Hora de quebrar um tabu

Postado em:

Saudações paciente leitor.

Dissera o poeta, que não há mal algum em se usar palavras repetidas, até porque, quais são as palavras que nunca foram ditas?

Sendo assim, reutilizo aqui um texto que publiquei tempos atrás. E que o faço novamente, pela certeza de que tal assunto jamais poderá ficar na gaveta.

Alguma vez você já pensou em suicídio?

Por quê?

Faço essa pergunta, amigo leitor, ao mesmo tempo em que lhe tributo meus cumprimentos. É intrigante o número de casos de suicídio registrado, não somente em nossos modestos municípios, mas, em âmbito nacional. Não sei se alguma vez o leitor dedicara reflexão sobre o fato, mas, todo ano perdemos amigos em nossa comunidade, nesta prática de autoextermínio. Ainda neste ano, que brevemente rompera o casulo, já registramos está triste situação. Todavia, intrigado com o número alarmante, senti necessidade de embrenhar por entre as minúcias deste universo trágico, ao que constatei que, segundo os suicidiologistas, esta é uma prática mais comum do que se imagina. O “assunto” suicídio é um tabu, um monstro silencioso agindo nas células sociais. Porém, para total desespero, o suicídio não é lembrado como questão relevante. Honestamente, ainda não atingi nível suficiente de reflexão sobre o caso, para afirmar que a inércia do estado em relação ao autoextermínio dá-se por falta de estudo, ou, trata-se de um conceito cultural, não se abordar o assunto, ou, o que seria uma catástrofe, seria mesmo completo descaso. O fato é que, ignorar este “assunto”, definitivamente, não é o melhor caminho.

O suicídio não é tão romântico, tal qual propõe Shakespeare, com o casal Montecchio e Capuleto, em Romeu e Julieta, pelo contrário, saiba que, somente no Brasil, registra-se cerca de 32 suicídios por dia. E devemos considerar o fato de que, o Brasil ocupa posição de 113°, dentre os países com maiores taxas de suicídios. Também, devemos ressaltar o fato de que, tais números, representam somente os casos em que o suicídio foi verdadeiramente consumado, ou seja, ignorando as tantas outras situações onde o executor não obtivera sucesso, pois, para cada morte decorrente de suicídio, ocorrem outras 20 tentativas infrutíferas (Aliás, devo aqui, aplicar uma correção, pois, receio que o verbo “frutificar” não caia adequadamente bem na questão). Todavia, sobre este grupo recai a triste alcunha de “SOBREVIVENTES DE SI MESMOS”.

Um arrepio percorrera toda minha estrutura cervical ao constatar que, entre os jovens, o suicídio é a segunda incidência mais grave, perdendo somente para os acidentes de trânsito. De fato, tal qual aponta os estudiosos, suicídio é questão de saúde pública, que merece imediata atenção. Portanto, trilhando o conceito de que, prevenção é sempre o melhor remédio, sugiro abordarmos o assunto com maior frequência em nosso lar, logicamente, armando de certos cuidados e estudo sobre tal, pois, insistir em repetir situações de mortes por suicídio pode ser, muitas vezes interpretado pelo cérebro humano como incentivo . Um exemplo claro desta afirmação ocorrera em agosto de 1962, após a mídia americana divulgar o suposto suicídio de Marilyn Monroe, com coberturas cada vez mais sensacionalistas e repetitivas, ainda que a causa real nunca ficara provada. O fato é que, naquele mesmo mês, os Estados Unidos registrara um aumento de consideráveis 12% na taxa de suicídio.

E a você que, neste trágico momento está pensando, articulando, atentar contra sua própria vida, advirto, suicídio, nunca fora sinônimo de êxito, saída e mesmo solução para qualquer problema que você julgue maior que a própria vida.

Dedico este texto ao amigo Emerson Speroni, do Rio grande do Sul, que milita no âmbito nacional, na prevenção do suicídio e prestara válido socorro quando manifestei desejo de abordar o assunto. E, de alguma forma, espero ter, ao menos incentivado alguém a procurar ajuda, caso identifique nos seus, esta tendência trágica.

