​QUEM SE IMPORTA? LIVRARIAS fecham. BIBLIOTECAS vivem às moscas.

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Sofro de duas doenças incuráveis: saudosismo patético e indignação imbeciloide. Aposto na utopia, contudo enxergo a distopia. Tecnologia é bom e é ruim. Tecnologia é camaleão.

Quando os discos de vinil deram lugar aos toca-fitas, senti calafrios. A arte das encadernações fantásticas sumiu. Um idiota da praticidade me disse que era o progresso, assim preservaríamos melhor as florestas. Lojas e mais lojas faliram. Algumas, para sobreviver, incorporaram as batatas.

Quando os livros de papel deram lugar aos e-book, não são apenas as traças que perderam o emprego, os artistas das capas e encadernações também. Um idiota da praticidade me disse que assim preservaríamos melhor as florestas. Livrarias estão fechando e, muitas, para sobreviver, incorporam as batatas.

Quando as salas de cinema dos shoppings chegaram, os alicerces das salas urbanas tremeram. Com as plataformas streaming, ninguém mais precisa ir a lugar nenhum, para assistir a um filme. O eu sozinho matou o só na multidão. Algumas redes de tevê, para sobreviver, vendem batatas.

Quando uma livraria fecha, morremos um pouco mais. O antigo ocupa espaço e tem cheiro de calçamento. O novo desocupa o espaço e tem cheiro de asfalto. O fechamento deixa um vazio imenso, não só um buraco dentro de portas cerradas.
Quantas pessoas perderam seus empregos, por causa desse necessário progresso? Quantos milhares de salários deixaram de ser pagos? Quantos deixaram de girar a roda da vida? Progredir dói. Pessoas são capazes de matar por batatas.

As bibliotecas também estão às moscas e, daqui a pouco, perderão o sentido, tanto quanto as cartas, a escrita cursiva (nossa identidade), as notas, os nomes de ruas, praças e avenidas (a identidade da nação). A digitação, o cartão de crédito, o spotfy, o e-mail são como plásticos cheios de bolhas: é uma delícia estourar cada uma. Há ar comprimido apenas. Estão aí para também não ficarem.

Somos um país em que não se lê quase nada e livro é caro. A elite prefere comprar uma calça jeans. Coitada! Ela crê que se lê um livro apenas uma única vez. No mundo da palavra, não as incorporamos, simplesmente porque não as conhecemos. Obrigar alunos a lerem livros para fazer provas é usar a literatura como instrumento de tortura. Escolas, professores e bancas examinadoras são co-responsáveis pela falência do ensino e das livrarias e pelas baratas nas bibliotecas.

Há momentos em que o passado dói como uma ferpa enfiada no dedo. Desculpem: hoje se usa MDF, granito, azulejo e madeira tratada. Não há mais lugar nem para ferpas, nem para para a saudade patética, só para as florestas destruídas e as batatas.

100 anos da vírgula

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*100 anos da vírgula*

Campanha dos 100 anos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa)!

*A vírgula pode ser uma pausa... ou não:*
Não, espere.
Não espere.

*Ela pode sumir com seu dinheiro:*
R$ 23,4.
R$ 2,34.

*Pode criar heróis:*
Isso só, ele resolve! 
Isso, só ele resolve!

*Ela pode ser a solução:*
Vamos perder, nada foi resolvido! 
Vamos perder nada, foi resolvido!

*A vírgula muda uma opinião:*
Não queremos saber! 
Não, queremos saber!

*A vírgula pode condenar ou salvar:*
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

*Uma vírgula muda tudo!*

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Considerações adicionais:

*SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA*.

* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de *MULHER*.

* Se você for homem, colocou a vírgula depois de *TEM*.

​A palavra enlouquece

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(Autor desconhecido para mim, mas texto que merece ser publicado)

Português é uma das línguas mais difíceis do mundo.
Meia, Meia, Meia, Meia ou Meia?
Na recepção do salão de convenções, Fortaleza:
- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição no Congresso.
- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.
- Da África, né?
- Sim, sim, da África.
- Pronto, tem palestra agora na sala meia oito.
- Desculpe, qual sala?
- Meia oito.
- Podes escrever?
- Sessenta e oito, assim, veja: 68.
- Entendi, meia é seis.
- Isso mesmo, meia é seis. Mas, não vá embora, só mais uma informação: A organização cobra uma pequena taxa se quiser ficar com o material. Quer encomendar?
- Quanto pago?
- Dez reais. Mas, estrangeiros e estudantes pagam meia.
- Hmmm! que bom. Aqui está: seis reais.
- Não, não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
- Pago meia? Cinco? Meia é cinco?
- Isso, meia é cinco.
- Tá bom, meia é cinco.
- Não se atrase, a palestra é às 9 e meia.
- Então, já começou há quinze minutos. São nove e vinte.
- Não, não, ainda faltam dez minutos. Só começa às 9 e meia.
- Pensei que fosse às 9:05, pois meia não é cinco? Pode escrever a hora que começa?- 9 e meia, assim, veja: 9:30
- Entendi, meia é trinta.
- Isso, 9:30... Mais uma coisa, aqui o folder de um hotel com preço especial para congressista... Já está hospedado?
- Sim, na casa de amigos.
- Em que bairro?
- No Trinta Bocas.
- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?
- Isso mesmo, no bairro Meia Boca.
- O bairro não é meia boca, é um bairro nobre.
- Então deve ser cinco bocas.
- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim por causa do encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
- Acabou?
- Não, senhor... é proibido entrar de sandálias. Coloque uma meia e um sapato...
O africano infartou!

