​O tempo e o vento

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Até agora, nada: a represália do Irã contra o ataque americano que matou o general Kassem Suleimani se resumiu a promessas de vingança e a uma atitude ridícula: o Parlamento iraniano decidiu considerar o Ministério da Defesa dos Estados Unidos uma organização terrorista. Besteira: parece ter ficado claro que a ordem de ataque ao general Suleimani partiu de Trump, o presidente da República, e não de seu Ministério da Defesa. Besteira dupla: quando uma organização é considerada terrorista, negociar com ela é uma atitude hostil a quem emitiu a declaração  . Os terroristas se transformam em párias internacionais, com dificuldades para negociar, viajar, se abastecer de maneira legal. Imaginemos que declarar o Ministério da Defesa americano uma organização terrorista seja algo levado a sério: quem iria deixar de negociar com os americanos para agradar os aiatolás do Irã e seus generais?

Mas a paralisia iraniana diante do ataque não deve durar para sempre. A qualquer momento, os iranianos ou seus aliados (houthis do Iêmen,  milícias xiitas do Iraque, Hizbollah libanês ou Hamas de Gaza) podem desfechar atentados terroristas contra os americanos ou Israel (que nada teve com o caso mas é sempre alvo das represálias); ou, tentando criar o caos econômico, podem tentar bombardear refinarias da Arábia Saudita, bloquear o Estreito de Ormuz (são 10 km de largura, onde passam 30% do tráfego marítimo de petróleo), com navios afundados ou minas. O vendaval é questão de tempo.

E daí?

Nem os países mais próximos do Irã, como Rússia, China e Síria, fizeram movimentações militares. Houve reclamações contra os Estados Unidos, o mesmo que fez o Iraque, exigindo que as tropas estrangeiras deixem o país. Os soldados americanos são tropas estrangeiras; e as milícias xiitas, que são iraquianas mas obedecem a comando estrangeiro, continuam ou não? Será de interesse do Governo iraquiano se colocar militarmente na dependência do vizinho mais poderoso, com o qual esteve em guerra nem faz tanto tempo? E se Trump não quiser retirar as tropas, que é que o Iraque pode fazer? O Rato que Ruge, delicioso filme em que um paisinho declara guerra aos Estados Unidos e ganha (seu objetivo era perder e receber ajuda econômica, como o Plano Marshall que ajudou a reerguer a Europa após a Segunda Guerra), foi ótimo. Mas não passava de um filme – pura e divertida ficção.

Amanhã...

Aparentemente, o máximo que iranianos e aliados podem esperar é um atentado espetacular, como o das Torres Gêmeas. É uma grande vingança, mas sem efeitos a longo prazo. Bombardear uma refinaria saudita, ou mesmo americana, tumultua o mercado por algum tempo, e só. Há limites para o que um pequeno país pode fazer para incomodar um grande. Prejuízos, mortes, sacudidas na economia, não muito mais do que isso. É o que deve ocorrer.

...vai ser outro dia

Já países menos poderosos, aliados dos americanos, sofrerão mais, mas nada que quebre suas pernas. Hoje não há como desencadear uma crise do petróleo.  A embaixadora brasileira em exercício em Teerã foi convocada pelo Governo iraniano para explicar a declaração de que o Brasil “está solidário com a luta contra o terrorismo”, que Teerã leu corretamente como apoio à ação americana. Isso pode custar ao Brasil a perda de alguns bilhões de dólares anuais - cinco, talvez. O Brasil aguenta bem, embora não goste da perda. E o Irã, onde se abastecerá? Soja, milho, carne, Brasil, Austrália, EUA – é provável que o Brasil, para os aiatolás, seja o fornecedor mais aceitável. 

As imagens do petista

O deputado federal Carlos Zarattini, do PT paulista, divulgou “as imagens do bárbaro massacre” que, a seu ver, foi o ataque do drone americano ao general iraniano Kassem Suleimani, no aeroporto de Bagdá, Iraque. Onde terá conseguido essas imagens? No próprio drone? Na United States Air Force? Não: ele simplesmente apresentou como “imagens do bárbaro massacre” um vídeo game vendido em todo o mundo desde 2015.

A propósito, Carlos Zarattini é membro da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Fake News, notícias falsas.

Os dois lados da moeda

O presidente Bolsonaro abriu fogo contra os jornalistas em geral (“uma raça em extinção”), ao reclamar de uma notícia publicada no UOL segundo a qual, embora sugira aos eleitores que não votem em candidatos que usem recursos dos fundos eleitorais, ele mesmo gastou recursos públicos em sua campanha de 2014. Bolsonaro, irritado, disse que cada vez menos pessoas confiam na imprensa e que os jornais envenenam e desinformam.  Bolsonaro só não informou se a informação divulgada pelo UOL é verdade ou mentira.

Outros casos

O caso Queiroz, revelado pela imprensa, também irritou o presidente. Mas até agora o que se soube do caso não demonstrou que seja falso.

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​A hora do terno marrom

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Diz a lenda que o navio de um grande comandante foi atacado por grande número de piratas. Antes do início da luta, pediu que lhe trouxessem calças vermelhas. Vestiu-as e logo aniquilou os piratas. Alguns dias depois, navios pesadamente armados o cercaram. Pediu as calças vermelhas e destruiu os inimigos. Um alto funcionário do Governo perguntou-lhe por que as calças vermelhas. Simples: os marinheiros, disse o comandante, confiavam em suas ordens. Se fosse ferido, a calça vermelha ocultaria o sangue e os marinheiros não se assustariam. Mais algum tempo, surgiram frotas e frotas de piratas armados com o que havia de mais moderno. O comandante, tranquilo, pediu: “Tragam-me as calças marrons”.

O ataque americano que matou Kassem Suleimani, o comandante militar mais importante do Irã, responsável pelas tropas iranianas e as subordinadas a elas espalhadas pela Síria, Iêmen, Gaza, Iraque e Líbano, é um sinal de que chegou a hora, para quem lida com economia, de usar calças marrons. Não que o Irã tenha condições de desafiar o poderio militar americano, nem que possa revidar com um atentado de igual importância. Mas pode atrapalhar o fluxo mundial de petróleo, bloqueando o Estreito de Ormuz (o que tem condições de fazer afundando navios). A área por onde passam de 30 a 40% do tráfego marítimo de petróleo, tem 10 km de largura. O prejuízo econômico é grande. Mas perde-se tempo e dinheiro, não vidas.

