Liguei o chutômetro

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Não tem jeito. Chegando a prova do ENEM, todo mundo, até a minha avó, “do outro lado do mistério”, resolveu dar pitacos nos temas que podem cair na prova. Cair, literalmente, porque a quantidade de “zeros” é brutal. O prestador conhece as regras do jogo, há anos.Para quem, ao longo de sua ainda imberbe vida, não apostou na construção de um bom repertório cultural (expressão da moda), agora está à beira de um ataque de nervos. Os critérios, que mais eliminam candidatos, são “a fuga ao tema proposto” e a “falta de uma intervenção social convincente, que não fira os direitos humanos”. Vamos lá:

Todos os temas trazem palavras-chave. Se a tese não as trouxer, ocorrerá a fuga. Abaixo sublinhei essas palavras chaves nos cinco últimos exames:

2012: Imigração para o Brasil no século XXI.

2013: Os Efeitos da Lei Seca

2014: Publicidade Infantil em questão no Brasil.

2015: A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira.

2016: Caminhos para Combater a Intolerância Religiosa no Brasil.

Ferir os direitos humanos é uma regra muito complicada, por isso a cartilha (disponível no site do Inep) lista crime em exames anteriores. Um exemplo: Para acabar com a fome, o melhor é matar todo mundo que está com fome.

Não adianta agora fazer um “caminhão” de redações, se você não as corrigir com um professor especializado e receber as orientações necessárias, para não “cair nos braços” do jeito ENEM de “estuprar” o candidato. Parodiando Gabriel Garcia Marques, podemos chamar de “A crônica do estupro anunciado”. Por quê? Porque, como bons brasileiros que são,alunos acreditam em sorte: Na hora, “eu se viro”. Por que, como brasileiro que é, o professor jura que adivinhará o tema. Dá uns 40 temas na semana da prova e grita a plenos pulmões: “Viu? Eu não disse que ia cair?”.

Como bons brasileiros, que são, muito candidatos deixaram para a última hora, esperando um milagrezinho. Quando percebem que não há milagre, alguém lhes oferece um: plagiar outras redações que já caíram: a famosa Redação Frankenstein ou optar pela “forma de bolo”: a famosa Redação Padaria. É ético fazer isso? Nem um pouco. Mas, estamos no Brasil e, se até as autoridades, responsáveis por coibir a corrupção, são corruptas, ser loirinho e disputar a vaga pelo sistema de cotas para negros ou “copiar” redações já prontas, é apenas corrupçãozinha, um pecadilho.Afinal vestibular é competição e, em competição, vale tudo. Ademais, ninguém é de ferro.

Como dirão que estou enrolando, vamos a banca examinadora mudou, para manter tudo igual. Os últimos dois temas foram sobre violência contra alguém, portanto os “massacres contra os índios” e a “violência urbana” podem aparecer. Os últimos cinco temas trouxeram questões que envolvem leis, portanto “as questões que envolvem deficientes físicos e idosos” podem aparecer. Como o ENEM está atrasado em relação aos outros vestibulares, “A constituição da família nova brasileira”, “A corrupção”, “O trabalho escravo”, “A crise dos refugiados” podem cair.

Provavelmente não acertarei o tema, mas você, caro vestibulando, não pode dizer que não me orientei pela lógica. Ah! Se o Exame Nacional do Ensino Médio fosse orientado pela lógica! Se fosse, não existiria. Pelo menos, dentro desse modelo, não.

​A grande estratégia para fazer a prova do ENEM

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​Criar a própria estratégia ou não ter estratégia nenhuma​.

Se o aluno for seguir todas as estratégias que lhe forem aconselhadas nos últimos dias, enlouquecerá. Cada professor, cada cursinho, cada publicação traz uma estratégia diferente. Todo mundo sabe como fazer o “milagre” da multiplicação dos pontos. Depois de ler “um caminhão” delas, cheguei à conclusão de que todas parecem livros de autoajuda. Não conhecemos individualmente cada aluno, suas necessidades, seus desejos, seu preparo físico. Jogamos todos na vala comum.

Depois de uma aula na minha escola, uma aluna me fez repensar os meus conceitos: ela preferiu a academia a assistir a uma palestra sobre temas atuais. No momento, pensei: como ela pode fazer isso às vésperas do vestibular? Depois percebi que ela tinha total razão. O corpo é dela, ela é que deve decidir sobre o que é mais importante para ela, não para mim. Alguém poderia dizer: “em plena semana do saco cheio, sua escola oferece palestras sobre atualidades”. Sim, oferece, porém não obrigo ninguém a ir.

–“Comece a prova pela matéria que mais sabe” – esse é o conselho comum. Mas, e se a matéria que o aluno mais sabe trouxer as questões mais difíceis? Já imaginaram como o psicológico do “pobre coitado” desabará?

–“Comece a prova pelo início” – outro conselho muito comum. Não é melhor deixá-lo começar por onde quiser? Conheço muita gente que “desce o pau” nos livros de autoajuda, contudo se comporta como autor de um. Nessa época, aluno desesperado segue qualquer um.