Pensamento:

Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre para depois.

(Millôr Fernandes)

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Ensaio sobre o conhecimento

Postado em:

Saudações paciente leitor.

Certamente você já se deparara, ao menos uma vez com a seguinte frase: “Não tenho tempo para ler”. Não lhe parece que, além da pessoa estar lhe propondo uma desculpa esfarrapada para não enriquecer seu conhecimento, também, está afirmando que leitura é coisa para desocupado. Isto é de uma hipocrisia imensa. Na verdade, pesquisas recentes mostram que, o brasileiro compra em média de 3 a 4 livros por ano. Além de um absurdo, completo desleixo para com o nosso próprio enriquecimento cultural é também, uma excelente perspectiva para esta filosofia de governo que tende a nos violar cada dia mais. Visto que, mediante a vulnerabilidade cultural de uma nação, abrem-se centenas de brechas que facilitarão a filosofia da corrupção. Um dos maiores eventos da Alemanha nazista proposto por Adolf Hitler, era a “Queima de Livros”, onde, milhares de obras de autoria judaica eram incineradas em praça pública. Outros fatos não menos relevantes, como o cerco a Bagdá, que resultou na destruição de sua biblioteca, a inquisição espanhola, que queimou mais de 5 mil manuscritos árabes e a ditadura Vargas, que incinerara livros, como de Jorge Amado, por exemplo. Em todos estes casos, o objetivo é bem claro, através de labaredas, consumir, reduzir a pó a cultura de um povo, eliminando assim qualquer vestígio de sua identidade. Todos sabem, e qualquer um há de presumir que, baixar o nível intelectual de uma nação é a maneira de dominá-la.

No brasil, ocorre manobras bem menos ofensivas, que descartam a necessidade de queimar livros. No entanto, os eficácia desta tal “manobra” é capaz de perpetuar uma extinção cultural. Simplesmente porque, através de estratégias midiáticas, tem-se substituído os elementos que compõem nossa cultura, por propostas populares. No cenário musical, por exemplo, com novas “revelações” forjadas em estúdios –e aqui me permito uma pausa para saborear meu escárnio- matam-se verdadeiros compositores e interpretes.

Não! Paciente leitor que, por razões desconhecidas, ainda segue minhas reminiscências. Não se trata de conservadorismo. Dizem por ai, que são os novos tempos, da juventude. Ora! Já fomos jovens. Sabemos que, os adultos que somos hoje, do tipo que ainda lê jornais, foram lapidados na juventude, embalados pela cultura, pelo hábito da leitura, pela boa música.

Sei que ás vezes pode até parecer que pretendo, com tais analogias, pregar no deserto, mas, uso como argumento, a certeza de que, diante destas palavras, talvez esteja agora alguém que se sinta, senão transformado, ao menos provocado por esta nova analogia. E, voltando à questão da leitura, ou, da triste falta de. Eis que surge uma pergunta inquietante: Quanto você investe em seu conhecimento por mês? Será que alguma vez você já se permitira esta pergunta? Renovamos nosso guarda-roupas, pagamos tv à cabo, sem falar no absurdo que as empresas de telefonia nos subtraem mensalmente. Mas, e livros? “Ah, mas, livro é um artigo caro no Brasil”. Desculpas, desculpas e mais desculpas para se adiar o enriquecimento cultural. Caro, é o preço da ignorância, caro, é evitar certos ciclos sociais, por medo de transparecer sua deficiência intelectual. Caro, é eleger corjas de canalhas, simplesmente, por estar tão manipulável e vulnerável intelectualmente. Caro é viver sem perspectiva, é mendigar horizontes, é morrer sem ter alcançado conhecimento suficiente para encontrar a si próprio.

