​UNESP SUSPENDE VESTIBULAR DE MEIO DE ANO

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Minha filha se formou na UNESP em odontologia. Sempre quis ser dentista. Realizou-se. Sofreu devido ao currículo pesado. Jamais se arrependeu. Alunos levavam materiais extras para atender aos pacientes, mesmo assim valeu a pena. Acha a faculdade fantástica. Está eufórica, porque teve um artigo publicado em uma revista científica internacional. Seu orientador é considerado um dos maiores especialistas em clareamento dentário do país. 

Meu filho se formou em administração pública na Unesp, participou da empresa júnior, aprendeu, na prática, o que é ser um administrador, tanto que se candidatou a vereador. Veteranos e calouros têm encontro marcado todos os anos. Há, lógico, a festa, mas também há os que abrem caminhos para os outros. Brinco, que ele saiu da Unesp, mas a Unesp nunca saiu dele.

Conheço professores do departamento de letras e pedagogia da Unesp Araraquara, alguns conferencistas internacionais renomados, muitos por salários dignos; alunos lutam para melhorar instalações, currículos e outras “cozitas mas”. O professor “Fernandinho” (pequeno grande mestre) é reconhecido nacionalmente por suas traduções para o português de obras escritas em grego antigo. Da última vez em que tive o prazer de encontrá-lo, ele não sabia quando receberia o 13º salário do ano anterior, mesmo assim continuava lutando pela manutenção do curso de letras, um dos mais conceituados do país.

A Unesp de Franca, tida como uma das melhores faculdades de direito do país, em priscas eras, há tempos convive com problemas de verbas, tanto que já não é prioridade para muitos vestibulandos. Estamos perdendo uma das maiores instituições de ensino do país. Quando digo, deixamos, é porque todos sabemos que ela está rolando ladeira abaixo. Se não sabem, fiquem sabendo agora: Devido à falta de verbas, a bordo de desculpas esfarrapadas (atender os anseios da sociedade), não haverá vestibular de inverno nos próximos dois anos.

Seria interessante para o governo sucateá-la para vendê-la a preço de banana? Não sei, mas já vi esse filme no governo do presidente sigla: o consórcio que comprou a CSN com dinheiro emprestado pelo BNDES a fundo perdido sabe. A desculpa é a de que instituições governamentais são cabides de empregos? Sei já vi filmes pior que esse, a Vale do Rio Doce, nossa maior multinacional, foi protagonista dele: deu no que deu. Seria a crise econômica, a grande responsável pela falta de verbas? Já vi esse filme muitas e muitas vezes, cada hora com um protagonista diferente. O Brasil sempre esteve em crise. Em todos os governos, o desprezo pelas universidades públicas é o mesmo: Não fazer nada, para justificar que não há o que fazer. Seria o problema da má gestão de recursos na instituição que a tornou um problema? Então a má gestão começa no governo que colocou um mau gestor no comando da instituição. Seria a velha cantilena de que universidades públicas são feitas para os ricos? Então devemos matá-la, para depois ressuscitá-la privatizada e beneficente?

Há muito tempo, por sucessivos governos, a Unesp vem sendo sucateada. De fora, não conheço a fundo os problemas da instituição, então estou escrevendo sobre o que não sei? Sei o que está na cara: A Unesp não fará o vestibular do meio do ano, se não receber verbas para sobreviver. Estou fazendo uma pequena parte, que é escrever este artigo. Mas, pretendo fazer mais, muito mais pela faculdade dos meus filhos. O quê? Ainda não sei, mas não posso deixar um ser, que ainda respira, mesmo que por aparelhos, morrer. A sociedade anseia por um “não” vestibular púbico? Faz-me rir.

​SÓ INDIGNAÇÃO NÃO BASTA

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O DESASTRE DE MARIANA FEZ COM QUE O MUNDO SE VOLTASSE PARA A CIDADE DESTRUÍDA, MALTRATADA, O POVO POBRE DE DINHEIRO E DE CONHECIMENTO. A AUDIÊNCIA EXPLODIU COM O DESASTRE QUE ATÉ HOJE MATA GENTE, A SAMARCO NÃO. A MINERADORA MANTÉM A SUA SANHA POR DINHEIRO. A NÓS, CABE MAL E PORCAMENTE A INDIGNAÇÃO.