–“Comece pela redação” – esse supostamente é o mais lógico. É?! E se, como de praxe, a prova de testes trouxer assuntos que ajudarem o aluno a redigir o texto, quando o “repertório cultural” (cultura geral) for pobre ou ele não souber nada sobre o tema?

Outro conselho: – “Faça o início da redação com essa frase, depois tasque o tema aqui. No segundo parágrafo, escreva essa e tasque essa outra aqui. No terceiro parágrafo, tasque essa conjunção e esse exemplo aqui. Use essa frase como intervenção social. Não há erro. Não mude nada, nada mesmo. Essa é a única fórmula para tirar 1000”. Mas, e se aluno resolver pensar, vai dar um “tilt” na cabeça dele? Vai entrar em parafuso? Coitado!

– “Acorde de manhã, tome um café e depois um comprimidinho de Ritalina (meu amigo tomou e, mentira de todo mundo, não faz mal). Ajuda a turbinar o cérebro. Antes da prova, tome outro. Turbina o cérebro e você vai passar!”. Eh! Talvez da prova para a ambulância e depois da ambulância para o hospital.– “O Conserta não ajuda mais?”. Sem receita médica, o Conserta desconserta mais.

– “Hoje vou dar aula sobre um dos temas que cairá na prova, você não pode perder”. Será? Será que o MEC deu ao professor a prova e não contou para ninguém? 

– “Na aula dica, você vai ganhar uma camiseta, um pirulito e o que vai cair”. “E ainda haverá um show para você descontrair”. Será? Há alunos que saem dali desesperados para estudar algo que o professor jurou que vai cair e ele não sabe. E o cansaço? O aluno se sente obrigado a ir. Dizem que é melhor do que ficar em casa pensando na prova.

– “Refaça as provas de anos anteriores, para que você saiba como é a prova”. Mas, a banca que fará a prova não mudou? O aluno, em um ano, não mudou? Será que ele cronometra o tempo para cada questão em casa? Em casa, não muito diferente da escola?

Então, o que fazer? Sei lá! Não tenho a fórmula mágica para engessar todos os alunos e não tenho a mínima vontade de fazer isso.

Não é melhor conversar com o aluno e saber o que tem a oferecer e o que ele quer fazer? Deixe-o traçar estratégias de acordo com as suas potencialidades.

Esses talvez sejam os grandes problemas: o negócio é usar o aluno como peça de marketing para fazer negócios. Tratar a todos do mesmo jeito. A vaidade do professor de acertar o tema da redação e os temas das questões. E o aluno? O aluno, bem...


​Outubrite

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A outobrite vem aí, previna-se desde já.

Outobrite é medo disfarçado de depressão e ansiedade.

Você está à beira de perder ou conquistar a vaga na universidade.

Vestibular é um jogo de estratégias. Você construiu a sua?

Estresse é salutar? Atletas de alta performance dizem que sim: só batem recordes, quando estão com aquele friozinho na barriga. Traçam uma estratégia durante o treinamento e a executam na hora da prova. Tudo se decide na hora da prova.

Vestibulando é atleta de alta performance intelectual. No entanto, desespero nada tem a ver com estresse. O medo é a causa dele. O desespero é a consequência nefasta dele. Juntos trazem altas doses de adrenalina, nada de dopamina, portanto problemas psicológicos e físicos.

Não dá tempo de fazer atividade física? Então, não há estratégia para driblá-lo. Você virou vítima dele e um “reclamador” 24 horas  por dia. Assistir bem às aulas é muito mais importante que estudar em casa. Uma atividade física ajuda em ambas as situações.

Pense em Darwin: não é o mais forte, nem o mais inteligente, mas sim quem melhor se adapta às regras do jogo, quem vence. Quem criou a estratégia mais eficiente. Quem gerencia melhor o tempo. Qual a sua estratégia para gerenciar o seu tempo? Fazer 50 exercícios de uma única matéria e deixar as outras de lado? Mas, as outras também caem e não há tempo para fazer todas sobre tudo. Tudo o que você não faz, o seu concorrente faz.

Tomar pau: Essa frase faz parte do inconsciente coletivo, advém do período da escravidão. Ninguém quer apanhar no tronco sob o olhar de todos. Essa expressão atormenta. Psicologicamente frágil, você crê que amigos, parentes, família cobram desempenho tempo todo. Em qualquer olhar, atitude, frase, suspiro, identifica a cobrança: tomarei pau. Pior, passa o tempo todo pensando no ano que vem. Quem vive de futuro, não observa o presente. Quem pensa no cursinho do ano que vem, está estudando para o cursinho do ano que vem e não para passar no vestibular.

Outobrite não é uma brincadeira, não é um mero chilique de vestibulando. É sintoma de quem vive de futuro “negro”. Se traça uma estratégia de acordo com suas próprias condições físicas e psicológicas, tem maiores possibilidades de conquistar a sua vaga. Quem “deixa a vida me levar “não tem chance. Quem toma café o dia inteiro para ficar acordado, não dorme. Quem não dorme, fica pensando “besteiras” durante a noite. Quem não dorme, não tem desempenho, portanto “baba” durante a aula, assim nasce o ciclo vicioso: insônia, gastrite, impaciência, olhares perdidos durante as aulas, crises de humor. As consequências são os problemas físicos e a vontade de atirar as apostilas pela janela. Dá arrepios falar em aulas extras.