 Sei que pode parecer pretensioso, um escritor, a propor leitura, mas, você sabe, tanto quanto eu que, somente através da leitura, adquirimos conhecimento, caso contrário, você não estaria com os olhos a percorrer tais linhas. Avante, que a batalha nos aguarda, paciente leitor. Há um denso matagal de ignorância lastrando, definhando os campos onde fecundamos nossas sementes. E, se o Brasil foi mesmo desbravado na base de enxadadas, há de ser uma nação mais saudável pela força do lápis. 


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.


O nosso Rubicão!!!

Postado em:

Saudações paciente e quase enriquecido leitor, não fosse a contrariedade dos números da mega da virada, desdizendo qualquer esperança.

Se não foi desta feita que você entrou para o hall dos milionários, acredito que tivera um fim de ano repleto emoções que riqueza alguma será capaz de comprar.

Nasce um novo ano, por entre estes dias férteis, porém, improváveis. Um novo divã se propõem, onde prosseguiremos nesta caçada obstinada de nós mesmos. Uma nova batalha nos aguarda.

“Alea jacta est”. Dissera Júlio Cesar, quando estava por atravessar o Rubicão. “A sorte esta lançada.”

Também cruzamos nosso Rubicão na fatídica noite de 31 de dezembro. Enquanto o espetáculo pirotécnico se dava nos céus, lançamos nossa sorte à deriva destes dias que virão. Sabemos sim, que nosso Rubicão há de desaguar num mar de possibilidades, mas, temos também a consciência de que, antes, deveremos transpor vales inseguros, florestas espinhosas e tempestivas, montanhas sinuosas e toda espécie de infortúnios propicio à quem ousa qualquer jornada.

2018 se projeta, tal qual uma página em branco, imaculada, nos seduzindo a escrever um novo capitulo de nossa existência. A pena e tinta estará em vossas mãos, paciente leitor, e será você, quem decidirá o gênero predominante em vossa história, se haverá a necessidade de personagens, se será um best seller, ou, uma faceta miserável de um folhetim. Não cometa a ingenuidade de produzir milhares de expectativas para este ano que desabrocha, pois amadurecemos o suficiente para compreendermos, que deveremos ir verdadeiramente à luta todos os dias. De boa vontade ou não fizemos nossa travessia e, tais quais as aguas correntes o nosso destino é o mar gigantesco, não há como retroceder. É óbvio que nos envolve um certo medo, confesso que também temo os novos dias, mas, exatamente igual no ano que findara, não fugirei aos obstáculos. E sei que, pela afinidade que desenvolvemos ao longo dos dias, você agirá exatamente assim, ou, de maneira bem mais sábia.

Ah paciente leitor!

Imagino quantos motivos lhe vieram tentar sua desistência, nos objetivos que traçara.

E quantas pessoas mesquinhas lhe magoaram, lhe feriaram a alma?

Quantas vezes você se convencera de que, lágrimas, de repente, fosse a única coisa que viria a produzir pelo resto de sua existência?

E mesmo, pisoteado por estas adversidades, consigo imaginar-te com brilho nos olhos, sorriso escancarado no rosto a comtemplar o novo ano que nascera. A refletir que, se ainda não conseguira dar o melhor de si, tens uma nova oportunidade. A agradecer pelo essencial da vida, aquela coisa invisível aos olhos, mas, que a gente sente alimentar a alma. Posso imaginar-te, tal qual este simples pecador que aqui deixa tais palavras, a enveredar-se por promessas que, aqui entre nós, jamais cumpriremos, mesmo que vivamos mais uns cem anos, tamanha a quantidade delas. 

Então, a você, paciente leitor, faço sinceros votos, para que encontre neste novo ciclo que rompe o útero materno, maneiras saudáveis para buscar todos os seus objetivos. Se o momento lhe exigir lágrimas, então chore, derrame-as sem medo, para que, mais tarde, elas não turvem seu sorriso. Se for para temer, saiba que o medo, muitas vezes é um aliado, é nosso lado sensato falando mais alto. Se for para cair, proporcione a queda mais bela, pois, deverá ser a última de sua vida. E no final disso tudo, sorria, celebre, não somente a conquista, mas, a certeza de que encarara tudo com bravura. E se ainda não foi desta vez que eliminara todas as adversidades, sempre haverá um novo sol, um novo ano para você tentar tudo de novo.