​HOMÚNCULO

(O BOCA DO INFERNO – qualquer semelhança com seres reais, não é mera coincidência)

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A arma de um homenzinho é a caneta, a desmemória proposital é o corretivo ortográfico. O fim da linha é a margem da página e não a desonra em praça pública. Não conhece honra. Nunca conheceu: “Os inimigos de hoje são os correligionários de amanhã”. A arma de um antropoide é a deshistória, a mentirada descaradamente desmentida. A mentira encarnada, o povo descarnado já a tem, por mais que proteste. A raia miúda rosna, mas não morde, segundo sua desfilosofia. Celebra a ignorância do povaréu: aquele populacho que vende a própria carne por um punhado de promessas infactíveis e, época de pleito. 

O povo, o povinho, o povaréu, o populacho, a ralé, a raia miúda, esse ser “estranhamente concreto”, ao qual se refere, como se dele estivesse acima. Insuspeito ser acima de tudo, inclusive do reles seu penteado. Não era povo, nunca foi, esteve sempre à margem daquela coisa fedorenta. Fingia estar sempre apiedado da fome de justiça social. Bradava com a fleuma de Antônio Conselheiro para a patuleia ensandecida que queria apeá-lo do “pudê”. Sabia que grãos de milho contentaria a fome de um dia, então ser esdrúxulo volta para casa esperando a próxima esmola.

Sentia-se um quiromante. Falava em nome desse ser concretamente abstrato, como um crente fala de Deus: aquela intimidade desmedida.

A mulher de curvas sólidas o chamava de benzinho; a filha, cara pálida, o chamava de paizinho; a mãe: uma para ele, outra para os outros, como a de um juiz de futebol, de pluft. O ser por quem falava, o elogiava com palavras não muito elogiosas: golpista! Filho da puta! Safado! E por aí vai.

Como Pluft, sempre se moveu sem ser notado, conhecia os caminhos e descaminhos do poder. O modo mais seguro de consegui-lo, era empurrar o cotonete ao limite do razoável no ouvido do correligionário e depois retirá-lo devagar até que o dito gemesse. Era o seu orgasmo. Sem a cera, outro saberia quem mandava, quem seria o corrompido e o corruptor. Masturbava-se depois. Nunca ninguém o notava, era onipresente, onipotente, onisciente; ora adentrava o ânus de um; ora abocanhava o pênis de outro; ora perpetrava seus desideaisno discurso de um; ora empurrava palavras nos ouvidos de outro.  

Ele, por baixo dos ralos cabelos brancos, cria no “Benzinho” não muito bem, apesar dos seus bens. Era o máximo que podia suportar da mulher: “benzinho o arrepiava”. Amor desinteressado, iludia-se mergulhado nas rugas que sobraram depois da último aplicação do botox. Gestos calculadamente cronometrados, embonecados. Parecia estar eternamente sentado no colo de um ventríloquo, mas era o contrário. Seu negócio era negociar. E como comprava...! Como vendia...! Como desavergonhadamente se vendia...! Sempre descumpria o que descumprira através dos anos, dos ânus, amém. Era seu próprio deus e a manipulação de sua única religião. 

Recebeu vários apelidos: Garção de filmes de terror; Drácula; Pinóquio; Corleone. Mas, gostava de um em especial: Ghost.  Sentia-se seu gostwritter. Discursava sobre o tema no qual não acreditava. Discursava um discurso que não era dele entre dentes, mas imposto pelas circunstâncias. Sabia jogar o jogo. Mamando sangue, sabia que o “dele” estava retirando da ponta da linha reta. Devagar, empurrava o outro em direção abismo: sarcasticamente, oferecia o paraquedas e também o veneno, caso o outro preferisse o suicídio, à procuração. Gritava: “Dê-me a procuração. Berrava pra dentro. Esquecia o perdigoto”.

Seus sapatos 35 o levaram muito mais longe do que jamais poderia imaginar: ao seu plano alto, gabava-se, escondido atrás das pilastras e dos vidros pretos da Limosine. Para realizá-lo, propôs-se a ser pernilongo e não raquete, pera e não vidraça, mosquito, mas não merda. Chupou sangue contaminado, até enfraquecer o arrogante incauto. Passadas matemáticas à espera de que raízes, enfim, brotassem sob seus pesinhos de gueixa, mas elas insistiam em continuar sementes. E balançou, sem crer que jamais crer na queda. Sempre esteve indeciso entre o “Outono do patriarca” e “1984”. Não criou raízes, como o patriarca; nem seria o “Grande irmão”, sabia. Mas, quem sabe o pequeno irmão? Ou o irmão adotado pela imbecil arrogante.

Media as palavras, compassava-as com régua, sempre solenes, até quando dizia: “Preciso, deveras, de um penico”. Contido, dardejava palavras, aprisionava os plurais exatamente, jamais duvidava da concordância delas com o sujeito, preferia as palavras proparoxítonas, os superlativos, os verbos no imperativo, as mesóclises, os poemas parnasianos em dodecassílabos (mais perfeitos que a perfeição), amava os sonetos fechados com chave de ouro... Ouro...!