Guerra por procuração

O Irã – e essas ações eram controladas por Kassem Suleimani – já estava no ataque há tempos. Os houthis, iemenitas armados, financiados e controlados pelo Irã, bombardearam a maior refinaria do mundo, na Arábia Saudita. Os sauditas bombardearam os houthis, no Iêmen – sem atingir o Irã. Em maio último, quatro petroleiros ancorados foram atingidos por minas de contato. Em junho, os petroleiros Front Altair, norueguês, e Kokuka Courageous, japonês, foram alvejados, sem afundar, mas com grandes danos. Tudo indicava a responsabilidade do Irã, mas não houve represálias. Há dias, as milícias iraquianas de Abu Mahdi al-Muhandis, obediente a Suleimani, atacaram a Embaixada americana em Bagdá e foram repelidos após duros combates. Trump avisou que haveria represália. E houve.

O alvo do drone

O general Kassem Suleiman dirigia a Guarda Revolucionária Al Quds, tropa de elite iraniana, encarregada, entre outras coisas, de vigiar a fidelidade do Exército. Tinha verbas secretas, com as quais manteve a fidelidade de tropas estrangeiras a serviço do Irã. No Líbano, colocou o Hezbollah no jogo político, apoiado em tropas bem armadas. Trabalhava com xiitas, vertente do islamismo que é maioria no Irã e no Iraque, mas também com sunitas no Hamas e alawitas na Síria. Aliou-se aos turcos sunitas, inimigos dos alawitas sírios, mantendo-se bem com todos. Guerreou o Estado Islâmico, sunita, ao lado dos Estados Unidos. Por suas características, será difícil substituí-lo.

Matando o inimigo

Pelas leis da guerra, matar um inimigo é legítimo. Escolher um inimigo para matar equivale a assassínio – a menos que o inimigo escolhido tenha papel-chave na guerra. Quando os americanos decifraram o código japonês na Segunda Guerra Mundial, consideraram legítimo matar Yamamoto, o almirante que comandou o ataque a Pearl Harbour (envolvendo o Japão na Segunda Guerra Mundial), por considerar que o Japão não tinha ninguém à altura para substituí-lo. Quando o presidente egípcio Nasser recrutou cientistas para desenvolver foguetes que aniquilassem Israel, os israelenses os consideraram alvos legítimos. No caso EUA-Irã, há uma dificuldade adicional: tecnicamente, os dois países não estão em guerra. Mas há uma questão de fato: quem condenaria e puniria o presidente americano?

O preço do combustível

Bolsonaro disse que o ataque deve afetar o preço dos combustíveis. Tem razão: o bloqueio no fluxo causa problemas. E o Irã, embora vendedor clandestino (os grandes países não compram dele, temendo o embargo americano), tem sua importância: se não fizer vendas clandestinas, será o petróleo disponível no mercado que irá abastecer seus clientes. Por quanto tempo? Depende: o bloqueio de Ormuz por navios afundados vai dar trabalho, exigir tempo – e, eventualmente, escolta armada para impedir que os iranianos atrapalhem a desobstrução. Quanto antes terminar a crise, mais cedo terminarão seus efeitos sobre a produção e o fluxo do petróleo.

A situação

Como ficarão as bolsas? Em princípio, devem cair. O petróleo, já no início do pregão de sexta-feira, tinha subido 4%. Para o Brasil, há ainda mais problemas, além da queda nas bolsas e na alta do petróleo. Qualquer crise é ruim para as exportações. E só para o Irã o Brasil exporta pouco menos de US$ 3 bilhões anuais. Não é muito, no total de exportações, mas é dinheiro.

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​De cabeça para baixo

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Jornais e noticiosos de TV estão magrinhos, as revistas se dedicam, na falta de coisas ainda mais chatas, às retrospectivas. Vejamos, pois, a Internet. No mínimo é divertido. Há um cavalheiro, por exemplo, que garante que Flávio Bolsonaro vai dinamitar todas as acusações que sofreu: um dia desses, dará entrevista coletiva na qual provará que Fabricio Queiroz é agente do PT, infiltrado na família Bolsonaro para desmoralizá-la. Recebia dinheiro do PT para depositá-lo na conta de pessoas da família, sem que estas percebessem.

Este colunista sempre sonhou em voltar de uma viagem e encontrar seu apartamento integralmente reformado, com extremo bom gosto, por conta de amigos desinteressados e generosos. Também sonha ter inimigos infiltrados, de preferência em grande número, depositando dinheiro à vontade em sua conta bancária. Nada: quem foi que disse que o Sol nasceu para todos?

Escrever essas coisas não é difícil. Mas deveria ser difícil achar quem nelas acreditasse. Pois há quem acredite, também, e adicione comentários.

E, no Estado americano de Virgínia, o polemista Olavo de Carvalho acusa o pessoal da Porta dos Fundos de jogar coquetéis Molotov nas instalações da Porta dos Fundos. Pode ser? Neste mundo tudo é possível – mas o atentado foi gravado em vídeo e por ele é possível chegar ao dono de algum dos carros, Se a Polícia, pertinho do crime, com o vídeo em mãos, ainda não pegou ninguém, como se pode identificar o criminoso a dez horas de voo?

Surpresa!

A deputada mais votada do país, Janaína Paschoal, é filiada ao PSL, pelo qual Bolsonaro se elegeu; foi convidada por Bolsonaro para vice. E é dela a mais contundente opinião sobre Flávio Bolsonaro: acha que ele cometeu crime, sim. “Ao que tudo indica, infelizmente, Flávio cometeu peculato, usou funcionários para desviar dinheiro público”. Janaína aparentemente concorda com a tese de que Flávio Bolsonaro tem sido mais visado que outros colegas de Assembleia. Pede que o Ministério Público faça com outros da lista da Assembleia fluminense o que faz com Flávio. Janaína é a pessoa mais próxima de Bolsonaro a dizer que há crime a ser julgado.