Feliz 2018!  

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Divã

Postado em:

Saudações paciente leitor!

Faço aqui meus sinceros votos para que, ao ler tal analogia sórdida, você esteja guarnecido de todas as maravilhas que a data propõem.

Mais um ano que finda, dissipando lentamente, sugado pelo ralo, violado pelos dias que por ele passaram. Para trás, a macula, o rastro melancólico das retrospectivas, nos propondo devaneios e frustrações.  Um divã se oferece, tal qual o confessionário, no qual, sentimos tentados a nos sentar e suspirar nossas reminiscências.  Formulamos novos planos, reformulamos promessas que, mesmo que vivamos um século mais, jamais as cumpriríamos.

Este ano que morrerá sob espetáculos pirotécnico e incitações de “viva” leva para sua cripta, meus dias sombrios, que me torturaram em infindáveis instantes de angustia. Porém, rouba-me também os dias floridos que se assomaram em minha existência, onde mistos de sentimentos rejuvenescedores suavizaram minha alma.

 No frigir dos ovos, ao balancear minhas ações, descubro que ainda não foi desta feita que cravei meu passaporte certo, direto aos jardins do Éden. No entanto, concluo contente que estou a uma distância segura dos portões de qualquer inferno, embora, tal qual Dante Alighieri, confesso que desci por várias vezes os círculos, vales e fossos, propostos pelo estado que rege minha existência social, no qual comi o pão que algum chifrudo amassara (falo do Diabo mente suja ha ha ha). Foram longos e miúdos 365 dias. Dias de luta, onde voltar para casa desfigurado pela labuta era um privilégio restrito a poucos miseráveis. Dias de risadas, abençoados pela criança que as vezes se encarapita na rispidez de minha vida adulta. E mais do que isso, a repetição sistemática de todos estes horrores e glórias. Dias em que novos amigos nasceram dos vales mais insólitos, a ensinar-me que é sempre necessário fecundar a amizade, independentemente do quão estéril seja o solo. É óbvio que antigas alianças se romperam, mas, ninguém, jamais perdera algo que nunca lhe pertencera.

 Foram dias tempestivos de solidão, onde padeci miserável a ausência de alguém, ou ainda, a pior de todas as solidões, a ausência de sentido, das questões existenciais. Dias de alivio, figurados em novas projeções, em reviravoltas, no reencontro com nós mesmos.

Neste ano que dezembro envolve na lápide, amadureci suficientemente bem, a ponto de lhe propor o ensinamento de que sempre sentirei a necessidade de aprender muito contigo. Ah! Enternecido leitor!  Se realmente o que importa de verdade é a intensidade com os quais foram vividos os momentos, confesso que a cada novo ano tenho dedicado demasiado esforço em seguir tal filosofia, pois, a cada minuto meu dedico merecido apreço, tudo deve ser vivido com extremo calor. Afinal, o tempo há de seguir sempre em frente. E se ainda não aprendi de fato os ensinamentos enigmáticos, desbotados nos papiros, um novo ano se abre e, com ele, a oportunidade e esperança de reviver tudo mais uma vez, cometer os mesmo erros, dos quais me arrependerei no próximo dezembro. Surge uma nova oportunidade de conquistar novos sorrisos, aliás, talvez seja, justamente no sorriso que induzimos, que esteja incrustada a verdadeira motivação de se viver.

Nos ventos, as projeções dos novos dias que nascerão, onde seremos coadjuvantes, ou atores principais, depende de nossas escolhas. Onde aplaudiremos ou agradeceremos os aplausos. Vilão ou mocinho, sei que, na maioria das vezes não se trata de escolha, é consequência, o fato é que de toda forma, para todos nós, a cortina há de baixar um dia, esteja você no palco, ou acomodado na plateia, e o que realmente ficará, será a intensidade em que conduzimos esta confusa peça, mesclada de todos os gêneros, chamada vida.  