O CALOR INFERNAL FEZ COM QUE O MUNDO SE VOLTASSE PARA O BRASIL. COZIDOS E ASSADOS, AMALDIÇOAMOS OS TERMÔMETROS, O POVO OLHA PARA AS PREVISÕES DE MAJU COUTINHO, COMO SE ELA FOSSE O PROBLEMA E NÃO A NOSSA OMISSÃO.
POUCOS LUTAM PELA AMAZÔNIA, NENHUM DOS GOVERNOS SE ATREVE, POLÍTICOS GANANCIOSOS POR VOTOS APROVEITAM DAS TRAGÉDIAS E DA OMISSÃO. AS TRAGÉDIAS LÁ ACONTECEM, MORRE GENTE TODO DIA. A AUDIÊNCIA EXPLODE SE HOUVER UM DESASTRE VISÍVEL, AS MINERADORAS E MADEIREIRAS E GRILHEIROS ACOSTUMADOS A GANHAR NÃO.
O DESASTRE DE BRUMADINHO É UM MISTO DE MARIANA E AMAZÔNIA. MORRE GENTE TODOS OS DIAS, MUITO POUCAS PARA OS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO. HOJE BRUMADINHO PARECE UM SET DE UM FILME DE FICÇÃO. CHEGA DE PASSIVIDADE, PRECISAMOS DESCOBRIR O BRASIL. QUEM PERMITE QUE A VALE CONTINUE A DEVASTAR, MATAR E MALTRATAR? MULTAS NÃO TRAZEM VIDAS DE VOLTA NÃO. TEMOS QUE IR ATRÁS DOS IRRESPONSÁVEIS, QUE PERMITEM ESSA SAGA DE DESTRUIÇÃO. O PRESIDENTE DA VALE PEDIR DESCULPAS NÃO AJUDA NO SOFRIMENTO DAS PESSOAS NÃO.
BASTA DE VOOS DE HELICÓPTEROS, DE AUTORIDADES PASSEANDO EM CIMA DA DESTRUIÇÃO. SÃO ELAS QUE DÃO O AVAL PARA A CONTINUAÇÃO DESSA SANHA POR DINHEIRO. A NATUREZA HUMANA NÃO SUPORTA ISSO NÃO.
BASTA DE OLHARMOS INDIGNADOS AGORA E, DEPOIS DO ALMOÇO, DAQUI A UMA SEMANA, NÃO LEMBRARMOS DISSO NÃO. 
BASTA DE FICARMOS SENTADOS ESPERANDO TRAGÉDIAS NA FRENTE DA TEVÊ. BASTA SÓ FICAR NA INDIGNAÇÃO.

TUDO O QUE FOI DITO ATÉ AGORA NÃO PASSA DE FALÁCIA. DAQUI A MENOS DEDE TRÊS ANOS, VIVEREMOS MAIS ALGUNS DIAS DE INDIGNAÇÃO. E SÓ.

 

Esse texto foi escrito para quem não passou no vestibular

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Sensação indescritível.

Depois do desespero que sai pelos poros, provoca frio na barriga, secura na boca, coração disparado, medo, tremor, o mundo parece preso único segundo na ponta do dedo.

Quanto mais a unha desce, mais raspa a página ou a tela. Aquela pequena lista enorme. A danada cresce à medida que o dedo escorrega. Dedo que arrasta junto aquele suor frio. Fogo, fogaréu.

O nome parece se brincar de pique-esconde. De repente, não mais que de repente, pula nos olhos. Os olhos parecem se enganar. Emerge do desespero a descrença. Um beliscão faz acordar. É hora, então, de pular, berrar, abraçar, chorar, chupar o ar. A felicidade explode: Olha ele aqui!!!!".

Do nada, surge um bando de estilistas bêbados que transformam euforia em calça rasgada, em camisa furada. 