Outobrite não é frescura de filhinho mimado. É fruto da má preparação, de quem só apostou no conteúdo programático, na sorte. Não teve uma preparação integral. Deixou de ser um ser humano, para se tornar apenas vestibulando: engolidor de aulas e apostilas. Ou não sai de casa, ou chora o tempo todo, ou cai na “balada” ou passa a maior parte do tempo reclamando de tudo. A sensação é a de que o ano está perdido.

Estudar tudo, de todas as matérias? Fazer todos os exercícios? Creia: é impossível. A matéria vai acumular sim. Não há como evitar isso. Mas, ninguém morre por causa disso.

Remédios? Remédio, café, Coca-Cola, guaraná, vale tudo para ficar acordado e estudar. Você está confundindo ficar acordado com tempo para estudar. Uma coisa nada tem a ver com a outra, acredite.

Nada de tomar remédios sem receita médica para “turbinar o raciocínio”. Ritalina? Você enlouqueceu? Sem o devido repertório cultural, o seu cérebro vai turbinar o quê? Não há saídas milagrosas. Estude bem, o que é possível estudar.

Importantíssimo:

Redação

Dê especial atenção a ela. É a única prova eliminatória. A redação decide a vaga na faculdade, mas não é possível ter uma tese ou propor intervenções sociais com meros “achismos”. É também o primeiro critério de desempate. Todos os temas discutem fatos atuais. Você lê jornais, revistas, blogs? Mantém-se informado(a)?

Escreve? Corrige? Escreve? Corrige? Escreve? Corrige? Tenta, usando novas estratégias? Foge dos modelos prontinhos? Tem chance.

A multidisciplinaridade atesta a sua capacidade de ler, entender e analisar textos. Essa é a tendência.  As faculdades não estão interessadas em alunos especialistas e sim nos que trazem consigo cultura geral, tanto que as provas de testes são chamadas de provas de Conhecimentos Gerais.

Não confunda: estuda-se na escola; em casa, revisa-se. Se você está invertendo os papeis, está fazendo tudo errado: virou autodidata. Está perdendo tempo demais tentando aprender sozinho. Esse é o principal motivo do seu medo de tomar pau. Carregar a sensação de não saber nada.

É possível sair dessa roda viva desde que você construa a sua estratégia agora para esse tempo que falta e a coloque em prática.

​Dicas e dicas e mais dicas

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Há pouco tempo, no Facebook, o professor Giovani Silva propôs um debate sobre o uso da tecnologia em sala de aula. Copiar a lousa ou fotografar a lousa, por exemplo? Deixar usar o smartphone em sala de aula ou não? Vários professores foram convidados a participar do debate, porém poucos se propuseram a fazê-lo. Surpreendi-me com o bom nível da discussão, afinal todos contribuíram sobremaneira para um debate sério, expondo suas experiências.

O professor Leandro Rosa, nesta semana, propôs outra discussão no Facebook, agora sobre a construção de uma escola, cujo ensino seja criativo e não seja refém das amarras do sistema educacional do qual se tornou refém.

A primeira coisa que descobri é que o Facebook serve para alguma coisa realmente útil em tempos de reforma educacional. Segundo, foram poucos os que se dignaram a entrar no debate, mas os que o fizeram, demonstraram as diversas vertentes que devem nortear o debate. Houve os realistas, os idealistas, os politizados, os que já têm experiência com escolas, que fogem do convencional, ou seja, todos tinham algo de importante a dizer.

Por que escrevo sobre isso, caro leitor? Porque pretendo propor outro debate: Adestrar ou ensinar jovens que prestarão vestibulares?

A internet está abarrotada de vídeo-aulas de professores “especialistas”, publicações “especializadas”, simulados criados por “especialistas”, dicas de cursos “padaria” que têm a forma para enfiar o raciocínio do aluno em uma camisa de força. O modelo do vestibular atual está desgastado, porque padroniza pessoas ou precisa ser urgentemente repensado para acabar com as “padarias”.

Ninguém está mais vulnerável psicológica e emocionalmente neste momento do que um vestibulando. Aproveitando-se do seu desespero, alguns cursinhos criaram “mitos” e fórmulas. Vestibular é competição, dizem alguns. Mas, competição à custa de quê?

Quase caí para trás, quando uma jovem me disse sorrindo que tinha aprendido filosofia em um mês. Pior, a amiga me disse que aprendeu filosofia e sociologia em um mês. Mostram-me anotações. Nelas havia um monte de frases “bonitinhas” para, literalmente, enfiar em um texto, seja qual tema for.

O discurso é sempre o mesmo: vestibular é competição, não é o momento de parar para pensar. O aluno deve deixar para “raciocinar”somente depois que adentrar a universidade.