O nariz adunco superava o queixo altivo. Ora parecia águia, ora rato, nunca papagaio. Seus dedos pequenos executavam poemas e pessoas a bordo da tinta preta da caneta ambicionada. Não se podia dizer que vivia escondido nas sombras, a sua era pequena demais para existir. Exímio constitucionalista, traía a constituição, como se trai a mulher desamada, desalmada. Era sua bíblia, mas também seu índex.

Exímio manipulador, acabou encarcerado pela ambição. Esqueceu-se de um de seus princípios básicos: nunca colocar a bunda na janela. Minotauro, acabou “General no seu labirinto”.

Homenzinho, zinho, inho. Não era um monstro como se pode imaginar, já ultrapassara essa barreira. Amava, incondicionalmente, cobras e estrelas. Mas, não amava pessoas, elas eram apenas objetos de decoração.

Não há mais nada a dizer. A história dirá. E se sela o reduzir ao seu tamanho?

​COMO FAREMOS PARA MUDAR ISSO

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(O BOCA DO INFERNO - NO DIA DA DESRAZÃO)

As coisas não estão encaminhadas, crianças caminham desnorteadas, rotas, desagregadas, sem futuro, nem comunhão.
O mundo nunca foi melhor e nem pior. O mundo tem a idade de cada história. Cada um de nós é a sua própria história.
Não somos apenas roupa rasgada e ideias na cabeça: não somos apenas canções ou bordões. Não precisamos de remendos nem costura. Não somos Frankenstein. Somos o presente. Ignóbil, sorridente, indecente. Somos o presente demente, histérico, imediatista, suicida.
Somos objetos para todo tipo de penduricalhos sim. Somos consumidores consumíveis sim. Somos o objeto do desejo sim. Somos o objeto que deseja sim. Somos o objeto.
Precisamos de mãos, olhos, ouvidos, boca e cérebro. Precisamos da palavra que não computa a dor, que não eleva dor, não acende a dor.
Precisamos mudar esse estado de coisas, esse estado e essas coisas: buracos na nossa percepção, mentiras dentro da nossa percepção, buracos, roubos para a nossa percepção, buracos, buracos e mais buracos e muito fedor. Há bandidos de gravata, tumor, câncer. Cansamos de ser? Cansamos de ter um dedo que ruma estirado, traído rumo à urna, rumo à tumba por quatro anos. Sofremos de Alzheimer político, de miopia politica, Sofremos. Não vamos omissos a bordo de um dedo às urnas? Nem vamos? Todos são o mesmo?
Ninguém nasce para ficar pequeno, nascemos para nos mudar, nos desfrutar, nos encontrar nas passeatas, nas praças, nas ruas, nas esquinas. Nascemos para querer, para pegar, para transformar, senão quem seremos?
Todo mundo nasce para tirar o lombo da chibata, não para presentear, com sua apatia, o feitor. Estamos com o lombo presente. Presente para o torturador. E reclamamos de que? Recusamo-nos a dar um passo à frente. Como sempre. Como nunca. Como quem não come.
O efeito dor está aí, temos que sair debaixo da toga dos desgraçados, dos que nos mandam respirar, calar, murmurar. Dos que querem nos subjugar. Dos que cobram dos outros a ética. Estética da qual sempre lançam mão por mau caratismo, por cacoete.

Como faremos para mudar isso?

É mentira: o nosso sol não brilha, nem brilhará um dia se você não acender a luz do seu quarto, do seu querer, da sua visão, da sua consciência, senão virará animal adestrado, objeto de consumo, produto de marketing..
Suas mãos viram a chave, abrem a porta, acendem a luz, suas ideias, suas utopias, suas epopeias. Suas mãos são suas, mas são guiadas, teleguiadas, armadas: morte do raciocínio, apenas rabiscos, garatujas.
Arme um idiota e ele destrói um mundo, usurpa um pensamento, enclausurada o que o desmascara, finge ser dono da moral e os bons costumes, seja lá o que isso signifique. Não estão nem aí para os seus filhos. Veem coerência nos incoerentes.
Arme um cretino e ele abraça outro fanático, constrói uma seita. Toda seita não aceita o seu contrário, o seu oposto. Simples assim. Lema: matar para justiçar.
Arme um energúmeno e ele mata garotos a esmo na escola. Mata a professora. O alfabeto, o analfabeto, o futuro na sua desrazão, mas reivindica suas razões, sua sde de vingança contra a sociedade, ouvindo vozes, vítimas suspeitas de bulliyng, maus tratos, solidão, pecado.
Ponha uma arma nas mãos de um cidadão de bem (?): se ele segurá-la, fuja. Ele não lhe quer tão bem assim. Mata o que crê inútil, fútil. Mata com sua viseira. Tem certeza nas suas incertezas. Não pensa nos próprios filhos nascendo na violência.

Como faremos para mudar isso?

Precisamos de adubos: precisamos de novas roupas coloridas, urgentemente de novos poemas, novas ideias, novas canções.
Nossos jovens estão monossilábicos, em que gaveta guardam o grito, lhes ensinamos o mutismo. Eles aprenderam rápido. Suicidam-se no silêncio, com silenciador e sua dor.
Nossos jovens sobreviventes preferem a disciplina à revolução, morreu a crença, agoniza o ideal, a fantasia. Cresce a mentira. Eles engolem. Mais fácil. Não há atitude a tomar, é só empacar. Como um jumento diante do córrego.

