Aguarde: Moro está de saída

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Moro é popular, mas está sendo triturado por Pancrácio e Cavalão. Seu tempo de Ministério está contado – a menos que aceite perder a Segurança Pùblica. Moro já engoliu muito sapo, mas agora disse a amigos que, se for mais uma vez passado para trás, sai do Governo. Mas qual é o problema?

Cavalão é o apelido de Bolsonaro em seus tempos de Exército, pela força física. Pancrácio, nome de um “vale-tudo” grego, que teria sido praticado por Hércules e Teseu, era o apelido de Alberto Fraga, perito na luta, hoje líder da bancada da bala. Fraga e Bolsonaro são amigos há dezenas de anos. E Fraga defende a divisão do Ministério de Moro em Justiça (que ficaria ministro) e Segurança Pública, que ele controlaria – além de controlar a Polícia Federal. Mas desde quando Fraga manda no Ministério? Desde que o presidente Bolsonaro propôs a secretários estaduais de Segurança, fora da agenda, que o Ministério de Moro fosse subdividido. Fez a proposta, ouviu protestos e elogios, soube da decisão de Moro e já disse que não pensa numa divisão do Ministério. Mas pensa: para agradar o amigo, por achar que Moro quer ser candidato à Presidência, por não tolerar que a popularidade de Moro seja maior que a sua. Bolsonaro adora encontrar conspirações. Que tal uma em que o ministro da Justiça não toma providências para impedir que Flávio Bolsonaro enfrente os tribunais, nem coloca na chefia da Polícia Federal um homem da confiança do presidente, nem lhe faz declarações de apoio?

Brigas e brigas

Carluxo, filho 02 de Bolsonaro, já acusou Fábio Wajngarten de trabalhar mal – e foi ele que indicou o titular da Secom. Regina Duarte fez uma declaração de que gostaria de selar a paz entre o Governo e os artistas – é justo o que Bolsonaro não quer ouvir, ele que prefere a espada à paz. Logo surgiram ataques a Regina – de um IPTU que ela estaria devendo hoje numa casa vendida há cinco anos. Já o diretor da Secom, além de ser atacado pelo 02, não é defendido por Moro. Mas Bolsonaro disse que ele fica e mais tarde, estudando   melhor o assunto, talvez mude. O ministro do Turismo, acusado de chefiar um laranjal, está bem, sem que ninguém o toque. Aliás, nem Moro.

Saindo da caixa

O problema é que, sendo ministro, Moro fica prisioneiro da candidatura a vice-presidente. Saindo, não faltará quem o ajude a conquistar legenda e a provar que tem quase o dobro das intenções de voto de Bolsonaro. Tudo pode mudar, claro. Mas enquanto não mudar, o jogo é este. Joice Hasselmann se enfraqueceu, aparentemente, ao deixar o bolsonarismo. Mas com uma boa campanha em São Paulo pode crescer de novo. Moro tem mais bagagem. Na última pesquisa DataFolha, Moro tem 53% de aprovação. Bolsonaro, 30%.

Tentou, falhou

O ex-governador goiano Marconi Perillo tentou habeas corpus, rejeitado. Continua réu em ação penal. É acusado por ter inscrito R$ 317 milhões em restos a pagar, sem a devida provisão de caixa. A descrição é crime contra aas finanças públicas, sujeito à pena de um a quatro anos de reclusão.

Por que no te callas?

Frase autêntica de Jair Bolsonaro: “O índio evolui. Cada vez mais é um ser humano igual a nós”. Este colunista entendeu o que Bolsonaro quis dizer: os índios evoluem e gostariam de ter um padrão de vida igual ao da classe média. Só que não foi isso o que disse.

Falou, morreu

O ex-vice-prefeito de Ourolândia, empresário José Roberto Soares Vieira, foi assassinado no dia 22, com nove tiros, na rodovia BA-522, região metropolitana de Salvador. O assassínio foi filmado e, espera-se, haverá uma chance de identificar os pistoleiros Vieira era a principal testemunha das investigações que levaram à prisão do ex-gerante da Transpetro na Bahia, José Antônio de Jesus. Há dois meses, Vieira prestou depoimento à PF, com todos os dados do esquema criminoso. Entrou imediatamente na lista dos que seriam assassinados. Uma dúvida: e o programa de proteção a testemunhas?

Guerra pernambucana

O filho e o irmão de Eduardo Campos, herdeiro da dinastia de Miguel Arraes, estão em lados opostos na política pernambucana. Ana Arraes, filha de Miguel Arraes e conselheira do Tribunal de Contas, está ao lado do filho, contra o neto; Renata Campos, viúva de Eduardo Campos, está ao lado do filho, contra o genro. Tonca, o genro, é bolsonarista; Ana Arraes está ao lado dele, Antônio Carlos Campos. A briga vinha fermentando há tempos, até que num debate no Congresso, o deputado João Campos fez um ataque ao ministro da Educação, Abraham Weintraub. Weintraub lembrou na hora que o tio de João Campos, Tonca, trabalha na Fundação Joaquim Nabuco, a seu lado – logo, ele, Weintraub, não deve ser uma pessoa tão má assim. João Campos disse que seu tio Tonca é ainda pior que Weintraub. Foi assim que a briga pegou fogo. Tio e sobrinho não se falam.

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​Verdade, que é a verdade?

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Como jamais disse o presidente Bolsonaro, mentira é a verdade que ainda não aconteceu, talkey? Mas tem gente exagerando: por exemplo, a turma que que sustenta que o ex-secretário da Cultura Roberto Alvim foi vítima de uma armação da esquerda, que lhe impingiu um texto nazista, que ele desconhecia, só para derrubá-lo. A imaginação voa longe: o Ministério da Cultura passou nas mãos da esquerda desde os tempos de Fernando Henrique (que nas teses imaginárias é mais esquerdista que Mao Tsé-tung) até a queda de Dilma. Deve ter sobrado gente por lá para engrupir o Roberto Alvim, né?

Mas vamos desenvolver o raciocínio: Alvim leu o texto que desconhecia, escolheu por acaso o tema melódico composto pelo músico favorito do alto comando nazista (bom músico, a propósito), fantasiou-se de Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, e tocou o vídeo, ingenuamente, no ar.

