Balança mas ainda não cai

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Esperteza, quando é muita, vira bicho e come o esperto. Bolsonaro achou que era esperto ao levar para seu Governo o popularíssimo juiz Sergio Moro, odiado pelo PT. Tinha certeza de que Moro aceitaria qualquer ordem, já que seu sonho era ir para o Supremo. Moro achou que era esperto ao desafiar o presidente. Tinha certeza de que Bolsonaro não o demitiria, por temer reação popular e para não acirrar os ânimos dos federais que investigam seus filhos.

Ambos foram devorados. Bolsonaro esqueceu que Moro, experiente nos tribunais, certamente estaria colecionando documentos e gravações de sua passagem pelo Governo. Moro esqueceu que, embora popularíssimo, terá de passar dois anos ao sol e ao sereno, sua lembrança se esvaindo, para só então disputar a Presidência. Que mais pode querer, a essa altura? Quem ousará apadrinhá-lo, sabendo de seu hábito de colecionar documentos e gravações?

Com a entrada do Supremo no jogo, Moro poderá até derrubar Bolsonaro – mas sem ganhar nada com isso. E mesmo tendo apanhado o presidente no contrapé, balançando, derrubá-lo não é simples. Bolsonaro até que faz força para cair, criando uma crise após outra; mas não é à-toa que, com uns trinta pedidos de impeachment, Rodrigo Maia não mandou nenhum para a frente. Impeachment exige não apenas um crime de responsabilidade (e maioria no Congresso), mas principalmente condições políticas.

Bolsonaro já não é tão forte, mas tem um terço do eleitorado. Pode cair, mas precisará se esforçar.

 As pedras no caminho

Há mais problemas sérios para Bolsonaro enfrentar. A Polícia investiga seu filho Flávio, hoje senador, no caso Queiroz. Funcionários de Flávio na Assembleia entregavam a Queiroz parte do salário, que, suspeita-se, iria para Flávio. Há investigações sobre notícias falsas (em “português”, fake news), que parecem estar próximas de dois de seus outros filhos, Carlos e Eduardo. Mas o presidente não pode ser responsabilizado por problemas dos filhos. Seria preciso provar que participou dos fatos, ou se beneficiou, ou os acobertou.

 O Satânico Dr. Go

Um dos principais estrategistas do regime militar, o general Golbery do Couto e Silva, hoje notaria que todos os Estados banhados pelo mar, menos um – o Paraná – estão na oposição. Ao romper com o presidente, Ronaldo Caiado, de Goiás, deixou-o ilhado em Brasília. A aliança dos governadores contra ele é mais séria que a posição do Congresso ou do Supremo, e o deixa instável. Bolsonaro conseguiu trazer de volta a Política dos Governadores, parada desde a campanha pelas diretas. E a trouxe contra ele.

 Hora e lugar

O ministro Celso de Mello ordenou à Procuradoria Geral da República que investigue as acusações de Moro a Bolsonaro (e, caso sejam falsas, de Bolsonaro contra Moro, por denunciação caluniosa). Foram denúncias pesadas e, como se viu, Moro andou colecionando documentos. Mas há um problema, apontado pelo ministro Gilmar Mendes: o prazo. Em novembro, Celso de Mello se aposenta por idade. O presidente indica o substituto, que herda seus processos. Bolsonaro indicou o perfil que escolherá: o de alguém “terrivelmente evangélico”.

E, ao mesmo tempo, terrivelmente bolsonarista.

 Repetindo a história

Celso de Mello votou contra Sarney, que o nomeou (e por isso o ministro da Justiça, Saulo Ramos, rompeu com ele), Luiz Fux prometeu “matar no peito” o processo contra José Dirceu (e Dirceu acreditou!), oito dos onze ministros do Supremo foram indicados por Lula e Dilma (e a cúpula do PT acabou na prisão). Quando alguém chega a um cargo vitalício bem pago, com garantia total para sua independência, fica independente que só vendo.

 Acredite se puder

O canadense Grant Peterson, ex-policial, casado com uma brasileira, escreve livros policiais no estilo de Richard Prather, criador do detetive Shell Scott: seus personagens são conservadores, duros, adeptos da manutenção da ordem a qualquer preço. Peterson mandou dois livros, cuja história se passa no Brasil, para a Fonte Editorial, que os traduziria e lançaria aqui: Southern Cross Back in Slowly. Na tradução, os livros foram modificados e viraram petistas. Peterson está processando a Fonte Editorial.

Num dos livros, um personagem, “o senador Buscetti, do PMDB”, tenta “derrubar Dilma por corrupção”. Na tradução, Buscetti “estavam tentando derrubar Dilma do poder por uma invenção da mídia golpista brasileira”. E são denunciados por boa parte da opinião pública pelo “grande crime que destruiu a democracia inclusiva e participativa brasileira, que estava sendo construída no governo do Partido dos Trabalhadores (…)”. No original, “não parece que o PT vá sobreviver à Lava Jato”. Na tradução, o PT é “o maior partido popular da América Latina e quiçá do mundo”.

Eduardo de Proença, editor da Fonte, diz que o tradutor Daniel Costa foi dispensado. Costa acha que melhorou o livro, tornando-o “mais isento”.

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​É uma brasa, o Moro

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Nos tempos da Internet a manivela, um empresário me convidou para ser diretor-adjunto; uma das minhas funções seria vigiar o meu chefe. Explicou: “Ele me rouba”. OK, e por que não o demite? “Não posso. Ele sabe muito”.

Bolsonaro queria livrar-se de Moro desde que descobriu que o ministro não podia, nem queria, intrometer-se nas investigações da Polícia Federal. E por que o levou a sair agora, mesmo tendo noção de que Moro sabe muito? O ótimo portal Consultor Jurídico, baseado em informações de um colunista com três prêmios Esso, informa que o inquérito da Federal sobre notícias falsas chegou ao Gabinete do Ódio – e, portanto, a Carluxo, um dos filhos de Bolsonaro. A mesma investigação apura quem organizou a manifestação pró-golpe a que Bolsonaro compareceu – há suspeitas sobre dois dos filhos do presidente, Carluxo, o 02, e Eduardo, o 03. Entre o governo e a família, Bolsonaro escolheu a família. E corre o sério risco de perder o governo.

