VESTIBULANDO EMPREENDEDOR

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Coloquei aqui algumas frases de Bill Gates, apenas para que reflitamos em um momento crucial da vida do chamado vestibulando. Aquele indivíduo que não se vê como humano. Não considero Bill Gates um grande pensador, mas ele trata de um assunto seríssimo chamado “empreendedorismo”. Vestibulando ainda não descobriu que, se não for empreendedor, não chegará a lugar alguma. O processo educacional no Brasil forma gente para “não pensar”, “não empreender”, isto é, não encontrar as melhores formas de competir.

O processo “educacional” no Brasil nos leva a sermos facilmente dominados e nossos pais nos protegeram tanto das agruras da vida que fizeram com a gente uma “sacanagem”, não nos deixaram aprender a lidar com cobranças, com exigências. Sempre estamos à beira de um ataque de nervos. Coloquei aqui algumas frases de Gates para que você reflita sobre elas, porque elas têm muito a ver com o tema “vestibular”:

  • “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história”.
  • “Tente uma, duas, três vezes e se possível tente a quarta, a quinta e quantas vezes for necessário. Só não desista nas primeiras tentativas, a persistência é amiga da conquista. Se você quer chegar aonde a maioria não chega, faça o que a maioria não faz”.
  • “O mundo não se interessa pela autoestima. O mundo espera que você consiga fazer algo, com independência para que você se sinta bem – ou não – consigo.”
  • “Nunca se compare com ninguém neste mundo. Caso o faça, entenda que você estará insultando a si mesmo.”
  • “A vida não é justa… Acostume-se a isso.”
  • “Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.”

Gostaria que meus alunos refletissem também sobre algumas questões que envolvem a competitividade do vestibular:

  • Tudo o que você não faz, seu concorrente faz.
  • Eu posso aceitar qualquer desculpa que você me der, o vestibular não aceita.
  • Se você pediu ajuda a alguém, ajude essa pessoa a ajudá-lo(a).
  • O seu concorrente tem tanto medo de você, quanto você dele.
  • Ninguém te dará uma semana, para fazer o que tem que fazer em duas horas.
  • Buscar o mais fácil, nem sempre é o mais fácil: o vestibular é um desafio.
  • Se você tem medo, já perdeu.
  • Uma apostila não te faz passar no vestibular; raciocinar, sim.
  • Um modelo pré-fabricado faz com que você seja igual a todo mundo.
  • O resultado pode ser menor do que o esperado, então busque se superar.

Nem eu, nem Bill Gates estamos certos, inclusive, nem de longe posso ter a pretensão de me comparar seja no que for a ele. Apenas expus a maneira de ele pensar como empreendedor e eu como educador. Mais uma vez, sem nenhuma pretensão, gostaria de lembrar que vestibular é competição, é a primeira vez que seus pais não poderão correr risco por você.

Saudável é a mãe

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Já sei que tenho que comer comidas saudáveis, saladas, carnes brancas e magras para ter uma velhice plena. Também sei que tenho que fazer exercícios físicos regularmente, para chegar a uma velhice plena. O doutor de não sei que canal disse que o estresse atrapalha o desempenho intelectual de uma pessoa, precisa mudar, se ela quiser chegar a uma velhice plena. O outro doutor do outro canal, que não sei qual é, disse que beber água regularmente e usar limão ajuda a controlar o PH do estômago ou intestino, se quiser chegar a uma velhice plena. Há a série “House” em que um médico maluco contraria tudo o que se pode pensar sobre uma velhice sadia. Virou meu ídolo. Quero morrer de morte morrida.

Como não sigo nenhum desses conselhos, já me sinto um gordo compulsivo, um energúmeno em fase terminal, uma cópia das obras de Francis Bacon. Bacon é bom demais em um hambúrguer suculento. E falando em tempero, a cozinheira aqui de casa deve ter sido subornada por algum dos meus concorrentes, o tempero leva o comensal ao afogamento compulsório. Quase me afoguei várias vezes. Fui socorrido pela atitude intempestiva da minha sogra que levou o prato embora. Aproveitei e contratei uma policial experiente para evitar a gula: a minha sogra. Sogras servem para comer e não deixar comer. No entanto, já bolei um plano para matá-la: vou empanturrá-la com o bolo do lanche da tarde (ela amaaaa), mas antes vou pegar um mísero pedacinho para mim. É um desperdício que ela leve tudo para a cova.

São tantos os programas na tevê sobre a Medida Certa que ando agora com uma fita métrica, para medir o quanto a minha circunferência abdominal aumentou depois de uma meia dúzia de cervejas. Para os que acreditavam que cerveja não engorda, o doutor (sei lá quem) disse que engorda sim. Ele é um gordo cervejeiro debaixo daquele lençol largo, creio. Até convidou uma nutricionista para fazer um diagnóstico sobre a vida descontrolada dos beberrões que me deu arrepios: cada tulipa de chope corresponde a um pãozinho. No final do dia, tive a impressão de ter ingerido uma padaria inteira. Se vir acompanhada de um salaminho ou queijinho se torna mais perigosa ainda. É a morte. Esses embutidos têm alta concentração de sal, uma espécie de detonador para a pressão alta. Para piorar, o sal ajuda o organismo a reter os líquidos aumentando a circunferência abdominal que, acima de 80 cm, levará até adolescentes ao infarto, derrame, hemorroidas, desmaios, AVC e sei lá mais que doenças absurdas. Ela tem cara de ser uma daquelas supostas abstêmias puritanas que bebe escondida. Deve ser dura essa vida de nutricionista. Noutro dia, flagrei minha ex-nutricionista no cê-qui-serve com um prato que parecia o monte Evereste. Disse que era o dia do descanso na semana. Mas, ainda era quarta-feira!