Não é fazer pouco da inteligência de Alvim imaginar esses fatos todos?

Aí, para se vingar, esquerdistas divulgaram texto de Abraham Weintraub, o ministro da Educação, em que ele copiava trecho do próprio Adolf Hitler. Onde Hitler falava em “judeus”, Weintraub falava em “comunistas”. Só que a notícia era falsa. Weintraub fez mesmo o tal discurso (aliás, fraquíssimo). Mas os sites especializados em comprovar ou desmentir notícias fizeram as pesquisas e descobriram que Hitler não falou nem escreveu a bobajeira toda.

Weintraub tem defeitos à vontade. É desnecessário inventar mais um.

De Moro a Moro

O Moro ministro de hoje não é, com certeza, o mesmo Moro que era juiz. O Moro que era juiz disse que não arriscaria sua biografia: ministro que fosse acusado de corrupção, com bons indícios, teria de ser afastado. Ele não iria aceitar conviver com pessoas de cuja honradez duvidasse. O Moro ministro (e que pode até ser candidato a vice ou a presidente) usa frases mais flexíveis, e mostrou seu novo perfil político na entrevista de anteontem na TV Cultura, programa Roda Viva. Claro: convive com o ministro do Turismo, Marcelo Antônio, indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público. E tem mais gente suspeita dando volta no salão. Podendo responder sem responder, fica mais à vontade. Negou, por exemplo, que venha a ser candidato em 2022. Bolsonaro já disse que o quer como vice. E prestígio ele continua tendo: na segunda, houve várias convocações de protestos contra a TV Cultura por entrevistá-lo (entre elas a de Glenn Greenwald, que achava um absurdo não haver ninguém de seu The Intercept entre os convidados. Resultado: três pessoas acusando Moro de “feder”, de ser “sujo” e “covarde”.

Palpite deste colunista: é candidatíssimo. Se conseguir, a presidente.

Reforço inesperado

O Brasil descobriu a fórmula para ser bem ouvido no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça: deixou em casa o capitão do time. Quem de fato liderou a delegação brasileira foi o ministro da Economia, Paulo Guedes, bem ouvido pelas demais delegações. Guedes seguiu a linha de Bolsonaro, embora medindo as palavras (“a pobreza é grande causa dos danos ao meio-ambiente”) e mostrando-se otimista: a seu ver, o Brasil pode elevar o Produto Interno Bruto, PIB, neste ano, em 2,5%. Supera as previsões anteriores, de think-tanks brasileiros e estrangeiros, que oscilam em volta de 2%. Guedes disse que, resolvendo problemas que sangravam o Brasil, houve condições para baixar juros e atrair investimentos para grandes privatizações.

Pró e contra

Houve quem contestasse a tese de que a pobreza prejudica o meio-ambiente, mas sem briga: tudo ficou no debate normal, sem polarização. E é mesmo preciso que o Brasil se coloque bem no cenário: normalizando-se as relações entre EUA e China, as exportações brasileiras podem pagar a conta. Guedes fez questão de mostrar que o Brasil está “fazendo a lição de casa”, o que inclui a continuidade das reformas, que teria amplo apoio do Congresso.

Atenção nos americanos

Começou no Senado o processo de impeachment de Trump. Vai escapar.

Caixa preta, preta caixa

O BNDES contratou o Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, LLP, pagando 48 milhões de reais. A auditoria investigou oito operações com JBS, Bertin e Eldorado Celulose (também ligada ao JBS) e concluiu, em relatório de oito páginas, que não houve nenhuma evidência direta de corrupção nesses casos.

A Cleary é altamente especializada, e nos casos que investigou não deve mesmo ter achado nada errado. Entretanto, um livro que já vendeu toda a edição, Caixa Preta do BNDES, do repórter Cláudio Tognolli, mostra coisa diferente: como o dinheiro do BNDES irrigou à nossa custa a economia de ditaduras de esquerda latino-americanas e africanas; mostra também como uma empresa originalmente privada, a Tecsis, tão logo começou a perder dinheiro foi passando o controle de sócios privados para o BNDESPar. Hoje a empresa está desativada, endividada, e quem é o acionista maior? Pois é.

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​O bafo de bolso

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Este é o país dos extremos: ou tem o melhor futebol do mundo, invencível, ou a torcida acha que apanha de 7x1 de qualquer time vietnamita. Economia também é assim: ou nada funciona ou vamos deslanchar já neste ano. Crise na área petroleira do Oriente Médio? Besteira – crise é coisa para os fracos. O Brasil, que já fazia excelentes previsões de desenvolvimento econômico, com crescimento do PIB que não vemos há tempos, mantendo-se a inflação em baixa, começou a refazer os cálculos, prevendo crescimento ainda maior, sem mexer na inflação prevista, e na primeira quinzena do ano!

Delfim sonhava com inflação de 12% ao ano, Dilma sonhava com um forte crescimento induzido por seu Governo, Bolsonaro (ou Guedes) sonha com um PIB que, do quase zero, acelera como um Fórmula Um e em poucos segundos assume a ponta da corrida. Tudo bem, pode acontecer – no Brasil isso aconteceu com Emerson, Piquet e Senna. Só.

O problema é que quando acontece é ótimo, mas quando não acontece é terrível. Se a previsão de alta do PIB é de 2,5 e vai a 2,7, a economia ganha fôlego e pode crescer ainda mais. Mas, se a previsão é de 2,5 e dá menos do que isso, o pessimismo domina a economia e tudo desaba, o consumo e os investimentos. O pessimismo é uma profecia auto-realizável. E, ao mesmo tempo, é consequência que não pode ser evitada quando falham as profecias otimistas e aquele magnífico drive econômico vira apenas uma freada.