O ministro Celso de Mello, decano do Supremo, deu dez dias de prazo ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para apresentar informações sobre um dos pedidos de impeachment do presidente. Maia tinha deixado o pedido na gaveta, confiando na tradição do STF de não intervir nesses casos. Mas a tradição mudou: ele terá de agir. Bolsonaro, quem diria, nas mãos de Maia!

Impeachment precisa ter base jurídica, mas é ato político. Sem Moro, os grupos pró-impeachment ganham mais base política. E o vice é um general.

Os tiros de lado a lado

Moro bateu duro na entrevista em que anunciou sua demissão. Acusou o presidente de pelo menos cinco crimes. Em quatro das denúncias, só será possível provar o que diz se tiver gravado as conversas – o que seria desleal, mas no campo da política é algo bem disseminado. Bolsonaro, na entrevista em que apresentou a história como ele a viu, narrou seu relacionamento com Moro de maneira diferente, em que esses crimes não aparecem. E, o que é importante, pediu a Augusto Aras, procurador-geral da República, que apure as acusações de Moro. É uma atitude forte, de quem acha que tem razão.

Quem é o mentiroso?

O pedido ao Ministério Público para que investigue as denúncias de Moro tem importância, já que atribuir falsamente a alguém a prática de crime é também um crime. Mas há uma acusação de Moro que pode ser comprovada ou desmentida: a de que sua assinatura foi colocada na demissão do delegado Maurício Valeixo sem que ele a tenha assinado. Se a assinatura foi colocada no documento sem que ele o soubesse, o responsável pode responder por falsidade ideológica, crime previsto no artigo 299 do Código Penal. Uma boa investigação pode determinar quem é o mentiroso e quem fala a verdade.

Velhas histórias

De Jair Bolsonaro em novembro de 2018, em entrevista à Rede Record, sobre o convite a Sérgio Moro: “Eu não vou interferir em absolutamente nada que venha a ocorrer dentro da Justiça no tocante a esse combate à corrupção. Mesmo que viesse a mexer com alguém da minha família no futuro. Não importa. Eu disse a ele: é liberdade total para trabalhar pelo Brasil”.

Histórias velhas

Uma das declarações de Moro, em sua entrevista de demissão, é estranha: disse que, quando convidado, pediu a Bolsonaro apenas que lhe garantisse uma pensão para a família, caso morresse no combate ao crime. Em que lei estaria baseado para fazer o pedido? Por que para ele (embora, pelo mundo, muita gente que se destacou no combate ao crime tenha sido assassinada) e não para Paulo Guedes, cujas decisões poderiam fazer com que milionários ficassem menos ou mais milionários? Moro não avançou no tema. E deveria.

The day after

Sérgio Moro já não é juiz, deixou de ser ministro. Estará interessado em se envolver na política, disputando, digamos, a Presidência da República? A deputada Joice Hasselmann, do PSL paulista, que rompeu com Bolsonaro, já lançou sua candidatura. O problema é que é muito cedo: Moro é hoje muito popular, mas daqui até as eleições terá de ficar ao sol e ao sereno. E, como candidato, na faixa de centro-esquerda até a centro-direita, terá adversários fortes além de Bolsonaro: João Dória, por exemplo, que pretende ocupar o mesmo campo político em 2022. O pessoal mais à esquerda não se sentirá à vontade para apoiar o candidato que, como juiz, não só revelou a corrupção dos governos petistas como ousou condenar Lula (e, com suas delações premiadas, demolir o relacionamento entre empresários corruptos e políticos corruptores, ou vice-versa). Terá como adversário, também, quem condena o estreito relacionamento – aliás, ilegal – entre juiz e Ministério Público. Terá jogo de cintura para evitar que esses adversários tomem seus votos?

Que pretende?

Moro deixou abertas todas as opções. Pode também advogar e palestrar. Ou esperar: se por acaso Mourão chegar lá, iria buscá-lo? Ele voltaria?

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​A volta do cipó de aroeira

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O presidente Bolsonaro foi agressivo, radical, mas o texto de seu discurso se manteve dentro da lei. Entretanto, compareceu a uma manifestação pelo fechamento do Congresso e do Supremo, pela intervenção militar, pela volta do Ato Institucional nº 5, que marcou o mais terrível momento da ditadura, ouviu os gritos exigindo a ditadura, sem rejeitá-los, e participou do ato.

É provável que tenha errado o cálculo, e percebido o erro: no dia seguinte, já garantiu que é um democrata, que jamais pensou em fechar Congresso e Supremo. Do lado de fora, analisemos: se Bolsonaro não quer o golpe, deu a impressão de que quer, unindo contra si todos que se opõem a ditaduras. Caso tente o golpe, pode perder – e, no caso, perde tudo; ou ganhar – e, no caso, por que generais da ativa iriam obedecer a um cavalheiro que só chegou a tenente e passou a capitão apenas por promoção automática, ao deixar a farda? Ele é comandante-chefe das Forças Armadas por ter sido eleito. Após um golpe, seria só uma patente inferior mandando nas patentes superiores.

Na sucessão do presidente Médici, o general Albuquerque Lima era forte. Perdeu por ter três estrelas, não quatro. E a Censura proibiu qualquer referência a ele. Na sucessão do presidente Geisel, o ministro e coronel Jarbas Passarinho – com carreira militar e experiência política, bom de voto, era forte. Perdeu quando o ministro da Guerra, general Orlando Geisel, disse que não obedeceria a um coronel. Hierarquia é hierarquia, e isso não muda.

A voz das armas

O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, conversaram sobre a manifestação. Nenhum dos dois revelou nada, mas Toffoli parecia tranquilo após a conversa. O ministro, mais tarde, emitiu nota lembrando que as Forças Armadas “trabalham com o propósito de manter a paz e a estabilidade do país, sempre obedientes à Constituição Federal". Isto nem precisaria ser lembrado; mas o general Fernando Azevedo aparentemente não quis deixar qualquer dúvida no ar.

Golpe fácil

Se os manifestantes favoráveis à intervenção militar acham mesmo que esta é a solução, o caminho é fácil: convencer Bolsonaro a renunciar. Assume o vice, general Hamilton Mourão, quatro estrelas, com grande prestígio nas Forças Armadas. Assim realizarão o desejo de ter um general no poder. 