Confusão próxima

Como será aplicada a lei anticrime, que criou o juiz de instrução? Há quem diga que o processo de Flávio Bolsonaro não mais poderá ser julgado pelo juiz Flávio Itabaiana. Há quem diga que o caso já está com Itabaiana, desde antes da nova lei, e que a ele caberá concluir o processo. O Conselho Nacional de Justiça criou grupo de trabalho para debater o tema, com prazo até 15 de janeiro. O juiz de instrução deve comandar o inquérito, e não poderá julgar o caso. Os críticos da lei dizem que não haverá juízes para preencher os novos cargos.

Moro, o compreensivo

Sérgio Moro, que assumiu a Justiça e Segurança Pública com poderes, dizia-se, de superministro, sofreu mais uma derrota quando o presidente se recusou a vetar na lei anticrime o dispositivo que criou o cargo de juiz de instrução. Mas, como nas derrotas anteriores, não reagiu. Dizia-se que Bolsonaro manteve o dispositivo para tirar o juiz Flávio Itabaiana do julgamento do filho, mas não há certeza sobre a aplicação do novo sistema.

Gugu, de meu bem a meus bens

Rose Miriam, mãe dos filhos de Gugu Liberato, que não foi contemplada em seu testamento, disse que está disposta a lutar para ser a inventariante do caso. Além disso, quer que seja reconhecida uma união estável, que lhe permitiria reivindicar parte dos bens de Gugu - embora tenha comparecido à leitura do testamento e concordado com seu cumprimento imediato. O advogado Carlos Eduardo Farnesi Regina, que trabalhou com Gugu por mais de 15 anos e representa a família, coloca sua posição, em nome dos herdeiros:

“Representei os interesses de Gugu Liberato como advogado por mais de 15 anos e agora represento a família em seu espólio. Gugu deixou um testamento que foi lido em ato solene na presença de dois tabeliães e de todos os beneficiados. Nessa mesma reunião realizada, todos os presentes, inclusive Rose Miriam, acompanhada de seu irmão, concordaram com o cumprimento imediato da última vontade do apresentador e conferiram a mim a incumbência de promover o inventário, agora sob sigilo judicial.

“Causa espanto que atos públicos e realizados a luz do dia sejam tratados como coação, enquanto atos praticados na calada da noite em residências sejam admitidos como normais. Todas as minhas reuniões com meus clientes foram diurnas, abertas e por mim gravadas com o conhecimento dos presentes. As mensagens trocadas foram registradas e arquivadas de forma a preservar a transparência, legalidade e sigilo do inventario e da relação cliente/advogado. “Minha função foi, é e continuará sendo preservar, proteger e fazer cumprir a última vontade de Augusto Liberato, manifestada em benefício de seus filhos e sobrinhos.”

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​Feliz Natal (só para nós)

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Nas muitas mensagens de Natal recebidas por esta coluna, várias utilizam a oportunidade para comentar a situação. Há uma queixa que se repete: por que só se fala nos filhos de Lula, não nos de Bolsonaro? Ou, por que só se fala em Flávio Bolsonaro e não em Lulinha e seus irmãos? A dúvida tem seus motivos: em geral, acham que qualquer crítica aos adversários é amena, frouxa e pouca, e aos seus ídolos é ácida, maldosa e excessiva. Pesquisar no Google se isso é verdade, nem pensar: para que, se todos já têm opinião?

Há também o curioso detalhe da quantificação do dinheiro envolvido no caso: por que incomodar Flávio Bolsonaro por poucos milhões – nenhuma acusação chega sequer a uma dezena – quando se fala em muitos milhões na Gamecorp, de Lulinha? Simples: porque, caso as acusações sejam corretas, um crime foi cometido. O que varia é o valor, não a transgressão da lei. Talvez uma transgressão mais substanciosa provoque pena maior, mas o desvio de bilhões ou de milhões é crime do mesmo jeito.

Há casos estranhos: o caso Flávio Bolsonaro, ocorrido quando era deputado estadual no Rio, anda mais rápido do que o mesmo rachid de que é acusado o atual presidente da mesma Assembleia, e que é dezenas de vezes maior. Mas isso não inocenta um – apenas exige mais rigor no caso do outro.

Viver num país polarizado é como enfrentar briga de crianças: eu sou, mas você também é. Políticos dizendo isso, vá lá. Mas o eleitor segui-los?

Questão de...

O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, é criticado por ter viajado de jatinho da FAB, a trabalho. Mas dali seguiu de carro para um hotel-resort, onde ficaria alguns dias. A volta a Brasília, claro, é de jatinho da FAB. Já outras vezes foi criticado por usar a FAB em atividades não oficiais.

Certo ou errado? Nenhum dos dois: apenas inevitável. No clima belicoso que se vive no Brasil, poderia o presidente do STF tomar um avião de carreira sem ser incomodado por passageiros mal-educados que confundem o direito de crítica com a agressão verbal? Uma coisa é falar mal do ministro com o vizinho de poltrona; outra é gritar insultos e gravá-los para as redes sociais.

...educação

Ninguém, mesmo que esteja errado, pode ficar à mercê de achincalhe público – que, a propósito, incomoda também outros passageiros, que queiram tranquilidade, não xingamentos. Os achincalhadores desafiam a lei. E cabe à Polícia Federal enquadrá-los para que não haja mais abusos a bordo.

Por que caiu?

O presidente Bolsonaro, ainda bem, nada sofreu com o tombo que levou na noite do dia 23, no Palácio da Alvorada. Fez todos os exames, inclusive o de imagem, e está bem. Mas há uma pergunta que não foi respondida: qual a causa da queda? Foi um escorregão, um tropeço? O assunto está encerrado. Mas, se caiu por outra causa – como um mal-estar – é preciso ir mais longe nas investigações. É preciso ter certeza de que o presidente está em forma.

A propósito, Bolsonaro disse que poderia estar com câncer de pele. No dia seguinte, disse que não tinha nada e culpou a imprensa pela “notícia falsa”. Afinal, qual a verdade? A saúde do presidente é de interesse nacional.

É excelente ser excelência

A informação foi apurada pelo jornalista Cláudio Humberto, do Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br). Além do salário de quase R$ 34 mil mensais, deputados e vereadores cobraram do Congresso a reposição de despesas que dizem ter tido “com o exercício do mandato”. Com nota, vale até aluguel de jatinho (e, como lembra Cláudio Humberto, valeu para o deputado Afonso Motta, do PDT gaúcho, ser ressarcido de R$ 0,50 gastos com um pão de queijo). A Câmara devolve cerca de R$ 3,9 milhões por ano para cada deputado – são 531. O Senado devolve R$ 2,78 milhões anuais para cada um dos 81 senadores. Despesas, para eles, não são preocupação.

