MINHA HISTÓRIA COM RELAÇÃO A MÚSICA FASE 4: VIDA PARTICULAR , ESCOLA ESTADUAL

Chegou o ano 2000!

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Com ele, vários acontecimentos. Assumi o cargo de Professora Efetiva no Estado, na Escola Prof. Hélio Palermo. Uma escola situada um pouco longe de minha casa, tinha que sair quase meia hora antes, pois a diretora exigia que estivéssemos na escola 10 minutos antes de começarem as aulas, e isso era uma atitude que eu admirava e procurava cumprir.

Sempre procurei escolher as aulas no período em que meus filhos estivessem também na escola, porque em outros horários eu era a mãe-torista e quem acompanhava seus estudos. Meu filho mais novo, com 6 anos e meio estudava perto de casa, mas a escola não permitia que deixasse os alunos muito cedo na escola, teria que ser 10 minutos antes. E os horários coincidiram. Nesta época eu já tinha celular, um “startac”e era por este celular que eu monitorava o motorista da perua que passava em minha casa para buscar meu filho que ficava sentado na frente de casa, numa escadinha, casa sem portão, esperando por ele. Foi o momento mais sofrido desta época. Todos os dias ligar para o motorista pra saber onde estava, se estava chegando, se já pegou meu filho na porta, sozinho, com sua lancheira esperando por ele. Como Deus e os anjos-da-guarda trabalham !!! Meu Deus , isso foi preocupante, exaustivo, sofrido demais, deixar uma criança na porta de casa por 10 minutos sozinha esperando o motorista da VAN que passaria para leva-lo à escola que era o Colégio Objetivo bem próximo de minha casa, mas que eu não poderia deixa-lo lá antes do horário permitido pela instituição. Mas agradecendo a Deus sempre pela proteção.

Eu estava em período de experiência no Estado, sendo colocada à prova por 3 meses, pra ver se correspondia ao cargo e também queria me esforçar para não descumprir nenhuma norma. Mas ocorreu uma urgência. Eu precisei fazer histerectomia ( a retirada do útero). Aproveitei a chance e já fiz redução de mama por causa do peso que prejudicava a coluna e plástica abdominal. Digamos que 3 em 1.Logo em Março já tive que tirar uma licença saúde. Foi compreensível para a diretora da escola que entendeu e não se importou que isso tivesse ocorrido no tempo de ‘ teste’.

Na escola estadualiniciei o trabalho com os alunos através de ‘ retratos’. Estudávamos as biografias dos compositores e eu expunha as imagens na lousa para que eles escolhessem um deles para desenhar. Na época comprei uma coleção de Arthur Moreira Lima com 20 CDs onde ele gravou vários compositorese era o fundo musical para os alunos desenharem e lápis preto número 2 seus retratos preferidos. Depois fizemos uma exposição dos mesmos.

Começaram a ficar curiosos sobre a vida destes músicos eruditos e partimos para o teatro. Em seguida, encenamos suas vidas. Antes, levei para a escola vários encartes de vinil ( raros ) e dava nas mãos dos alunos para lerem em grupos de 3 ou 4 de cada vez. Saíamos da sala e íamos para o jardim, embaixo de árvores ler ao ar livre, para sair daquela sala um pouco. Mas nem todos compreendiam esta atitude e uma das funcionárias resolvia varrer o local onde estávamos justamente na hora que eu ia com eles para lá e jogava folhas e terras em cima de nós, mas permanecíamos ali. Levei também a coleção CRIANÇAS FAMOSAS , que conta a vida deles quando crianças. Reservei o salão para as apresentações e durante uma semana os alunos se caracterizavam com roupas de época, cenas do que leram , trilha sonora da coleção que levei e se sentiam super valorizados porque podiam manusear meu material sem medo. Um dia, a Dirigente de Ensino Ivani Marchesi foi fazer uma visita á escola justamente na hora dos teatros. Sentou-se na primeira fila e gostou demais do trabalho. Nosso camarim foi montado arrastando os armários enfileirados e deixando um espaço de um metro atrás deles para que pudessem fazer naquele corredor os camarins. Como foi produtivo este tempo!

Mas também no ano 2000 quando eu estava dando aula nesta escola, senti uma dor súbita atrás do joelho, fui correndo para o plantão do IAMSPE, já me encaminharam para o vascular de plantão com suspeita de trombose, este já deu encaminhamento pra internação urgente para tomar anticoagulante na veia por uma semana. Eu estava sozinha ali, tendo que buscar meu filho na escola no final da tarde e disse a ele que não daria para fazer isso tão urgente. Ele foi enfático dizendo que se eu virasse a esquina e tivesse uma embolia pulmonar, não seria responsabilidade dele. E ainda acrescentou que foram as 3 cirurgias que fiz ao mesmo tempo que ocasionaram isso. Respirei fundo, fui pra casa, liguei para meu médico ginecologista que me acalmou e disse que não era das cirurgias e que eu consultasse outro vascular, ele mesmo já conseguiu a consulta e aguardei. Mas enquanto isso o outro médico tinha dado um pedido para realizar um exame de contraste para descobrir se tinha um trombo na perna. Fui marcar o exame no mesmo dia que saí da consulta, me deram uma folha para assinar sobre alergias, sendo que eu tinha respondido que não sabia se tinha alergias e a atendente marcou que ‘ não tinha’. Na frente eu corrigi e escrevi: ‘ não sei ‘ em alguns itens. Ela ficou nervosa e disse : agora não vai poder fazer o exame hoje, 4ª feira, vai ter que esperar o doutor , tomar 14 comprimidos no final de semana e vir fazer o exame só na 2ª feira. Ok. Aguardei, tomei os remédios no final de semana e cheguei completamente dopada na 2ª feira para fazer o exame. Quando injetou o iodo de contraste eu tive o choque anafilático e desfaleci, tive aquela EQM ( experiência quase morte) , fiquei por 2 minutos morta.Foi uma experiência linda:

Morrer é muito bom! Pelo menos foi isso que senti ali na hora. Não deu tempo de falar nada a não ser : ‘ doutor, eu...’Pronto... não consegui mais falar nada e imediatamente desprendi do corpo e eu me sentia em dois lugares : no teto da sala de exames olhando para meu corpo lá embaixo na mesa e ao mesmo tempo lá em cima vendo um super SOL que apareceu no canto da sala, uma luz intensa, parecendo um holofote potente ou mesmo um sol, de dentro desta luz um braço que tinha uma veste transparente branca estendeu a mão para mim e eu sentia aquela paz que nunca tinha sentido na vida antes. Eu via lá de cima os enfermeiros correndo para preparar um vidrinho de cortisona para injetar no meu pé e cortar o efeito do iodo. Mas sacudiram o vidro e o médico ficou muito bravo porque fez bolhas, mandou buscarem outro. E de repente ‘ voltei ‘ com o médico com o rosto em cima do meu, fazendo massagem cardíaca para eu voltar e me reanimou.Minha vontade era dizer a ele: - mas como me tirou daquele momento lindo? Por que fez isso? Em seguida recuperei a razão e vi que tinha um filho de 7 anos , outro de 16 e precisava urgente voltar pra casa.Aconteceu um problema : quando foi injetado a cortisona de uma vez pra serem rápidos, arrebentaram muitas veias no meu pé e fiquei com um pé de elefante : 3 meses de cama, tomando anticoagulante, de repouso, e lendo bastante. Lembro-me que uma amiga me trouxe um livro chamado Rapsódia Húngara que era um romance da vida de Franz Liszt. E me deliciava lendo este livro.

A sala antigamente. Hoje é a Sala Franz Liszt e antes ela já foi de tudo. Uma sala que se transformou em cada fase das nossas vidas. Livros e revistas sempre nas cestas, espaço e alegria!

Lembro-me que eu rezava pedindo a Deus que enviasse uma esposa para meu ex-marido que pudesse amar os meus filhos e cuidar deles. E Deus atendeu. Devo a ela a minha tranquilidade, uma mulher exemplar e guerreira que até hoje dá atenção aos meus filhos de forma especial.

O Estado nos enviou para o ano seguinte um rico material produzido pela TV CULTURA sobre orquestra: Pedro e o Lobo de Sergei Prokofiev, onde cada instrumento de orquestra representava um animal. Ouvimos muitas músicas, desenhamos, assistimos os concertos enviados em fita VHS .E num belo dia, um grupo de 3 ou 4 alunos me esperou na saída do salão e emocionados me fizeram um pedido: “ – Professora, a senhora fica passando estes vídeos de violinos e outros instrumentos, concertos, e nóis nunca vai vê isso na vida, num faiz isso com a gente não, nosso mundo é outro, a gente nunca vai pegá um violino na mão.”

Meu Jesus ! Minhas lágrimas vieram à tona, pedi desculpas e prometi a eles que no ano seguinte eu iria ensiná-los a ler partitura e tocarem flauta, e perguntei se gostariam. Afirmaram animados que sim, que era tudo o que queriam.Por obra de Deus, naquele ano vi um documentário sobre o Projeto Guri , falei com a diretora da escola , começamos a ver como funcionava, fui atrás de empresas, de tudo o que indicava na instrução do projeto, até que outra diretora de escola, onde fui pedir para ceder o espaço para que o projeto pudesse vir pra Franca, me disse : isso quem resolve é um político, vamos escrever uma carta. E assim começou a luta para trazermos o projeto Guri. Um deputado na época, viu naquele pedido uma possibilidade de ser reconhecido por este feito e imediatamente foi atrás e conseguiu trazer para a cidade , projeto que funciona até hoje atendendo talvez 600 crianças por ano. Sinto uma alegria enorme quando vejo as crianças pelas ruas com os violinos nas costas, violas, violões, etc. Dá vontade de parar e tirar foto de tão linda cena que é ver um jovem andando pela cidade com seu instrumento nas costas.

E cumprindo a promessa, no ano seguinte, pedi à diretora para providenciar 20 livros de flauta de Maria Aparecida Mahle – Meu primeiro caderno de Flauta Block . E levava para as aulas , os alunos se sentavam em duplas para aprenderem através daquele livro a ler partitura e tocar flauta. Foi mágico! Vale um capítulo somente destes momentos. Por hoje ficamos aqui com a vida particular , vida escolar e familiar caminhando juntas.

E a família me esperando... Acho que por este motivo voltei a viver !!!

Filhos : presentes dos céus! Digo que o primeiro foi a Medalha de Ouro das Olimpíadas da Vida , Lucas. Hemorragia a gravidez inteira e ele veio. Vencemos.

O segundo, Eduardo, foi o Presente que Jesus me enviou . E olha que presente de Jesus é caprichado ! Viva a vida!

E então voltei para eles !

Por eles!

E para a MÚSICA!