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Ensaio sobre a velhice

Postado em:

Queira você ou não, todos iremos envelhecer! Lamento lembrá-lo de tal amigo leitor, a quem tributo meus cumprimentos, mas, é um fato. A questão é, você está realmente preparado para esta nova fase? O estado, como um todo, está mesmo apto a recebe-lo em sua velhice?

            “O futuro é o passado preparado”, mencionara o filósofo Pierre Dác. De pleno acordo, proponho refletirmos sobre tal.

            Honestamente, e isto é uma opinião particular, vejo a situação dos idosos, no âmbito geral, com muita tristeza. Ora! É deprimente se imaginar trabalhando diariamente, emprestando a própria saúde na labuta de se honrar as expectativas que se cria em torno do “chefe de família”, para envelhecer esquecido às margens de uma estrada que somente segue em frente sem tempo para amparar as vidas que murcham ao redor. Já que mencionei família, se multiplica, nos dias atuais, o número de filhos e netos que retornam à proteção dos mais velhos depois de terem partido do lar e constituído famílias, ou seja, regressam ao lar sustentado por uma pífia aposentadoria, munidos de agregados. Isto talvez explica a quantidade, cada vez mais alarmante, de idosos que reintegram ao mercado de trabalho, sob as talas dessa chibata estrutural, no intuito de, senão sanar, ao menos suavizar a situação de desamparo, no qual se encontram os seus, prolongando ainda mais, o merecido descanso, pelo qual trabalhara a vida toda.

            Lamentável é saber que boa parte de nossa velhice, passaremos em filas de hospitais, esperando aquela consulta com um especialista, talvez, engajado num emprego qualquer, afim de complementar a renda. Além é claro, de ter que conviver com a nítida inversão dos valores sociais, desta juventude que desconhece qualquer conceito da palavra respeito.

            Ao leitor, permito divergir, aliás, todo debate é sempre bem-vindo, porém, em minha defesa, digo que não faria qualquer sentido escrever, ou, mesmo rasurar, se não fosse regido pela sinceridade. Mas, o que vejo em nossa sociedade, são idosos, tendo sobre os ombros surrados a responsabilidade de uma família inteira, se privando de confortos necessários a uma boa velhice. Isto sem mencionar a quantidade de idosos que são, literalmente esquecidos pelos familiares, por quem dedicara sua vida. Idosos, cujos únicos amigos que possuem agora, são os enfermeiros, os acompanhantes, a quem compartilham os resquícios de uma vida que se esvai.

            Voltando ao pensamento de Pierre Dác, eis que surge uma questão: Como estamos preparando nosso futuro? Será que dedicamos algum tempo, ou, mesmo dinheiro, em atividades que nos assegurariam uma velhice saudável? E nossa alimentação? Será que temos trabalhado nossa espiritualidade, para não amargarmos um envelhecimento medíocre e deprimente?

            Entretanto, nem tudo são espinhos, pois, há uma parte considerável de idosos que souberam de fato preparar o futuro, e que gozam os dias atuais com espiritualidade, com aquela sensação de dever cumprido. São pessoas que encontraram na velhice o poder da juventude. Pessoas que contrariam as expectativas catastróficas e encaram os últimos dias de sua existência sorrindo.

            Todavia, é importante mencionar que cabe a nós, que hoje somos jovens, proporcionar um envelhecimento saudável aos nossos idosos, ouvindo aquelas histórias que ele já lhe contara uma dezena de vezes, lhe emprestando todo o respeito do mundo, destituindo-os de responsabilidades que não mais condizem com sua idade e, acima de tudo, transmitindo-lhes amor.

            Aos idosos de hoje, tributo meu profundo respeito e admiração, pois, conseguir envelhecer, nos dias atuais, já é uma conquista restrita a poucos.

            Pensamento:

            “Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo faz enrugar a alma.”