As boas notícias

A inflação brasileira está baixa, o agronegócio exporta bem, a queda dos juros pode permitir que a indústria, massacrada nos últimos anos, volte a se desenvolver. No mercado internacional, a situação é boa: hoje, quarta-feira, Estados Unidos e China assinam seu pacto comercial, que põe fim à guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo. Os EUA decidiram suspender o título da China de “maior manipuladora cambial” do mercado – o que significa que as intenções americanas de paz comercial são para valer. As bolsas de lá estão subindo. Claro que o mundo é um moinho e o Irã, hoje quieto, pode se sentir tentado a incomodar os americanos. Já os americanos, hoje quietos, pensam em novas sanções econômicas ao Irã. Em suma, tudo está bem enquanto estiver bem. É o que mantém o Brasil bem.

A política é a política

Quem acreditava que os políticos iriam tomar providências que limitassem sua boa vida está na hora de voltar à velha sabedoria popular: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não entende da arte”. E ninguém, imaginemos, terá a coragem de acusar nossos políticos de bobos, ou de não entender da nobre arte de cobrir-se de benefícios. Portanto, nada de surpresa com a decisão que vem sendo encaminhada pela Câmara sobre o fim do foro privilegiado. Suas Excelências foram buscar no Senado uma emenda constitucional já aprovada sobre prerrogativa de foro, prevendo que só seriam beneficiados os presidentes do Executivo, Legislativo e Judiciário e o vice-presidente da República. Ninguém mais escaparia dos magistrados de primeira instância. Mas abolir privilégios sem aboli-los é uma arte. Os juízes de primeiro grau não poderiam determinar que políticos fossem preventivamente presos, ou vítimas de ordens de busca e apreensão, quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico. Isso ficaria para os tribunais, o segundo grau, se o caso até lá chegasse, se os parlamentares não fossem perdoados por sua avançada idade.

A verdade como ela é

Na segunda, dia 20, sai o livro Tormenta – o Governo Bolsonaro, da boa jornalista Thaís Oyama, em edição muito bem cuidada da Editora Contexto. Thaís conta detalhes da difícil relação entre o presidente Bolsonaro e o 02, seu filho Carluxo, as brigas que tiveram – por exemplo, Carluxo quis nomear para um bom cargo público seu primo Leo Índio, que o general Santos Cruz rejeitou (mais tarde, Carluxo torpedeou o general Santos Cruz e conseguiu fazer com que fosse demitido). Thaís conta que Bolsonaro quis demitir Moro e foi convencido a desistir pelo general Augusto Heleno; e dá a história, com todos os detalhes, de como Toffoli, sempre petista, e Bolsonaro, que fez campanha contra o PT, foram transformados pelo caso Queiroz em amigos desde criancinhas. O livro foi feito com cuidado por uma jornalista de peso (Thaís é editora-chefe de Veja desde 1999) e editado pela Contexto, do professor universitário Jaime Pinsky, uma das empresas mais conceituadas do setor. Vale a leitura. Detalhe: não é contra nem a favor de Bolsonaro.

E a festa continua

Lembra do general Joaquim Luna, ministro da Defesa de Michel Temer e hoje diretor do lado brasileiro da Itaipu Binacional? O salário do general é de R$ 79 mil mensais. A essa quantia ele mandou acrescentar R$ 221.200 para ele. Os demais funcionários receberam o equivalente, 2,8 salários, como compensação de possíveis perdas decorrentes do acordo coletivo de trabalho.

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​Até a guerra hoje é fake

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Doze foguetes com cabeças explosivas, todos no alvo. Tanto iraquianos quanto americanos, alojados dentro do alvo, saíram do ataque sem precisar sequer de um band-aid. Serão os mísseis iranianos tão fracos assim? Não: os mísseis iranianos utilizados pelos terroristas do Hezbollah e do Hamás, na Síria e em Gaza, levaram Israel a desenvolver um avançado e caro sistema antimísseis. Ruins de pontaria os iranianos não são: os mísseis atingiram seu objetivo. Ou – e essa talvez seja a explicação correta – pode ser que tenham sido tomadas todas as precauções, por ambos os lados, para que a represália ocorresse – uma questão de orgulho nacional iraniano – mas sem levar os Estados Unidos a novas ações. O Irã pode ser orgulhoso, mas sabe direitinho que não tem condições de enfrentar uma superpotência como os EUA.

E há informações sobre isso. Fontes do Departamento de Estado dizem ter recebido do Iraque informações sobre data e horário do lançamento, para que pudesse proteger seu pessoal (é preciso lembrar que os EUA e o Iraque têm relações próximas desde que o regime sunita de Saddam Hussein caiu após uma invasão americana, que entregou o poder aos xiitas). Os iraquianos comentam discretamente que “souberam” dos planos iranianos, e puderam assim proteger seu pessoal. Trump diz que a ausência de baixas americanas indica que o Irã não quer guerra. Resultado: as Bolsas subiram, o petróleo caiu, o ouro (o investimento dos tempos ruins) voltou ao nível normal.

Novidade antiga

É importante lembrar que a política externa é uma das áreas mais sujeitas ao lema de que verdade é o que interessa ao país. Hitler enganou os ingleses, prometendo paz em troca da autorização para invadir a Tchecoslováquia; e enganou os soviéticos, dividindo a Polônia com eles, meio a meio. A guerra já era fake, e cabia a cada país compreender as intenções do futuro inimigo.

Questão de futuro

Mas há sempre o problema do futuro: pode haver ações de terror contra alvos ocidentais, não obrigatoriamente no Oriente Médio (o ataque às Torres Gêmeas ocorreu no coração de Nova York). O Irã semeou, armou e treinou células de terror por boa parte do Oriente Médio: milícias xiitas no Iraque e na Síria, o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, os houthis no Iêmen (que jogaram bombas de um drone na maior refinaria saudita). Há também remanescentes do Estado Islâmico e o Boko Haram, que age por sua própria conta e se dedica principalmente a escravizar crianças. Cada um dos grupos pode agir para ganhar visibilidade ou para se destacar diante dos iranianos. Ou o próprio Irã pode mobilizá-los, alegando depois que não sabia de nada. Caberá aos serviços secretos monitorar a movimentação do terror e dar base a ações de seus governos. De vez em quando pode sumir um líder do terror.

Quem alvejou o avião?

