ATÉ BREVE!

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Sabe aquele momento em que você sente que precisa mudar? Às vezes o processo é mais lento do que você esperava e exige mais foco, dedicação e força do que você imaginou. Estou no meio de um processo assim e preciso de algumas poucas semanas para sedimentar as mudanças e voltar a escrever aqui para vocês.

Sem querer ser dono da verdade, apenas trazendo o meu ponto de vista sobre as coisas que vivencio e que podem ser úteis para você também. Apenas um descanso, uma pequena sombra e um copo com água bem fresca.

Então, até breve! Voltarei com uma coluna renovada, novos assuntos sempre de interesse geral e certamente com uma nova visão de futuro, imprescindível para conseguir virar o leme para o rumo que sempre esteve ali espreitando.

Descobri que tinha que encontrar um novo modo de chegar ao meu destino quando percebi que minha música sumiu, desapareceu. Uma terrível dificuldade em fazer uma das coisas que mais amo: tocar. Um gosto amargo toda vez que tento produzir minhas músicas, sensação de que não estou com a alma limpa para colocar ali a minha expressão. Então, preciso limpar minha alma. Agora, descobertas as causas, estou trabalhando forte em meus ofícios para acertar o caminho entre as pedras e restaurar as melhores lembranças que tenho de mim.

O Monge e o Samurai

Certa vez, um samurai atormentado visitou um sábio monge para saber mais sobre os princípios do Bushido, a compaixão, sobre o céu e sobre o inferno.

- Jamais dirijo minha palavra a um assassino sujo, com mente suja como você. Saia já daqui. – disse o monge.

O samurai, totalmente tomado pela raiva, puxou sua espada, pronto para decapitar o monge.

- Isso é o inferno. – disse o monge. – Você já o conhece.

O samurai guardou a espada, reconhecendo o ato de coragem do monge ao colocar a própria vida em risco.

- Obrigado por me revelar a verdade. Peço perdão pelo meu impulso.

- Isso é compaixão. – disse o monge e continuou: - Quando nos deixamos tomar pela raiva ou qualquer outro sentimento forte, negativo, impulsivo demais, visitamos o inferno, Quando controlamos os nossos impulsos e buscamos compreender às outras pessoas, praticamos a compaixão. E a compaixão, bem, agora você a conhece. E isso é o céu.

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

CAMPEÃO

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Pedir permissão, pedir por favor, são provas de respeito, humildade e educação. Novak Djokovic disse a Gustavo Kuerten que aquele coração desenhado no saibro de Roland Garros era uma de suas melhores lembranças e pediu permissão para repeti-lo, caso ganhasse o torneio. Guga permitiu de pronto e estava lá nas tribunas assistindo ao jogo e, emocionado, assistiu à repetição de seu gesto por um dos maiores jogadores do mundo, um cara muito simpático, gente boa, conhecido como “Djoko”. Foi um jogo de três horas de duração, com toda a pressão sobre o sérvio, já que era o único título de Grand Slam que faltava a ele. O primeiro da carreira, o Aberto da Austrália, foi conquistado aos vinte anos de idade, em 2008. Agora ele chegou a doze.

O tênis é um esporte onde a condição emocional é preponderante sobre o resultado da partida. Já dizia o treinador Timothy Gallwey que “o adversário dentro da nossa própria cabeça é mais poderoso do que o que está do outro lado da rede”. Djoko dominou aquele adversário interno e assim sobrepujou o adversário externo, alcançando um feito notável, já que em três outras oportunidades ele havia sido vice-campeão. Em 2015, Stan Wawrinka venceu a final: Djokovic chorou. Mas não desistiu. Retomou seu caminho e neste domingo pode repetir o gesto de Guga, entrando para a história do tênis. Pedindo permissão, mostrou o respeito que todo grande campeão merece e que todo grande campeão tem para com o próximo. Vida longa a Novak Djokovic, Campeão de Roland Garros.

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

PROPÓSITO

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Super atrasado e sem inspiração para entregar a minha coluna semanal, a cabeça cheia de certezas e de dúvidas. Tenho certeza que não vou perder a paciência mesmo vendo e lendo tanta bobagem e isto paira acima de qualquer dúvida. Mas certeza absoluta, mesmo, é a de que não somos iguais. Impressões digitais diferentes, íris diferentes, medos diferentes, talentos diferentes. Se você der a mesma oportunidade a todos, alguns vão progredir, outros vão progredir muito, outros muito mais e outros ainda vão ignorá-la. De estupradores psicopatas a madres teresas, passando por todo o espectro entre um extremo e outro, somos diferentes.