Vestibular é um ritual de passagem em que maquiadores enlouquecidos transformam cabelos em caminhos de ratos, caras e bocas, em máscara de palhaço.

É quando todo um jovem acha bonito ser feio, deixar de ser humano para virar BIXO, perde qualquer noção de realidade: abraçar o sonho, tornar-se dono do próprio destino.

E nada mais há a dizer. Palavras não traduzem a felicidade de passar, da sensação tão humana de vencer, a capacidade de fazer o destino acontecer. 

Mas, e os que não passaram. Sentem-se o verme preso na pata do cocô do cavalo do bandido. Difícil encarar o mundo com os olhos no horizonte. Parece que até o cachorrinho cobra a Vitória, quando olha. E quando alguém diz: "O filho do fulano passou". Um insensível sussurra: "E passou de primeira". E o vizinho: "Não passou? De novo?" É a morte encarnada. E quando o papai diz: "Papai se sacrifica mais um ano e investe em você. Vou te dar tudo o que você quiser, mas dessa vez tem que passar". Você não é um ser, é um investimento. Investimento tem que render. Daí vem a ansiedade, a depressão, os florais, o psicólogo...

Calma: o mundo é redondo, numa determinada hora você está por baixo, em outra está por cima. Calma: Só peru e chester morrem na véspera. Lembre-se do velho Guimarães Rosa: “Todo mundo tem a sua hora e a sua vez”. E a sua vai chegar. 

Crie uma estratégia diferente da do ano anterior. Escolha a faculdade, não deixe que ela o/a escolha. Faça sua decepção se tornar um fator a seu favor. Mesmo que não tenha estudado nada ou teve notas ridículas, de um ano para outro a escola muda, o vestibular muda e, principalmente, você muda. Seja um ser humano e não um mero vestibulando. Se você tem medo, já perdeu. Cursinho é o mal necessário. Mude sua rota se achar necessário ou fique na mesma se se sentir seguro(a). "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Força e foco.

PARABÉNS

A TODOS AQUELES QUE PASSARAM

ÀQUELES QUE FICARAM PERTO E ESTÃO NAS LISTAS

ÀQUELES QUE TENTARAM, MAS JAMAIS DESISTIRAM 

E ÀQUELES QUE NUNCA DESISTIRÃO.

INVENTÁRIO DE NÓS

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Pense:

Quantos amigos sinceros fez neste ano? Quantas pessoas verdadeiramente interessantes conheceu? Quantas obras de arte o embasbacaram? Em quais livros mergulhou sem escafandro? Quais músicas entraram pelos poros? Foi ao teatro? Quais as obras arquitetônicas parou para se deliciar com a visão? Para quais lugares valeu viajar? Quais museus frequentou? Quais certezas o levaram a caminhos, que considerou tortos? Quais incertezas o lavaram tomar decisões, consideradas tortas, das quais não se arrependeu? Quais mentiras indecentes esteve predisposto a contar? Em que mentiras indecentes esteve propenso a acreditar? De quantas pessoas, consideradas desinteressantes, fugiu? Quantas vezes se arrependeu? Quantas vezes valeu a pena parar para admirar uma obra arquitetônica? Quanto valor deu ao aprendizado da história? Quanto valor dá ao conhecer, ao invés de decorar? Estudou filosofia e sociologia? O quanto sobre gente aprendeu? Quantos abraços deu? Quantas pessoas empurrou para fora do seu convívio com uma mensagem de watsapp? Por quantas pessoas realmente se apaixonou? Quantas pessoas odiou? Quantas pessoas realmente admirou?
Nosso mundo capitalista é quantitativo, contabiliza até emoções e fantasias. Você se tornou qualitativo? O quanto de conformismo ainda carrega? Ainda é capaz de argumentar? Defendeu seus ideais sem achismos ou fanatismos? Defende alguma causa social? Defende alguma causa ambiental?
Se você contabilizou tudo isso teve uma vida sem graça. Emoções, sensações e ideais é impossível contabilizar. Se você consegue, não viveu. Foi nuvem que passou e não fez chover.