Ação e reação

O ministro Alexandre de Morais, do STF, autorizou o procurador-geral da República, Augusto Aras, a abrir inquérito sobre as manifestações em favor da ditadura. Aras deve apurar se houve infração à Lei de Segurança Nacional “por atos contra o regime da democracia brasileira por vários cidadãos, inclusive deputados federais, o que justifica a competência do STF”. Disse Aras: “O Estado brasileiro admite única ideologia, que é a do regime da democracia participativa. Qualquer atentado à democracia afronta a Constituição e a Lei de Segurança Nacional”. Bolsonaro, que compareceu à manifestação de Brasília e discursou, não é citado e não será investigado, a menos que haja indícios de que ajudou a organizar o movimento.

Texto e contexto

Há muitos anos, o notável meteorologista Rubens Junqueira Vilela era o responsável pelo setor na Folha de S.Paulo. Mas, apesar de seu bom texto, poucos na Redação se davam ao trabalho de lê-lo. Tão logo ele entrava, todos sabiam como seria o tempo. Se estivesse de guarda-chuva, iria chover. Se estivesse agasalhado, iria esfriar. Seguíamos o que mostrava, não o que dizia.

Atualizemos o tema: o presidente esteve na manifestação antidemocrática e não disse nada diante dos gritos pela volta do Ato 5 e outros. O filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, já disse que para fechar o Supremo bastariam um cabo e um soldado (e papai nada comentou). O ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro, Eduardo Araújo, publicou anteontem em seu twitter foto da manifestação de domingo e seu chefe, o presidente, quedou-se quieto.

Bolsonaro efetivamente fez declarações pró-democracia a partir desta segunda-feira. E, lido sem má vontade, seu discurso é radical, mas fica nos limites da lei. Mas gente próxima a ele foi simpática ao ato, e até já havia se manifestado contra as instituições. E ele sempre garantiu que não houve ditadura nem tortura. É “façam o que eu digo” ou “façam o que eu faço”?

Alternativa

Quarentena é essencial, e não precisa ser chata. A TV Cultura oferece, de graça, shows, concertos, palestras, livros, mais de 200 obras para TV, computador, celulares. Entre em www.culturaemcasa.sp.gov.br

YouTube, https://youtu.be/AkJf1rukEtg

Twitter, https://twitter.com/CulturaSP/status/1252371896022126593

Face: https://www.facebook.com/culturasp/videos/3093226110729494     

Lembra quando a esquerda é que detestava a Globo? A Cultura foi uma das tevês onde Chico Buarque fez alguns de seus mais notáveis espetáculos.

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​Sinfonia da Loucura

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O criador da Microsoft, Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo, se dedica hoje a distribuir sua fortuna, por meio da Fundação Bill & Melinda Gates. A Fundação paga as pesquisas de um laboratório, o Inovio, em busca da vacina para o coronavírus. Gates criticou o presidente Donald Trump por ter bloqueado a liberação da parcela americana no orçamento da OMS, Organização Mundial da Saúde. Gates, a rigor, não defendeu a OMS, cujo presidente foi eleito com patrocínio da China e onde a China tem poderosa influência; mas disse que este momento de pandemia não é adequado para brigar por dinheiro. Resultado: está sendo ameaçado de morte pela Internet.

Lá e cá: pesquisadores da FIO, Fundação Instituto Oswaldo Cruz, que fizeram um teste com a cloroquina em Manaus, estão sendo ameaçados de morte por ter dito que, num grupo de 83 pacientes em estado grave, tratados com a cloroquina – remédio defendido pelo presidente Bolsonaro – morreram onze. Os pesquisadores são acusados pelos doidos virtuais de ter dado doses altas demais de cloroquina aos doentes. Na verdade, havia dois grupos, um que recebeu doses mais altas, outro que recebeu doses menores. Houve mortes nos dois grupos. Nada que inviabilize a cloroquina, ou sua parente, a hidroxicloroquina, para mais pesquisas com outros remédios associados. Mas parece que os doidos decidiram que quem não decreta que as duas drogas são a solução está é conspirando para derrubar o presidente.

A coroa do rei

Frase bem humorada do vice-presidente, general Mourão, ao lhe perguntarem como estava: “Tudo sob controle. Mas não sabemos de quem”.

A palavra

Bolsonaro nomeou novo ministro da Saúde, o médico Nelson Teich, que se disse alinhado ao presidente mas manteve a quarentena. Bolsonaro, logo após a posse de Teich, criticou mais uma vez o isolamento social, criticou de novo os governadores que determinaram a quarentena, disse que as pessoas não devem ficar em casa e que as crianças devem voltar à escola.

Os aliados

Financial Times, um dos mais importantes jornais do mundo, listou os dirigentes internacionais que compartilham a tese da “gripezinha” defendida por Bolsonaro e se recusam a levar o coronavirus a sério: são Alexander Lukashenko, da Belarus; Daniel Ortega, da Nicarágua; e Gurbanguly Berdymukhamedov, do Turcomenistão. Detalhe: Ortega, da Nicarágua, é de extrema esquerda, foi guerrilheiro apoiado por Cuba e é aliado de Lula.

Aves que não voam

Este grupo, Ortega, Lukashenko, Berdymukolamedov e Bolsonaro, é chamado pelo Financial Times de Aliança do Avestruz, baseado na lenda de que avestruzes enterram a cabeça na areia para não ver o perigo (o nome do grupo foi criado no Brasil, por um professor de Relações Internacionais da FGV - São Paulo, Oliver Stuenkel). De fato, avestruzes escondem a cabeça para não ser vistos, já que seu corpo é da cor do solo. Mas confirmam um antigo ditado português: “Quanto mais se abaixam, mais o rabo se lhes vê”. Os portugueses não usam a palavra “rabo”, mas um sinônimo monossilábico.

Delirar é preciso

Encerrado o episódio Mandetta – que, em princípio, deve se preservar para outros voos, evitando filiar-se à oposição aberta ao presidente – o novo adversário de Bolsonaro foi escolhido: Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados. Foi Maia que conseguiu aprovar a reforma da Previdência, o que irrita Bolsonaro desde aquela época: como se atreveu a brilhar mais do que ele? Maia pode atrapalhar muito os passos do Governo, que até hoje não tem boa relação com o Congresso. Não faz mal: Bolsonaro não vive sem um inimigo para chamar de seu. Diz que Maia – por ter conseguido, em votação massacrante, aprovar um substancial auxílio federal aos Estados, que devido à pandemia perdem boa parte da arrecadação – “está conduzindo o Brasil para o caos”. E – textual – “parece conspirar e querer me tirar do Governo”. Bateu duro: “Quando você (Maia) fala em diálogo, a gente sabe qual é o teu diálogo, então esse tipo de diálogo não vai ter comigo”. A resposta de Maia é que Sua Excelência o critica para desviar a atenção da saída do ministro Mandetta. Prometeu reagir às pedradas de Bolsonaro “com flores”.

