FOFOCAS MUSICAIS CARL CZERNY

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Quando eu estudava piano e a professora me pedia pra tocar Czerny era o pior martírio do mundo. Primeiramente porque eu não tinha piano, estudava 2 vezes por semana por meia hora no colégio das freiras por 7 anos, num piano que faltava a capa das teclas, e nessas teclas com cola seca raspando nos dedos frágeis de uma criança, era uma tortura.

Em segundo lugar porque Czerny era um desafio atrás do outro, exigia concentração, independência de dedos, às vezes simetria, às vezes o cérebro tinha que fazer algo com a esquerda e ao mesmo tempo alguma coisa oposta com a mão direita, movimentos antagônicos, e isso era muito difícil. Para quem conhece o op 599, o exercício número 13 é um exemplo de tenutas, ligaduras, staccattos, dedilhados, colcheias e semínimas. Que teste! Como a professora passava a lição e tínhamos que nos virar pra entender aquilo e fazer ( não estudavam conosco), era descobrir o jeito mais fácil de conseguir e nem sempre o tempo de meia hora duas vezes por semana era suficiente para chegar a um resultado satisfatório e ainda tinham outros métodos pra estudar, peças e não sei como consegui ir em frente. Acredito que a perseverança de minha mãe que não me deixava desistir e minha extrema vontade de tocar este instrumento me fez ir adiante.

Vejo hoje em dia meus alunos que se dedicam ao Czerny, como conseguem evoluir em pouco tempo ( quando há a verdadeira consciência do quanto este grande mestre estudou para nos deixar estes exercícios fantásticos de aprimoramento técnico).

Quando estive na Suiça, como ouvinte do Masterclass em Samedam , com quatro renomados professores : Konstantin Scherbakov, Peter Feutwangler, Gianluca Luisi , Michelle Ahn, pude observar os alunos com suas mais variadas formas de desenvolver a técnica pianística que muitas vezes ajudavam ou se estavam falhas sentiam dificuldade na interpretação.

Uma das alunas, uma jovem alemã, estava tendo aula com Konstantin Scherbakov numa manhã, e eu era a única ouvinte desta aula. Sentei-me num lugar estratégico onde conseguia ver os dois pianos, as mãos do professor e as mãos da aluna e fiquei observando como ele orientava. Nestes Masterclass não se orienta exercícios de técnica mas o espírito da música, como acessar as ideias do compositor, como compreender a dinâmica , a intenção, e a complexidade da composição. Mas naquele momento específico onde a aluna tentava tocar uma passagem, seus dedos não conseguiam responder ao necessário. Eu observando e anotando. De repente o Professor Konstantin Scherbakov se vira para mim e pergunta em voz alta : -“ o que ela deve fazer para resolver isso Maria ?” Eu me assustei, fiquei vermelha, trêmula, com tanto susto e um mestre daquele gabarito me perguntar tal coisa, me senti acuada e com medo de responder. Então devolvi-lhe a pergunta : o que ela deve fazer mestre?

E ele respondeu : Czerny... Czerny... Czerny ... Só assim poderá tocar Liszt , que era a peça que a jovem Laura estava tocando para ele, Valle D’ Obermann de Franz Liszt.

Encontrei a foto desta aula e as anotações que eu estava fazendo enquanto ele dava as instruções para a aluna.

Vejam logo a seguir: fiz questão de fotografar a agenda onde eu escrevia as aulas , não transcrevi propositalmente, para que sintam o momento mais real.

No meio desta aula ele me interrompeu com a pergunta: o que ela deve fazer Maria?​

Professor Konstantin Scherbakov e a aluna alemã, Laura, tocando uma peça de Liszt para ele, quando aconselhou que fizesse a técnica de Czerny para conseguir interpretar com espírito.

Após esta aula eu o abordei no corredor e lhe perguntei: - Mestre, por que o senhor prefere Czerny ao invés do Technical Exercices de Liszt para resolver o problema técnico? E ele responde : - “ Porque Czerny é melódico e juntamente com a técnica ele eleva a alma.”

Hoje, deixo um artigo mais técnico.

Publiquei estas fotos no Facebook com um pequeno relato e ele foi parar na Suiça, na página da Escola onde foi realizado este Masterclass.

Este é o caminho do estudo árduo de um instrumento musical. Quantas horas e horas e horas dedicadas a compreender, analisar, treinar musculatura, captar sentimentos, enfim ... palmas para os músicos e palmas dobradas para os compositores!​