Contabilize:

Comprou um terreno? Uma casa? Um carro importado? Enfurnou-se em uma mansão em um luxuoso condomínio fechado? Adquiriu um luxuoso apartamento à beira mar? Adquiriu alguma fazenda? Entrou para o seleto clube da elite? Comeu nos melhores restaurantes sem precisar conferir a conta? Viajou para a Disney, porque esse era o seu único propósito para acumular? Realizou todos os seus sonhos de consumo? Deixou de ser mais um na multidão, agora é celebridade? Virou doutor, mesmo não tendo doutorado? Passou a ser reverenciado por um bando de puxa-sacos? Passou a ser agraciado com prêmios que precisa comprar para receber? Passou a ser chamado de pessoa bem sucedida e por isso estampa capas de revistas? Anda cercado de seguranças? O mundo capitalista exige o bolso e a consciência, você está disposto a entregar-se de corpo e sem alma? Você, em algum momento, parou para pensar, ou se deixou levar pela onda consumista? Sua maior terapia é comprar, inclusive pessoas? 
Para você, somos o que somos ou o que pagamos para ser? Quanto você vale? 
O mundo capitalista contabiliza o concreto, só por causa dele as pessoas creem no sucesso. 
Só por causa desse tipo de acumulação, o ano é considerado por nós um ano repleto de realizações.

Feliz vida, repleta de conquistas, desejo-lhe, paciente leitor.

Eta!Mundão sem porteira

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(O Boca do Inferno - preso no mata burro)

É filosofia do caboclo mineiro: Esse mundão então não tem porteira, não tem paredes, não tem cerca não. Ledo engano. A gente se engana. Gente se engana sempre. Talvez, inspirado nesta filosofia, Guimarães Rosa tenha escrito a magnitude explicativa enigmática “O sertão é o mundo”. Esse mundão em que, se eu me chamasse Raimundo, não seria nem rima, muito menos solução. 
Guimarães não se esqueceu das veredas desse grande sertão. Pôs nele Diógenes, discípulo do cão, e pôs Diadorim ora homem, ora mulher, os dois num só, o que desperta paixão. 
Riobaldo, protagonista das Veredas desse grande sertão, mundo cão, rabiscou: “As pessoas ainda não estão terminadas, afinam e desafinam”. Protagonistas de um duelo que por paixão começa, mas não termina não. Há crime, azar, medo, covardia, sina, epifania, não há compaixão.
Nesse mundão, todo mundo tem a sua hora e a sua vez e a sua vai chegar, né mesmo? Mesmo. A existência é epopeia: amor de um; desejo de outro; beleza na morte; tristeza na vida. Destino desatinado que não admite comiseração, mesmo que Augusto arrependido o mal traga. Morra Diadorim de bala e Riobaldo de recordação. Sempre haverá Veredas, encruzilhadas, um velho cego e um cão sarnento que teremos que abraçar ou abandonar, sempre haverá um Diadorim, que parece uma coisa e é tantas outras, cegueira ou visão ou demência ou ilusão ou tudo assim ou assim não. Mundão, quase humano, desumano, ilusório de Rodapião.
Jumento não é gente, não tem ilusão, nem paixão, por isso, na sua filosofia, para antes do mata burro, todo dia, pra não ficar preso, indefeso, não atravessa córrego que vira rio, que tem fome de vida, fome de gente, de corpo ainda quente, que tinha achava que tinha que resolver consigo algo tolo, que considerou urgente.
As pessoas, que nunca estarão terminadas, dão a volta no mata burro, abrem a porteira, pulam dentro do rio, a existência é extravio, dentro da corredeira, a vida é correria, se pudesse o tempo morderia e, com a juventude eterna ficaria. Gente não tem medo da vida não. Quer se terminar, atravessando de canoa, para no outro lado desembarcar e assim desembestar a se procurar, sem nunca se achar.
Esse mundão tem paredes que se vê e outras que estão escondidas num senão, tem cerca de arame farpado, o destino traçado. Isso é verdade como dois e dois são cinco, a curva é um vinco na filosofia de todo dia. Farpa entra na carne e dói que nem saudade. Quem passa por cima se arranha, quem se arrasta por baixo sai arranhado. Não tem fuga não, de vez em quando tem um tiquinho de felicidade.
Burro que não é burro não encosta em cerca em dia de chuva não. Raio é chicote que mata com chuva forte. Chuva engole os que sobram e os que soçobram, mesmo dentro da moradia, carrega no lombo o que queria e o que não queria. A morte também finca moradia. 
Boi bravo arrebenta cerca. Não tem medo. ou tem? Boi bandido não encosta na cerca quando a chuva vem. O raio é relho, farpa, marimbondo na ponta da vara, a vida encara, desmascara, desce no lombo, provocando tombo, fere, o destino digere, cria agonia. Raio relho não extravia. Boi bravo é pego e logo sacrificado. Boi esperto conhece de perto o dito popular "Na dificuldade, sapo aprende a pular", tanto que anda de um lado pra outro resignado. Anda, anda, sempre anda, para não engordar. Preferível rodar no mutirão ou ficar arrastando carroção. Morrer de velhice, comer sem virar comida, assim é a lida. Bois, que ficam juntos, morrem juntos, já foram engordados para engordar gente. Esse mundão tem paredes sim, tem porteiras sim e principalmente boca, boca de gente. Essa é a vereda de gado, sem escolha, sem paixão, esperando apenas a anunciação. Apenas um grito, um barrete, um porrete, sem perdão.
De dente em dente, o boi é triturado pela gente e, devagar o boi tritura gente também, mas gente não sabe disso não. Gente só quer se abastecer de morte para ficar vivo. Não importa a vivência, mesmo que desvivida. O mundo é toada, parece cantiga de ninar. Soa como canto de sereia em luar.
O dono da fazenda sabe como fazer tudo andar e tudo parar, ele tem a sela e o relho, o mata burro, a carroça, o carroção e o dinheiro que compra ilusão. Realmente “Viver é muito perigoso”. Né mesmo, Rodapião?