Como faremos para mudar isso?

É mentira, a ameaça de uma tempestade destruidora. A tempestade já está aqui há muito. A tempestade é a arma: ela afoga, através do discurso torto, da bala perdida com endereço certo, do assassinato do opositor que acha que sabe nadar. Ela afoga a poesia, a mudança. Ela quer destruir o que está, para nos presentear com o passado.
A chuva molha todo mundo, até quem acha que o guarda-chuva lhe protege. Não há inocentes numa dita chuva. A chuva de vento começa pelas pernas, chega à cabeça com o vírus, as secreções e a febre. Não há inocentes, dita a chuva. A chuva adoece o corpo e a alma. A chuva impede a luta. Aliena. É preciso pisar no barro. Afogar-se na lama, virar esterco. Como quem quer uma ditadura, se já vive sob ela? Como uma pessoa exige uma doença degenerativa? Bata no seu filho e atente para o monstro que criará?
Onde nossos jovens guardaram seus ideais, suas palavras de ordem, seu canto de guerra? Não pensam, não sabem da força da palavra, preferem o mutismo da vaca de presépio. Do não é comigo. Da brincadeira de cabra cega. 
Precisam ser ensinados, não doutrinados. Educação ou condução?

Então, como faremos para mudar isso?

É mentira do seu avô, no tempo dele nada era melhor: o passado está morto, mas não enterrado. É cadáver insepulto para culto dos saudosistas renitentes, a inflamação dos que não sabem e ódio dos motores, motores impulsionam para frente. 
Nossa estrada tem muitas curvas, curvas são necessárias para chegar às retas e as retas para chegar às curvas, como a mulher grávida que traz dentro de si sua continuação.
As coisas não estão encaminhadas, caminham, crianças precisam ser educadas, os velhos de velhas ideias precisam de empurrões.
O cotidiano cheira a merda nas páginas e nas telas e nas bocas. Insatisfação é bom. É o germe da ambição, o adubo da revolução.
Dente cariado precisa doer para ser tratado.
Há muitos traficantes e passantes; há bocas de lobo protegidas por dentes de ferro no passeio. Estão ali para machucarem saltos distraídos, romper tendões, ligamentos.
Há muita porrada a torto e a direito, os altos saltos agulha fingem não ver, é mais cômodo contornar a boca, já que lobos escondem a merda no submundo.
Dominar os ignorantes é torpe. Desapropriar a própria ignorância é distopia. Desabrigar a própria consciência virou mania.

Assim, como faremos para mudar isso?

Liberdade não existe, é mentira mal empregada, outrora desempregada, inventada para entreter quem se fartará com a revolução. Quem se infectará com a regressão.
Liberdade é como privacidade, cada um tem a ilusão de conseguir a sua.
Liberdade não é disciplina, é desrazão, é muro, é condução.
Como se faz para ascender a chama de quem não quer lutar, nunca soube idealizar, nunca soube o que é pensar? Sabe tão somente decorar.
A chama chama. Chama por uma utopia. Mas, não chama o ascendedor.

​MAIO, O MÊS DO DESMAIO

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Caro VESTIBULANDO, já escrevi e falei tanto sobre isso que pensei em não fazê-lo de novo. Porém, como sou um educador e ensinar significa repetir, então escreverei e falarei de novo, de novo, de novo, tantas vezes quantas forem necessárias, para ver se consigo tapar esse buraco.

Cuidado com o mês de maio, ele é um grande divisor de águas, pode ser o responsável pela sua vitória, mas também pela sua derrota. Por quê? Porque, se você resolver "chutar o pau da barraca" agora, arrumando todo tipo de desculpas para não fazer o que tem que fazer, pode começar a pensar no melhor cursinho para o próximo ano.

Se você acha que o capítulo de hoje de "Malhação" é imperdível, abandona os cursos e aulas de apoio que iniciou, porque não dá conta. Arruma defeitos em aulas e professores só para justificar o motivo pelos atrasos constantes e a "matação" indiscriminada das aulas. Se você vai a todas as festinhas e filmes durante a semana. Se você faz cara de tédio e alega estresse para não fazer nada, alguma coisa está errada. E muito!!! "Sua vaga subiu no telhado".

É um erro acreditar que a sua vaga em uma faculdade se decidirá em uma “aula dica" no final do ano ou nas vésperas da prova. Na verdade, ela se decide muito antes, desde o momento em que sua família escolhe a escola em que você irá estudar. Quando pais e filhos traçam um projeto de vida juntos. Quando há comprometimento de ambas as partes com esse projeto de vida. Passar ou não nos exames é outra coisa, depende de uma série de fatores. Saber a matéria é apenas um deles, mas isso fica para um próximo texto.

O que o mês de maio tem de tão especial? Fácil. Ele é o mês da rotina. Não há mais novidade alguma, pois o vestibular, a cada dia, ganha traços muito mais definidos e repetitivos. As piadinhas dos professores começaram a perder a graça, os companheiros de sala de aula já se dividiram nas famosas panelinhas e os simulados viraram um pesadelo de quase todo final de semana. Sua vida se resume em aula: ou você está numa aula ou indo para uma ou voltando de uma ou se preparando para uma ou até mesmo sonhando com uma.