Paipai bravo

O acionista majoritário da Odebrecht, Emílio Odebrecht, demitiu por justa causa seu filho Marcelo, “o príncipe dos empreiteiros”, por fazer comentários depreciativos em público sobre a empresa da qual foi, até há pouco tempo, quando foi para a cadeia, o principal executivo. Lembra um caso ocorrido há anos, quando Clemente de Faria, dono do Banco da Lavoura de Minas Gerais, morreu. Aluísio Faria, o filho mais velho, herdou a gestão, e Gilberto, o mais novo, ficou como diretor. Um dia, Gilberto processou o banco por não cumprir, em seu caso, as obrigações trabalhistas. E Aluísio o demitiu por justa causa. Final: o juiz do Trabalho condenou os dois, alegando que ambos disputavam o controle acionário do banco e que isso nada tinha a ver com questões trabalhistas. O caso Odebrecht pode acabar desse jeito.

O vice

Depois de Mourão, Bolsonaro quer Moro de vice. Ainda bem que não pode disputar um terceiro mandato, ou acabaria tendo Mourinho na vice.

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​A ira dos deuses

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Jair Bolsonaro bateu o PT, que havia vencido quatro eleições seguidas para a Presidência, foi aplaudido em estádios de futebol e nas ruas, conseguiu emplacar uma ampla reforma da Previdência (mesmo sem ter articulação própria no Congresso), transformou o pequeno PSL num grande partido. Há alguns sinais tímidos de crescimento econômico, depois de anos de paralisia, a inflação está controlada, os juros oficiais jamais foram tão baixos, a Bolsa bate recordes, tendo já superado os 115 mil pontos. E, apesar disso, a aprovação do seu Governo, conforme a última pesquisa Ibope, é só de 29%. Menos de um terço do eleitorado o considera ótimo ou bom. Já 38% o vêem como ruim ou péssimo. Para 31%, é apenas um governo regular. Esta pesquisa foi pedida pela CNI, Confederação Nacional da Indústria, que pode ser tudo, menos socialista ou petista ou esquerdista.

Como explicar tão baixa aprovação para um presidente que colecionou tantos êxitos? Talvez a resposta esteja na velha Grécia: quando um homem tinha orgulho desmedido, a ponto de não se importar com mais ninguém, os deuses lhe enviavam Nêmesis, a vingança, para fazê-lo retornar aos limites. Se não se convencesse de que era homem, não deus, viria a Ate – destruição.

Fernando Collor também tomou boas medidas, também teve apoio nas ruas, mas quando se sentiu balançar e pediu apoio à multidão, não mais o teve. Bolsonaro tem tempo, ainda. Mas precisa lembrar-se de que não é deus.

Os problemas e a reação

Bolsonaro já demonstrou que não se importa com ninguém, nem os mais próximos aliados. Descartou Gustavo Bebbiano, que chefiou sua campanha, livrou-se de um amigo de 40 anos, o general Santa Cruz, esqueceu Paulo Marinho, em cuja casa esteve montado seu QG de comunicação, entregou velhos aliados como Alexandre Frota e Joice Hasselmann à grosseria de seus piadistas, rompeu com Luciano Bivar, que lhe cedeu o partido, de porteira fechada, durante todo o período eleitoral. A última pessoa que pôs a mão no fogo pelos outros foi o Capitão Gancho – mas estariam todos conspirando contra ele há tanto tempo? Aí veio Nêmesis, a deusa da Vingança. Se é só com os filhos que Bolsonaro se preocupa, agora tem com o que se preocupar. E os problemas do senador Flávio, o 01, visivelmente o preocupam – a ponto de dizer que um repórter tinha cara de homossexual, mas nem por isso iria acusá-lo de ser homossexual. Desde quando chamar alguém de homossexual é acusação? As perguntas sobre Flávio e Queiroz irritam o presidente. Talvez até a palavra correta não seja “irritem”. Talvez se deva dizer “tirem do sério”.

A boa notícia

Mesmo com a alta da carne, a inflação está sob controle. Na pior previsão, a inflação anual fica em 3,95%, abaixo do teto oficial de 4,25%.

Má notícia

A alta da carne não será revertida rapidamente. Esta coluna informou há tempos que a Austrália, vítima de pesadas chuvas e enchentes, foi obrigada a sacrificar o rebanho. Grande exportadora, vendeu tudo, inclusive as vacas. Vai levar uns três anos para normalizar a situação. E o consumo da China continua em elevação. Menos carne no mercado, maior consumo, preços mais altos – a solução está no frango e no porco, mais baratos que o boi.

Novidade na tela

Preste atenção na TV Cultura. Quem está no comando é um dos melhores executivos da TV brasileira, José Roberto Maluf, que foi homem-chave das redes Bandeirantes e SBT em algumas de suas melhores fases (este colunista teve a oportunidade de trabalhar com ele em ambas as redes). A Cultura já atinge 90% do público e continua ampliando a rede. Seu jornalismo, comandado por Leão Serva, veterano do Projeto Folha, capitão do Jornal da Tarde, mostra a que veio: amanhã, dia 23, às 22h, o tradicional Roda Viva apresenta o historiador israelense Yuval Harari, cujos livros e palestras são um sucesso internacional. Vale a pena ler Harari. E vê-lo.

É coisa nossa

Um romance publicado há quase 30 anos, O Papagaio e o Doutor, e a peça Adeus, Doutor, ambas da notável psicanalista e escritora brasileira Betty Milan, estão sendo adaptados para o cinema em Nova York pelo diretor Richard Ledes. O filme vai-se chamar Adeus, Lacan (referência ao psicanalista francês Jacques Lacan, com quem Betty Milan se especializou). O papel de Lacan será vivido por David Patrick Kelly.