O bobo

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O BOBO

(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO - 27/07/2014 - dia do escritor)

Quando a escrita ainda garatuja pulava amarelinha brincava de polícia ladrão, a dona das verdades universais recitou pra molecada de cara borrada regras sobre como escrever bem. Até hoje não sei o que é isso também. Tolo, quis trancafiar Palavras entre a margem da folha e o ponto final. Elas se libertaram das algemas, fizeram da minha pretensão carnaval. Não se esqueceram de vomitar em cima de mim Palavra é ser camaleônico, pode escapar, pode fazer viver e/ou matar e/ou roubar.

Palavra ora tormenta, ora inventa, ora se reinventa, hora atormenta: língua solta, língua de trapo, língua de sogra, língua de sapo. Escrita, ela tem roupa cara de documento. Falada escapa pelos olhos foge como o vento espalha, cara de “invento”. Será palavra cachorro vira-latas, não aceita coleira, nem lei. Tempo morto, mofo Assinava-se com a mão, apagava-se com borracha, não com toque de botão.

Vírgula cria silêncio entre palavras. Interrogação cria o talvez, o sim, o não. Parênteses encarceram pensamentos. Aspas lhe dão status quo. Palavra faca cega, cega. Substantivos, adjetivos, preposições, verbos, conjunções, pronomes agarram-se, amarram-se, devoram-se, despem-se. Às vezes, soltam-se sem cadeias nem amarras.

Palavras têm olhos, pernas, fogem, abraçam, correm, comem, tramam, sem um por que rasga o indivíduo, o estilo. Meu corretor, não corrige, me dirige, não sabe nada de nada, não sabe de línguas nem que palavras bichos indomáveis. Por trás da máquina, há o homem programado, programador, errante, como errei ante o cânone, errei de proposto, errei para rimar. Há uma intenção. Ele não conhece suscetibilidades, subjetividades, sensibilidades. Aprendi a brincar com as palavras, errar de propósito. Sem submissão, com razão.

