpo, uma pessoa e não um objeto o qual eles se acham no direito de invadir.

Este relato sem assinatura, faço questão de compartilhar com a área da Psicologia, a qual sou cliente assídua sem nunca ter conseguido me livrar da cicatriz deixada por abusos , assédios, investidas de animais que só usam o instinto para sobreviver.

Que a música preencha os corações de todas as mulheres que como eu, sentiram vontade de morrer todas as vezes que são assediadas, vistas como numa vitrine, ou prateleira de uma mercearia onde quem quiser pode pegar o produto, passar a mão e comprar ou roubar ou somente cheirar, experimentar e ir embora.

Uma cliente assídua da Psicologia .

Não pude deixar de registrar este relato, colocado num grupo de WhatsApp, sem assinatura, mas que vem neste mês de Setembro dedicado à prevenção do suicídio, registrar aqui na coluna sobre MÚSICA, a importância de se oferecer a uma criança a oportunidade de estudar um instrumento musical.

Muitas pessoas são salvas por esta entrega ao estudo da música, para se transportarem ao mundo sutil, aliviando dores mundanas.

Pensem sobre isso.​

*Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.