Ele também acerta

Carlos Bolsonaro, vereador no Rio e o segundo dos zeros à esquerda do presidente da República, voltou a se manifestar, depois de curtíssimo tempo de silêncio. Segundo disse, a equipe que cuida da comunicação no Governo “sempre foi uma bela de uma porcaria”. O responsável direto pela área é Fábio Wajngarten, tido até agora como aliado de Carluxo. Mas, se Bolsonaro descartou amigos seus, por que não descartaria algum ex-amigo do filho?

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​O bode das ilusões

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Conta-se que um lavrador judeu foi pedir conselho ao rabino: sua casa era minúscula, não havia espaço para nada, e a sogra, que ficara viúva, tinha ido morar com eles. Que fazer? O rabino disse: leve seu bode para dentro de casa. O lavrador obedeceu e, uma semana depois, voltou ao rabino: tudo tinha piorado. O bode ocupava boa parte do espaço já minúsculo, cheirava mal, fazia sujeira – insuportável. O rabino recomendou: tire o bode de casa.

Alguns dias depois, o lavrador se encontrou com o rabino e agradeceu o conselho. “Tirei o bode de casa. Agora temos espaço e higiene para todos!”

Os R$ 3,8 bilhões de dinheiro público que pagariam a campanha eleitoral foram o bode que os parlamentares expulsaram da casa. Querem que o eleitor fique feliz com a gentileza do Congresso, desistindo dos R$ 3,8 bilhões que geraram tanta reação e aceitando os R$ 2 bilhões propostos pelo Governo no Orçamento. Parece piada: R$ 2 bilhões são bem mais que o R$ 1,8 bilhão da campanha de 2018. Já era dinheiro demais, e pagou a campanha presidencial e as estaduais. Aumentar os gastos para as eleições municipais é tungar o eleitor. É dar nosso dinheiro aos caciques dos partidos, é estimular a criação de novas legendas apenas para dar vida boa a quem não gosta de trabalhar. Que cada partido busque suas doações e sejam todos obrigados a declará-las, doadores e receptores. Nos Estados Unidos é assim. Por que só jurar amor aos americanos e rejeitar seus métodos de financiar campanhas?

Bem-vindo, seu Cabral

Até que o ex-governador fluminense Sérgio Cabral resistiu muito tempo – a ponto de o Ministério Público rejeitar sua proposta de delação premiada, por achar que ele nada poderia trazer de novo às investigações. Mas Cabral, que está condenado em tantos processos que se arrisca a nunca mais sair da prisão, resolveu agora insistir em sua delação premiada. Fez acordo com a Polícia Federal, contra o parecer do Ministério Público. E a decisão sobre os eventuais benefícios que possa receber será dada pelo Supremo Tribunal Federal, onde está nas mãos do ministro Édson Fachin.

Tiro ao alvo

Dizem que Cabral, em sua delação, atingirá não apenas os que já foram atingidos pela Lava Jato: o que se comenta é que entregará juízes, ministros, até diretores de meios de comunicação. Sempre sobrará, claro, para Lula; para Pezão, seu vice e sucessor; e para outros governadores que teriam atuado em conjunto com ele. Há empreiteiros que receberiam deduragem especial, e não são os mais conhecidos, mas o que eram mais amigos, que viajavam com ele, davam bons presentes ao então governador e sua família.

Questão de fé

Se Cabral promete denunciar quem ainda não foi denunciado, após tantos anos de Operação Lava Jato, e devolver centenas de milhões de reais ganhos ilicitamente, por que o Ministério Público se oporia ao acordo de delação? O procurador-geral Augusto Aras diz que Cabral, enquanto negociava delação premiada com a Lava Jato, ocultava informações e protegia aliados. Em resumo, não estaria convencido da boa-fé do ex-governador. De acordo com O Globo, que noticiou a possibilidade de acordo de delação com a PF, desta vez ele promete apontar o dedo até para ministros do Superior Tribunal de Justiça.

...e o óleo esfriou

As toneladas de petróleo que invadiram a costa nordeste do país levaram o ministro do Meio-Ambiente a acusar o Greenpeace (que a guerrilha dos bolsonaristas na Internet chamou de “greenpiche”). Houve falatório sobre a Shell; sobre um navio grego; sobre o modo pelo qual o petróleo, identificado como venezuelano, tinha chegado até o Brasil; e sobre uma misteriosa fonte de óleo sul-africano. A preocupação foi tamanha que a Câmara abriu uma CPI sobre o tema, com o pomposo e vasto título de “Comissão Parlamentar de Inquérito com a finalidade de investigar as origens das manchas de óleo que se espalham pelo litoral do Nordeste, bem como avaliar as medidas que estão sendo tomadas pelos órgãos competentes, apurar responsabilidades pelo vazamento e propor ações que mitiguem ou cessem os atuais danos e a ocorrência de novos acidentes”. Pois ontem havia reunião da CPI, às15 horas. Vazia, vazia. Suas Excelências assistiam ao jogo do Flamengo.

Pobres togados!

Um excelente jornalista e fiel leitor desta coluna, Mário Marinho, mostra o outro lado dos salários pagos a juízes e desembargadores baianos – muitas vezes maiores que vencimentos de ministro do Supremo, teto definido pela Constituição para qualquer tipo de funcionário público. Lembra Marinho que, além dos penduricalhos habituais, deveria haver os bônus Peru de Natal, Uísque de Natal, Frutas Natalinas (caríssimas!) Champanhe, vinhos com premiação internacional, ceia, tudo caro. E não se pode esquecer que, uma semana depois, essas despesas se repetem. Coitados dos desembargadores que tiveram de se contentar com pouco mais de R$ 200 mil mensais!

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​O teste das novidades

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O presidente Bolsonaro está disposto a apostar em novidades nas eleições de São Paulo: quer lançar para prefeito o jornalista José Luiz Datena, muito popular, mas nunca testado em eleições; e para governador o empresário Paulo Skaf, há doze anos presidente da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. São conhecidos, têm estrutura, têm potencial, mas:

1 – Datena já ensaiou outras candidaturas, mas desistiu no caminho. Tem bons motivos: primeiro, é um ídolo, e se for candidato vira alvo das máquinas de destruição de reputação; segundo, terá que deixar de lado salários estimados em R$ 3 milhões por mês, e se contentar com 1% do total, aproximadamente o ordenado do prefeito. E, de estilingue, vai virar vidraça. São Paulo está abandonada e ele teria de cuidar dos problemas todos.