Caro leitor, observe o tamanho do problema levantado pelos professores aqui mencionados: um jovem, que pleiteia uma vaga em uma boa faculdade, fica em uma encruzilhada: aprender a raciocinar para permanecer na faculdade e tentar mudar os rumos dela ou ser adestrado para, a qualquer custo, se tornar universitário. Que tipo de universitário? Que tipo de profissional ele será?

Como a reforma educacional vem de cima para baixo e ainda “enenzaram” o ensino, conjunto de folhinhas são confundidas com método. Como pensar em uma escola criativa, caros colegas?


​A VIDA EM PADRÕES

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Dez maneiras de emagrecer. Dez maneiras de enfrentar o seu chefe. Dez maneiras de encontrar a pessoa certa. Dez maneiras de conseguir uma promoção. Dez maneiras de viver bem. Como ter qualidade de vida! Como fugir do estresse da vida cotidiana! Como ganhar dinheiro sem fazer força! Como enfrentar a perda de entes queridos! Como vencer na vida! Dez passos para enriquecer na bolsa de valores. Dez passos para conseguir a pessoa amada. Dez passos para superar a timidez. Dez passos para enfrentar o medo. Dez passos para escrever bem. Dez passos para aprender a se controlar diante de uma situação perigosa. 

Nossa vida é regida pelos GPS da vida: os manuais. Eles criaram padrões de comportamento tão necessários para a vida em sociedade que nas livrarias há uma seção dedicada a eles. São os chamados Livros de Autoajuda. Aprenda a se ajudar, porque temos uma linha de produção só para ajudá-lo a se ajudar. Conheça-a e desvende o cérebro, as atitudes e as vontades dos seus oponentes, concorrentes, dissidentes. O seu competidor pode ser monitorado a cada passo, o seu amor também. Pupilas dilatadas, febre, palidez, boca seca, mãos suadas, ligeira tremedeira nas pernas. Você pensou em sintomas da dengue? Pois é, pode ser, mas podem ser também os sintomas da paixão: o mal de amor, o spleen. Ninguém consegue mais esconder a paixão, alguém já estabeleceu um padrão de comportamento para os apaixonados.

Desde a I Revolução Industrial, em que o homem inventou a máquina, inventou com ela também o manual de instruções. As máquinas, ao longo do tempo, tornaram-se cada vez mais complexas; os manuais, também. Atualmente, a complexidade é tanta que vêm acompanhados de um link para remetendo a um site que você oriente o consumidor. Ocorreu o contrário do que esperávamos, não foram os homens a programarem as máquinas, foram as máquinas que nos programaram para mecanizar a vida. Não criam nada“ainda”, mas não têm crises existenciais, não menstruam, não ficam doentes.

Você é de Áries? Então, você é uma pessoa decidida, impulsiva, empreendedora e uma fonte de ideias. É ambiciosa, pioneira, confiante, entusiasta, avessa ao abuso e às imposições. Você tem depressão? Então, você tem fobia de lugares cheios, chora por qualquer motivo, não tem ânimo para nada reza a cartilha. Há quem acredite. Ingira canela, chá verde, duas xícaras de café e você se tornará um bom aluno. Como são termogênicos, provocarão o emagrecimento. Há quem acredite. O manual da facilidade, o blog das dicas, o professor milagreiro. Há quem acredite neles. Há quem acredite sempre no manual que propõe como chegar a algum lugar sem fazer esforço.

O Messi e o Cristiano Ronaldo são um problema para civilização Mac Donald’s. Não há manual para encarcerar o improviso, a criatividade. São diferenciados. Quebram padrões. Aí diz o técnico medíocre: “Só ganha o time tem que obedecer ao esquema tático”. A tática ganha o jogo, não quem a quebra. Criar? Para que criar? A gente joga por uma bola. Quando o outro time cometer uma falha, qualquer cabeça de bagre corre enlouquecido, chuta de bico e aí vira o herói do jogo. Além disso, colocamos um matador de talentos. E o craque? Craque não é o que vive fora do padrão? Meu time não joga, mas o deles também não.

Agora, estamos padronizando a qualidade de vida, o tipo de comida, a forma de nos relacionarmos com nossas limitações, medos e ansiedades. Quem sai do padrão, cria um novo padrão, porque os outros o seguirão por oportunismo ou por idealismo. Inventamos também os caçadores de padrão. Eles descobriram que o que aparece como contestação em um determinado momento pode tornar-se padrão logo a seguir. Contestador, se deixado à solta, é um perigo. Que o digam os hippies, os punks, as dragues, os políticos de carteirinha, os ladrões do mensalão, os corruptos de todos os dias, os guardinhas que adoram receber cervejinhas, os facilitadores da empresa, os chefes de setor, os gerentes, os empresários obsoletos, os falsos empreendedores, os “deseducadores”, as bancas examinadoras dos vestibulares e os “idealizadores” do ENEM.

​10 + 10 + 10 + 10 bummmm

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10 passos para fazer uma redação nota 10. 10 passos para passar no vestibular. 10 passos para ser feliz. 10 passos para comer bem. 10 passos para viver uma vida saudável. 10 passos para evitar a ansiedade. 10 passos para evitar a depressão. 10 passos para evitar a demência. 10 passos para garantir uma aposentadoria segura. 10 passos para comer bem. 10 passos para ser um vencedor. 10 passos sobre como usufruir dos dez passos.