Fui então dar uma olhada em textos que escrevi, ou talvez até tenha copiado de algum lugar para ver se encontrava um assunto interessante para que o tempo que você usa lendo a minha coluna não seja perdido. Pensei então em propósito de vida, em ajudar outras pessoas que, como eu, vieram à Terra e vagam muitas vezes sem entender a grandeza da vida e da oportunidade de viver. Aquele velho mistério do Quemcossô, Oncotô e Proncovô. Achei este texto abaixo que juro não lembrar agora se escrevi (é provável) ou apenas copiei de algum lugar. De qualquer maneira, se aparecer algum autor eu dou os créditos, tá bom? É que ele estava em um disco que salvei em 2010...

Vamos lá.

Eis então os Seis Poderosos exercícios para saber Quem sou eu, qual o meu propósito e ainda vivenciá-lo.

PRIMEIRO

Qual é o meu propósito compartilhado com a humanidade? Visualize como a humanidade precisa crescer e como você precisa crescer. O que os homens ainda precisam aprender e o que você ainda precisa aprender. Porque o meu propósito de vida não afeta apenas a mim. Ele também diz respeito à minha família, aos meus amigos e em última análise, a toda a humanidade.

SEGUNDO

Descobrir meu eu real. Para viver o meu propósito, tenho que me atrever a ser ainda mais quem realmente sou, tenho que me atrever a ter cada vez mais contato com o meu eu não condicionado. Autoconhecimento.

TERCEIRO

Um convite à alegria. Dentro de cada ser humano vivente, existe um convite à alegria, e o propósito da minha vida é responder a esse convite.

Aqui está a declaração de visão do Projeto Felicidade do Dr. Robert Holden:

É porque o mundo está tão cheio de sofrimento,
que sua felicidade é um dom.
É porque o mundo está tão cheio de pobreza,
que sua riqueza é um dom.
É porque o mundo é tão hostil,
que seu sorriso é uma dádiva.
É porque o mundo está tão cheio de guerra,
que a sua paz de espírito é um dom.
É porque o mundo está tão desesperado,
que a sua esperança e otimismo é uma dádiva.
É porque o mundo está com muito medo,
que seu amor é um dom.

Identifique as ocasiões nas quais você se sentiu verdadeiramente feliz. Depois, reflita sobre o que este exercício te ensinou sobre o seu propósito de vida.

QUARTO

A oração do seu coração. Dr. Robert Holden escreveu sobre uma chave essencial para descobrir seu propósito de vida e sobre inteligência e sucesso:

Antes de dedicar sua vida
a uma pessoa, um casamento, uma família;
a uma corporação, um partido político,
uma campanha de paz;
uma religião, uma revolução, um
caminho espiritual;
antes tenha outra dedicação.
Primeiro dedique-se ao AMOR.
Decida-se por deixar o AMOR ser sua
intenção, sua finalidade e
o seu ponto.
E, em seguida, deixe o AMOR inspirar-lhe,
apoiá-lo e orientá-lo em tudo a que você se dedicar depois.

Para descobrir o propósito de sua vida, você precisa “deixar-se envolver silenciosamente pela forte atração do que você realmente ama”, de acordo com Rumi. Se você ama o bastante, certamente cumprirá o seu propósito na Terra. Comece agora mesmo ouvindo o seu coração, que é a porta de entrada para o seu “eu não condicionado”. Seu coração conhece seu verdadeiro propósito. Ele não tem segredos para você. Tudo o que tem a fazer é ouvir. “Existe uma oração que vive no centro do seu coração. Se você rezá-la, sua vida vai mudar. Qual é o seu começo?”. Frase de Matthew Anderson.

QUINTO

Seu real trabalho. O propósito da vida com certeza não é ser tão ocupado quanto possível. Estar ocupado pode ser produtivo e proposital, mas estar extrema e permanentemente ocupado pode ser um sinal de falta de clareza, um medo de inadequação e falta de fé em sua alma para ajudá-lo a viver o seu real propósito.

Tente criar um cartão de visitas especial, onde ao invés de identificar-se com seu cargo, escreva o seu propósito. Não é fácil, tente usar apenas três palavras.

SEXTO

Escolha o seu propósito. Não importa o que esteja fazendo, crie o hábito de estar tão aberto quanto possível para o que está realmente acontecendo. Isto vai ajudá-lo a estar verdadeiramente presente e receptivo em sua vida. Tenha certeza que suas escolhas diárias estão alinhadas com as experiências que você deseja ter. O seu propósito é algo vivido dia a dia, uma dádiva do seu coração para o mundo.