2 – Paulo Skaf é um bom articulador (tanto que se eterniza no comando da Fiesp sem que ninguém lhe faça oposição). Tem estrutura montada, está próximo do presidente Bolsonaro, tem bons amigos capazes de ajudá-lo, o Sesi e o Senai, que ele dirige no Estado, têm ótima reputação, especialmente na área da instrução em tempo integral. Mas seus dois empreendimentos eleitorais não funcionaram: na primeira campanha, pelo PSB, foi quarto; na segunda, pelo PMDB, foi segundo. Em ambas o PSDB ganhou no primeiro turno. O invencível candidato em eleições sindicais não mostrou até agora a capacidade de entusiasmar o eleitor. O bolsonarismo conseguiria elegê-lo?

E os outros?

A eleição para prefeito em São Paulo promete ser difícil. O PSDB é forte e tem o governador do Estado. Joice Hasselmann, segunda deputada federal mais votada do Brasil, pode sair para a Prefeitura ou a vice. Lula quer atrair para o PT uma antiga petista, Marta Suplicy, que já foi prefeita, e tem no seu currículo a introdução do bilhete único no transporte coletivo paulistano. É briga de gente grande – e o prêmio para Datena é herdar os problemas de uma cidade há anos mal administrada, ganhando 1% do que recebe hoje.

Núcleo duro

Boa parte do empresariado paulista apoia Bolsonaro, 60% consideram sua administração ótima ou boa. E Bolsonaro recebeu há dias o Grande Colar da Ordem do Mérito Industrial da CNI, Confederação Nacional da Indústria. Skaf será um aliado fiel: tirando o período Dilma – aí também já seria demais- apoiou todos os presidentes. Se tem apoio no Governo, jamais romperá com ele.

Fervendo

A desembargadora Maria do Socorro Santiago, ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, talvez queira falar alguma coisa depois de se transformar em alvo da Operação Faroeste. Contratou para sua defesa o criminalista André Luís Callegari, que já orientou delações premiadas. Se ela optar por esse caminho, estará pondo em risco gente importante da Bahia. A desembargadora está presa preventivamente na Papuda, em Brasília. Entre outros clientes, o advogado cuidou de Wesley e Joesley Batista, da JBS, que fizeram devastadoras delações premiadas, atingindo até o presidente Temer.

A festa da mexerica

O caro leitor sabe que o maior salário que pode ser pago pelo Tesouro é equivalente ao de ministro do Supremo, algo como R$ 40 mil mensais. Saber todos sabemos: o problema é que alguns de nós acreditamos. O Tribunal de Justiça de Pernambuco pagou a juízes e desembargadores, em novembro, quantias líquidas de até R$ 853 mil. Mas não sejamos injustos: a quantia de R$ 853.002,43 foi paga a apenas uma juíza. Já o segundo colocado, que é desembargador, teve de se contentar com apenas R$ 695.742,49. A média das quantias pagas a 53 desembargadores – como já havia constatado o sambista Assis Valente, nem todo mundo é filho de Papai Noel – foi menor, de R$ 206.411,00. Pouco mais de cinco vezes o teto constitucional.

Chegando lá

Como atingir quantias tão superiores ao teto? Ora, abono constitucional de um terço das férias, indenização de férias, antecipação de férias, gratificação natalina, antecipação de gratificação natalina, serviços extraordinários, substituição, pagamentos retroativos. Pague e não bufe.

Boa notícia

A reputação de engenharia confiável e soluções criativas bem executadas marcou a construtora Mendes Junior na China, quando liderou a construção da hidrelétrica de Tiangshengqiao, de 1,2 milhão de kW, em região remota. Resultado: 18 anos mais tarde, a gigante PowerChina se associou à Mendes Junior para uma grande obra no Brasil, a extensão da linha 2 do Metrô paulistano, que duplicará o número de passageiros transportados na região. Atingida por uma série de problemas – Lava Jato, a morte do lendário comandante Murillo Mendes, dívidas bilionárias que o Governo Federal se recusa a pagar – a Mendes Junior ganha forças para se recuperar. Este colunista, que por muitos anos trabalhou com a empresa, também comemora.

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​A diplomacia do vai-vem

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O presidente Bolsonaro já desancou o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, e nem o cumprimentou pela vitória nas eleições. Já disse que com a China deveríamos tomar cuidado: não apenas eram comunistas como não tinham grande vontade de investir no Brasil – apenas de comprar o país todo. Quis mandar seu filho para Washington, para que Trump tomasse conta dele.

São apenas os três maiores parceiros comerciais do Brasil. Não faz nem um ano e, quando os chineses não aparecem para comprar alguma coisa, o nosso Governo manda chamá-los. Para a posse de Fernández, primeiro não iria ninguém para representar o Brasil, depois iria um ministro, depois não iria ninguém, seríamos representados pelo embaixador brasileiro em Buenos Aires. Na última hora Bolsonaro mandou seu vice, o general Mourão. A mal – mas é que los hermanos devem pensar dos negócios com o Brasil?

Quanto a Trump, provavelmente também gosta de Bolsonaro e se dispõe a retribuir as concessões que nosso presidente já lhe fez, assim que se lembrar de quem é que se trata (“Mr. President, é o pai do garoto que se orgulhava de fritar hambúrgeres na Popeye, que não vende hambúrgueres!”) Claro que Trump, que chama seu desafeto Jeff Bezzos de “Bozo”, tem dificuldade para pronunciar o nome Bolsonaro. Deve se sentir tentado a abreviá-lo – e daí?

Essa diplomacia errante só tem conserto se surgir um chanceler acertante. Cadê ele? E insegurança diplomática é tão ruim quanto insegurança jurídica.

Los vecinos

O Governo argentino assume numa situação difícil – nada pior, para eles, do que lidar com um vizinho não confiável. Fernández terá de mostrar, logo nos primeiros dias, que é o presidente, não apenas um poste escolhido pela  vice Cristina Kirchner, ex-presidente e chefe de uma grande ala peronista. A situação econômica é dramática (e Fernández prometeu devolver o dinheiro à carteira dos pobres). Há as outras alas peronistas, da extrema esquerda à extrema direita, cada uma com sua versão do peronismo. Há até, algo raro,  um bloco antiperonista que já conseguiu ganhar uma eleição nacional. Cabe ao Brasil ajudar a clarear a situação – ou piorá-la de uma vez por todas.