Sempre pode haver alguma falha, já que a investigação é controlada pelo Governo do Irã, sem participação plena do fabricantes do avião, da empresa aérea, dos países cujos cidadãos morreram na queda. Mas tudo indica (inclusive uma foto) que o Boeing 737-800 da Ukrainian Airlines foi atingido por um míssil antiaéreo iraniano, pouco depois da rajada do Irã contra as bases do Iraque em que deveriam estar alojados soldados americanos. Há especialistas, em minoria, que dizem ter reconhecido um foguete russo. Mas tudo indica que tenha sido iraniano, disparado por erro.

Adiscurpe noça fália

Este colunista sempre achou que o principal problema do ministro Abraham Weintraub fosse o nome de seu Ministério: carregado de diplomas, ele deveria ser ministro do Ensino, já que da Educação, conforme se cansou de demonstrar por seus twitters e comportamento público, não poderia ser. Discutir no twitter chamando a mãe do parceiro de “égua desdentada” não é coisa de quem tenha bons modos. Mas este colunista estava enganado: um ministro do Ensino não pode escrever “imprecionante”, como o fez nesta semana. Nem “insitaria”, nem “paralização”, como já fez antes. Ou ceja, não poderia também ezersser o quargo de ministro do Encino do noço Braziu.

Impostando

Não adianta nem proteger os bolsos: hoje, às 12h50, o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo comprova que cem bilhões de reais já saíram de nossos bolsos e foram para os cofres do Governo. Economia? Bem, em doze dias já nos foi tungada a mesma quantia que no ano passado levou treze dias para sair. Pouca coisa? É um aumento de quase 10%, mais do que o rendimento da poupança, mais que o rendimento do Fundo de Garantia, e o suficiente para mostrar que, mesmo com a lenta recuperação da economia, a arrecadação de impostos continua subindo e vai bem, obrigado.

 Luz de graça

E essa de Bolsonaro de oferecer luz de graça a templos? Não basta a isenção de impostos? Fiel que é fiel não se importa de orar no escuro.

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​O tempo e o vento

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Até agora, nada: a represália do Irã contra o ataque americano que matou o general Kassem Suleimani se resumiu a promessas de vingança e a uma atitude ridícula: o Parlamento iraniano decidiu considerar o Ministério da Defesa dos Estados Unidos uma organização terrorista. Besteira: parece ter ficado claro que a ordem de ataque ao general Suleimani partiu de Trump, o presidente da República, e não de seu Ministério da Defesa. Besteira dupla: quando uma organização é considerada terrorista, negociar com ela é uma atitude hostil a quem emitiu a declaração  . Os terroristas se transformam em párias internacionais, com dificuldades para negociar, viajar, se abastecer de maneira legal. Imaginemos que declarar o Ministério da Defesa americano uma organização terrorista seja algo levado a sério: quem iria deixar de negociar com os americanos para agradar os aiatolás do Irã e seus generais?

Mas a paralisia iraniana diante do ataque não deve durar para sempre. A qualquer momento, os iranianos ou seus aliados (houthis do Iêmen,  milícias xiitas do Iraque, Hizbollah libanês ou Hamas de Gaza) podem desfechar atentados terroristas contra os americanos ou Israel (que nada teve com o caso mas é sempre alvo das represálias); ou, tentando criar o caos econômico, podem tentar bombardear refinarias da Arábia Saudita, bloquear o Estreito de Ormuz (são 10 km de largura, onde passam 30% do tráfego marítimo de petróleo), com navios afundados ou minas. O vendaval é questão de tempo.

E daí?

Nem os países mais próximos do Irã, como Rússia, China e Síria, fizeram movimentações militares. Houve reclamações contra os Estados Unidos, o mesmo que fez o Iraque, exigindo que as tropas estrangeiras deixem o país. Os soldados americanos são tropas estrangeiras; e as milícias xiitas, que são iraquianas mas obedecem a comando estrangeiro, continuam ou não? Será de interesse do Governo iraquiano se colocar militarmente na dependência do vizinho mais poderoso, com o qual esteve em guerra nem faz tanto tempo? E se Trump não quiser retirar as tropas, que é que o Iraque pode fazer? O Rato que Ruge, delicioso filme em que um paisinho declara guerra aos Estados Unidos e ganha (seu objetivo era perder e receber ajuda econômica, como o Plano Marshall que ajudou a reerguer a Europa após a Segunda Guerra), foi ótimo. Mas não passava de um filme – pura e divertida ficção.

Amanhã...

Aparentemente, o máximo que iranianos e aliados podem esperar é um atentado espetacular, como o das Torres Gêmeas. É uma grande vingança, mas sem efeitos a longo prazo. Bombardear uma refinaria saudita, ou mesmo americana, tumultua o mercado por algum tempo, e só. Há limites para o que um pequeno país pode fazer para incomodar um grande. Prejuízos, mortes, sacudidas na economia, não muito mais do que isso. É o que deve ocorrer.

...vai ser outro dia

Já países menos poderosos, aliados dos americanos, sofrerão mais, mas nada que quebre suas pernas. Hoje não há como desencadear uma crise do petróleo.  A embaixadora brasileira em exercício em Teerã foi convocada pelo Governo iraniano para explicar a declaração de que o Brasil “está solidário com a luta contra o terrorismo”, que Teerã leu corretamente como apoio à ação americana. Isso pode custar ao Brasil a perda de alguns bilhões de dólares anuais - cinco, talvez. O Brasil aguenta bem, embora não goste da perda. E o Irã, onde se abastecerá? Soja, milho, carne, Brasil, Austrália, EUA – é provável que o Brasil, para os aiatolás, seja o fornecedor mais aceitável. 

As imagens do petista

O deputado federal Carlos Zarattini, do PT paulista, divulgou “as imagens do bárbaro massacre” que, a seu ver, foi o ataque do drone americano ao general iraniano Kassem Suleimani, no aeroporto de Bagdá, Iraque. Onde terá conseguido essas imagens? No próprio drone? Na United States Air Force? Não: ele simplesmente apresentou como “imagens do bárbaro massacre” um vídeo game vendido em todo o mundo desde 2015.

A propósito, Carlos Zarattini é membro da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Fake News, notícias falsas.