Como viver uma vida saudável. Como alcançar qualidade de vida. Como aproveitar todos os benefícios que o azeite traz. Como aproveitar todos os benefícios que o vinho traz. Como usufruir dos cremes contra rugas. Como manter os cabelos na cabeça usando hidratantes. Como viver. Como pagar, em suaves prestações, seu jazigo perpétuo no melhor local do cemitério Parque da Saudade. Como, e como, como.

Manual passo a passo para entender o funcionamento do celular Iphone 7. Manual passo a passo para entender o funcionamento do seu Ipad. Manual passo a passo para você entender o funcionamento do seu Ipod. Manual passo a passo para entender o “i”, da geração “i”, de jovens sem poder adquirir algum “i”. Manual passo a passo para entender o funcionamento do que não foi entendido.         

Dez maneiras de emagrecer. Dez maneiras de como enfrentar o seu chefe. Dez maneiras para encontrar a pessoa certa. Dez maneiras para conseguir uma promoção. Dez maneiras para adquirir qualidade de vida. Como fugir do estresse da vida cotidiana. Dez maneiras de ganhar dinheiro sem fazer força. Dez maneiras de enfrentar a perda de entes queridos. Dez maneiras para conseguir a pessoa amada. Dez maneiras para superar a timidez. Dez maneiras para enfrentar o medo. Dez maneiras para consumir as dez maneiras.

Programação neurolinguística. Belíssimo nome. Traduzindo: como transformar um idiota em consumidor de manuais para atingir o “sucesso” e correr do “fracasso”. E o que é sucesso? E o que é fracasso?  Conheça, desvende os meandros do cérebro, das atitudes e das vontades dos seus oponentes, concorrentes, dissidentes. Ganhe deles. O seu competidor pode ser monitorado a cada passo, o seu amor também. Pupilas dilatadas, boca seca, mãos suadas, ligeira tremedeira nas pernas. Você pensou nos sintomas da dengue? Pois é, pode ser. Nos idos anos do Romantismo, seriam esses os sintomas do Mal do Século (a paixão desenfreada). Às vezes, pregamos peças na nossa conduta programada, no nosso manual de instruções. Por incrível que pareça, não somos exatos. Não trazemos do útero um manual.

Nós, ao longo do tempo, tornamo-nos máquinas cheias de nós. O imediatismo sabotou nossa inteligência. Matamos a memória de curto prazo. Tornamo-nos previsíveis, desmemoriados imbecis.

Nossa falta de complexidade é tanta que dez passos são suficientes para nos empanturrarmos do óbvio, como se fosse a mais autêntica criatividade. Todos os manuais vêm acompanhados de um DVD explicativo. O manual do manual. Isso, quando não há armazenamento de informações em nuvem. O manual pulverizado do manual do manual.

Ocorreu o contrário do que esperávamos, não foram os homens que programaram as máquinas, foram elas que nos ensinaram a mecanizar a vida. De vez em quando, aparece um craque que arrebenta com os esquemas táticos (4,4,2 -4,2,3,1 – 4,3,3...). Vale milhões. Deixa estupefatos os atolados na mesmice. No entanto, há manuais para consertá-los. Basta comprá-los e vendê-los como carne barata. Basta fazê-los acreditar no que quiserem acreditar. Depois de ler um manual de conduta, chamado “código penal”, dúvidas assaltam meu suposto senso crítico: Quem é o maior idiota: o ventríloquo, o boneco, o espectador ou o transgressor? Quem é o terrorista: o mocinho ou o bandido? Quem está mais preso: o meliante ou o carcereiro? Há dez passos para resolver isso? Um manual pronto? Uma nuvem? Não posso alegar desconhecimento da Lei, mas conhecê-la significa manipulá-la, desrespeitá-la.

Maluquice, mas as novas gerações viraram reféns de manuais de instrução sobre como escrever um texto. Pior, acham que isso é normal. Pior ainda, há pais que incentivam isso ou desconhecem essa prática espúria. O ensino chegou à encruzilhada entre o ensinar e o adestrar. Vamos criar manuais para que nossos jovens sejam profissionais de sucesso? Ou vamos apostar na inteligência artificial?

Se não houver trégua nessa louca “consciência” google, nosso HD externo, num belo dia constataremos nossa neurose, depressão, ansiedade, depreeessãoooo, ansiedaaaadeeee, dez passos para um usar uma arma real ou fictícia e bummmmm...

É de dar arrepios

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Nosso subdesenvolvimento começa aqui.

Entre 30 países, o Brasil ocupa a honrosa 27ª posição.

Segundo uma pesquisa encomendada, publicada pelo DW Made for minds (Deutsche Welle), um grupo de seis editoras alemãs,Panini, Gruner + Jahr, EgmontEhapa Media, Spiegel e Zeit, 2 mil crianças alemãs preferem livros ao Youtube. Mais da metade, entre 6 e 13 anos, leem livros, revistas infantis e quadrinhos todas as semanas.