Só na rede Globo, vemos a Ana Maria Braga e suas frases matinais de autoajuda, porém, contraditoriamente, ensina a fazer comida gordurosa; o Bem-estar, cujo apresentador é um quase gordo, tem sérias dificuldades para acompanhar Mariana Ferrão nos exercícios. Quase sempre parece pior que eu no calor de Ribeirão Preto: sua mais que tampa de panela. Ainda há o Zeca Camargo (ex-gordo, aproximando-se cada vez mais da perda, perda do EX no É de Casa), junto com a Ana Furtado (Olívia Palito) e a Patrícia Poeta, uma musa mais bela, quando era mais suculenta; o Fantástico lembra a todos, que aquela pizza domingueira será a causa mortis na segunda-feira. E, para piorar, entrevista um bando de gordos arrependidos que, em frente a uma câmera, faz sua mea culpa, por causa da gula. Escondidos no camarim, mergulham num hambúrguer, que só tem graça, se acompanhado de uma açucarada e mórbida Coca-Cola. Tenho certeza. Vou conversar com o Edir Macedo e fundar a Igreja do Gordo Arrependido. Faço um programa de entrevistas e bato a concorrência. Corro o risco de ficar em primeiro lugar em audiência, tamanho o público disposto a chorar, espernear e se amaldiçoar os Master-chefs da vida e as modelos esquálidas, talhadas para palitar dentes. Modelos Plus Size fazem parte de um longo engendrado processo velado de preconceito mercadológico. Miss Plus é um termo de dar engulhos.

O patrulhamento toma conta dos telejornais. O contrassenso é o da Band, em que a Ana Paula Padrão (padrão de magreza) apresenta um programa engordadivo. É uma grande sacada: o gordo emagrece de raiva com as comidas mal feitas. Isso sim é que é psicologia. Inclusive, Érick Jacquin, um dos jurados, que é gordo, reprova comida atrás de comida fazendo piadinhas. Isso sim emagrece. Fiquei sabendo, por um personal trainer, de uma tevê a cabo dessas, que perder peso é fácil, porém manter a silhueta de sílfide é uma guerra diária. Ainda bem que não me alistei. Vou me deliciar, se ele ficar estressado com os comilões, como fico no self service perto da minha casa, cuja cozinheira parece fazer parte de um complô internacional para levar pessoas rotundas para o cemitério. Desconfio, sinceramente, que ela é sócia do sujeito da funerária. O dono tem o carinhoso apelido de Neném, vive sorrindo. Acho que ele pensa assim: Mais um que vai virar comida de formiga. E haja formiga para dar conta desses viciados em picanha, lasanha, feijão tropeiro e feijoada. Desconfio também que ele é criador de formigas. Deve Pensar: Vou faturar com a comida, com as covas, os caixões e as formigas. Essa mistura insólita aparece todas as quartas-feiras no cardápio. E já vi um monte de gente dizer que não há nada mais gostoso que feijoada com toques de massa e um molhinho à bolonhesa.

Queria ver uma Patrícia Poeta, depois de umas dez aulas no turno da manhã, resistir ao cheirinho do pastelzinho que aquela maldita faz. Dentro de um estúdio amorfo, com um monte de gente policiando, fica fácil dar um monte de conselhos para as pessoas. Quero ver aqui fora, de frente para uma coxinha de frango com catupiry de Bueno, mais ou menos do tamanho de uma laranja, ou do Frango na Brasa do Tião, dentro daquela tevê de cachorro, cujo cheiro inunda a rua ficar fazendo cara de paisagem.

E os personal trainer da tevê, mais parecidos com exímios defuntos equilibrantes sobre as pernas, nos dizendo para ficarmos iguais a eles. Não há coisa tão chata e pouco saudável do que programas sobre vida saudável. Agora, vieram com outra: comida virou remédio para tudo, até para aumentar o desempenho sexual. Pensei sempre que sexo dependesse do desejo de se atracar um com o outro ou outros. Ainda bem que sou um grande leitor, grande em todos os sentidos. Você já viu ambulância em porta de biblioteca? Overdose de livros não mata ninguém. Em porta de academia, você já viu, tenho certeza. Overdose de anabolizantes mata e da busca do corpo “perfeito” também.

Num depoimento emocionante, um amigo se expôs em um vídeo filmado por um celular com o irmão segurando o aparelho a dois passos: “Minha mãe comia muitas frutas e verduras, aconselhada por amiga saudável. Apaixonou-se pelas carambolas. Sem saber, tinha graves problemas renais, perdeu a noção das coisas. Morreu saudável”.