            Albert Schweitzer.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

ENTREVISTA COM SYLVIO PASSOS, O "SYLVICOLA"

Ele era amigo pessoal de Raul Seixas, fundador do Raul Rock Club, além de músico e compositor

Postado em:

Amigo pessoal de Raul Seixas, fundador do Raul Rock Club, curador de um de seus mais vastos acervos, músico e compositor. É bem provável que esqueci alguma qualificação, pois, é impossível resumir e rotular aqui toda trajetória deste grande sujeito. É com muita alegria que posto aqui o bate papo que tive com ele, Sylvio Passos, o “Sylvicola” como dizia Raul Seixas. Um cara que dispensa qualquer apresentação.

VALDECI SANTANA -Não há como lembrar de Sylvio Passos, sem o relacionar a Raul Seixas e vice-versa. Afinal, quando vocês se conheceram e o que houve de inusitado no primeiro diálogo entre vocês?
SYLVIO PASSOS: Bem.... Foi em 1981, quando Raul resolveu se fixar em São Paulo. Eu tinha na época 17/18 aninhos e na maior cara de pau liguei para casa dele para comunicar que eu estava fundando o Raul Rock Club. Ele, já meio alcoolizado, atendeu o telefone perguntando quem era, eu falei: ”-É o Sylvio...”, ele, rapidamente falou: ”-Silvio Santos... Eu faço o seu programa.”  Ha ha ha.... Já começamos bem o nosso primeiro contato. Expliquei que eu não era o Silvio Santos e sim o Sylvio Passos e que estava fundando um fã-clube para ele. Surpreso ele falou: ”-Um fã-clube pra mim? Nunca ninguém fez um fã-clube pra mim. Você pode vir almoçar comigo pra me contar essa história direito? E lá fui eu, dias depois, almoçar com Raul. Esse encontro mudou toda a minha vida. Eu que estava me preparando para ser jornalista e/ou psicólogo, abandonei tudo e abracei a causa raulseixisticka.

VALDECI SANTANA-Você foi um elemento importante na vida pessoal e profissional de Raul, como era a convivência, com o Raul pessoa? E qual o motivo do apelido “Sylvicola”?
SYLVIO PASSOS: Para mim, que era um garoto muito quieto, calado, naquele momento era importante para mim estar ali observando, aprendendo.... Então a convivência era tranquila porque a relação fã-ídolo se desfez muito rápido. Raul era um sujeito muito tranquilo, generoso. Dava umas despirocadas de vez em quando, mas era uma pessoa de boa, ídolo que se preocupava com todo mundo, queria ajudar todo mundo. Um homem de bom coração, entende?  Quanto ao apelido Sylvícola, ou Sylvícolas é o seguinte: Raul colocava apelido em todo mundo, até em coisas. Por exemplo: Ele chamava o tênis dele de cachorro. Quando não sabia onde estava o tênis, ele perguntava: ”-Sylvícola, onde está meu cachorro? ”. A mãe dele, Dona Maria Eugênia, me falou que Raulzito colocava apelidos nas pessoas que ele gosta muito. Ouvir isso da mãe dele me deixou muito feliz, embora eu soubesse que Raul via em mim muito mais que um simples fã.

VALDECI SANTANA-Você compôs Cowboy Fora da lei, há alguma outra composição sua gravada por Raul?
SYLVIO PASSOS: Pois é. Eu, naquela época, sempre escrevia uns poeminhas típicos de adolescente. Raul, com toda sua generosidade, me deu esse privilégio, em 1984, de fazer com ele a primeira versão de “Cowboy Fora da Lei”, que só foi lançada oficialmente em 2003 pela Som Livre no CD “Anarkilópolis” onde também fui responsável pela seleção de repertório. Tenho muitas fitas gravadas com Raul, mas nada que seja digno de lançamento oficial.

VALDECI SANTANA -Ao longo de sua vida você conseguiu ser um “sujeito normal e fazer tudo igual”?
SYLVIO PASSOS:  Eu acredito que nunca fui um “sujeito normal e fazer tudo igual”, daí essa sintonia recíproca desde o nosso primeiro contato.