O Brasil ocupa a honrosa 27ª posição entre os 30 países onde menos se lê no mundo. Venezuelanos e Argentinos são os mais bem classificados na América do Sul. O mapa acima traz o ranking mais atualizado.

A falta de leitura constante traz consequências nefastas: falta vocabulário para que o aluno explicite suas ideias (eu sei o que é, mas não sei explicar) com clareza; há dificuldades extremas de encadear frases minimamente coerentes; não há criticidade para redigir um texto com uma argumentação fundamentada, por exemplo.

Vira um pesadelo para qualquer vestibulando ter que escrever 30 linhas, na norma culta padrão da língua portuguesa, em uma prova de redação de um vestibular qualquer ou responder a questões abertas. Outros pesadelos virão a partir daí, como se manter na universidade (não há prova de testes ou é preciso apresentar relatórios, estruturar o trabalho de conclusão de curso) e, mais tarde, enfrentar as provas da OAB ou do CRM, por exemplo.

Comecei a rir quando observei, no Facebook, pessoas usando as seguintes expressões: AVISO DE TEXTO LONGO ou AVISO DE TEXTÃO. Um deles tinha quatro parágrafos. Pedir a uma boa parte dos alunos para ler um livro é um ato de lesa-emoção: “Aiiii....professor!!! Tem que ler mesmo?”. Ou lesa-inteligência: “Quantas páginas ele tem?”. Ou lesa-preguiça: “Tem resumo ou filme sobre ele?”.

Há uma enxurrada de processos contra plagiadores de textos científicos, teses de mestrado, doutorado, músicas, obras literárias etc. Só não há contra plagiadores de redações publicadas pelos sites especializados em vestibular ou escritas por um terceiro, como se “entregasse uma receita de bolo”.

Vestibular é competição, mas decorar dez frases de um pensador para enfiar em um texto, para mostrar que possui repertório cultural é um despautério. Repertório cultural não é isso. Isso é decoreba. “Depois que eu entrar na faculdade, eu leio”. Mentira: Isso funciona como aquela academia da esquina que fechou. Aí você diz em alto e bom som: “Agora que eu ia me matricular!”. 

​Sucateamento da Medicina

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Dá medo. 

A cada dia brota uma faculdade de Medicina na esquina. "Brota" é a palavra. A qualidade? 
- Hã! Deixa esse troço de qualidade pra lá, meu negócio é entrar. Virar médico (doutô), depois eu vejo o resto.
- Mesmo se você virar um ratinho de laboratório, porque há um monte de faculdades caça-níquel, sem estrutura nenhuma, sem um hospital-escola, nada?
- Não vou mais fazer cursinho de jeito nenhum, vou pra onde eu passar. Meu pai me disse que o importante é a residência; não a faculdade. No consultório, ninguém pergunta onde você é formado.
- Você sabia que, em qualquer concurso público, o aluno formado em uma universidade pública já entra com um bônus? Conhece algum aluno com má formação que entrou em uma "boa" residência?
- Conheço um que tá ganhando a maior grana, se deu super bem e a faculdade em que ele se formou não é lá grande coisa.
- E daí a 6 anos, com um mercado tão competitivo, como você vai fazer?
- Daqui a 6 anos, penso nisso. Eu me viro. Dou um jeito. Agora só vou estudar o que eu gosto.

Esse discurso virou senso comum. Um aluno no cursinho não tem ideia do quanto terá que estudar para ser um médico competente. Inclusive, boa parte não tem nenhum perfil para fazer medicina.

O sucateamento da profissão é inevitável.

O "status" de ser médico, ganhar muita "grana" virou obsessão. E pior, foge dos ditames da profissão. Lógico que ganhar dinheiro é uma prerrogativa importantíssima, ninguém vive de brisa ou trabalha por diletantismo. Mas, a que preço?

Uma antiga e reconhecida faculdade de Medicina de Ribeirão Preto deu o seguinte tema para a confecção da redação: "Por que você quer ser médico?" Muitos alunos, na saída do exame, reclamavam do absurdo da pergunta e disseram que se deram mal: "Veja se isso é tema de redação?". Dei esse tema e nenhum aluno falou em dinheiro, todos pareciam Madre Teresa de Calcutá. No entanto, no debate, boa parte estava sem saída, porque não sabia se valeria colocar “status” ou não no texto.

- "No tempo do meu pai", a relação candidato-vaga era outra, o número de faculdades "caça-níquel" era outro, o mercado de trabalho era muito mais seletivo. Meu pai é médico respeitado.

- Não duvido. O problema é que os tempos são outros. Há faculdades em que há mais de 100 candidatos disputando uma vaga. O MEC abriu mais 700 vagas nas universidades públicas e deu aval para que 39 novas faculdades adentrem o mercado.

Um dos problemas é que as sucessivas provas do CREMESP mostram uma realidade assustadora: em média, nas várias provas aplicadas nos últimos cinco anos, alunos do sexto ano não conseguiram diagnosticar sintomas de doenças comuns em um país tropical.

