Diabetes e depressão: entenda a relação entre duas das doenças

A Organização Mundial da Saúde diz que o Brasil é o país latino-americano com mais casos do distúrbio mental

Postado em: em Saúde

setembro amarelo, um alerta contra o suicídio, já ficou para trás. Porém, a preocupação com a depressão e outros transtornos psicológicos, que podem levar ao ato extremo, precisa durar o ano inteiro

Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria estimam que mais de 96% dos casos de suicídio estão ligados a transtornos mentais, sendo a depressão a condição predominante. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil é o país latino-americano com mais casos do distúrbio mental (atinge 5,8% da população). 

Ele está no topo, também, da estatística de pessoas com diabetes: ocupa a quarta posição no ranking mundial (os últimos dados divulgados apontam entre 14 e 16 milhões de pessoas com a doença).

A princípio, essas duas referências parecem ter em comum apenas os números alarmantes. No entanto, a ligação vai além. 

A prevalência da alteração psiquiátrica em pacientes com diabetes é o dobro se comparada às pessoas saudáveis, sendo mais frequente em quadros do tipo 2.

"A literatura mostra que cerca de 30% das pessoas com diabetes apresentam algum grau de depressão”, alerta o médico Saulo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Aspectos Psicossociais e Transtornos Alimentares da Sociedade Brasileira de Diabetes.

O tema será discutido no tema no Simpósio sobre Diabetes e repercussões neuropsiquiátricas.

Causa ou Consequência?

É preciso entender que ambas as ações podem ser observadas. 

De acordo com o médico, a depressão pode afetar negativamente o controle glicêmico das pessoas com diabetes ou ser fator desencadeante desse descontrole em pessoas que não apresentam o quadro.

Existe uma relação bidirecional nesse caso. Entre as razões para a preponderância de depressão nesse grupo estão fatores psicossociais decorrentes da existência da doença crônica propriamente dita, como inabilidade para lidar com os cuidados e os efeitos que o quadro pode desencadear. 

"Há também causas orgânicas, como rompimento do ritmo circadiano, resistência à insulina no sistema nervoso central, processos imunológicos e inflamatórios, e aumento da degeneração dos neurônios, concomitante à diminuição da plasticidade neuronal”, explica Saulo Cavalcanti.

Em outras palavras: tanto depressão como diabetes apresentam incidência muito alta, uma potencializa os efeitos da outra, e o problema é que frequentemente são doenças subdiagnosticadas e subtratadas. 

O diabetes tipo 2, por exemplo, é a versão mais popular da doença, mas gera poucos sintomas, o que a faz passar quase despercebida - quando surgem indícios, como boca seca, a glicose já está bem acima do normal.

“Como a depressão crônica pode reduzir a aderência ao tratamento e a piora do controle glicêmico, é necessário melhorar o diagnóstico e o tratamento a fim de minimizar o risco de complicações, bem como aumentar a qualidade de vida do paciente”, orienta o médico.

Atitudes de Proteção

Em virtude desse quadro, é importante que os médicos realizem uma averiguação criteriosa em pacientes com diabetes sobre a presença de sintomas depressivos, bem como em pacientes depressivos a possível presença de diabetes.

Nos casos abrangendo os dois quadros, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) apresenta nas suas diretrizes, desde 2014, que o não psiquiatra pode tratar as formas leves ou moderadas da depressão, desde que domine os conhecimentos básicos sobre o tema. 

"Isso porque a terapêutica não deve visar apenas o uso de antidepressivos e/ou psicoterapia, mas abordar e lidar com o estresse provocado pelos problemas de conviver com o diabetes”, orienta o especialista.

Quanto aos psicofármacos existem cerca de trinta apresentações que demonstram eficácia, porém é imprescindível o conhecimento sobre as formulações na hora da prescrição, bem como levar em conta êxito comprovado, preferência do paciente, interações medicamentosas e tolerância à medicação.

Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) são considerados de primeira linha no tratamento de episódios depressivos. 

Deve-se evitar, se possível, os antidepressivos tricíclicos e os iMAOs (Inibidores da Monoamina Oxidase), pois têm ação hiperglicêmica”, recomenda. 

Os antidepressivos, de um modo geral, demoram de duas a quatro semanas para iniciar a ação, e durante o tratamento pode ocorrer recidivas.


Artigos Relacionados