As cobranças familiares arrefeceram, as das escolas aumentaram, passaram a bater nos mesmos assuntos "chatos" que ninguém "aguenta" mais. A cada discurso em que o professor "cobra" mais estudo e o coordenador desanca os "coçadores", as próprias cobranças começam a ganhar contornos de filme de terror.

Se você adiar tudo para as férias, esqueça. Ninguém estuda nas férias. Observe: muitos dos seus concorrentes se matriculam em cursos de apoio em maio ou procuram professores particulares. Por quê? Porque a rotina já lhes ensinou a procurar meios de fortalecer as partes em que estão fracos, senão ficarão pelo caminho. Os ditos "vagais" agarram-se às desculpas para ficarem livres das cobranças. Se você se dói diante de qualquer cobrança, confundindo com esperto”, está na hora de rever conceitos, ou seja, precisa começar a se preocupar em fazer uma atividade física, reservar uma parte do final de semana para você. Se você chora até em comercial de margarina, precisa de ajuda especializada. Você tem que se ver como um ser humano, não apenas como vestibulando, senão os cursinhos agradecem.


Um dia já foi maíte

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​Agora virou abrilite, sintomas da vestibulite

Chilique” de vestibulando em maio sempre foi “normal”. A rotina atropelava. Era o momento dos olhares perdidos, quartos trancados, longas conversas com o travesseiro, longos desabafos com os professores e amigos, irritação até com a respiração dos pais, choro até em propaganda de margarina. Bom dia, diz a mãe preocupada com as “pirações” do filho(a). Papo reto: “Só se for para vocêeeee”. Em seguida, o desabamento: “Não aguento maissssss”. Eram os sintomas da “maíte”, que agora virou “abrilite”. Antecipamos as crises existenciais adolescentes. Em janeiro, já começa a vestibulite: “Topo qualquer faculdade. Qualquer uma”.

Extremos: balada, namorada(o) x noite acordado(a), desesperado. “Chuto o balde e espero o milagre ou me mato de estudar e espero o milagre”. O “cara do” lado é muito melhor que eu. Minha nota caiu no primeiro simulado: não vou passar. Isso em abril. “Vou fazer dez vestibulares, para não fazer cursinho”. Isso já em abril.

Muitas escolas abriam turmas em maio. Havia o fenômeno: muitos alunos descobriam que era possível deixar de namorar a vaga na universidade e se casar com ela. Outros, sem explicação plausível, rompiam o relacionamento. As escolas não abrem mais. Era inimaginável uma crise existencial já em abril. É verdade que o relacionamento com a vaga era estilo montanha russa. Há alguns anos, o sonho era casar com as universidades públicas; agora não, agora topam o vale tudo, até entrar na faculdade da esquina, o negócio é ser universiotário. Haverá em maio vestibular em um “montão” delas. Resultado: a “maíte” dançou, virou abrilite.

As crises existenciais causadas pelo “imediatismo” trazem consigo excesso de café. Vestibulando confunde ficar acordado com estudar, apostila com bíblia, aula com reza. Único assunto: neste ano, acho que não vai dar. Parece participante do BBB. O único assunto é: “Quem vai para o paredão”. O resultado ruim no simulado dispara o gatilho: “Fui mal, desisto”. Isso em abril.

Ansiedade, depressão, desespero, medo, desânimo, frustração, olhares perdidos. Psicólogos, psicopedagogos e psiquiatras nunca tiveram tantos jovens nos seus consultórios. Há um mês, durante a Oficina do Pensamento, no Criar, uma aluna expôs sua condição de vestibulanda: aos 16 anos, trazia consigo a problemática de uma senhora de 40, com cinco filhos e dois empregos para sustentar a casa, tal a pressão e responsabilidade que colocou sobre seus ombros. Eu e o psicólogo, mesmo acostumados com comportamentos de vestibulandos, saímos assombrados. O que nós, pais e mestres, estamos fazendo? Estamos criando a juventude mais velha da história, a mais doente: a geração Rivotril? Ou a turbinada, à espera de um milagre: a geração Conserta, Ritalina? Ou a conectada, desconectada: um caminhão de informações e nenhuma capacidade de decodificação?

O papa Bento XVI falou sobre a realidade da universidade “utilitarista”. Quem pode contestá-lo depois das evidências? Alunos do quarto ano da medicina da USP tentaram o suicídio e dois de universidades particulares conseguiram. A USP até criou o movimento #DAUSPRACASA (sobre o qual já escrevi).Quem pode contestar a realidade: a escola de informação matando a escola de formação? O ENEM encaixotando a criatividade em nome de um modelo? Um aluno, no terceiro colegial, não conseguir escrever um texto, em 30 linhas, na sua língua natal? Já em abril, acha que não conseguirá. Refaz provas de anos anteriores para saber como a banca examinadora se comporta, porque, de um ano para outro, a universidade não cria nada de novo. O negócio é manter o negócio. Um vestibular a cada trimestre. Resultado: vestibulite.