Cursar USP, UNESP ou UNICAMP virou sonho distante. Pensar nisso provoca urticária (erupção cutânea caracterizada pela presença de placas congestivas pouco salientes e pruriginosas – segundo o dicionário), ansiedade e depressão. Não que elas sejam as únicas que valem a pena cursar. 

Não há como relacionar aqui as grandes faculdades particulares que investem nos alunos, em equipamentos etc. As mais conceituadas têm altíssima relação candidato-vaga.

Mas que dá medo, dá, do que vem por aí. 

A região que corresponde a um raio de 100 km de Ribeirão Preto formará, mais ou menos, mil médicos por ano. Só em Ribeirão Preto há quatro faculdades Medicina.
Temos mais faculdades de Medicina do que nos EUA. E a qualidade? Onde tanta gente trabalhará? Nas UPAs? Haja UPAs... E o salário? Ah! o salário míngua, como aconteceu com as áreas de Direito, Odontologia, Engenharia.

O sucateamento traz consigo a canibalização. E a população?

Ora, ela que se vire...

​A ordem natural das coisas

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A sinfonia solitária. A mãe ao lado da cova. A dor maior. Corta. Dilacera. Espezinha. Machuca. Cresce. Sufoca. Incapacita. Uma mulher e sua cria. Sua pele, seu jeito, sua sequência, sua ascendência. Sua extensão, seus sentidos, sua expressão. Uma mulher na sua sinfonia solitária em dor maior. Atroz, feroz. Pais jamais deveriam enterrar suas crias. Foge à ordem natural das coisas. Não é a lógica da existência, a inexistência de quem deveria continuar.

A morte de um filho não é como amputar um braço ou ter uma perna arrancada. O cérebro se acostuma à ausência dos pedaços do corpo. É fácil assim. Simples assim. Age como se eles ainda estivessem ali. O dedo ainda coça. As juntas ainda doem. É um não estar estando. Um filho é diferente. As fotos não têm o calor do corpo. Os filmes não trazem o prazer das lágrimas. O cérebro se acostuma. O coração não. Perder um filho é como amputar a alma. 

Saudade. Palavra doída. Vazio preenchido de lembranças. É o corpo que não se pode tocar. É o rosto que não se pode acariciar. É o gesto que não se pode entender. É a dúvida que não se tem mais como esclarecer. É o não tocar algo presente, mas ausente. É o sentir o cheiro sem a pessoa estar. É o vazio sufocante que espera pelas palavras que nunca serão ditas – pelas brigas que nunca ocorrerão. Pelas mãos que nunca poderão acariciar. Pelas palavras vivas que nunca serão ditas. É o vazio dilacerante. Sem toques, sem trocas. Sem calor, sem amor.

Filhos nunca morrem, mudam de substância. Emergem, quando menos nos damos conta, de uma música, de um tênis, de uma camisa, de um momento, de um sorriso, de uma lembrança... Lembrança cortante, doída, sofrida. Adubo das sensações, das emoções, dos medos, dos desejos, do dito e do não-dito. Nasce parasitando um pensamento, um sonho, uma fantasia, uma necessidade, uma divagação. Habita uma caverna de onde só sai quando estamos comovidos, frágeis, vulneráveis, divididos. Quando só sabemos conjugar o verbo apartar. Quando descobrimos amar aquele ser engraçado, emburrado, caricato, onipotente. 

A enxada rasga a terra. Extensão dos seus braços. Um último olhar. Vai-se a extensão dos traços. O caixão agora acolhido pela mãe terra, que é fria. Que não acaricia. Não mima, não entende, não sofre, não chora, não se angustia, não participa, não troca. Toma. Engole. Leva. Um jovem jamais deveria enterrar outro jovem. Por mais belos que sejam, a morte é feia. Ausência de vida, na época em que se sorve a vida em goles sôfregos. Em que o tempo nunca é suficiente para engolir todas as sensações, todas as emoções.

A morte de um jovem mata o seu sentimento de onipotência em todos os outros. Descobrem a impotência de não ter como driblar. Da forma mais cruel, descobrem-se vulneráveis. Aprendem que isso pode acontecer com eles, até então tão inconsequentes passageiros da vida. Tornam-se vulneráveis. A morte lhes tira a ousadia, destrói-lhes a autoestima, por isso buscam a felicidade em qualquer coisa que os faça fugir, para não lembrar. 

Quando um velho morre, cumpriu-se um ciclo. Os filhos sofrem. Mas, a lógica da vida estabelece a compensação. Quando um jovem morre, a sensação é de interrupção. De aborto. De extirpação. De falta de significação. A pergunta que machuca é: por quê? Ele ainda não teve tempo para pecar. Esses pecados comezinhos do dia-a-dia. Não teve tempo de estudar. Esse estudo das trocas de bocas e corpos com as pessoas. Não teve tempo para amar. Esse amor de descobertas e entregas para sempre até o próximo amor. Ainda não aprendeu a ganhar, porque não sabe perder. Ainda nem viveu. Essa vida de cada esquina. De porres e de carícias. De cada fracasso. De cada relacionamento. De cada vitória.