VALDECI SANTANA-Creio que Raul Seixas Oficial Fã Clube, foi o único fã clube que Raul atestava. Como está o Fã clube hoje? As engrenagens ainda se movem?
SYLVIO PASSOS: Sim. Raul, em 1983, deu o título de “Raul Seixas Oficial Fã-Clube” ao Raul Rock Club, publicando, inclusive, na contracapa do seu disco “Raul Seixas”, que estava lançando pela Gravadora Eldorado na mesma época.  Continuamos na ativa acompanhando toda a modernidade tecnológica do Século XXI, afinal, o Raul Rock Club é do século passado, correio, máquina de escrever, mimeografo e outras coisas que as Gerações Y e Z desconhece na prática. Os bits do Raul Rock Club continuam ativos comunicando-se com as novas gerações, pois, os valores todos podem ter mudado, mas a essência continua a mesma. 

VALDECI SANTANA- Em qual projeto o Sylvio Passos se dedica nos dias atuais?
SYLVIO PASSOS: Atualmente continuo me dedicando ao Raul Rock Club com a Expo Raul Rock Club (exposições itinerantes com objetos pessoais de Raul) e com o meu programa “Pergunte ao Carimbador Maluco” no YouTube. Também atuando como músico com minha Putos BRothers Band e como ator na peça “Obrigado, Raul!” Escrita por mim e por Agnaldo Araújo (guitarra e voz da Putos BRothers Band). 

VALDECI SANTANA-É bem provável que o baú de Sylvio Passos é bem mais rico que o baú do próprio Raul, já que, ele mesmo dizia que você sabia mais coisas sobre ele, do que ele próprio. Há algum projeto envolvendo o Baú do Sylvio?
SYLVIO PASSOS: O baú do Raul é muito mais rico que o meu, sem sombra de dúvidas. Mas a Expo Raul Rock Club, a peça Obrigado, Raul!, o programa Pergunte ao Carimbador Maluco e o show Toca Raul, Putos!, de uma forma ou de outra, são projetos envolvendo tanto o meu baú quanto o de Raul.

VALDECI SANTANA-Por fim, lhe agradeço imensamente a gentileza e, como todo fã de Raul, procurei evitar perguntas sobre seus últimos momentos, entretanto, para finalizar, como ficou o Sylvio Passos sem o amigo? Seria demais dizer que você ficou órfão?
SYLVIO PASSOS: Não. Não me vejo assim como órfão. O que “perdi” foi um amigo. O meu ídolo continua muito vivo. Aliás, muito mais vivo que muitos ídolos vivos de fato.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Um pontinho esquecido em nossa história

Postado em:

Saudações paciente leitor!

Eis-me aqui de novo, naufragando em minhas analogias turvas, quase imaculadas, perante as ruinas desta sociedade que tende a decrepitar meu surrado involucro carnal.

Novembro sempre lança sobre meu espirito muitas reflexões. Fato absolutamente compreensivo, já que este, é o mês responsável por meu envelhecimento. Todavia, além dos meus “aninhos” (Que já não são poucos ah-ah) há também os natalícios dos meus pequenos, a consumir boa cota de minha energia, pois, com a crise cada vez mais bem instalada, propor-lhes qualquer préstito fica cada dia mais difícil. No entanto, toda vez que novembro desponta por trás da colina imaginária em nosso calendário, se adensam os rumores, os manifestos pelo tal feriado da consciência negra.

Se o leitor desviar o olhar à margem superior deste, saberá imediatamente que sou negro. Tens ai então o primeiro argumento que usarei em minha defesa, caso seja aqui acusado de racismo, embora, muitos dos que acusam ou sentenciam tal crime, não façam a menor ideia do que significa. Se não for para lhe falar sob a segurança da honestidade, prefiro abortar esta minha gana pela escrita. Portanto, é com o coração que me solidarizo (em partes) com os que se opõem a tal feriado. Obviamente, não farei coro ao argumento pobre de que há feriados em demasia em nosso calendário. Visto que a maioria deles não representam m... nenhuma . (Ufa! Ainda não será desta vez que serei demitido, pelo menos, não por um palavrão).