Assédio, estupro e pedido de prisão

Foi apresentado dia 15 ao Ministério Público de São Paulo um pedido de investigação para apurar crime contra a dignidade sexual de várias mulheres. O possível investigado é psicólogo e se diz líder espiritual, misturando o xamanismo e a Cabala, com uso do chá de Santo Daime. Sua prisão é pedida, já que há vítimas que até deixaram suas casas com medo de represálias. Os fatos ocorreram no Interior de São Paulo e se assemelham aos atribuídos a João de Deus. A denúncia foi levada ao MP pelas advogadas Rossana Leques e Lilia Frankenthal. A questão deve explodir provavelmente nesta segunda.

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​Festival de besteiras – Parte 2

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Hoje, por aqui, há notícias de impacto e notícias chatas. As notícias chatas são chatas. As notícias de impacto não são notícias. Mas a festa continua.

O governador do Pará, Hélder Barbalho, do MDB, disse que vai botar os presos na rua para vigiar os cidadãos em pontos de ônibus e evitar que fiquem a menos de um metro uns dos outros. Verdade: os presos viraram guardas.

Na Passeata da Morte (aquela em que carregaram um caixão para fazer piada com as vítimas do coronavírus), palavras de ordem para não ver Globo nem Bandeirantes, compradas pelos chineses. Há quem acredite.

Um criador de gado aguenta amigos que tentam convencê-lo a não vender bois para frigoríficos que exportem carne para a China. Pelo que dizem, os chineses são todos comunistas. Parece que só agora estão descobrindo isso.

Boato da moda: a tecnologia 5G permite transmitir, pelo celular, a palavra do demônio. Mas não é sempre: se a Qualcomm, americana, vencer a corrida internacional para implantar o 5G, tudo bem. Mas se for a Huawei chinesa... Se bem que, há alguns anos, diziam que, se um LP da banda Yes fosse tocado ao contrário, seria possível ouvir as palavras Six Six Six – ou 666, o Número da Besta. A Banda Yes é inglesa, e lá os comunistas nunca tiveram votos.

E aqui disseram na TV que a China tem um trilhão de habitantes, embora seja menor que o Brasil. A China tem um milhão de km² a mais que o Brasil. E terá um trilhão de habitantes se multiplicar a população real por 715 mil.

O homem que diz sou...

Pode ser que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tenha sido vítima do próprio orgulho, após vencer a queda de braço com Bolsonaro. Ou não: talvez, ao conceder entrevista à Rede Globo (o que é uma ofensa para  Bolsonaro) e ainda dar-lhe um puxão de orelha, tenha buscado forçar sua demissão. Mas sobrevive: Bolsonaro foi pedir autorização aos militares para demiti-lo e, embora tenha encontrado solidariedade, não foi atendido. O vice Mourão, que faz parte do grupo militar do Governo, criticou Mandetta por ter confrontado Bolsonaro, mas disse que é provável que continue no cargo.

...não é

Bolsonaro quis livrar-se de Mandetta, ainda não conseguiu. E há outros indícios de que, embora seu mandato vá até 31 de dezembro de 2022, já lhe estão servindo café frio. O presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, postou domingo no Instagram o vídeo de uma cerimônia fúnebre africana em que os carregadores do caixão vão dançando até o túmulo. E trocou o rosto de um dançarino pelo de Bolsonaro, rindo. Presidente, cadê a tal caneta Bic? Precisa pedir ao general Braga Netto para trocá-la por uma nova, com tinta.

Porque quem é mesmo...

Duas perguntas que o ministro Mandetta fez a Bolsonaro na reunião do dia 6, em que entrou demitido e saiu confirmado: a primeira, por que não o demitia, já que não concordava com a orientação do Ministério da Saúde sob seu comando; a segunda, por que o havia nomeado, já que não o ouvia.

Este colunista arrisca um palpite: convidou-o para compor o elenco, não para se destacar nem dar palpites; e não o demite porque não foi autorizado.

...não diz

Preste atenção no que diz o general Mourão. Ele monta frases delicadas, gentis, que merecem análise. Preste atenção, mais ainda, no que ele não diz.

Vai, vai, vai...

Mourão disse que o importante são as “ações concretas” de Bolsonaro, e não aquilo que o presidente declara. “Temos de olhar mais as ações do que as palavras”. Traduzindo, “o que ele fala não se escreve”. Mas Mourão vai em frente: “Não teço críticas públicas porque seria deslealdade. Se ele me perguntar, a gente troca impressões e eu apresento o que penso”.

...não vou

Sabe quando é que Bolsonaro vai perguntar alguma coisa a Mourão?

Legalizando

O senador Sérgio Petecão (PSD-Acre) apresentou ontem projeto de lei que permite o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus, desde que o paciente (ou seu responsável) seja informado de que o medicamento tem caráter experimental e autorize formalmente o uso. Os hospitais que pesquisam o tratamento do coronavírus vêm aplicando essa norma, mas se a lei for aprovada terão mais segurança jurídica. O projeto permite o uso das substâncias mesmo antes da comprovação da doença.

????

O deputado Osmar Terra (MDB-RS) enviou mensagem ontem a Flávio Bolsonaro, dizendo que a epidemia está “desabando” no Brasil e que é hora de comemorar. O pico da pandemia, diz ele, foi alcançado no final de março.

Vale ler

Sobre o tema, http://www.chumbogordo.com.br/31246-coronavirus-sem-politicagem-1-por-fernao-lara-mesquita/, ótimo artigo de Fernão Mesquita.