Outro dia ouvi uma frase absurda dita com seriedade por um aluno frustrado. A “educadora” disse em sala de aula: “Vá lá aprender a escrever e volte aqui que eu te passo no vestibular”. Pergunte a um aluno se ele tem uma estratégia para estudar, se pensa em si como um ser humano e não como um simples vestibulando. Pergunte se um dia pensou que, se não estuda agora e não aguenta a pressão, se terá estofo para suportar o peso de uma boa universidade? Talvez lhe espante, meu despreocupado leitor, com a resposta. Digo que entrar na universidade é difícil, ficar nela é muito mais difícil. Não interessa. Não é à toa que as crises existenciais chegam cada vez mais cedo e um jovem parece cada vez mais velho. Maio virou abril. A pressão virou depressão. A ansiedade virou desespero. Universitário não sabe redigir. A abrilite tomou o lugar da maíte, sintoma imediato da vestibulite que, infelizmente, lá na frente virará outobrite. Em 2017, outobrite virou setembrite. Tenho medo que, neste ano, setembrite vire agostite. E, se acontecer, vamos esperar que um aluno se suicide, para lançarmos uma campanha? Qual seria?

VESTIBULANDO EMPREENDEDOR

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Coloquei aqui algumas frases de Bill Gates, apenas para que reflitamos em um momento crucial da vida do chamado vestibulando. Aquele indivíduo que não se vê como humano. Não considero Bill Gates um grande pensador, mas ele trata de um assunto seríssimo chamado “empreendedorismo”. Vestibulando ainda não descobriu que, se não for empreendedor, não chegará a lugar alguma. O processo educacional no Brasil forma gente para “não pensar”, “não empreender”, isto é, não encontrar as melhores formas de competir.

O processo “educacional” no Brasil nos leva a sermos facilmente dominados e nossos pais nos protegeram tanto das agruras da vida que fizeram com a gente uma “sacanagem”, não nos deixaram aprender a lidar com cobranças, com exigências. Sempre estamos à beira de um ataque de nervos. Coloquei aqui algumas frases de Gates para que você reflita sobre elas, porque elas têm muito a ver com o tema “vestibular”:

  • “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história”.
  • “Tente uma, duas, três vezes e se possível tente a quarta, a quinta e quantas vezes for necessário. Só não desista nas primeiras tentativas, a persistência é amiga da conquista. Se você quer chegar aonde a maioria não chega, faça o que a maioria não faz”.
  • “O mundo não se interessa pela autoestima. O mundo espera que você consiga fazer algo, com independência para que você se sinta bem – ou não – consigo.”
  • “Nunca se compare com ninguém neste mundo. Caso o faça, entenda que você estará insultando a si mesmo.”
  • “A vida não é justa… Acostume-se a isso.”
  • “Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.”

Gostaria que meus alunos refletissem também sobre algumas questões que envolvem a competitividade do vestibular:

  • Tudo o que você não faz, seu concorrente faz.
  • Eu posso aceitar qualquer desculpa que você me der, o vestibular não aceita.
  • Se você pediu ajuda a alguém, ajude essa pessoa a ajudá-lo(a).
  • O seu concorrente tem tanto medo de você, quanto você dele.
  • Ninguém te dará uma semana, para fazer o que tem que fazer em duas horas.
  • Buscar o mais fácil, nem sempre é o mais fácil: o vestibular é um desafio.
  • Se você tem medo, já perdeu.
  • Uma apostila não te faz passar no vestibular; raciocinar, sim.
  • Um modelo pré-fabricado faz com que você seja igual a todo mundo.
  • O resultado pode ser menor do que o esperado, então busque se superar.

Nem eu, nem Bill Gates estamos certos, inclusive, nem de longe posso ter a pretensão de me comparar seja no que for a ele. Apenas expus a maneira de ele pensar como empreendedor e eu como educador. Mais uma vez, sem nenhuma pretensão, gostaria de lembrar que vestibular é competição, é a primeira vez que seus pais não poderão correr risco por você.

Saudável é a mãe

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Já sei que tenho que comer comidas saudáveis, saladas, carnes brancas e magras para ter uma velhice plena. Também sei que tenho que fazer exercícios físicos regularmente, para chegar a uma velhice plena. O doutor de não sei que canal disse que o estresse atrapalha o desempenho intelectual de uma pessoa, precisa mudar, se ela quiser chegar a uma velhice plena. O outro doutor do outro canal, que não sei qual é, disse que beber água regularmente e usar limão ajuda a controlar o PH do estômago ou intestino, se quiser chegar a uma velhice plena. Há a série “House” em que um médico maluco contraria tudo o que se pode pensar sobre uma velhice sadia. Virou meu ídolo. Quero morrer de morte morrida.

Como não sigo nenhum desses conselhos, já me sinto um gordo compulsivo, um energúmeno em fase terminal, uma cópia das obras de Francis Bacon. Bacon é bom demais em um hambúrguer suculento. E falando em tempero, a cozinheira aqui de casa deve ter sido subornada por algum dos meus concorrentes, o tempero leva o comensal ao afogamento compulsório. Quase me afoguei várias vezes. Fui socorrido pela atitude intempestiva da minha sogra que levou o prato embora. Aproveitei e contratei uma policial experiente para evitar a gula: a minha sogra. Sogras servem para comer e não deixar comer. No entanto, já bolei um plano para matá-la: vou empanturrá-la com o bolo do lanche da tarde (ela amaaaa), mas antes vou pegar um mísero pedacinho para mim. É um desperdício que ela leve tudo para a cova.