#DAUSPPRACASA

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Mais um aluno do curso de medicina da FAMINAS suicidou-se. Parece que estou repetindo um texto de 2017, mas, infelizmente, não estou. As coisas acontecem numa mesmice inquietante neste Brasil varonil: somos uma sucata ambulante, quando se trata de processo educacional. Para meu espanto, fico sabendo que cinco tentaram, três conseguiram. Se juntarmos aos fatos, as tentativas de quatro alunos do quarto ano da USP, chegamos a uma estatística aterradora. Levemos em consideração que faculdades escondem tais fatos, pois não querem atrair para si a desconfiança do mercado.

Os motivos para essas tentativas são os mais diversos: depressão, ansiedade, rotina desumana de provas, reprovações, drogas, questões financeiras... Depois de dois, três anos de cursinho, muitos pais calculam: com o valor que pagamos o cursinho, pagamos uma universidade. Não percebem que estão construindo uma bomba relógio, pois não percebem que falta algo aos filhos: maturidade, autocontrole, base, foco, vocação, por exemplo. “Forçar a barra” é perigoso demais.

Então, vão ficar o resto da vida tentando? Primeira investigação: meu filho quer fazer medicina, mas estuda para fazer medicina? Segunda investigação: é um “sonho” dele ou da família? Terceira investigação: ele escolheu a faculdade ou serve qualquer uma? Essa terceira investigação leva a uma especulação: serve qualquer faculdade, o que importa é a residência.

Explicam os economistas, se o produto está muito barato e a procedência é duvidosa, não compre. Se você só pensa no valor da prestação, mas não pensa no valor total do produto, ficará inadimplente. Como o Brasil sofre de esquizofrenia econômica, não faça planos a longo prazo. Não escolha um mau produto, a vítima será você mesmo. Você já viu um aluno de uma má faculdade entrar em uma boa residência? Exceções existem, mas são exceções. O caro sai muito caro.

Se você é um mau aluno, aquele aluno que nunca estudou, porque confia “apenas” na sua inteligência, na sua sorte em Deus (ou em tudo isso junto), busca sempre o vestibular mais fácil, sinto destroná-lo: não existem facilidades no curso de medicina de qualquer instituição, por pior que ela seja. Maus alunos não se tornam bons médicos, mesmo que ganhem fama à custa da fama dos pais ou do marketing mais tarde. Maus alunos sofrem mais, porque têm obrigatoriamente que estudar. Maus alunos sofrem maior pressão.

Se você é um bom aluno, um idealista, que se propõe a estudar como um “louco”, para enfrentar alguns dos vestibulares mais “difíceis” do país, sinto destroná-lo: “Você não faz parte de um grupo de eleitos”. Pode não parecer, mas você é mortal. Vai estudar muito mais dentro da faculdade. Sabe que será muito, mas muito difícil. Você lutará pelo seu espaço no mercado de trabalho. Sabe que será muito, mas muito difícil. Ninguém o enganou.

Absurdo dos absurdos é que faculdades, sejam públicas ou particulares, não fazem um trabalho constante para ajudar jovens em crise. Somente depois das tragédias. Em quase todas, o calendário é desumano, massacrante. Em quase todas, há largo consumo de drogas, é preciso ficar acordado.

Será que toda essa dificuldade para entrar na faculdade, faz do trote da medicina, geralmente, o mais violento? Lembram-se da morte de Edison Tsung Chi Hsueh na piscina de atlética da USP/SP? Já houve todo tipo de denúncia: estupros, queimaduras, discriminação, humilhação.

O calendário de festas é enorme. As festas são as mais badaladas: “rola de tudo”. São jovens, têm o direito de se divertirem. Nada contra a diversão. Foi depois de uma delas, que um futuro médico, o Tuta, morreu, ao destruir o seu carro contra uma árvore. Tive pouco relacionamento com ele, encontramo-nos, quando costurávamos um acordo para o patrocínio do Projeto Veredas (atendimento de pessoas carentes em um assentamento). Observem: era um jovem com preocupações humanitárias. Foi como um murro no estômago a sua morte. Pais enterrarem filhos contraria a ordem natural.

FMRP/USP criou uma campanha, para abrir uma grande discussão (#dausppracasa). Depoimentos de um grupo de pais chamam os filhos à razão, antes que o pior aconteça. Um depoimento comovente está nas redes sociais (os médicos Mônica e Nelson Liporaci – grandes amigos, competentíssimos profissionais, falam para o filho Felipe).

Meus alunos me olham raivosos, quando repito: entrar na faculdade é difícil, mas permanecer dentro dela é muito mais difícil. Levei alunos da USP para conversar com eles. Uma aluna não quis mais assistir às minhas aulas, depois de eu colocar esse tema em discussão. Chegou a casa muito nervosa, segundo os pais: “Que pena!”. A venda nos olhos mata. É como atravessar uma rua movimentada, sem olhar para os lados. Em tempo: no Criar, há 15 anos, o psicólogo Marcelo Filipeck atende cada aluno; o departamento pedagógico, também. Minha preocupação vem de longa data; minhas atitudes, também.