O braço certo

Dizia o escritor italiano Pitigrilli que todo homem tem cinco minutos de imbecilidade por dia. A diferença entre os homens comuns e os gênios é que, nos seus cinco minutos, os gênios se calam. O novo presidente da Funarte gosta de usar esse tempinho para falar, que se há de fazer? Pois ele retomou um tema querido a Bolsonaro, citar nazismo e fascismo como ideologias de esquerda. Há ocasiões e interlocutores que não valem um debate. Mas lembrar como seria o mundo se eles tivessem razão vale a pena. Poderíamos começar com o Governo fascista de Getúlio Vargas entregando à Alemanha nazista a militante comunista Olga Benário. Por que os esquerdistas fascistas teriam entregue a esquerdista comunista Olga Benário a Hitler, esquerdista nazista? E a Falange fascista do generalíssimo Franco, sendo esquerdista, por que teria lutado contra comunistas e trotskistas, seus aliados de esquerda? E tudo culminaria quando o esquerdista Hitler atacou o esquerdista Stalin, com apoio da Divisão Azul espanhola – fascista e, portanto, esquerdista. Absurdo, não? Tão absurdo quanto gente que nem sabe o que fala pensar que pensa.

O bom e o mau

Este colunista está convencido de que a economia definirá o Governo de Jair Bolsonaro. Se a economia for mal, terá fracassado. Se for bem, terá sido um êxito, apesar de Damares, Weintraub, Salles e da família presidencial. A economia tem dado sinais de recuperação – fracos, ainda, mas aos quais nós já nos havíamos desacostumado. A brilhante economista-chefe da XP, Zeina Latif, avalia bem o desempenho da economia, mas acha que o Governo precisa avançar. “Passada a reforma da Previdência, sinalizava-se com novas propostas”, lembra. Mas a reforma tributária não avançou, a privatização da Eletrobrás ainda não saiu. Falta muita coisa. Fora as medidas econômicas, por quanto tempo o país aguentará mais de 12 milhões de desempregados?

Prender ou soltar

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou projeto de lei que permite a prisão de réus condenados em segunda instância. Mas calma: ainda há um projeto da Câmara, que deverá demorar mais, que emenda a Constituição para permitir a prisão em segunda instância. E o ano de 2019 está acabando: não há tempo de nenhum dos projetos ser definitivamente aprovado, então fica tudo para o ano que vem. Os senadores aproveitarão o recesso para mostrar a seus eleitores que votaram para antecipar as prisões, e votaram rapidamente. Terminado o recesso parlamentar, o jogo é outro: já não haverá pressões diretas do eleitorado. Em 2020 há eleição municipal, o Congresso funciona lentamente, os períodos de trabalho são mais curtos. E por que um parlamentar que pode se ver diante de um processo votará, na hora H, em favor de leis mais duras, que poderão prejudicá-lo?

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É coisa pouca, mas da boa

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Sim, continuamos no fundo do poço. Mas há sinais de que pelo menos já pararam de nos jogar terra em cima. Um economista de ótima reputação, Affonso Celso Pastore, acha que em 2020 já será possível crescer acima de 2%. Há quem preveja crescimento maior do que se esperava em 2019 – nada de excepcional, mas menos ruim do que se aguardava. O Santander esperava 0,8% de aumento do PIB em 2019, agora espera 1,2%. O Itaú mantém-se na previsão de 1%, mas admite a possibilidade de algo como 1,2%. O Goldman Sachs previa 1%, agora prevê 1,2% (e espera, para o ano que vem, de 2,2% a 2,3%). O Citi esperava 0,7% em 2019, agora fala em 1,1%. Para 2020, os 1,8% originais passam para 2,2%. Espera-se ainda, de acordo com pesquisa Valor PRO, uma boa subida no índice Bovespa, que há pouco ultrapassou os cem mil pontos. Das quinze organizações ouvidas, a menor previsão é de 125 mil pontos (Veedha Investimentos) e a maior de 150 mil (Mauá Capital).

Não é nada, não é nada, concretamente não é quase nada, mesmo. Mas é surpreendente neste período, que vem desde o governo Dilma, em que todos os índices diminuíam, exceto o da inflação. E por que há essa melhora, ainda insuficiente? Solange Srour, economista-chefe da ARX, diz que, graças ao FGTS liberado em setembro, à melhora do crédito e à inflação em baixa, o consumo das famílias se ampliou, e como o efeito maior deste consumo será sentido no quarto trimestre, ainda dá para crescer. Mas há muito a fazer.

Apenas um retrato

A revista Veja pediu à FSB uma pesquisa sobre as eleições presidenciais, que se realizarão em 2022, daqui a três anos. Neste momento, os resultados não querem dizer nada: valem apenas como registro. Ainda não se sabe quem será candidato, nem quais alianças serão formadas, nem como se comportará o principal fator eleitoral: a economia. Mas, apenas como curiosidade, se as eleições se realizassem hoje, Bolsonaro venceria Lula no segundo turno por 45% a 40%. Sergio Moro derrotaria Lula por 48% a 39%.

Vergonha nacional 1

Suas Excelências acham que é pouco o dinheirão que recebem do Tesouro para financiar suas campanhas eleitorais. Estão praticamente dobrando a já gigantesca verba inicialmente prevista, de R$ 2 bilhões, para R$ 3,8 bilhões. E, para consolidar esse espantoso volume de dinheiro, tiraram verbas da Saúde (R$ 500 milhões), da Educação (R$ 280 milhões) e de habitação popular, como Minha Casa Minha Vida, e saneamento (R$ 380 milhões). Talvez no ano que vem reponham essas verbas, mas isso não é garantido. Garantido é só aquilo que serve aos interesses dos nobres parlamentares.

Vergonha nacional 2

Lembra daquela licitação que proporcionava aos ministros do Supremo um excelente menu para banquetes institucionais? Sim, aquela das lagostas, dos vinhos várias vezes premiados? Pois bem, o Tribunal de Contas da União liberou a compra dos produtos previstos na licitação, com uma só restrição: o cardápio chiquérrimo só deve ser utilizado em eventos de que participem pelo menos duas altas autoridades. Curioso. Digamos que o presidente do Supremo Tribunal de uma nação amiga venha sozinho ao Brasil e o Supremo o convide. Sendo ele apenas uma alta autoridade, que cardápio lhe servirão?