Os dois lados da moeda

O presidente Bolsonaro abriu fogo contra os jornalistas em geral (“uma raça em extinção”), ao reclamar de uma notícia publicada no UOL segundo a qual, embora sugira aos eleitores que não votem em candidatos que usem recursos dos fundos eleitorais, ele mesmo gastou recursos públicos em sua campanha de 2014. Bolsonaro, irritado, disse que cada vez menos pessoas confiam na imprensa e que os jornais envenenam e desinformam.  Bolsonaro só não informou se a informação divulgada pelo UOL é verdade ou mentira.

Outros casos

O caso Queiroz, revelado pela imprensa, também irritou o presidente. Mas até agora o que se soube do caso não demonstrou que seja falso.

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​A hora do terno marrom

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Diz a lenda que o navio de um grande comandante foi atacado por grande número de piratas. Antes do início da luta, pediu que lhe trouxessem calças vermelhas. Vestiu-as e logo aniquilou os piratas. Alguns dias depois, navios pesadamente armados o cercaram. Pediu as calças vermelhas e destruiu os inimigos. Um alto funcionário do Governo perguntou-lhe por que as calças vermelhas. Simples: os marinheiros, disse o comandante, confiavam em suas ordens. Se fosse ferido, a calça vermelha ocultaria o sangue e os marinheiros não se assustariam. Mais algum tempo, surgiram frotas e frotas de piratas armados com o que havia de mais moderno. O comandante, tranquilo, pediu: “Tragam-me as calças marrons”.

O ataque americano que matou Kassem Suleimani, o comandante militar mais importante do Irã, responsável pelas tropas iranianas e as subordinadas a elas espalhadas pela Síria, Iêmen, Gaza, Iraque e Líbano, é um sinal de que chegou a hora, para quem lida com economia, de usar calças marrons. Não que o Irã tenha condições de desafiar o poderio militar americano, nem que possa revidar com um atentado de igual importância. Mas pode atrapalhar o fluxo mundial de petróleo, bloqueando o Estreito de Ormuz (o que tem condições de fazer afundando navios). A área por onde passam de 30 a 40% do tráfego marítimo de petróleo, tem 10 km de largura. O prejuízo econômico é grande. Mas perde-se tempo e dinheiro, não vidas.

Guerra por procuração

O Irã – e essas ações eram controladas por Kassem Suleimani – já estava no ataque há tempos. Os houthis, iemenitas armados, financiados e controlados pelo Irã, bombardearam a maior refinaria do mundo, na Arábia Saudita. Os sauditas bombardearam os houthis, no Iêmen – sem atingir o Irã. Em maio último, quatro petroleiros ancorados foram atingidos por minas de contato. Em junho, os petroleiros Front Altair, norueguês, e Kokuka Courageous, japonês, foram alvejados, sem afundar, mas com grandes danos. Tudo indicava a responsabilidade do Irã, mas não houve represálias. Há dias, as milícias iraquianas de Abu Mahdi al-Muhandis, obediente a Suleimani, atacaram a Embaixada americana em Bagdá e foram repelidos após duros combates. Trump avisou que haveria represália. E houve.

O alvo do drone

O general Kassem Suleiman dirigia a Guarda Revolucionária Al Quds, tropa de elite iraniana, encarregada, entre outras coisas, de vigiar a fidelidade do Exército. Tinha verbas secretas, com as quais manteve a fidelidade de tropas estrangeiras a serviço do Irã. No Líbano, colocou o Hezbollah no jogo político, apoiado em tropas bem armadas. Trabalhava com xiitas, vertente do islamismo que é maioria no Irã e no Iraque, mas também com sunitas no Hamas e alawitas na Síria. Aliou-se aos turcos sunitas, inimigos dos alawitas sírios, mantendo-se bem com todos. Guerreou o Estado Islâmico, sunita, ao lado dos Estados Unidos. Por suas características, será difícil substituí-lo.

Matando o inimigo

Pelas leis da guerra, matar um inimigo é legítimo. Escolher um inimigo para matar equivale a assassínio – a menos que o inimigo escolhido tenha papel-chave na guerra. Quando os americanos decifraram o código japonês na Segunda Guerra Mundial, consideraram legítimo matar Yamamoto, o almirante que comandou o ataque a Pearl Harbour (envolvendo o Japão na Segunda Guerra Mundial), por considerar que o Japão não tinha ninguém à altura para substituí-lo. Quando o presidente egípcio Nasser recrutou cientistas para desenvolver foguetes que aniquilassem Israel, os israelenses os consideraram alvos legítimos. No caso EUA-Irã, há uma dificuldade adicional: tecnicamente, os dois países não estão em guerra. Mas há uma questão de fato: quem condenaria e puniria o presidente americano?

O preço do combustível

Bolsonaro disse que o ataque deve afetar o preço dos combustíveis. Tem razão: o bloqueio no fluxo causa problemas. E o Irã, embora vendedor clandestino (os grandes países não compram dele, temendo o embargo americano), tem sua importância: se não fizer vendas clandestinas, será o petróleo disponível no mercado que irá abastecer seus clientes. Por quanto tempo? Depende: o bloqueio de Ormuz por navios afundados vai dar trabalho, exigir tempo – e, eventualmente, escolta armada para impedir que os iranianos atrapalhem a desobstrução. Quanto antes terminar a crise, mais cedo terminarão seus efeitos sobre a produção e o fluxo do petróleo.

A situação

Como ficarão as bolsas? Em princípio, devem cair. O petróleo, já no início do pregão de sexta-feira, tinha subido 4%. Para o Brasil, há ainda mais problemas, além da queda nas bolsas e na alta do petróleo. Qualquer crise é ruim para as exportações. E só para o Irã o Brasil exporta pouco menos de US$ 3 bilhões anuais. Não é muito, no total de exportações, mas é dinheiro.