São tantos os programas na tevê sobre a Medida Certa que ando agora com uma fita métrica, para medir o quanto a minha circunferência abdominal aumentou depois de uma meia dúzia de cervejas. Para os que acreditavam que cerveja não engorda, o doutor (sei lá quem) disse que engorda sim. Ele é um gordo cervejeiro debaixo daquele lençol largo, creio. Até convidou uma nutricionista para fazer um diagnóstico sobre a vida descontrolada dos beberrões que me deu arrepios: cada tulipa de chope corresponde a um pãozinho. No final do dia, tive a impressão de ter ingerido uma padaria inteira. Se vir acompanhada de um salaminho ou queijinho se torna mais perigosa ainda. É a morte. Esses embutidos têm alta concentração de sal, uma espécie de detonador para a pressão alta. Para piorar, o sal ajuda o organismo a reter os líquidos aumentando a circunferência abdominal que, acima de 80 cm, levará até adolescentes ao infarto, derrame, hemorroidas, desmaios, AVC e sei lá mais que doenças absurdas. Ela tem cara de ser uma daquelas supostas abstêmias puritanas que bebe escondida. Deve ser dura essa vida de nutricionista. Noutro dia, flagrei minha ex-nutricionista no cê-qui-serve com um prato que parecia o monte Evereste. Disse que era o dia do descanso na semana. Mas, ainda era quarta-feira!

Só na rede Globo, vemos a Ana Maria Braga e suas frases matinais de autoajuda, porém, contraditoriamente, ensina a fazer comida gordurosa; o Bem-estar, cujo apresentador é um quase gordo, tem sérias dificuldades para acompanhar Mariana Ferrão nos exercícios. Quase sempre parece pior que eu no calor de Ribeirão Preto: sua mais que tampa de panela. Ainda há o Zeca Camargo (ex-gordo, aproximando-se cada vez mais da perda, perda do EX no É de Casa), junto com a Ana Furtado (Olívia Palito) e a Patrícia Poeta, uma musa mais bela, quando era mais suculenta; o Fantástico lembra a todos, que aquela pizza domingueira será a causa mortis na segunda-feira. E, para piorar, entrevista um bando de gordos arrependidos que, em frente a uma câmera, faz sua mea culpa, por causa da gula. Escondidos no camarim, mergulham num hambúrguer, que só tem graça, se acompanhado de uma açucarada e mórbida Coca-Cola. Tenho certeza. Vou conversar com o Edir Macedo e fundar a Igreja do Gordo Arrependido. Faço um programa de entrevistas e bato a concorrência. Corro o risco de ficar em primeiro lugar em audiência, tamanho o público disposto a chorar, espernear e se amaldiçoar os Master-chefs da vida e as modelos esquálidas, talhadas para palitar dentes. Modelos Plus Size fazem parte de um longo engendrado processo velado de preconceito mercadológico. Miss Plus é um termo de dar engulhos.

O patrulhamento toma conta dos telejornais. O contrassenso é o da Band, em que a Ana Paula Padrão (padrão de magreza) apresenta um programa engordadivo. É uma grande sacada: o gordo emagrece de raiva com as comidas mal feitas. Isso sim é que é psicologia. Inclusive, Érick Jacquin, um dos jurados, que é gordo, reprova comida atrás de comida fazendo piadinhas. Isso sim emagrece. Fiquei sabendo, por um personal trainer, de uma tevê a cabo dessas, que perder peso é fácil, porém manter a silhueta de sílfide é uma guerra diária. Ainda bem que não me alistei. Vou me deliciar, se ele ficar estressado com os comilões, como fico no self service perto da minha casa, cuja cozinheira parece fazer parte de um complô internacional para levar pessoas rotundas para o cemitério. Desconfio, sinceramente, que ela é sócia do sujeito da funerária. O dono tem o carinhoso apelido de Neném, vive sorrindo. Acho que ele pensa assim: Mais um que vai virar comida de formiga. E haja formiga para dar conta desses viciados em picanha, lasanha, feijão tropeiro e feijoada. Desconfio também que ele é criador de formigas. Deve Pensar: Vou faturar com a comida, com as covas, os caixões e as formigas. Essa mistura insólita aparece todas as quartas-feiras no cardápio. E já vi um monte de gente dizer que não há nada mais gostoso que feijoada com toques de massa e um molhinho à bolonhesa.

Queria ver uma Patrícia Poeta, depois de umas dez aulas no turno da manhã, resistir ao cheirinho do pastelzinho que aquela maldita faz. Dentro de um estúdio amorfo, com um monte de gente policiando, fica fácil dar um monte de conselhos para as pessoas. Quero ver aqui fora, de frente para uma coxinha de frango com catupiry de Bueno, mais ou menos do tamanho de uma laranja, ou do Frango na Brasa do Tião, dentro daquela tevê de cachorro, cujo cheiro inunda a rua ficar fazendo cara de paisagem.

E os personal trainer da tevê, mais parecidos com exímios defuntos equilibrantes sobre as pernas, nos dizendo para ficarmos iguais a eles. Não há coisa tão chata e pouco saudável do que programas sobre vida saudável. Agora, vieram com outra: comida virou remédio para tudo, até para aumentar o desempenho sexual. Pensei sempre que sexo dependesse do desejo de se atracar um com o outro ou outros. Ainda bem que sou um grande leitor, grande em todos os sentidos. Você já viu ambulância em porta de biblioteca? Overdose de livros não mata ninguém. Em porta de academia, você já viu, tenho certeza. Overdose de anabolizantes mata e da busca do corpo “perfeito” também.