​Dia 7 de janeiro foi o Dia do Leitor

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Machado de Assis escreveu uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira: Dom Casmurro. As listagens oficiais dos vestibulares têm verdadeira obsessão por ela, no entanto, para o aluno, é uma tortura, falta-lhe vivência, experiência linguística e capacidade de mergulhar no universo do texto, por isso fica na pia rasa do mutismo (entenda-se também como o medo de “pagar mico”) e da criticidade: Capitu traiu ou não Bentinho? Seria essa a tábua rasa usada por Machado para navegar?

Aluísio de Azevedo escreveu O Cortiço para ganhar dinheiro, pagar os estudos, formar-se diplomata e jamais voltar a segurar a pena de escritor. Para atingir o seu intento, escancarou o animalesco do ser humano, abusou da sexualidade desaforada dos personagens. Acabou por redigir um verdadeiro tratado sociológico sobre as transformações por que passava o Brasil do final do século XIX. Sua Teoria do Mal dos Trópicos não escondeu seu preconceito contra a maneira brasileira de ser e viver.

Lima Barreto desancou com o preconceito contra os negros em Clara dos anjos e a pseudointelectualidade rastaquera que habitava esse país em Triste fim de Policarpo Quaresma. De quebra, desnudou a corrupção que nos corrompia há séculos. Policarpo tentou absurdamente emplacar o tupi-guarani como língua nacional, para ser entendido. Ridicularizado, tanto quanto seu criador, continuou incompreendido. Sua história frequentou o celuloide, a tevê e as revistinhas em quadrinhos, mesmo assim conviveu com o anonimato.

Como eles, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e até Guimarães Rosa, com seu linguajar peculiar, foram parar nas minisséries da tevê Globo, filmes da Ancine, revistinhas coloridinhas, resuminhos, listagens de vestibulares conceituadíssimos. Autores moderninhos se deram trabalho de adaptá-los para o português atual à caça de novos leitores. Deu no que deu: em nada. As pessoas não adquiriram o hábito na infância e hoje há coisas mais importantes, como tirar selfies. Para que memória, se inventaram o Google que sabe que quase ninguém leu 1984 de George Orwell e acha que Big Brother não passa de um programa que incentiva a idiotia diária.

Kéfera e Paulo Coelho vendem mais livros que banana em fim de feira. Muito legal. Muito bom. Mas, será que nossa literatura ficará nas mãos deles ou da famigerada autoajuda? Agora temos um tipo de literatura perigosa: jovens imberbes, travestidos de escritores, vão para a internet “soltar o verbo” expondo sua intimidade, o desdém recalcado pelos relacionamentos amorosos em crise, seus ideais guardados a sete chaves e a frustração de talvez nunca realizá-los. Convidam os “frustrados por estarem excluídos de padrões estéticos ou comportamentais” (todo mundo está, o capitalismo é camaleônico, joga com padrões inalcançáveis), para definharem deixando de comer ou radicalizarem, morrerem criando modismos para o velho (poetas do Romantismo no século XIX cansaram de fazer isso). Quem sabe, capturem uma baleia azul ou até virem série da Netiflix.

Ah! Há as fadinhas. E como! Poderíamos falar de um novo gênero literário, o das fadinhas adolescentes. Dá uma grana. Muita gente descobriu. Kéfera descobriu primeiro. Há gente construindo grandes obras? Há. Mas, pouquíssimos os leem. Pense e responda rápido: Você seria capaz de citar cinco grandes autores “atuais”? Quantos leem Cristóvão Tezza, Milton Hatoum, Raduan Nassar, Sérgio Santana? Quem os conhece? Mediei os debates de vários deles na Feira do Livro de Ribeirão Preto com salas semicheias, apenas porque despertaram a curiosidade de alguns. E só.

Os sebos estão ganhando a mesma aura sofisticada da qual agora gozam as lojas de vendas de discos de vinil. Vende-se muito e-book neste país. A Amazon deita e rola: 90% são de autores de lacrimosos best-sellers americanos. Os estúdios americanos também. Ah! Os vendedores de lenço também. Melhor que tudo isso é ler algo imediatíssimo no Watsapp e no Facebook ou futilidades em um portal. Selecionei os cinco assuntos mais lidos no UOL na semana (12/01): 1. Paredão eterno! 7 ex-BBBs que a Globo prefere esquecer; 2. 'Tem que pegar o meu patrimônio. Esquece meus filhos', diz Bolsonaro; 3. Conheça dez famosos da TV brasileira que não se entendem quando estão por trás das câmeras; 4. Atriz Paolla de Oliveira fala sobre assédio e diz que, aos 35 anos, não liga para rótulos; 5. Para fechar grupo, Palmeiras quer emprestar 2 e espera Scarpa e Goulart.

Como estamos no mundo da imagem, dos amigos virtuais que pulam na nossa cara com seus sorrisos engessados na velocidade de um “clic”, ler um livro é “um saco”, não é? Há muito que fazer em pouco tempo na tela de um smartphone. As imagens dadas e não imaginadas carimbam mais fortemente a alma. Tudo pronto, sem forço. Preguiçosamente sem pensar, não precisa interpretar.