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​O Rainho da Inglaterra

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O presidente Bolsonaro repete a cada instante que ele é o presidente e que cabe aos ministros alinhar-se a ele, não ele aos ministros. O presidente não concorda com a quarentena, não concorda com o isolamento social, não concorda com a demora do seu Governo em entronizar a cloroquinahidroxicloroquina como as grandes armas na luta contra o coronavírus, já disse que ele e o ministro Mandetta não se bicam; e, referindo-se à repetida frase de Mandetta, de que médico não abandona o paciente, lembrou que o paciente pode trocar de médico. Pois bem, o paciente não trocou de médico, Mandetta continua ministro, a política de combate à pandemia do Governo se alinha ao ministro, não ao presidente, a cloroquina e a hidroxicloroquina continuam na categoria de remédios em teste, a quarentena e o isolamento estão em vigor. O presidente se limita a fazer fusquinha ao ministro com quem não se bica, saindo para passear e para ouvir panelaços ao vivo.

O presidente não gosta de ver seu pessoal se relacionar com adversários (acha que é traição), mas Mandetta acaba de firmar convênios com Dória.

Pois é, talvez aquela história tão difundida de que o chefe do Governo, de fato, seja o general Braga Netto, chefe da Casa Civil, possa ter fundamento, não parece? O que se comentou fartamente é que Braga Netto é hoje um  primeiro-ministro, restando a Bolsonaro o papel de Rainho da Inglaterra, que preside mas não governa, tem os filhos ao lado e não tira a Corona da cabeça.

Claro, claro...

Relembremos os fatos: a CNN telefonou para o deputado Osmar Terra, ele atendeu, pediu licença para atender outro telefone, esqueceu de desligar. A CNN ouviu e gravou toda a conversa de Osmar com Onyx Lorenzoni, o ministro da Cidadania de Bolsonaro. Na conversa, observam parlamentares que o conhecem bem, Terra foi mais polido do que o habitual. E Onyx se queixou de Bolsonaro, que depois de falar várias vezes em demitir Mandetta não apenas não o demitiu, como não conseguiu sequer fazê-lo mudar a linha de atuação. Onyx disse que, se fosse o presidente, não teria dúvidas em cortar a cabeça de Mandetta. Que é que Bolsonaro deve pensar da conversa?

...sem dúvida...

Digamos que a CNN teve a sorte danada de ligar para Osmar Terra bem na hora em que ele receberia a ligação de Onyx. Teve também a sorte de ele ter esquecido de desligar o celular. Mais sorte ainda, de ele ter conversado com Onyx no viva-voz (do contrário, teriam gravado só a parte de Terra). Já Terra teve a sorte de não dizer nada que o comprometesse e de ser bem mais polido que o habitual. Onyx não teve a mesma sorte de Terra e se queixou do presidente em conversa gravada. Ah, as coisas que acontecem por acaso!

...alguma

Há pouco tempo, numa reacomodação ministerial, Bolsonaro colocou Onyx no lugar de Terra. Mas ambos continuaram amigos, como fica claro no telefonema gravado. É verdade. Um é muito amigo. O outro, muy amigo.

O amanhã

Um fato está claro: depois de dezenas de anos de amizade, Bolsonaro e Mandetta já não falam a mesma língua. Num governo normal, Mandetta seria demitido, por não seguir a linha do presidente. Não é questão de estar certo ou errado: quem foi eleito e define o caminho a seguir é o presidente. O fato de Mandetta continuar no Governo,  seguindo a sua linha, que o presidente diz que é absurda, é outra indicação de que Bolsonaro não é quem comanda.

Negócios da China

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, responde por algo como 80% do superávit comercial brasileiro, tem feito investimentos aqui e, hoje, tem papel estratégico no fornecimento de material de saúde para a luta contra a pandemia. Vem o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, e faz dura crítica aos chineses. Como observou com clareza o vice-presidente, general Mourão, se as críticas partissem de outro deputado não haveria problema. “O problema é o sobrenome. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum”. Pouco depois, um dos queridinhos do presidente, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, foi mais longe, falando mal dos chineses e ironizando sua maneira de falar. Por que o ministro da Educação foi se envolver numa questão de política externa, política econômica, política comercial, sem nada a ver com Educação? E não foi sequer advertido pelo presidente? A conclusão óbvia é que o filho do presidente e o queridinho do presidente seguiram a orientação do presidente. E, apesar de tudo, o ministro da Saúde solicita a compra de equipamento chinês, a ministra da Agricultura negocia com a China, governadores pedem auxílio a Pequim. É para pensar.

Divirta-se

Cansado da quarentena? No YouTube, a Universal abriu gratuitamente a exibição semanal de grandes espetáculos teatrais. Os primeiros são de Andrew Lloyd Weber, autor de Evita, O Fantasma da Ópera, Cats. Vale ver.

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​Festival de besteiras que assola o país

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Lembra do Cabo Daciolo, aquele candidato divertidíssimo? Bom, ele diz agora que Bolsonaro não levou facada nenhuma, que tudo foi forjado pelos maçons e por uma certa Nova Ordem Mundial para fortalecer o candidato. Maçons – houve época em que era moda culpá-los por tudo. Mas o último a culpar maçons, que eu me lembre, foi o ditador espanhol Francisco Franco, há quase 50 anos. Mas devem ser poderosos, esses maçons do Cabo Daciolo: foram capazes de enganar os médicos da Santa Casa, do Sírio e do Einstein.

Depois de Eduardo Bolsonaro, Abraham Weintraub andou falando mal da China. A milícia virtual bolsonarista postou uns 30 mil tweets propondo um boicote comercial brasileiro aos chineses. Ideia notável: o PIB brasileiro é de cerca de US$ 1,5 trilhão, o da China de US$ 15 trilhões. A China importa uns US$ 60 bilhões anuais de produtos brasileiros, e exporta para nós algo como US$ 36 bilhões – dando ao Brasil um superávit de US$ 24 bilhões. É o maior parceiro comercial do Brasil, um dos maiores produtores de material para combate ao coronavírus. Em resumo, um adversário escolhido a dedo (o dedo com que Weintraub escreve “insitar” e se refere ao escritor “Cafta” – que deve ser aquele antigamente conhecido como Kafka). Aliás, ao falar mal dos chineses, Weintraub tentou imitar Cebolinha, o ótimo personagem de Maurício de Souza. Um personagem de quadrinhos. E ele imitou errado.

Cá entre nós, não conseguir imitar o jeito do Cebolinha falar é meio muito.

Lá vem o seu China...