Só para terminar, talvez o melhor a fazer seja o que a coach Paula Abreu preconiza: “Não encontre o seu Propósito. Deixe o seu Propósito encontrar você”.

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

VINTE E QUATRO HORAS NO AR

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A gente chegava ao estúdio da rádio e lá estava a técnica: duas (ou mais) cartucheiras comerciais para rodar as propagandas em fitas de ¼ de polegada e os dois toca-discos direct-drive, cada um com um disco de vinil e a faixa na ponta da agulha. Enquanto nas emissoras AM o locutor fica de um lado do aquário e o técnico do outro, nas FM o mesmo cidadão dá conta de tudo: faz a locução, a publicidade testemunhal, solta a cartucheira, deixa os discos de vinil no ponto e ainda dedica a música para a ouvinte que pediu! Vinte e quatro horas no ar! Os VU’s, aqueles ponteirinhos bailando ao som cheio de calor e frequências de 20 Hz a 20 kHz, pulam rápido e chegam a zero dB (melhor não passar muito dali ou vem a distorção...).

Vejam esta foto de um estúdio vintage de rádio FM

(fonte http://gabrielpassajou.com/2015/01/)

E aí de repente está todo mundo falando de novo nos discos de vinil!

A Associação Fonográfica Norte-americana (RIAA) diz que a venda de discos de vinil nos Estados Unidos já atinge a um terço das vendas de mídias físicas. Claro que os serviços de assinatura de streaming crescem em proporção muito maior, mas é interessante observar que no Brasil, por exemplo, a venda dos discos de vinil, apesar do alto custo, cresceu entre março e junho de 2015 estonteantes 126%, segundo dados da fábrica nacional Polysom. Nos Estados Unidos, o crescimento já vem em ritmo alto em torno de 30% há pelo menos seis anos e algumas razões são apontadas para isso: Em primeiro lugar ninguém ouve vinil no carro, malhando ou fazendo caminhada, mas ouve em casa e provavelmente é colecionador e prefere as ricas capas dos LPs e o som analógico: é um público nostálgico, mas também jovens que mesmo com o acesso ao mundo digital gostam do som mais quente do vinil.

Em segundo lugar, o vinil virou assim uma espécie de peça de merchandising das bandas e dos artistas: eles lançam seu álbum de todas as formas possíveis na internet e fazem uma tiragem de discos de vinil que vira uma espécie de troféu para se ouvir e guardar.

Os consumidores dos bolachões costumam ser mais exigentes e pagam bem por uma raridade. Sebos e lojas que comercializam o produto têm experimentado bons resultados. O chiadinho característico da agulha dentro dos sulcos vem se tornando mais comum em muitas casas, ele que andava tão sumido desde o advento dos Compact Discs e depois da internet.

Na cola do aumento da procura pelos discos de vinil, veio o aumento no comércio de toca-discos, que tem crescido significativamente.

Mas é realmente muito bom que ainda exista uma convivência pacífica entre a velha e a nova tecnologia para reprodução de músicas. Nossos ouvidos agradecem!

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

QUEM TEM OUVIDOS, OUÇA!

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Aprendi no meu curso de Mentoring e Coaching que a maior virtude de um verdadeiro coach é saber ouvir.

Às vezes precisamos muito falar, abrir o coração, na esperança de que as nuvens negras que nos cobrem o caminho se dissipem. Difícil é encontrar alguém disposto a ouvir sem julgamentos precipitados, sem intervenções do tipo “eu acho que você devia...”.

Ouvir é muito difícil, a gente vai liquidificando as palavras que chegam aos nossos ouvidos e fica louco para emitir a nossa opinião, líquida e certa! Em tempos de redes sociais, nossos avatares ficam doidos de vontade de fazer um comentário na postagem de alguém, seja para concordar, seja para criar uma polêmica sobre o caminho das pedras de cada um.

Escutar muitas vezes não significa entender o que foi dito, muito pelo contrário. Muitos escutam sem ouvir, movem assertivamente a cabeça sem ter entendido uma única palavra e intervém com um comentário absolutamente desconexo e desnecessário.

Claro que não basta ter ouvidos para ouvir. É preciso atitude prestadia, ser solidário com quem precisa esvaziar o coração e não ser julgado, direcionado, convertido, convencido, analisado. Apenas ouça.

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

QUE FESTA!