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​De cabeça para baixo

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Jornais e noticiosos de TV estão magrinhos, as revistas se dedicam, na falta de coisas ainda mais chatas, às retrospectivas. Vejamos, pois, a Internet. No mínimo é divertido. Há um cavalheiro, por exemplo, que garante que Flávio Bolsonaro vai dinamitar todas as acusações que sofreu: um dia desses, dará entrevista coletiva na qual provará que Fabricio Queiroz é agente do PT, infiltrado na família Bolsonaro para desmoralizá-la. Recebia dinheiro do PT para depositá-lo na conta de pessoas da família, sem que estas percebessem.

Este colunista sempre sonhou em voltar de uma viagem e encontrar seu apartamento integralmente reformado, com extremo bom gosto, por conta de amigos desinteressados e generosos. Também sonha ter inimigos infiltrados, de preferência em grande número, depositando dinheiro à vontade em sua conta bancária. Nada: quem foi que disse que o Sol nasceu para todos?

Escrever essas coisas não é difícil. Mas deveria ser difícil achar quem nelas acreditasse. Pois há quem acredite, também, e adicione comentários.

E, no Estado americano de Virgínia, o polemista Olavo de Carvalho acusa o pessoal da Porta dos Fundos de jogar coquetéis Molotov nas instalações da Porta dos Fundos. Pode ser? Neste mundo tudo é possível – mas o atentado foi gravado em vídeo e por ele é possível chegar ao dono de algum dos carros, Se a Polícia, pertinho do crime, com o vídeo em mãos, ainda não pegou ninguém, como se pode identificar o criminoso a dez horas de voo?

Surpresa!

A deputada mais votada do país, Janaína Paschoal, é filiada ao PSL, pelo qual Bolsonaro se elegeu; foi convidada por Bolsonaro para vice. E é dela a mais contundente opinião sobre Flávio Bolsonaro: acha que ele cometeu crime, sim. “Ao que tudo indica, infelizmente, Flávio cometeu peculato, usou funcionários para desviar dinheiro público”. Janaína aparentemente concorda com a tese de que Flávio Bolsonaro tem sido mais visado que outros colegas de Assembleia. Pede que o Ministério Público faça com outros da lista da Assembleia fluminense o que faz com Flávio. Janaína é a pessoa mais próxima de Bolsonaro a dizer que há crime a ser julgado.

Confusão próxima

Como será aplicada a lei anticrime, que criou o juiz de instrução? Há quem diga que o processo de Flávio Bolsonaro não mais poderá ser julgado pelo juiz Flávio Itabaiana. Há quem diga que o caso já está com Itabaiana, desde antes da nova lei, e que a ele caberá concluir o processo. O Conselho Nacional de Justiça criou grupo de trabalho para debater o tema, com prazo até 15 de janeiro. O juiz de instrução deve comandar o inquérito, e não poderá julgar o caso. Os críticos da lei dizem que não haverá juízes para preencher os novos cargos.

Moro, o compreensivo

Sérgio Moro, que assumiu a Justiça e Segurança Pública com poderes, dizia-se, de superministro, sofreu mais uma derrota quando o presidente se recusou a vetar na lei anticrime o dispositivo que criou o cargo de juiz de instrução. Mas, como nas derrotas anteriores, não reagiu. Dizia-se que Bolsonaro manteve o dispositivo para tirar o juiz Flávio Itabaiana do julgamento do filho, mas não há certeza sobre a aplicação do novo sistema.

Gugu, de meu bem a meus bens

Rose Miriam, mãe dos filhos de Gugu Liberato, que não foi contemplada em seu testamento, disse que está disposta a lutar para ser a inventariante do caso. Além disso, quer que seja reconhecida uma união estável, que lhe permitiria reivindicar parte dos bens de Gugu - embora tenha comparecido à leitura do testamento e concordado com seu cumprimento imediato. O advogado Carlos Eduardo Farnesi Regina, que trabalhou com Gugu por mais de 15 anos e representa a família, coloca sua posição, em nome dos herdeiros:

“Representei os interesses de Gugu Liberato como advogado por mais de 15 anos e agora represento a família em seu espólio. Gugu deixou um testamento que foi lido em ato solene na presença de dois tabeliães e de todos os beneficiados. Nessa mesma reunião realizada, todos os presentes, inclusive Rose Miriam, acompanhada de seu irmão, concordaram com o cumprimento imediato da última vontade do apresentador e conferiram a mim a incumbência de promover o inventário, agora sob sigilo judicial.

“Causa espanto que atos públicos e realizados a luz do dia sejam tratados como coação, enquanto atos praticados na calada da noite em residências sejam admitidos como normais. Todas as minhas reuniões com meus clientes foram diurnas, abertas e por mim gravadas com o conhecimento dos presentes. As mensagens trocadas foram registradas e arquivadas de forma a preservar a transparência, legalidade e sigilo do inventario e da relação cliente/advogado. “Minha função foi, é e continuará sendo preservar, proteger e fazer cumprir a última vontade de Augusto Liberato, manifestada em benefício de seus filhos e sobrinhos.”

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​Feliz Natal (só para nós)

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Nas muitas mensagens de Natal recebidas por esta coluna, várias utilizam a oportunidade para comentar a situação. Há uma queixa que se repete: por que só se fala nos filhos de Lula, não nos de Bolsonaro? Ou, por que só se fala em Flávio Bolsonaro e não em Lulinha e seus irmãos? A dúvida tem seus motivos: em geral, acham que qualquer crítica aos adversários é amena, frouxa e pouca, e aos seus ídolos é ácida, maldosa e excessiva. Pesquisar no Google se isso é verdade, nem pensar: para que, se todos já têm opinião?

Há também o curioso detalhe da quantificação do dinheiro envolvido no caso: por que incomodar Flávio Bolsonaro por poucos milhões – nenhuma acusação chega sequer a uma dezena – quando se fala em muitos milhões na Gamecorp, de Lulinha? Simples: porque, caso as acusações sejam corretas, um crime foi cometido. O que varia é o valor, não a transgressão da lei. Talvez uma transgressão mais substanciosa provoque pena maior, mas o desvio de bilhões ou de milhões é crime do mesmo jeito.

Há casos estranhos: o caso Flávio Bolsonaro, ocorrido quando era deputado estadual no Rio, anda mais rápido do que o mesmo rachid de que é acusado o atual presidente da mesma Assembleia, e que é dezenas de vezes maior. Mas isso não inocenta um – apenas exige mais rigor no caso do outro.