Vergonha estadual

A Operação Faroeste, que atingiu pesadamente o Tribunal de Justiça da Bahia, revelou um fato interessantíssimo: a corrupção era passada, presente e futura. A ex-presidente do TJ, Maria do Socorro Barreto Santiago, chegou a ser presa; o atual presidente, Gesivaldo Britto, foi afastado. Maria da Graça Osório Pimentel Leal seria eleita presidente no dia seguinte, não fosse a ação da Polícia Federal.  As acusações são de venda de sentenças.

Jogo dos erros

Claro, tinha de ser ele. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, louvou no twitter “o primeiro ano que o rei, Roberto Carlos, se livrou do mico dos marinho”. E, como homenagem a Roberto Carlos (supõe-se que se baseie nas notícias equivocadas de que não haveria o tradicional especial de fim do ano de Roberto na Globo), posta seu irmão Arthur Weintraub tocando ao piano um sucesso do rei. Mas haverá show, sim: na sexta, 20 de dezembro.

Tudo normal

A diferença entre os especiais de Roberto a que todos se acostumaram e este é que em vez de gravar tudo de uma vez, o show usa trechos de dois espetáculos de Roberto em excursões internacionais, tudo costurado por uma exibição no Teatro de Arame, de Curitiba, gravada nestes últimos dias. No fundo, o show de sempre: aquelas músicas que todos conhecem e fazem questão de ouvir de novo, mais uma composição nova, mais algo cantado em espanhol. O que há de novo é uma volta ao passado: Erasmo estará com ele, mas dizem, extra-oficialmente, que terá não apenas uma participação pequena: ficaria como co-apresentador, como nos tempos da Jovem Guarda.

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​Loucademia de política

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A partir de agora, talvez seja melhor ignorar os conselhos de seu guru de aplicações, dos peritos em finanças do jornal, daqueles senhores com pilhas de diplomas e títulos em inglês (representados por iniciais em três letras), e investir num produto que, ao que tudo indica, terá sua procura multiplicada: boas e bonitas camisas de força. Nelson Rodrigues dizia que os idiotas iriam tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. “Eles são muitos”. Mas talvez outro tipo de gente já esteja ocupando o poder.

O novo presidente da Funarte, Fundação Nacional de Artes, é Dante Mantovani. Em vídeo, disse que a indústria musical americana se relacionou com serviços de inteligência, e que agentes soviéticos infiltrados inseriram “certos elementos” em músicas para “experimentações” com adolescentes e crianças. O resultado teria sido o rock de Elvis Presley e dos Beatles, ambos partes do plano para destruir os Estados Unidos e o capitalismo pela destruição da moral da juventude e das famílias. Textual: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. E a indústria do aborto alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que fez um pacto com Satanás”.

O fato de que os EUA e o capitalismo estão de pé e a União Soviética ruiu com seu império comunista não importa. Voltando a Nelson Rodrigues: quem manda são loucos que parecem idiotas ou idiotas que parecem loucos?

Negócios à parte

Bolsonaro fez o que pôde para demonstrar sua paixão por Donald Trump. Seu filho posou com boné de Trump, disse que é amigo dos filhos do ídolo, tão americanófilo que garantiu ter fritado hambúrguer quando trabalhou nos EUA, na loja Popeye’s – que faz frango frito e não hambúrguer. Um dia, nosso presidente teria de aprender que um país não tem amigos, tem interesses. O amigo do peito, o chapa, aquele que, por amizade, ia botar o Brasil na OCDE (e, aliás, indicou a Argentina, não o Brasil), resolveu taxar em 100% as importações de aço e alumínio brasileiros. Pior: usando pretextos falsos, de que o Brasil deliberadamente enfraquecia o real para ter ganhos comerciais. Trump e seus assessores sabem que o Brasil tem câmbio flutuante e o Governo pode pouco sobre o valor da moeda. Bolsonaro diz que vai ligar para Trump, que retornará assim que lembrar de quem se trata.

Amigos, amigos

O Brasil já deveria ter aprendido a lição. Bolsonaro fez o que podia para mostrar que Trump é seu ídolo. Mas Trump não liberou importações de açúcar brasileiro; a carne não industrializada do Brasil continua proibida de entrar nos EUA. Trump diz que não pode permitir que o agricultor americano seja prejudicado. Já o álcool americano entra no Brasil livremente, concorrendo com o álcool brasileiro. E a Base Aeroespacial de Alcântara foi cedida em boas condições para que os americanos a operem. Quando Trump diz que quer a “America great again”, não inclui nada fora de suas fronteiras. De seu ponto de vista, está correto: quem é que vota na eleição americana?

Nóis num lê...

Devastador. No exame internacional PISA, aplicado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para medir capacidade de Leitura, Matemática e Ciências entre estudantes de 15 anos de idade, de 79 países, o Brasil ocupou postos no último terço da classificação. Entre dez estudantes brasileiros, quatro não conseguem identificar a principal ideia de um texto, nem ler gráficos ou resolver problemas com números inteiros (se entrar fração, piora), nem entender uma experiência científica simples.

Nem eles

Na América Latina, só três países conseguiram ficar abaixo do Brasil em Matemática: Argentina, Panamá e República Dominicana. Em Ciência, só dois: Panamá e República Dominicana – esta a última do ranking mundial.

A chave da riqueza

Em 1960, a economia brasileira era bem maior que a da Coreia do Sul, da Índia e da China. Os três países fizeram esforços importantes para melhorar a qualificação de seus estudantes – inclusive investindo pesadamente na formação de mestres e doutores em países mais avançados, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos (o domínio do inglês foi considerado valioso em si, mais valioso que o do japonês ou de outras línguas). Resultado: todos estes países ultrapassaram a economia brasileira, a Índia superou a economia britânica e a China disputa a liderança mundial com os Estados Unidos.

O cadeado

O Brasil, além de jamais ter investido alto em estudantes no Exterior, reduziu as bolsas a quem já está em boas universidades internacionais.

 O próximo alvo

Delação premiada de doleiro atinge o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. A vereadora Teresa Bergher, que tem boa fama, articula uma CPI.

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