20 de novembro simboliza o assassinato de Zumbi dos Palmares. Traído, degolado e exposto. Herói, a quem mais da metade dos brasileiros devem sua liberdade. Entretanto, centenas de outras almas lutaram em igual penhor pela causa abolicionista. Muitos em terrenos mais hostis que o pobre negro dos palmares. Os “pretinhos” Joaquim Nabuco e José do patrocínio que lutaram pela emancipação nos plenários, repletos de políticos apadrinhados por fazendeiros escravocratas. E como não lembrar de José de Seixas, que tivera o despeito e ousadia de instalar um quilombo no coração do Rio de Janeiro, numa das áreas mais caras e mais famosas do Brasil, o Quilombo do Leblon. Ah paciente leitor! A mídia racista daquela Belle époque, numa tentativa desesperada de eleger Zumbi, um negro fugido, como principal elemento de oposição ao sistema escravagista, praticamente enterrara personagens que dedicaram suas vidas à liberdade dos escravos. Homens que hipocritamente, não constam em nossos livros de história. Nossa própria história. Pouca gente sabe, pelo menos, quase nunca se aborda, mas, a classe jornalista foi a principal pilastra a sustentar de maneira ferrenha as revoluções em prol da abolição. Seria necessário muita tinta, para defender de maneira mais substancial esta minha visão. Por hora, proponho elegermos como feriado, como simbologia máxima da conscientização negra, o fatídico 13 de maio, afinal, como defendera um poeta do século XIX, cujo nome se perdera nos grotões desta minha memória envelhecida, “A importância do 13 de maio sobrepõe e muito ao 7 de setembro”

A luta contra o racismo e pela igualdade entre homens negros e brancos é outro assunto, que talvez um dia eu dedique um capítulo inteiro a disserta-la. Todavia, em conclusão, digo que o brasil foi um dos últimos países a abolir os escravos. Quase 4 séculos de escravidão. Milhares de seres humanos usurpados, violentados, humilhados e covardemente assassinados. São dados, são fatos. E não podemos mais permitir que todos estes fatos sejam esquecidos, por conveniência, por negligência. Estabelecer um feriado não justificará nada, mas, já é um pequeno avanço. Afinal, reconhecer o erro já é o primeiro passo.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.

Ventos natalinos

Postado em:

Está em qualquer profecia, dos papiros que liam a mão do futuro aos poetas que picham no muro. É extremamente necessário brindar a cordialidade sobrevivente no prazer da boa vontade, na gentileza das boas maneiras quase extintas. Fosse talvez utopia acreditar que há ainda neste país, pessoas inclinadas ao prazer gratuito do bem puro, travando batalhas sangrentas contra a má educação e o declinio dos valores sociais, onde, quase sempre saem mutiladas e totalmente fragmentadas ante o primitivismo da desvalorização da essência humana.

            Sejamos, portanto, todos remetidos à esperança de que um mundo melhor realmente aconteça e venha a se erguer sobre os pilares materializados na labuta de seres bem intencionados que se recusam a permanecerem de braços atados, enquanto o maléfica sutileza das futilidades individuais destroem os núcleos familiares, qual uma célula cancerigena, agindo nas artérias sociais.

            Celebremos a sagacidade da voz que começa a vencer a timidez da inércia, ainda que tardia, alimentada pela necessidade que hoje bate à porta da casa em desmoronamento, cobrando reação imediata daqueles que por anos adequaram suas vidas ao parasitismo da esmola conveniente, uma vez que as labaredas esguias do colapso começa a unir a sociedade dispersa, aflorando-lhe os instintos.

            Sejamos então, utópicos, misticos e supersticiosos, desde que sejamos vozes, boa vontade e atitude.


*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.