Falar em público, sem repertório é uma “praga”. E escrever, então, virou um tormento. A redação é a prova que mais elimina alunos no vestibular. E não é de hoje. Desde 1978, essa “praga” atormenta os candidatos a uma vaga na universidade. Uma doença tão forte que muitos milagreiros criaram remédios mágicos para curá-la. O ENEM não me deixa mentir. Viva o Dia do Leitor.

​Os que criticam os críticos do ENEM

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Caro prestador de ENEM, cansei de voltar ao mesmo tema

Parodiando um grande amigo: Os anos se repetem numa mesmice inquietante. Pior, a viseira, também. Pior ainda, o tapa olho "idem, ibidem, na mesma proporção". Confira as reportagens nos veículos de comunicação sobre os resultados do ENEM por escola.

Os alunos com maiores posses ocupam as melhores escolas que ocupam os primeiros lugares nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio: óbvio. O levantamento socioeconômico confirma esse fato todos os anos. Cansou: passou da hora de acordar.

O agora maior vestibular do país é uma grande e sórdida enganação: óbvio. Se assim não fosse, não haveria razão para escrever um artigo como este todos os anos. Provoca estresse, esperança (?), mas não indignação, por incrível que pareça. O Brasil ainda acredita na história do bilhete premiado. É tudo ficará pior ainda, se é que há jeito, com a "disforma educacional".

1. Grande quantidade de alunos que precisavam da isenção das taxas de inscrição, não conseguiu. O sistema "caía" na hora "H": óbvio. O governo "gasta" muito dinheiro com essa prova, diz o ministro. Os apaniguados ganham também? 

2. Em todos os anos, há escândalo. Em 2016, houve dois ENEM: uma prova muito fácil; outra bem difícil. Todo mundo fez e se calou. Ninguém faz nada. Ninguém exige transparência. A segunda prova não poderia existir: é um exame nacional.

3. O que é mais engraçado em tudo isso: os cursinhos não se entendem sobre o gabarito das provas. Que prova bem elaborada, não? E os alunos, coitados, como ficam? 

4. Alunos ricos e alunos pobres não têm as mesmas chances, tanto é verdade, que o índice de abstenção só faz crescer entre os de escolas públicas: óbvio. Como publicado, entre as 10 escolas, que conseguiram melhor desempenho, não há escolas públicas.

5. Tudo mudou, para ficar exatamente igual, como sempre neste Brasil varonil. A professora Maria Inês Fini (mãe do ENEM) rugiu, rugiu e ruiu. Pariu um traque. As provas mantêm os mesmos 90 testes que devem ser resolvidos em 4:30h. O primeiro dia ainda possui uma 1h a mais, mas é "o fim da picada" esperar que alguém escreva sobre um tema como o que foi oferecido pela banca neste exíguo tempo a mais.

6. O tema sobre a "surdez" vinculada "à educação" foi muito bem escolhido, porque abriu uma discussão pertinente, porém poucas vezes vi uma proposta tão mal elaborada. Quais seriam as "intervenções sociais", além das óbvias que a coletânea trazia?Tentando "pegar os modelos de redação", como disse a mãe, a prova continua estimulando a construção de "modelos". O MEC "pegou a si mesmo".

7. Pior, o ENEM manteve o mesmo sistema de incentivo ao "decoreba", ao candidato "robotizado". Isso é incentivar o "ensino criativo?". Desincentiva um jovem a elaborar uma redação "Frankentein"? 

8. Muitas escolas continuam aplicando o velho golpe, usam CNPJ diferentes com o mesmo endereço. A jogada é óbvia, robotizar turmas específicas para alcançarem as melhores notas. Os pais, até hoje, creem que as melhores escolas são as que têm o melhor desempenho na prova. Pior, os alunos também.

9. Desgraça das desgraças: o ensino brasileiro "enenzou", desde o quinto ano as escolas já preparam rebentos para PAPAREM o ENEM. Quer mais? Sinto muito, não cabe aqui.

Será que Chateaubriand tinha razão, quando batia no peito e berrava: "Esse é um país de botocudos"?

​Rombo

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Suor na cara. Música na cabeça. Bate. Bate. Música batida de coração. O ciúme calça luvas. O ciúme esfrega as mãos. Mãos de moedor. Homem puro. Puro músculo. Outro homem. Trator. Roer as unhas. Saia curta. Umbigo por onde se nasce. Umbigo por onde se morre. Mulher umbigo. Mulher pernas. Mulher de batom. Mulher sem perdão. Mulher talher. Talher onde se come de tudo. Comida pra um. Usada por dois. Banquete pra todos

Ciúme. Corpo contra corpo. Corpo empurra corpo. Um corpo agarra o outro. Garras. Rapina. Um rasga a pele do outro. Até. Até não mais poder. Raiva. Ódio. Guerra. Vozes toscas. Grito. Berros. Grunhidos. Perdigoto. Tapa. Murro. Cara amassada. Clinch. Separação. Momento. Dentes quebrados. Rua ringue. Corpos esfarrapados. Briga. Corpos chiclete. Pancada. Porrada. Na cara. No peito. Porrada. Baba. Cachorro louco. Sangue. O soco esmaga a língua. O dente de cima esmaga o chiclete contra os dentes debaixo. Raiva. Soco no ar. Tapa na boca. Chute no saco. Bêbados. Clinch. Porrada. Mais porrada. Vida ringue. Sangue. Pontapé. Dança das vísceras. O pé do nocaute. A carne dança. Que nem maré.