Num depoimento emocionante, um amigo se expôs em um vídeo filmado por um celular com o irmão segurando o aparelho a dois passos: “Minha mãe comia muitas frutas e verduras, aconselhada por amiga saudável. Apaixonou-se pelas carambolas. Sem saber, tinha graves problemas renais, perdeu a noção das coisas. Morreu saudável”.

#DAUSPPRACASA

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Mais um aluno do curso de medicina da FAMINAS suicidou-se. Parece que estou repetindo um texto de 2017, mas, infelizmente, não estou. As coisas acontecem numa mesmice inquietante neste Brasil varonil: somos uma sucata ambulante, quando se trata de processo educacional. Para meu espanto, fico sabendo que cinco tentaram, três conseguiram. Se juntarmos aos fatos, as tentativas de quatro alunos do quarto ano da USP, chegamos a uma estatística aterradora. Levemos em consideração que faculdades escondem tais fatos, pois não querem atrair para si a desconfiança do mercado.

Os motivos para essas tentativas são os mais diversos: depressão, ansiedade, rotina desumana de provas, reprovações, drogas, questões financeiras... Depois de dois, três anos de cursinho, muitos pais calculam: com o valor que pagamos o cursinho, pagamos uma universidade. Não percebem que estão construindo uma bomba relógio, pois não percebem que falta algo aos filhos: maturidade, autocontrole, base, foco, vocação, por exemplo. “Forçar a barra” é perigoso demais.

Então, vão ficar o resto da vida tentando? Primeira investigação: meu filho quer fazer medicina, mas estuda para fazer medicina? Segunda investigação: é um “sonho” dele ou da família? Terceira investigação: ele escolheu a faculdade ou serve qualquer uma? Essa terceira investigação leva a uma especulação: serve qualquer faculdade, o que importa é a residência.

Explicam os economistas, se o produto está muito barato e a procedência é duvidosa, não compre. Se você só pensa no valor da prestação, mas não pensa no valor total do produto, ficará inadimplente. Como o Brasil sofre de esquizofrenia econômica, não faça planos a longo prazo. Não escolha um mau produto, a vítima será você mesmo. Você já viu um aluno de uma má faculdade entrar em uma boa residência? Exceções existem, mas são exceções. O caro sai muito caro.

Se você é um mau aluno, aquele aluno que nunca estudou, porque confia “apenas” na sua inteligência, na sua sorte em Deus (ou em tudo isso junto), busca sempre o vestibular mais fácil, sinto destroná-lo: não existem facilidades no curso de medicina de qualquer instituição, por pior que ela seja. Maus alunos não se tornam bons médicos, mesmo que ganhem fama à custa da fama dos pais ou do marketing mais tarde. Maus alunos sofrem mais, porque têm obrigatoriamente que estudar. Maus alunos sofrem maior pressão.

Se você é um bom aluno, um idealista, que se propõe a estudar como um “louco”, para enfrentar alguns dos vestibulares mais “difíceis” do país, sinto destroná-lo: “Você não faz parte de um grupo de eleitos”. Pode não parecer, mas você é mortal. Vai estudar muito mais dentro da faculdade. Sabe que será muito, mas muito difícil. Você lutará pelo seu espaço no mercado de trabalho. Sabe que será muito, mas muito difícil. Ninguém o enganou.

Absurdo dos absurdos é que faculdades, sejam públicas ou particulares, não fazem um trabalho constante para ajudar jovens em crise. Somente depois das tragédias. Em quase todas, o calendário é desumano, massacrante. Em quase todas, há largo consumo de drogas, é preciso ficar acordado.

Será que toda essa dificuldade para entrar na faculdade, faz do trote da medicina, geralmente, o mais violento? Lembram-se da morte de Edison Tsung Chi Hsueh na piscina de atlética da USP/SP? Já houve todo tipo de denúncia: estupros, queimaduras, discriminação, humilhação.

O calendário de festas é enorme. As festas são as mais badaladas: “rola de tudo”. São jovens, têm o direito de se divertirem. Nada contra a diversão. Foi depois de uma delas, que um futuro médico, o Tuta, morreu, ao destruir o seu carro contra uma árvore. Tive pouco relacionamento com ele, encontramo-nos, quando costurávamos um acordo para o patrocínio do Projeto Veredas (atendimento de pessoas carentes em um assentamento). Observem: era um jovem com preocupações humanitárias. Foi como um murro no estômago a sua morte. Pais enterrarem filhos contraria a ordem natural.

FMRP/USP criou uma campanha, para abrir uma grande discussão (#dausppracasa). Depoimentos de um grupo de pais chamam os filhos à razão, antes que o pior aconteça. Um depoimento comovente está nas redes sociais (os médicos Mônica e Nelson Liporaci – grandes amigos, competentíssimos profissionais, falam para o filho Felipe).

Meus alunos me olham raivosos, quando repito: entrar na faculdade é difícil, mas permanecer dentro dela é muito mais difícil. Levei alunos da USP para conversar com eles. Uma aluna não quis mais assistir às minhas aulas, depois de eu colocar esse tema em discussão. Chegou a casa muito nervosa, segundo os pais: “Que pena!”. A venda nos olhos mata. É como atravessar uma rua movimentada, sem olhar para os lados. Em tempo: no Criar, há 15 anos, o psicólogo Marcelo Filipeck atende cada aluno; o departamento pedagógico, também. Minha preocupação vem de longa data; minhas atitudes, também.