Tempo presente, digita-se com a ponta dos dedos, minha identidade é minha assinatura, não minha senha. Não tenho a soberba de declarar-me escritor, escrevinhador, poetador romanceador, seja lá o que for, numa civilização da dor: cultivador, semeador, elevador,

Palavras são escorregadias, aceitam bocas correntes, não aceitam correntes. Abraçam sem pudor, os complacentes, os coniventes, os dementes e os inocentes. Palavras são cavalos indomáveis. Não aceitam sela, nem cela. Tem um organismo libertador. Num dicionário, vestem-se de fraque. Fora dessas circunstâncias, podem ser comidas por traças, mergulham no mar, mesmo sem saber nadar.

​QUEM SE IMPORTA? LIVRARIAS fecham. BIBLIOTECAS vivem às moscas.

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Sofro de duas doenças incuráveis: saudosismo patético e indignação imbeciloide. Aposto na utopia, contudo enxergo a distopia. Tecnologia é bom e é ruim. Tecnologia é camaleão.

Quando os discos de vinil deram lugar aos toca-fitas, senti calafrios. A arte das encadernações fantásticas sumiu. Um idiota da praticidade me disse que era o progresso, assim preservaríamos melhor as florestas. Lojas e mais lojas faliram. Algumas, para sobreviver, incorporaram as batatas.

Quando os livros de papel deram lugar aos e-book, não são apenas as traças que perderam o emprego, os artistas das capas e encadernações também. Um idiota da praticidade me disse que assim preservaríamos melhor as florestas. Livrarias estão fechando e, muitas, para sobreviver, incorporam as batatas.

Quando as salas de cinema dos shoppings chegaram, os alicerces das salas urbanas tremeram. Com as plataformas streaming, ninguém mais precisa ir a lugar nenhum, para assistir a um filme. O eu sozinho matou o só na multidão. Algumas redes de tevê, para sobreviver, vendem batatas.

Quando uma livraria fecha, morremos um pouco mais. O antigo ocupa espaço e tem cheiro de calçamento. O novo desocupa o espaço e tem cheiro de asfalto. O fechamento deixa um vazio imenso, não só um buraco dentro de portas cerradas.
Quantas pessoas perderam seus empregos, por causa desse necessário progresso? Quantos milhares de salários deixaram de ser pagos? Quantos deixaram de girar a roda da vida? Progredir dói. Pessoas são capazes de matar por batatas.

As bibliotecas também estão às moscas e, daqui a pouco, perderão o sentido, tanto quanto as cartas, a escrita cursiva (nossa identidade), as notas, os nomes de ruas, praças e avenidas (a identidade da nação). A digitação, o cartão de crédito, o spotfy, o e-mail são como plásticos cheios de bolhas: é uma delícia estourar cada uma. Há ar comprimido apenas. Estão aí para também não ficarem.

Somos um país em que não se lê quase nada e livro é caro. A elite prefere comprar uma calça jeans. Coitada! Ela crê que se lê um livro apenas uma única vez. No mundo da palavra, não as incorporamos, simplesmente porque não as conhecemos. Obrigar alunos a lerem livros para fazer provas é usar a literatura como instrumento de tortura. Escolas, professores e bancas examinadoras são co-responsáveis pela falência do ensino e das livrarias e pelas baratas nas bibliotecas.

Há momentos em que o passado dói como uma ferpa enfiada no dedo. Desculpem: hoje se usa MDF, granito, azulejo e madeira tratada. Não há mais lugar nem para ferpas, nem para para a saudade patética, só para as florestas destruídas e as batatas.

100 anos da vírgula

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*100 anos da vírgula*

Campanha dos 100 anos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa)!

*A vírgula pode ser uma pausa... ou não:*
Não, espere.
Não espere.

*Ela pode sumir com seu dinheiro:*
R$ 23,4.
R$ 2,34.

*Pode criar heróis:*
Isso só, ele resolve! 
Isso, só ele resolve!

*Ela pode ser a solução:*
Vamos perder, nada foi resolvido! 
Vamos perder nada, foi resolvido!

*A vírgula muda uma opinião:*
Não queremos saber! 
Não, queremos saber!

*A vírgula pode condenar ou salvar:*
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

*Uma vírgula muda tudo!*

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Considerações adicionais:

*SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA*.

* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de *MULHER*.

* Se você for homem, colocou a vírgula depois de *TEM*.

​A palavra enlouquece

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(Autor desconhecido para mim, mas texto que merece ser publicado)

Português é uma das línguas mais difíceis do mundo.
Meia, Meia, Meia, Meia ou Meia?
Na recepção do salão de convenções, Fortaleza:
- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição no Congresso.
- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.
- Da África, né?
- Sim, sim, da África.
- Pronto, tem palestra agora na sala meia oito.
- Desculpe, qual sala?
- Meia oito.
- Podes escrever?
- Sessenta e oito, assim, veja: 68.
- Entendi, meia é seis.
- Isso mesmo, meia é seis. Mas, não vá embora, só mais uma informação: A organização cobra uma pequena taxa se quiser ficar com o material. Quer encomendar?
- Quanto pago?
- Dez reais. Mas, estrangeiros e estudantes pagam meia.
- Hmmm! que bom. Aqui está: seis reais.
- Não, não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
- Pago meia? Cinco? Meia é cinco?
- Isso, meia é cinco.
- Tá bom, meia é cinco.
- Não se atrase, a palestra é às 9 e meia.
- Então, já começou há quinze minutos. São nove e vinte.
- Não, não, ainda faltam dez minutos. Só começa às 9 e meia.
- Pensei que fosse às 9:05, pois meia não é cinco? Pode escrever a hora que começa?- 9 e meia, assim, veja: 9:30
- Entendi, meia é trinta.
- Isso, 9:30... Mais uma coisa, aqui o folder de um hotel com preço especial para congressista... Já está hospedado?
- Sim, na casa de amigos.
- Em que bairro?
- No Trinta Bocas.
- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?
- Isso mesmo, no bairro Meia Boca.
- O bairro não é meia boca, é um bairro nobre.
- Então deve ser cinco bocas.
- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim por causa do encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
- Acabou?
- Não, senhor... é proibido entrar de sandálias. Coloque uma meia e um sapato...
O africano infartou!

​HOMÚNCULO

(O BOCA DO INFERNO – qualquer semelhança com seres reais, não é mera coincidência)

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A arma de um homenzinho é a caneta, a desmemória proposital é o corretivo ortográfico. O fim da linha é a margem da página e não a desonra em praça pública. Não conhece honra. Nunca conheceu: “Os inimigos de hoje são os correligionários de amanhã”. A arma de um antropoide é a deshistória, a mentirada descaradamente desmentida. A mentira encarnada, o povo descarnado já a tem, por mais que proteste. A raia miúda rosna, mas não morde, segundo sua desfilosofia. Celebra a ignorância do povaréu: aquele populacho que vende a própria carne por um punhado de promessas infactíveis e, época de pleito. 

O povo, o povinho, o povaréu, o populacho, a ralé, a raia miúda, esse ser “estranhamente concreto”, ao qual se refere, como se dele estivesse acima. Insuspeito ser acima de tudo, inclusive do reles seu penteado. Não era povo, nunca foi, esteve sempre à margem daquela coisa fedorenta. Fingia estar sempre apiedado da fome de justiça social. Bradava com a fleuma de Antônio Conselheiro para a patuleia ensandecida que queria apeá-lo do “pudê”. Sabia que grãos de milho contentaria a fome de um dia, então ser esdrúxulo volta para casa esperando a próxima esmola.

Sentia-se um quiromante. Falava em nome desse ser concretamente abstrato, como um crente fala de Deus: aquela intimidade desmedida.

A mulher de curvas sólidas o chamava de benzinho; a filha, cara pálida, o chamava de paizinho; a mãe: uma para ele, outra para os outros, como a de um juiz de futebol, de pluft. O ser por quem falava, o elogiava com palavras não muito elogiosas: golpista! Filho da puta! Safado! E por aí vai.