Não há solidão maior que desfazer o quarto desarrumado de um filho morto. Não há desespero maior que sentir seu cheiro, sem ele estar ali. Não há dilaceração maior do que esperar por alguém que jamais vai voltar. É a metade arrancada. É o todo quebrado. É o coração trincado, sangrando sem ninguém para salvar. É o pedaço mais vital que se levou. É a pele. A respiração. O sangue. A seiva. A água. O ar. É a essência. É o calar. Ainda que ele esteja impregnado em tudo. Nos móveis, nos cadarços, nos facebooks da vida, nas caras dos amigos, nas frases que eram só dele, no olhar que não é igual ao de ninguém. É quando, apesar de contra todos e contra tudo, a vida resolve abortar a ordem natural das coisas.

​Vestibular, a crônica da corrupção anunciada

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Assustador:

  • 1.Redação nota mil no Enem 2016 tem plágios: Texto tem trechos idênticos ao de outras duas redações, produzidas em 2014 e 2015; prática da "fórmula pronta" tem sido comum em sites para estudantes (Guia do Estudante - 04/05/2017).
  • 2.Mais de 50% dos candidatos do vestibular da UFU que se autodeclararam pretos, pardos ou indígenas foram reprovados em entrevistas (portal G1 – 27/07/2017).
  • 3.Com Sisuhackeado, aluna nota mil vai de Medicina para produção de cachaça. (Uol Educação – 31/01/2017)
  • 4.Enem 2016: escutas revelam suposto vazamento do gabarito de provas.Domingo você vai ver uma denúncia exclusiva. Outra fraude no Enem 2016. Ainda mais grave do que a que o Show da Vida revelou no domingo (6).
  • 5.PF conclui que houve vazamento do Enem 2016. Em laudo enviado ao Ministério Público, a Polícia Federal indicou que candidatos tiveram acesso a provas e gabaritos antes do início da aplicação do exame. (jornal – O povo – 01/12/2016)
  • 6.Polícia desarticula quadrilha que vendia vagas em Medicina por R$ 120 mil em Goiás.Um estudante de engenharia civil da UFG foi flagrado respondendo às questões de uma prova e encaminhando o gabarito a outro membro da quadrilha por telefone (Folha – 11/07/2017)
  • 7.Candidatos escondiam escutas nas partes íntimas para burlar vestibular.PM prendeu 11 suspeitos de fraude em prova de Medicina em Ribeirão Preto.
    Grupo articulava ação através de mensagens coletivas no aplicativo WhatsApp.  (G1 – 23/01/2017)
  • 8.Enem 2012: estudante escreve receita de miojo na redação e recebe nota 560. (O Globo Educação – 2012).

Para quem não está acostumado às coisas escabrosas que ocorrem no mundo do vestibular e tem filhos em idade de concorrer a uma vaga na faculdade, essas informações são cruciais para estimular a reflexão:

  1. Se alguém vende vagas, é porque alguém compra. Esse alguém sustenta essa máquina, que se sofistica cada vez mais. Quem estimula a violência, segundo o capitão Nascimento (Tropa de Elite 1)? Quem compra a droga, que vira arma, que amedronta, que corrompe. Os hipócritas gritam contra o sistema que ajudam a mantê-lo de pé.
  2. Se um aluno se autodeclara capaz de burlar o sistema de cotas, é porque alguém compactua com ele. Esse alguém está dentro de casa. Esse jovem alimenta essa máquina de fraudes. Alguém conhece alguém que conseguiu, por isso tenta também. Segundo o Capitão (Tropa de elite II), o sistema é camaleônico, ele se realimenta.
  3. Se um sistema é frágil, a ponto de deixar redações plagiadas receberem notas, alimenta o jovem despreparado, que arrisca redigir um “texto” usando uma receita de macarrão ou partes do hino do Palmeiras ou frases bonitinhas. Segundo Nascimento (Tropa de Elite I e II), no mundo do crime não há inocentes, a fragilidade é proposital. Os canibais do ensino se alimentam dela.

Esses jovens, futuros “universiotários”, buscaram o “facilzinho”, esquecendo-se de que entraram na universidade pela porta dos fundos. Plagiam corruptos, como plagiaram suas redações, valendo-se do “facilzinho”. Por que falo da redação? Por que se tornou prova de vestibular? Ora para atestar que aluno é capaz de esboçar um raciocínio lógico. Se ele não consegue escrever 30 linhas, na sua língua natal, pense sobre como o sistema o imbeciliza, para se alimentar dessa imbecilização.

Futuramente, esses jovens farão greves dentro das universidades e, ironicamente, protestarão contra a corrupção encarnada pela classe política.

Vale lembrar que os trotes estão cada vez mais violentos, machucam e matam cada vez mais pessoas, deixam sequelas psicológicas e físicas, a ponto de vários alunos cancelarem suas matrículas. Ninguém é punido, ao contrário, a maior parte das universidades se omite. O que esperar de uma elite que se alimenta da corrupção e a alimenta? É o sistema se reinventando, cada vez mais sutilmente.

Isso tudo é reflexo de uma sociedade que finge que não vê.