Quando a Vale do Rio Doce decidiu doar 500 mil máscaras protetoras ao Brasil, onde é que foi buscá-las? Na China. O teste para coronavírus também vem de lá. A China vem investe no Brasil em carros e ônibus, e participa de projetos de engenharia de mobilidade urbana. Há uns cinquenta e poucos anos, o grande Stanislaw Ponte Preta criou o Febeapá, Festival de Besteiras que Assola o País. O título desta coluna é copiado dele. O Festival continua.

...na ponta do pé...

Negociar com os chineses é questão de negócios, não de ideologia. Trump não gosta da China mas negocia com eles. Mas aqui as coisas estão ficando bestificantes. Defender o uso de cloroquina e hidrocloroquina no tratamento da pandemia é prova de bolsonarismo; esperar o resultado dos testes que são feitos atualmente é prova de deslealdade ao 000. Defender a quarentena é ir contra Bolsonaro e a favor de Dória. Daqui a pouco vão politizar a comida: rúcula é de esquerda, alface é de direita, e envídia, óbvio, é coisa de fresco.

...lig lig lig...

Uma curiosidade dos tempos do comunismo: quem discordava de Stalin, o poderoso dirigente da União Soviética, era sempre acusado de ser traidor desde 1917, ano da revolução comunista. A tragédia se renova hoje como farsa: Mandetta, o ministro da Saúde, foi acusado por bolsonarista de uma série de irregularidades em toda a sua vida política e administrativa. Pergunta-se: por que, então, Bolsonaro o nomeou para o Ministério?

...lig lig lig lé

E há a estupenda confissão de Osmar Terra, candidato (embora o negue) ao posto de Mandetta, que acabará saindo cedo ou tarde. Terra foi secretário da Saúde do Rio Grande do Sul no governo de Yeda Crusius, PSDB, e teve de enfrentar duas epidemias. Ele mesmo conta: uma foi de febre amarela, embora já existsse vacina para febre amarela. A epidemia começou na região argentina da fronteira com o Brasil, mas os argentinos não o avisaram e ele não soube de nada. A outra foi de gripe suína, que atingiu tanto a Argentina quanto o Uruguai, e ele também não soube de nada. Como não sabia o que se passava ao lado, só agiu quando as epidemias cruzaram a fronteira. Ele conta essa história para mostrar que tem experiência em lidar com epidemias.

Os autores

     Os títulos vêm de Lig Lé, de Osvaldo Santiago e Paulo Barbosa.

7x1

Inacreditável: o Governo Bolsonaro estava sendo louvado no Brasil e no Exterior pela competência com que enfrentava uma tremenda crise na Saúde. Um ministro discreto, Mandetta, conseguiu articular o ministério, a OMS, os parlamentares, os governadores, fossem de situação ou oposição, para traçar os rumos do combate à pandemia. Esta atuação foi aprovada por 77% da população. Bolsonaro, em vez de surfar no êxito, preferiu se irritar com o êxito de Mandetta, que era seu amigo pessoal. Resultado: Mandetta ficou com os 77% e Bolsonaro com 36%. Pior: tentou politizar a crise e ditar quais remédios deveriam ser usados. Anunciou a demissão de Mandetta. E não conseguiu demiti-lo. Talvez a história de que Bolsonaro seja hoje uma rainha da Inglaterra, sem poder algum, e que o general Braga Netto seja o chefe de fato do Governo, não seja fantasiosa. Parece que o poder trocou de mãos.

31/12

A partir do dia 31 de dezembro, se por algum motivo o presidente se afastar, o vice assume e cumpre o restante do mandato, automaticamente.

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​Hora da verdade: o bem e o mal

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É na hora da crise que as pessoas se revelam: dá para ver quem é bom, quem é mau, quem é ótimo. Bom é o pessoal da Lupo, famosa por suas meias. A fábrica estava parada – mas seus donos arranjaram tudo para manter boa distância entre os operários chamados a trabalhar, desenvolveram a máscara de proteção e estão trabalhando, por enquanto abastecendo as unidades de saúde da região de Araraquara. Maus são altos funcionários do setor público, que recebem ótimos salários, multiplicam-nos com penduricalhos e não desistem de um único centavo para a luta contra o coronavírus. Mantêm carros, jatinhos, todas as mordomias, e garantiram uns aos outros que na verba deles não se mexe. Bons são os empresários (190, até agora) que assinaram manifesto se comprometendo a não demitir até maio e pedindo que, além disso, o empresariado faça doações para a sobrevivência de pessoas como manicures, vendedores de lanches e outros que não têm como pagar as contas. Entre as empresas que assumiram este compromisso, estão Magazine Luiza, Renner, BTG, Natura, Boticário, XP. Itaú, Bradesco e Santander estão no grupo (mas mostram seu lado mau mantendo os juros no alto). E, dizem os empresários, demitir é mau negócio, custa caro. Pior, ao demitir ajudam a perpetuar a crise que lhes dá prejuízo.

Ótimos são médicos e enfermeiros que, mesmo aposentados, voltaram à ativa e enfrentam o risco do vírus lutando para salvar vidas. Sejam louvados.

Bom exemplo

Ótima é a dra. Andrezza S. Guedes - CRM 145443, Instituto Salute de Medicina Integral, tel. (19) 9 8447-8089. Ela se propôs a orientar moradores de um condomínio de Vinhedo, SP, sobre a necessidade de ir ou não a postos de saúde ou hospitais. Por telefone, avalia situações de doenças diversas. Se a pessoa toma regularmente remédios que necessitam de receita e não tem agora como pedi-la a seu médico, ela faz o contato e dá a receita. Atende por fone, WhatsApp, orienta sobre medidas preventivas e cuidados gerais. Seu objetivo é desafogar ao máximo as unidades de saúde, para que seus colegas tenham mais tranquilidade no atendimento. Que bom exemplo de médica dedicada à saúde! Fez o juramento, e o cumpre. Ela autorizou a divulgação de seu nome e celular. Quem precisar, que a procure, more onde morar. Que outros profissionais sigam este exemplo: sempre é possível ajudar os outros.

Mau exemplo

Talvez Suas Excelências não tenham percebido. Mas, se perceberam, que maldade! Desempregados que buscam emprego há mais de um ano, mas que tinham emprego no longínquo 2018, não têm acesso aos R$ 600,00 (que um dia, cremos, será pago aos que têm melhor sorte). A lei foi aprovada assim e Bolsonaro não vetou essa parte. Quem ganhou R$ 28.559,71 em 2018 (pouco mais de R$ 2 mil mensais) também fica fora, mesmo estando desempregado há mais de um ano. Os parlamentares não se preocuparam. Nem Bolsonaro.