Viver num país polarizado é como enfrentar briga de crianças: eu sou, mas você também é. Políticos dizendo isso, vá lá. Mas o eleitor segui-los?

Questão de...

O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, é criticado por ter viajado de jatinho da FAB, a trabalho. Mas dali seguiu de carro para um hotel-resort, onde ficaria alguns dias. A volta a Brasília, claro, é de jatinho da FAB. Já outras vezes foi criticado por usar a FAB em atividades não oficiais.

Certo ou errado? Nenhum dos dois: apenas inevitável. No clima belicoso que se vive no Brasil, poderia o presidente do STF tomar um avião de carreira sem ser incomodado por passageiros mal-educados que confundem o direito de crítica com a agressão verbal? Uma coisa é falar mal do ministro com o vizinho de poltrona; outra é gritar insultos e gravá-los para as redes sociais.

...educação

Ninguém, mesmo que esteja errado, pode ficar à mercê de achincalhe público – que, a propósito, incomoda também outros passageiros, que queiram tranquilidade, não xingamentos. Os achincalhadores desafiam a lei. E cabe à Polícia Federal enquadrá-los para que não haja mais abusos a bordo.

Por que caiu?

O presidente Bolsonaro, ainda bem, nada sofreu com o tombo que levou na noite do dia 23, no Palácio da Alvorada. Fez todos os exames, inclusive o de imagem, e está bem. Mas há uma pergunta que não foi respondida: qual a causa da queda? Foi um escorregão, um tropeço? O assunto está encerrado. Mas, se caiu por outra causa – como um mal-estar – é preciso ir mais longe nas investigações. É preciso ter certeza de que o presidente está em forma.

A propósito, Bolsonaro disse que poderia estar com câncer de pele. No dia seguinte, disse que não tinha nada e culpou a imprensa pela “notícia falsa”. Afinal, qual a verdade? A saúde do presidente é de interesse nacional.

É excelente ser excelência

A informação foi apurada pelo jornalista Cláudio Humberto, do Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br). Além do salário de quase R$ 34 mil mensais, deputados e vereadores cobraram do Congresso a reposição de despesas que dizem ter tido “com o exercício do mandato”. Com nota, vale até aluguel de jatinho (e, como lembra Cláudio Humberto, valeu para o deputado Afonso Motta, do PDT gaúcho, ser ressarcido de R$ 0,50 gastos com um pão de queijo). A Câmara devolve cerca de R$ 3,9 milhões por ano para cada deputado – são 531. O Senado devolve R$ 2,78 milhões anuais para cada um dos 81 senadores. Despesas, para eles, não são preocupação.

Paipai bravo

O acionista majoritário da Odebrecht, Emílio Odebrecht, demitiu por justa causa seu filho Marcelo, “o príncipe dos empreiteiros”, por fazer comentários depreciativos em público sobre a empresa da qual foi, até há pouco tempo, quando foi para a cadeia, o principal executivo. Lembra um caso ocorrido há anos, quando Clemente de Faria, dono do Banco da Lavoura de Minas Gerais, morreu. Aluísio Faria, o filho mais velho, herdou a gestão, e Gilberto, o mais novo, ficou como diretor. Um dia, Gilberto processou o banco por não cumprir, em seu caso, as obrigações trabalhistas. E Aluísio o demitiu por justa causa. Final: o juiz do Trabalho condenou os dois, alegando que ambos disputavam o controle acionário do banco e que isso nada tinha a ver com questões trabalhistas. O caso Odebrecht pode acabar desse jeito.

O vice

Depois de Mourão, Bolsonaro quer Moro de vice. Ainda bem que não pode disputar um terceiro mandato, ou acabaria tendo Mourinho na vice.

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​A ira dos deuses

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Jair Bolsonaro bateu o PT, que havia vencido quatro eleições seguidas para a Presidência, foi aplaudido em estádios de futebol e nas ruas, conseguiu emplacar uma ampla reforma da Previdência (mesmo sem ter articulação própria no Congresso), transformou o pequeno PSL num grande partido. Há alguns sinais tímidos de crescimento econômico, depois de anos de paralisia, a inflação está controlada, os juros oficiais jamais foram tão baixos, a Bolsa bate recordes, tendo já superado os 115 mil pontos. E, apesar disso, a aprovação do seu Governo, conforme a última pesquisa Ibope, é só de 29%. Menos de um terço do eleitorado o considera ótimo ou bom. Já 38% o vêem como ruim ou péssimo. Para 31%, é apenas um governo regular. Esta pesquisa foi pedida pela CNI, Confederação Nacional da Indústria, que pode ser tudo, menos socialista ou petista ou esquerdista.

Como explicar tão baixa aprovação para um presidente que colecionou tantos êxitos? Talvez a resposta esteja na velha Grécia: quando um homem tinha orgulho desmedido, a ponto de não se importar com mais ninguém, os deuses lhe enviavam Nêmesis, a vingança, para fazê-lo retornar aos limites. Se não se convencesse de que era homem, não deus, viria a Ate – destruição.

Fernando Collor também tomou boas medidas, também teve apoio nas ruas, mas quando se sentiu balançar e pediu apoio à multidão, não mais o teve. Bolsonaro tem tempo, ainda. Mas precisa lembrar-se de que não é deus.

Os problemas e a reação

Bolsonaro já demonstrou que não se importa com ninguém, nem os mais próximos aliados. Descartou Gustavo Bebbiano, que chefiou sua campanha, livrou-se de um amigo de 40 anos, o general Santa Cruz, esqueceu Paulo Marinho, em cuja casa esteve montado seu QG de comunicação, entregou velhos aliados como Alexandre Frota e Joice Hasselmann à grosseria de seus piadistas, rompeu com Luciano Bivar, que lhe cedeu o partido, de porteira fechada, durante todo o período eleitoral. A última pessoa que pôs a mão no fogo pelos outros foi o Capitão Gancho – mas estariam todos conspirando contra ele há tanto tempo? Aí veio Nêmesis, a deusa da Vingança. Se é só com os filhos que Bolsonaro se preocupa, agora tem com o que se preocupar. E os problemas do senador Flávio, o 01, visivelmente o preocupam – a ponto de dizer que um repórter tinha cara de homossexual, mas nem por isso iria acusá-lo de ser homossexual. Desde quando chamar alguém de homossexual é acusação? As perguntas sobre Flávio e Queiroz irritam o presidente. Talvez até a palavra correta não seja “irritem”. Talvez se deva dizer “tirem do sério”.