O tiro. A bala. A baba. Carne moída. Rompida. Osso rompido. Dilacerado. Porta da mente. Fechada. Trancada. O coração bate. Bate fraco. A mente às vezes mente. Mundo cão. Cão louco. Cachorro vira-latas. O cano cospe a morte. Morte apontada. Ponto de lápis. Risca a vida. Balada. Dança da vida. A vida dança. Bala perdida abala a vida. Morte. Sorte bandida. Ser humano. Desumano. Inumano. Rua morta. Silêncio cortado. Abalado. Grito abafado. Olho estatelado. Preso no nada. Nenhuma possibilidade. Respiração cortada. Coração parado. Cérebro destroçado. Gosma. Sarjeta estrada. Morte. Come via. É estrada. Trilho. Trem

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Sujeito indeterminado. Coração sem sujeito. Substantivo concreto. Adjetivo agora abstrato. Nada tem sentido. Nada faz sentido. Bala anônima. Endereço certo. Morte agora com cara. Endereço. Carteira assinada. Cara carimbada. Cara identificada. É estatística. Agora o Alguém virou ninguém. Comida de minhoca. Por quê? Estava onde. Onde não devia. Espera-o silêncio. A cova. Sulco na terra. Raízes. O corpo atônito passa sete palmos da superfície do chão. A morte voçoroca. Não... Choro. Não... Grito abafado. Não. A morte tem cara. Cara pendurada na parede. O filho, a mãe, o amigo, o pai, toda gente vai ver. Morte tem retrato. Pintado. Fotografado. No obituário. Até o prego ceder. Terá futuro amarelecido. Até cair no chão. Futuro. De um jeito ou de outro. Chão. 

​Não carregue lixo

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Uma das minhas alunas estava em prantos, porque não passou para a segunda fase do vestibular.

Cheguei perto e perguntei: O que aconteceu? Ela me encarou e me perguntou: E agora, o que eu faço?

Devolvi a pergunta: Quantos vestibulares você ainda fará?

Resposta: Mais três.

Disse-lhe: Então não carregue lixo. O que passou, morreu. O que passou, não pode atrapalhar o que vem.

Ela sorriu espantada: nunca ouvi isso, falado desse jeito.

Continuei: Então, ouça de novo. Não carregue lixo. Se fez algo, não há como consertar. O que fará sim, essa é a parte importante.

Continuou: Sabe! Eu me pressionei demais. Muita coisa me atrapalhou também: meu cachorrinho morreu, o pessoal ficava me chamando para a balada. Não tive tempo para nada, nem ir à aula eu conseguia. Quando ia, não conseguia ficar. Sei que o senhor vai achar que são desculpas. Desculpe, mas não é.

Para quem ela pedia desculpas? Para mim? Para ela mesma? Para o tempo que acredita perdido? Como diria meu grande amigo Neto: “arrependimento custa caro para o bolso e para a alma”.A pior expressão que existe é: desculpe-me. Por quê? Porque vem posterior ao fato. Ninguém desculpa ninguém, apenas pro forme. Na verdade, remoerá o fato, tanto, tanto, tanto, que um dia jogará na cara do outro o lixo que remoeu. Carregar lixo é comprometer o futuro, por causa do passado. E o passado dói, se você, impaciente leitor, permitir.

Assim ocorre com o vestibular, assim ocorre com a vida. Minha aluna passou um ano mergulhada nas próprias fantasias, esquivando-se de uma responsabilidade, que a atingiria, com dia e hora marcadas. Na verdade, eu deveria ter estudado, mas, mesmo não estudando, eu tinha esperança. “Quem sabe / faz a hora / não espera acontecer”. Parodiando: Quem não sabe / não escolhe a hora / se será atropelado pelo que acontecer.

Desculpe-me, professor. Pensei: Passará o ano inteiro no cursinho, arrependida do que não fez. Custará caro para a mente, o corpo, o bolso e a alma. O problema são as desculpas que arrumará para si mesma. Pior ainda, procurará passar em uma faculdade qualquer e resolver se matricular. O arrependimento e as desculpas virão depois da formatura. Como uma desculpa que puxa a outra, uma mentira que puxa a outra, o lixo puxa o outro.

Mudando drasticamente de assunto, num belo dia, você acorda e sai de casa, chega ao trabalho, um amigo vem e lhe diz que não só falaram, escreveram muitas coisas sobre você. Construíram propositalmente uma imagem devastadora de você, manipularam seus supostos amigos contra você, ofenderam-no, desrespeitaram-no, tentaram manchar sua honra e sua história, ou seja, tentaram recolher o próprio lixo e o jogaram em cima de você.

Alguns dos envolvidos, um dia, serão atropelados pela verdade. Diante dela, pedirão desculpas. No raso, você desculpará, mas no fundo, no fundo o fará? Ou pensará: Quem me traiu uma vez, trairá de novo. Quem disse que era meu amigo, não é. Quem me desrespeitou, desrespeitará novamente. Quem tentou macular a minha história, tentará de novo. Isto é, mesmo com um sorriso esquivo, carregará o lixo que lhe jogaram em cima.