Chose de loque

E Bolsonaro? O caro leitor decide se é bom ou mau. Em conversa com pastores, que foram pedir-lhe uma linha de crédito para igrejas, disse que o coronavírus “não é tudo isso que estão pintando”. Motivo: “o Brasil tem uma temperatura diferente”. Garantiu que não sabe de hospital algum lotado (São Paulo construiu dois hospitais de campanha para ampliar as vagas), desafiou os governadores a ir a Ceilândia e Taguatinga, perto de Brasília, “no meio do povo”. Completou: “Tá com medinho de pegar vírus?” Bom ou mau?

A saúde e a política

Bolsonaro prometeu não demitir o ministro Mandetta no meio da guerra. De que guerra fala? Da guerra ao coronavírus, na qual adota comportamento contrário ao recomendado pelo Ministério da Saúde? Guerra pela reeleição?

O presidente disse que o ministro sabe que ambos “não estão se bicando”. Mas levou uma pancada forte: Rosângela, esposa do ministro Sérgio Moro, apoiou Mandetta publicamente. “Entre a ciência e o achismo, eu fico com a ciência (...) Mandetta tem sido o médico de todos nós e minhas saudações são para ele”. Ambos, Moro e Mandetta, estão com popularidade superior à dele. É possível que Bolsonaro tema que decidam disputar 2022 contra ele.

Eleição, se houver

Marta Suplicy (sem partido), entrou no Solidariedade, de Paulinho da Força. O PT a convidou, mas ela preferiu outro partido para ser indicada, em aliança, para a vice do candidato petista à Prefeitura paulistana – se houver eleição neste ano. Marta gostaria de ser vice de Haddad, que foi subsecretário de Finanças em sua administração. Marta foi uma boa prefeita, criou em São Paulo os CEUs, escolas públicas de tempo integral e alta qualidade, lançou o Bilhete Único de Ônibus. Haddad foi o responsável por um apelido que a marcou: “Martaxa”. Ele vivia tendo ideias a respeito de novas taxas e impostos, e a prefeita, que aceitou suas ideias, levou a culpa de tudo.

Mas há um problema para a formação da chapa Haddad-Marta. Ele não quer ser candidato à Prefeitura. Lula acha que pode convencê-lo.

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​Exterminadores do futuro

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Discutir o que é mais importante, a vida ou os empregos, é ridículo. Ambos são importantes. É preciso sobreviver ao vírus, mas que não seja para morrer de fome em seguida. As eleições de 2022 podem ser discutidas em 2022. Agora temos de tratar conjuntamente de Saúde, Alimentação, Emprego; e da saúde econômica do país. Nessa ordem. Já deveríamos ter um comitê de crise amplo, apartidário, comandado talvez por alguém capaz de organizar as coisas, cuidando de harmonizar soluções para todos esses problemas. A China fez isso: no meio da crise, deu um jeito de garantir a comida da população (veja o ótimo texto de Jamil Chade, UOL, dia 30). Não há quarentena que resista à fome. É preciso providenciar comida para suprir a falta da merenda escolar, que, para muitas crianças, é a principal refeição do dia. Comida, sim; e que deve ser entregue a domicílio, em quantidade que permita alimentar também pais e irmãos, privados das refeições servidas no emprego. E de graça – como é a merenda. É preciso, também, enviar dinheiro aos desempregados. As contas de gás e luz subiram com a quarentena. A Bolsa Família deve ter um bom cadastro, a ser complementado.  Cuidar das empresas, como já se faz, embora timidamente, é essencial. Mas está na hora de pensar melhor no Imposto de Renda Negativo (a Renda Mínima de Eduardo Suplicy) para garantir o básico a todos os cidadãos. Paulo Guedes entende disso: a tese é de seu mestre Milton Friedman, da Escola de Chicago.

Onde está o dinheiro?

Onde está o dinheiro que o caro leitor não tem, na hora de uma emergência médica? Está nos empréstimos – sim, são saques sobre o futuro, por um objetivo essencial. O mesmo comitê de crise deve preparar o país para uma nova fase da economia, com reformas que reduzam custos e simplifiquem nossa vida, há economias a fazer, para dar o exemplo. Precisamos de vices, quando o presidente da Câmara pode assumir? No Brasil há quase seis mil vices. Precisamos de três senadores por Estado, quando os EUA têm dois? Por que 513 deputados não podem virar 250? Cada deputado precisa mesmo de carro oficial, com motorista e combustível? No Judiciário não há despesas a cortar? Por que um sistema tributário que exige milhares de horas de trabalho para declarar impostos? Dá para aceitar que os bancos aumentem os juros entre 50% e 70% numa hora como essa? Se o grupo de farmácias Raia/Drogasil pôde rejeitar o aumento dos remédios, que já estava aprovado, por que os bancos, mais ricos, não podem ajudar? E, convenhamos, O ministro da Economia não pode deixar Brasília, no meio de uma crise, porque o hotel em que se hospeda não lhe serve mais suquinho.

Os exemplos

Para que o Governo precisa gastar em anúncios? Tem algum concorrente? Por que um parlamentar tem verba de divulgação do mandato? Cada um que use as redes sociais à disposição, de graça. O país está estruturado como se o dinheiro fosse infinito. Não é – e na hora em que é preciso gastar, como agora, faltam verbas. Que se façam, então, os empréstimos, que alguns bilhões de dólares das reservas sejam vendidos, que o bilionário Fundo Partidário vá para o SUS, que sumam os penduricalhos que o Tesouro paga, mas que os cidadãos possam evitar o vírus sem passar fome em casa.

O que se faz

Quando houve sintonia entre ministros, parlamentares e sociedade civil, fez-se alguma coisa. Dia 27, o Governo lançou programa de R$ 40 bilhões, com recursos do Tesouro, para financiar salários e garantir empregos em pequenas e médias empresas. Está pronta a concessão de R$ 600 por mês a trabalhadores informais, que de repente ficaram privados de qualquer renda. Só falta Bolsonaro assinar para que entre em vigor. O Governo anuncia uma proposta (ainda sem detalhes) para garantir seguro-desemprego – total, no caso de perda do emprego; proporcional, por redução de jornada e de salário. Há a antecipação do 13º em duas parcelas, agora. Convenhamos, é pouco.