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Ano passado tive o grande prazer de arregimentar a banda que animou a Festa Gente de Mérito, que contou com a direção artística do Alexandre Piu Magno e que foi batizada de Banda Mérito, formada exclusivamente para o evento. Quem trabalha na área sabe a dificuldade que é preparar um grupo de músicos e bailarinos para a árdua tarefa de animar bailes, dificuldade multiplicada quando se resume a um único evento.

Mas foi na edição deste ano, que frequentei como convidado, sem stress, sem correria, que pude perceber a grandiosidade desta festa. A 12ª edição contou com as Bandas 5ª Avenida e Threedons, que apresentaram tudo o que o público presente a um evento deste porte procura: entretenimento de primeira qualidade! O salão Villa Ventura decorado com extremo bom gosto pela Só Verde Decorações, o Buffet Spazio apresentando um serviço e um cardápio de cair o queixo, além de outros inúmeros detalhes que quase fazem esquecer o mais importante de tudo, o coração das ideias maravilhosas que os presentes desfrutaram com tanto prazer: a Equipe da Editora Izzon, composta só de Gente de Muito Mérito, encabeçada pelo competentíssimo César Colleti e que conta ainda com a Fernanda Ribeiro e o Lucas Rodrigues, além dos outros componentes da equipe da Revista Mérito e muitos outros colaboradores. Primorosa em seus mínimos detalhes, a festa foi um grande e merecido sucesso. Resta agradecer a oportunidade de estar presente e que venha a 13ª Festa Gente de Mérito.


*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

SALVE-SE QUEM PUDER

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Hoje minha coluna vai ser curta.

Tudo o que havia para ser dito, já foi.

Todos os lados estão cheios de razão e não há a quem convencer.

E entre xingatórios e cusparadas, fico com Bob Marley:

“Se nos dermos as mãos, quem vai sacar as armas?”


*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

A TAL DEMOCRACIA

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Está complicado viver sob este clima de pesadelo. Sabe aquele pesadelo em que você tenta correr, mas não consegue? Passou da hora de acordar! Passou da hora de ver a vida se movendo, nem para a esquerda, nem para a direita, mas para frente! É hora de ver os interesses da nação e do povo brasileiro, tendo prioridade sobre os interesses pessoais de manutenção ou obtenção do poder. É hora de distribuir sonhos e meios de realizá-los e não cargos e benesses políticas! É hora de trabalhar, de plantar e de colher o que se plantou com a certeza de que nascerão bons frutos de boas árvores, mas tempestades para quem plantou ventos!

Claro que somos democratas e queremos a preservação do estado democrático de direito. Nosso problema é bem outro. Os representantes do povo brasileiro, democraticamente eleitos, carregando nas costas cento e oito milhões de votos, quando não são corruptos, são fracos e sem a menor condição de realizar um trabalho realmente consistente. Aprendemos isso na sessão do impeachment de domingo.

Já na segunda, quando Dilma fez seu pronunciamento e respondeu a algumas perguntas, seu semblante de preocupação era notório.

Mas sua preocupação não é com a galopante crise que já elevou a dívida pública a 70% do PIB e projeta para 2018 nada menos 90% do PIB. A preocupação de Dilma não é com mais de duzentos trabalhadores que estão perdendo seus empregos por hora no país! Isso mesmo: por hora! Dez milhões de desempregados! A desindustrialização, a inviabilização dos pequenos e médios negócios pela falta de assistência e crédito viável, a queda em todos os indicadores de todas as atividades, a falta de infraestrutura para acomodar mais de duzentos milhões de pessoas, nada disso preocupa Dilma. Seu pronunciamento deixou claro: Dilma está extremamente preocupada com.... Dilma! O poder, o cargo, o tal do “golpe”, tudo isso é muito mais relevante que a Saúde sucateada, a Segurança Pública precária, as escolas ocupadas, os Estados falindo e deixando de pagar funcionários públicos aposentados. A prioridade é política, é não largar o osso, cada vez mais carcomido. Ela não consegue pensar em outra coisa senão em si mesma e em seu cargo. Poder.

Mesmo que sobreviva ao julgamento no Senado, que governo consegue alguma coisa com 137 parlamentares em sua base de apoio? Mesmo que não acabe no Senado, o governo já acabou. Mas parece que Dilma vai fazer o Brasil agonizar e afundar ainda mais na crise por mais seis, sete, oito meses, pelo tempo em que se arrastar o processo de impeachment no Senado, que é democrático, constitucional e tem o rito referendado pelo Supremo Tribunal Federal.