No nosso dia a dia, os invejosos, os medrosos, os desonrados carregam seu lixo emocional na língua posando de vítimas. Não têm a lucidez de uma jovem vestibulanda. Não se engane, atento leitor. O dono do lixo, que tenta atingi-lo, tem nome, sobrenome, endereço, carteira de identidade e profissão. Lixo, de tanto se remoer, solta chorume. Lixo fede e chorume contamina. Coitado de quem o armazena. 

​A Fuvest vem aí. E se você não estivesse nem aí?

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A Fuvest é concorrida? É. Há as “feras”? Há claro. Você está com um friozinho na barriga? Que bom! Você acabou de descobrir que é um ser humano. Todo mundo disse que não seria fácil, no entanto algumas pessoas tornam tudo mais difícil. Por quê? Porque acreditam que somente aulas e apostilas passam alunos no vestibular. Por isso, o cansaço físico, que gera o cansaço mental, que gera a ansiedade, que gera o nervosismo.

Tenho visto alunos que entraram para fazer as provas relaxados, logicamente passaram, não queriam cursar aquela faculdade. Tenho visto ótimos alunos que não passaram ainda em uma determinada faculdade, “travaram” na hora da prova, lógico, aquele era o sonho de consumo. Muitos passam mal, assim que abrem a prova, pulam questões, quando vão marcar o gabarito.

A Fuvest uma prova que mete medo muito mais pela “mística” crida em torno dela, do que pela complexidade das questões.

As obras da listagem oficial são exploradas? Sim, e de diversas formas: analogias entre as características das personagens, fatos, clímax etc.

São comuns textos de críticos literários que colocam em cheque algum aspecto importante da obra. São constantes as relações entre as obras e outras disciplinas, como história, filosofia, sociologia, geopolítica, panorama histórico e cultural. Geralmente não é cobrada a leitura da obra, mas sim a capacidade de o aluno reconhecer aspectos gerais de cada uma. Por exemplo, a postura de determinadas mulheres se revela muito próxima: Ondina (Mayombe), Rita Baiana, Leonie e Pombinha (Cortiço) têm postura libertária; ao contrário delas, Iracema, mostra-se submissa. Xenofobia contra os portugueses é clara em Mayombe e Cortiço.

Há, pelo menos, dois textos longos, portanto o seu maior inimigo é o tempo. A gramática aparece, porém a maioria das questões pode ser respondida, a partir da leitura dos textos. As afirmativas categóricas “somente”, “nunca”, “jamais” servem para as “pegadinhas”. Quase sempre estão na opção errada.

Na Fuvest 99% dos alunos estão cansados, nervosos, com medo, um com medo do outro. O mesmo medo que você tem do concorrente, ele tem de você. Pesa mais lado psicológico. Pode ser baboseira, não é? Então largue o seu umbigo e olhe para o lado. Você pode ser o melhor do mundo, sem confiança, torna-se o pior. Observe: aquele sujeito “nem aí”, que você jamais apostaria nele, passa.

Prof. Luiz Cláudio Jubilato.

É consultor pedagógico e diretor do Criar Redação.

​Unicamp sem medo

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Prova  de conhecimentos gerais provocativa.

  • Humanas: 13 questões de língua portuguesa e literatura; 12 interdisciplinares; 9 de história e 9 de geografia.
  • Você saber ler? Tem bom vocabulário? É isso que a prova quer explorar.
  • Você construiu um bom repertório cultural? Está atualizado? Então, uma prova com quatro alternativas, baseada em análise de textos, não trará problema, para quem precisa responder 90 questões em 5 horas.
  • Na verdade, você tem 4h30. Os outros 30 minutos devem ser usados para marcar as alternativas no gabarito. Não marque na medida em que mata a questão, porque gabarito não aceita desatenção e arrependimento.
  • A prova não é confeccionada para alunos especialistas, mas para os que apresentam regularidade em todas as áreas.
  • As alternativas devem ser lidas antes do texto, para que elas direcionem a sua leitura. A resposta está no texto. Releia o verso ou parágrafo, porque a resposta está ali. Os que não têm o hábito de ler poesias são os que mais precisam usar esse método.
  • Essa história de compensar pode não dar certo. Funciona como aquela velha situação de andar devagar por causa do trânsito engarrafado e depois correr para tirar a diferença, quando ele alivia. A ansiedade leva a uma trombada.
  • Oralidade x norma culta: são as questões mais constantes. Tome cuidado com a relação entre como falamos e como escrevemos. Movimentos populares, como o funk, fogem da norma culta.
  • Os gêneros textuais são mais explorados na prova de redação, mas vez ou outra aparecem na prova de testes.
  • Livros: os examinadores exploram pouco as escolas literárias; exploram poucos aspectos específicos das obras, pois são muitas, no entanto são constantes as analogias entre elas são constantes; exploram muito os poemas em verso (principalmente) e em prosa.
  • As obras literárias são exploradas em outras disciplinas, como história, atualidades, filosofia e sociologia. Por exemplo, a questão da “negritude” pode ser bastante explorada.
  • As obras Os Sermões do padre Antônio Vieira e o Espelho, de Machado de Assis, tendem a ser mais exploradas, porque entraram na listagem atual.
Não descarto alguns temas, como a questão da “escravidão” e da “decadência da aristocracia”, porque obras como O Cortiço, O espelho, Negrinha e Poemas Negros, tratam desse tema. Outro é o papel da mulher na sociedade: Rita Baiana, Leónie e Pombinha, em O Cortiço. A xenofobia e o racismo também: O Cortiço e Terra Sonâmbula (Albino – Cortiço); Vera (Caminhos Cruzados); exclusão social (Cortiço – Caminhos Cruzados)