Luta de irmãos

Os irmãos Nasser, Jamel e Adiel Fares, que controlam a gigante do varejo Marabraz, venceram a primeira batalha na Junta Comercial de São Paulo, Jucesp: num prazo de 30 dias, deverão regularizar a empresa LP, administradora do grupo, e incluir nos papéis da empresa o registro da entrada e saída de seu irmão Fábio, que lhes move processo. A Procuradoria da Jucesp afirmou não ter visto má fé de nenhuma das partes na omissão do registro. A advogada de um dos filhos de Fábio, Lilia Frankenthal, recorreu para comprovar a má fé, usando decisões do Tribunal Regional Federal 3. A Presidência da Jucesp chamou as decisões do TRF3 de “calhamaço”. Lilia Frankenthal disse que não daria entrevista e só se manifestaria nos autos. Os irmãos Jamel, Adiel e Nasser são defendidos pela advogada Amanda Caspaciutti, da Mazloum Advogados Associados; e, em outro processo, movido por Suhaila, ex-esposa de Fábio Fares, pela Pollet Advogados.

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​Pode parar? Faz tempo que parou

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A propaganda do Governo Federal diz que o Brasil não pode parar. Mas, onde deveria estar andando, já que não depende de quarentena, não anda. O Estado de S. Paulo levantou os dados e mostra que 64% dos recursos que o Governo Federal anunciou para combater a pandemia são apenas anúncios. Em muitos casos, o Governo nem enviou as medidas ao Congresso. Em outros, sem articulação, não conseguiu encaminhar a votação.

Dos R$ 308,9 bilhões prometidos, R$ 197,5 bilhões são só da boca para fora. Não estão em nenhuma proposta. O que foi feito é o que ajuda empresas: flexibilização de normas trabalhistas, crédito, adiamento de tributos. Medidas de proteção às famílias de baixa renda não existem de fato. São pura fantasia. Houve também auxílio a Estados e municípios. A única medida de auxílio à baixa renda foi iniciativa do Congresso: um vale mensal temporário de R$ 600,00 a trabalhadores informais. O Governo tinha falado em R$ 200,00 - só falado. O Congresso aprovou R$ 500,00 e, com base numa frase de Bolsonaro, de que R$ 600,00 seriam aceitáveis, ampliou o vale.

E o superministro Paulo Guedes, do superministério da Economia, saiu de Brasília (o serviço do hotel estava ruim, explicou) e foi para sua casa no Rio, onde, segundo disse, trabalha o tempo inteiro, em ligação total com sua equipe (a que deveria redigir os projetos). Mas ninguém é de ferro: na quinta, às 17h30, Sua Excelência foi fotografado passeando na orla marítima.

Projetos em quarentena

Lembra do repasse do PIS/Pasep para o FGTS, para permitir novos saques no Fundo? São R$ 21,5 bilhões. Como o Governo não conseguiu decidir quem será contemplado, não enviou a medida.

A redução à metade, por três meses, da alíquota dos impostos do Sistema S, algo como R$ 2,2 bilhões, foi anunciada há uns 15 dias e não foi proposta.

A antecipação do calendário do abono, R$ 12,8 bilhões, não saiu.

Os R$ 36 bilhões, parcela do seguro-desemprego de quem sofrer redução de jornada e salário ou suspensão de contrato; o envio de R$ 4,5 bilhões do DPVAT (o seguro que se paga com os impostos do carro) para o SUS; o repasse de R$ 8 bilhões e o envio de R$ 2,3 bilhões do Censo para fundos estaduais e municipais de Saúde; os R$ 16 bilhões em quatro meses para Estados e municípios, compensando perdas de receita; os R$ 2 bilhões para assistência social. Nada disso se transformou até agora em projeto.

Ação parlamentar

Surpresa das surpresas, quem compensa parte da inatividade do Executivo é o Congresso. Os R$ 600,00 para trabalhadores sem carteira, a antecipação de R$ 300,00 para quem espera o Benefício de Prestação Continuada (BPC), suspensão de dívida de Estados e municípios com bancos públicos e a União, novas operações de crédito, renegociação de dívidas, todas as medidas foram incorporadas pelos parlamentares a projetos já em tramitação e por isso conseguem andar. Se dependessem do superministro, quando andariam?

Voltando alguns dias

A história do teste para coronavírus do presidente Bolsonaro continua sem explicação. Seu filho, Eduardo, aquele que fritava hambúrgueres numa lanchonete que não servia hambúrgueres, foi citado pela Fox News como fonte da informação de que o presidente tinha testado positivo. Se o repórter tivesse inventado a notícia, por que citaria Eduardo como fonte? Só para ser desmentido? E numa rede totalmente favorável a Trump, logo simpática a Bolsonaro? Não, não deve ter inventado nada, não.

E por que o desmentido? Talvez porque o presidente cultive a imagem de Superman, o mito que sobreviveu a uma facada, que tem passado de atleta, que não é vulnerável a doenças e para quem o coronavírus provocaria só

“uma gripinha”. A propósito, por que o Hospital das Forças Armadas revelou o nome de todos os contaminados na viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos, menos dois? Seria essa revelação a kriptonita do Superman?

Se Bolsonaro tivesse testado positivo e mentido, não seria problema – aqui, espera-se que político minta mesmo. Mas juntar-se a seus fãs, tocando-os, fazendo selfies, isso seria grave. Claro que, se o teste foi mesmo negativo, esse raciocínio é vão. Mas quem seriam as pessoas contaminadas que, para o Hospital das Forças Armadas, merecem o sigilo que os outros não tiveram?

Apoio total

O engenheiro Lucio Ravizza, assíduo leitor desta coluna, pede apoio ao projeto 646/2020, que transfere para o SUS o bilionário fundo de campanha eleitoral deste ano – são R$ 2 bilhões, ou mais. “O projeto deve ser aprovado em regime de urgência. E sugiro que se adiem para 2021 as eleições municipais. Que todos o dinheiro para realizá-las seja destinado a combater o coronavírus. Podemos suportar mais um ano dos atuais prefeitos e vereadores, mesmo porque não creio que, trocando algum dos atuais, teremos melhoras”. Em vez de pagar campanhas, dinheiro para a Saúde!

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