A vontade o povo brasileiro é retomar seu caminho de esperança no futuro, onde com certeza não cabe Dilma Rousseff, Eduardo Cunha e todos os fantasmas que hoje assolam os nossos sonhos.

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

BRASIL, CONDENADO À ESPERANÇA?

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Era 1977, eu tinha ido para o Rio de Janeiro estudar e morava numa pensão em Botafogo com meu amigo Velasquinho. Outro amigo nosso começava naquele ano sua residência médica no Hospital Federal do Servidor. Fomos visitá-lo e ficamos muito impressionados com a estrutura do hospital. Naquela época, 37 salas de cirurgia funcionavam a pleno vapor. O diretor do hospital podia acompanhar todos os procedimentos através de monitores de TV (de tubo e preto e branco, estou falando de 1977), já que em todas as salas câmeras de videotape registravam tudo.

Recentemente encontrei com esse amigo, agora médico já aposentado e que retornou ao Rio para encerrar sua carreira. Perguntei como estava o hospital e ele disse com certa tristeza:

- Virou sucata! Aparelhos de medir pressão arterial precisam ser presos com esparadrapo no braço do paciente, corredores antes impecavelmente limpos estão cheios de gente sem atendimento e as tais salas de cirurgia já não funcionam...

De 1977 para cá, muita coisa mudou: acabou a ditadura militar em 1985 e vivemos desde então um regime democrático, que já não é mais tão recente e nem tão jovem assim. A conclusão é que nenhum presidente eleito pelo povo desde então fez o suficiente e nem mesmo o necessário, nenhum deles devolveu ao povo em forma de estrutura e serviços o monte de impostos arrecadados. Em todos os níveis, nenhum governante fez as reformas prometidas em campanhas eleitorais. Tudo o que depende da ação do Estado míngua. Arrecadação recorde de impostos não faz senão alimentar a corrupção, não serve para melhorar a infraestrutura do país. Municípios endividados, Estados idem, que não conseguem investir em educação, segurança pública e saúde na medida necessária, prestando serviços aos cidadãos conforme manda a constituição. Não estou aqui querendo o fim da democracia, muito pelo contrário: é preciso aprender as lições e fazer as mudanças no sistema visando o seu aperfeiçoamento, para que possamos ter um horizonte.

Vivemos hoje o ápice da incompetência estatal e a pior recessão econômica de nossa história e vai ser difícil e doloroso encontrar outra vez o caminho da prosperidade e do crescimento depois desse verdadeiro furacão que está destruindo nossas maiores empresas, tirando do cidadão o pouco que ele já tinha.

Paulo Rabello no programa Canal Livre da TV Bandeirantes do dia 10 de abril, disse que a retomada do crescimento é impossível, já que esta não é uma crise normal e sim uma crise causada pela destruição de riquezas. Acredito que precisamos aprender e correr contra o tempo para pelo menos tentar recuperar o futuro dos nossos filhos e netos.

Afinal, o tal Brasil que desde moleque acreditei ser o país do futuro precisa mudar e deixar de ser, como disse Millôr Fernandes, apenas “o Brasil condenado à esperança”.

*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.

OS DIAS CORRIAM DEVAGAR, SOSSEGADOS...

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Os dias corriam devagar, sossegados. Sem burburinho. Às vezes era a pipa, todo mundo só pensava em fazer e empinar pipa. As varetas coladas em cruz no papel colorido com grude, uma massa feita no fogão com polvilho.

Quando passava a vez da pipa, chegava a das bolinhas de gude. Verdinhas, leitosas, redondinhas, só se pensava em bolinhas de gude por um bom tempo. O triângulo cortado com o canivete no chão duro de terra e a brincadeira corria solta, despreocupada.

A temporada de futebol na rua chegava e a meninada só pensava nisso: uma bola de meia ou uma bola de cobertão, que era o nome das bolas de couro naquela época. Vamos fazer um campinho? Todo mundo trabalhando duro para fazer as linhas e os gols.

Tinha também o jogo de bola e béti, uma espécie de beisebol tupiniquim com uma casinha de gravetos de cada lado, quatro jogadores, pau de vassoura como bastão. Os dias corriam devagar, sossegados. Sem medo, brincar na rua era normal, pular o muro prá roubar laranjas, chupar jabuticabas no pé, cadeira de salvar. Guerra de estilingue com mamonas, ir a pé prá escola atalhando pelos muitos terrenos baldios, esperando o trem da Mogiana passar apitando na Estação.

“O seu rei mandou dizer que é prá todos se esconder do papão, da meia Lua, da vontade de crescer”. Porque os dias corriam devagar, sossegados...


*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.