​“Abobrinhas na internet”

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Muita baboseira, muito marketing e desrespeito ao ser humano

O que as pessoas não fazem para aparecer

O que é um aluno? Um ser humano ou uma excelente peça de marketing? Veja, não perguntei quem é o aluno, mas o sim o que é o aluno (coisificação). Aulões, revisões, aulas dicas entupiram os jovens desesperados de informações às portas da boca do “bicho papão”. Canais do Youtube, instagram, redes de televisão não deixaram por menos. Pior, as dicas não batiam, ao contrário, trombavam umas com as outras, como trombam agora os gabaritos de diversos cursinhos, ou seja, marketing de um lado; bagunça oficial de outro.

O Exame Nacional do Ensino Médio fez com que o ensino virasse uma grande “piração” mercadológica. Aluno de baixa renda só é convidado para o show, caso dê retorno de mídia. 1/3 dos alunos desistiu de prestar a prova (o maior número da história). Consulte o cadastro socioeconômico e receberá na cara a resposta óbvia: aumento da exclusão social. Uma pessoa de classe baixa (para ser politicamente correto) não tem condições de competir com um estudante da elite.  A escola pública ficou relegada ao segundo plano.

Alertei para o excesso de informações que mais prejudicava do que ajudava.  A desculpa para “loucura toda” foi dar segurança ao aluno. É isso? Então, “tá bom”. Todo o processo educacional desceu “ralo abaixo”. Essa segurança deveria ser um processo planejado desde que o pimpolho pisou no maternal. Se isso for por demais utópico, então deveria ter sido iniciado no princípio do ano, para evitar a tal da insegurança.

O MEC, para fugir dos famosos “modelitos” de redação, denunciados pelo Guia do Estudante, trouxe um tema esdrúxulo: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. As palavras DESAFIOS e SURDOS eram chaves para desenvolver o tema, mas a coletânea engessava o aluno. O MEC deu um “tiro no pé”. Impediu também o aluno de “pensar” fora do recorte temático. Como sempre, no Brasil, tudo muda para ficar igual.

Por que tanta insegurança? Por que tanto o “piti”? Porque o MEC incentivou, avisou que mudaria muita coisa, mas só mudou quem fez a prova e quem a corrigirá.

Agora aparecem pessoas e mais pessoas afirmando que acertaram o tema que ninguém, de verdade, acertou. Novo show. Sortilégio? Mentira deslavada? Pregação? As cifras que movem a marca ENEM são gigantescas. Vale mentir, espernear. É o vale tudo. Tudo mesmo, até manter a câmera ligada esperando um atrasado para expô-lo em horário pobre.

Quem quer destruir o modelo atual, como eu quero, desista. Não é uma afirmação absurda, nem quero posar de Dom Quixote. Quero destruir o modelo, porque, para mim, ele não incentiva ninguém a estudar, mas sim a adestrar. O “ensino (?)” enenzou, até mesmo nas universidades públicas e agora também nas particulares. A UNESP adora o jeito ENEM de ser. Não à toa, foi convidada a formular o exame. Crianças já falam em ENEM, escolas já são moldadas em função dele. Com a “reforma educacional” (rsrs), tudo ainda piorará.

Fiz duas enquetes na internet, para escrever esse artigo. Primeira: 90% das pessoas concordaram que um aluno de escola pública não trazia o devido repertório cultural para escrever “bem” sobre o tema. A segunda: a “intervenção social”. Não havia como fugir àquela proposta pela coletânea. Agora apareceram os “entendidos” afirmando que o aluno não poderia escrever sobre “deficiência auditiva” e surdez como expressões sinônimas. Quem fizesse isso, tiraria zero. Às duas horas da manhã, recebi uma mensagem desesperada me perguntando se isso era verdade. Ao meio dia, outra trazia o protesto: tema para especialistas.

Nesse exato momento, assisto no JH a uma reportagem sobre a importância do tema para abrir a discussão sobre os desafios para a formação educacional de surdos. Recebi duas revistas de grande circulação que estampavam páginas e páginas de histórias tristes sobre pessoas surdas e os dissabores da vida de um surdo. Jornais trazem agora uma reportagem por dia. Houve gente ameaçando chorar na internet, porque o ENEM tocou em uma questão doída, familiar. Perceberam, porque nem eu, nem vários colegas, nem D. Maria Inês Fini (criadora do ENEM), nem Deus acabaremos com essa praga?