Como Pluft, sempre se moveu sem ser notado, conhecia os caminhos e descaminhos do poder. O modo mais seguro de consegui-lo, era empurrar o cotonete ao limite do razoável no ouvido do correligionário e depois retirá-lo devagar até que o dito gemesse. Era o seu orgasmo. Sem a cera, outro saberia quem mandava, quem seria o corrompido e o corruptor. Masturbava-se depois. Nunca ninguém o notava, era onipresente, onipotente, onisciente; ora adentrava o ânus de um; ora abocanhava o pênis de outro; ora perpetrava seus desideaisno discurso de um; ora empurrava palavras nos ouvidos de outro.  

Ele, por baixo dos ralos cabelos brancos, cria no “Benzinho” não muito bem, apesar dos seus bens. Era o máximo que podia suportar da mulher: “benzinho o arrepiava”. Amor desinteressado, iludia-se mergulhado nas rugas que sobraram depois da último aplicação do botox. Gestos calculadamente cronometrados, embonecados. Parecia estar eternamente sentado no colo de um ventríloquo, mas era o contrário. Seu negócio era negociar. E como comprava...! Como vendia...! Como desavergonhadamente se vendia...! Sempre descumpria o que descumprira através dos anos, dos ânus, amém. Era seu próprio deus e a manipulação de sua única religião. 

Recebeu vários apelidos: Garção de filmes de terror; Drácula; Pinóquio; Corleone. Mas, gostava de um em especial: Ghost.  Sentia-se seu gostwritter. Discursava sobre o tema no qual não acreditava. Discursava um discurso que não era dele entre dentes, mas imposto pelas circunstâncias. Sabia jogar o jogo. Mamando sangue, sabia que o “dele” estava retirando da ponta da linha reta. Devagar, empurrava o outro em direção abismo: sarcasticamente, oferecia o paraquedas e também o veneno, caso o outro preferisse o suicídio, à procuração. Gritava: “Dê-me a procuração. Berrava pra dentro. Esquecia o perdigoto”.

Seus sapatos 35 o levaram muito mais longe do que jamais poderia imaginar: ao seu plano alto, gabava-se, escondido atrás das pilastras e dos vidros pretos da Limosine. Para realizá-lo, propôs-se a ser pernilongo e não raquete, pera e não vidraça, mosquito, mas não merda. Chupou sangue contaminado, até enfraquecer o arrogante incauto. Passadas matemáticas à espera de que raízes, enfim, brotassem sob seus pesinhos de gueixa, mas elas insistiam em continuar sementes. E balançou, sem crer que jamais crer na queda. Sempre esteve indeciso entre o “Outono do patriarca” e “1984”. Não criou raízes, como o patriarca; nem seria o “Grande irmão”, sabia. Mas, quem sabe o pequeno irmão? Ou o irmão adotado pela imbecil arrogante.

Media as palavras, compassava-as com régua, sempre solenes, até quando dizia: “Preciso, deveras, de um penico”. Contido, dardejava palavras, aprisionava os plurais exatamente, jamais duvidava da concordância delas com o sujeito, preferia as palavras proparoxítonas, os superlativos, os verbos no imperativo, as mesóclises, os poemas parnasianos em dodecassílabos (mais perfeitos que a perfeição), amava os sonetos fechados com chave de ouro... Ouro...!

O nariz adunco superava o queixo altivo. Ora parecia águia, ora rato, nunca papagaio. Seus dedos pequenos executavam poemas e pessoas a bordo da tinta preta da caneta ambicionada. Não se podia dizer que vivia escondido nas sombras, a sua era pequena demais para existir. Exímio constitucionalista, traía a constituição, como se trai a mulher desamada, desalmada. Era sua bíblia, mas também seu índex.

Exímio manipulador, acabou encarcerado pela ambição. Esqueceu-se de um de seus princípios básicos: nunca colocar a bunda na janela. Minotauro, acabou “General no seu labirinto”.

Homenzinho, zinho, inho. Não era um monstro como se pode imaginar, já ultrapassara essa barreira. Amava, incondicionalmente, cobras e estrelas. Mas, não amava pessoas, elas eram apenas objetos de decoração.

Não há mais nada a dizer. A história dirá. E se sela o reduzir ao seu tamanho?