A boa notícia

Mesmo com a alta da carne, a inflação está sob controle. Na pior previsão, a inflação anual fica em 3,95%, abaixo do teto oficial de 4,25%.

Má notícia

A alta da carne não será revertida rapidamente. Esta coluna informou há tempos que a Austrália, vítima de pesadas chuvas e enchentes, foi obrigada a sacrificar o rebanho. Grande exportadora, vendeu tudo, inclusive as vacas. Vai levar uns três anos para normalizar a situação. E o consumo da China continua em elevação. Menos carne no mercado, maior consumo, preços mais altos – a solução está no frango e no porco, mais baratos que o boi.

Novidade na tela

Preste atenção na TV Cultura. Quem está no comando é um dos melhores executivos da TV brasileira, José Roberto Maluf, que foi homem-chave das redes Bandeirantes e SBT em algumas de suas melhores fases (este colunista teve a oportunidade de trabalhar com ele em ambas as redes). A Cultura já atinge 90% do público e continua ampliando a rede. Seu jornalismo, comandado por Leão Serva, veterano do Projeto Folha, capitão do Jornal da Tarde, mostra a que veio: amanhã, dia 23, às 22h, o tradicional Roda Viva apresenta o historiador israelense Yuval Harari, cujos livros e palestras são um sucesso internacional. Vale a pena ler Harari. E vê-lo.

É coisa nossa

Um romance publicado há quase 30 anos, O Papagaio e o Doutor, e a peça Adeus, Doutor, ambas da notável psicanalista e escritora brasileira Betty Milan, estão sendo adaptados para o cinema em Nova York pelo diretor Richard Ledes. O filme vai-se chamar Adeus, Lacan (referência ao psicanalista francês Jacques Lacan, com quem Betty Milan se especializou). O papel de Lacan será vivido por David Patrick Kelly.

Ele também acerta

Carlos Bolsonaro, vereador no Rio e o segundo dos zeros à esquerda do presidente da República, voltou a se manifestar, depois de curtíssimo tempo de silêncio. Segundo disse, a equipe que cuida da comunicação no Governo “sempre foi uma bela de uma porcaria”. O responsável direto pela área é Fábio Wajngarten, tido até agora como aliado de Carluxo. Mas, se Bolsonaro descartou amigos seus, por que não descartaria algum ex-amigo do filho?

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​O bode das ilusões

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Conta-se que um lavrador judeu foi pedir conselho ao rabino: sua casa era minúscula, não havia espaço para nada, e a sogra, que ficara viúva, tinha ido morar com eles. Que fazer? O rabino disse: leve seu bode para dentro de casa. O lavrador obedeceu e, uma semana depois, voltou ao rabino: tudo tinha piorado. O bode ocupava boa parte do espaço já minúsculo, cheirava mal, fazia sujeira – insuportável. O rabino recomendou: tire o bode de casa.

Alguns dias depois, o lavrador se encontrou com o rabino e agradeceu o conselho. “Tirei o bode de casa. Agora temos espaço e higiene para todos!”

Os R$ 3,8 bilhões de dinheiro público que pagariam a campanha eleitoral foram o bode que os parlamentares expulsaram da casa. Querem que o eleitor fique feliz com a gentileza do Congresso, desistindo dos R$ 3,8 bilhões que geraram tanta reação e aceitando os R$ 2 bilhões propostos pelo Governo no Orçamento. Parece piada: R$ 2 bilhões são bem mais que o R$ 1,8 bilhão da campanha de 2018. Já era dinheiro demais, e pagou a campanha presidencial e as estaduais. Aumentar os gastos para as eleições municipais é tungar o eleitor. É dar nosso dinheiro aos caciques dos partidos, é estimular a criação de novas legendas apenas para dar vida boa a quem não gosta de trabalhar. Que cada partido busque suas doações e sejam todos obrigados a declará-las, doadores e receptores. Nos Estados Unidos é assim. Por que só jurar amor aos americanos e rejeitar seus métodos de financiar campanhas?

Bem-vindo, seu Cabral

Até que o ex-governador fluminense Sérgio Cabral resistiu muito tempo – a ponto de o Ministério Público rejeitar sua proposta de delação premiada, por achar que ele nada poderia trazer de novo às investigações. Mas Cabral, que está condenado em tantos processos que se arrisca a nunca mais sair da prisão, resolveu agora insistir em sua delação premiada. Fez acordo com a Polícia Federal, contra o parecer do Ministério Público. E a decisão sobre os eventuais benefícios que possa receber será dada pelo Supremo Tribunal Federal, onde está nas mãos do ministro Édson Fachin.

Tiro ao alvo

Dizem que Cabral, em sua delação, atingirá não apenas os que já foram atingidos pela Lava Jato: o que se comenta é que entregará juízes, ministros, até diretores de meios de comunicação. Sempre sobrará, claro, para Lula; para Pezão, seu vice e sucessor; e para outros governadores que teriam atuado em conjunto com ele. Há empreiteiros que receberiam deduragem especial, e não são os mais conhecidos, mas o que eram mais amigos, que viajavam com ele, davam bons presentes ao então governador e sua família.

Questão de fé

Se Cabral promete denunciar quem ainda não foi denunciado, após tantos anos de Operação Lava Jato, e devolver centenas de milhões de reais ganhos ilicitamente, por que o Ministério Público se oporia ao acordo de delação? O procurador-geral Augusto Aras diz que Cabral, enquanto negociava delação premiada com a Lava Jato, ocultava informações e protegia aliados. Em resumo, não estaria convencido da boa-fé do ex-governador. De acordo com O Globo, que noticiou a possibilidade de acordo de delação com a PF, desta vez ele promete apontar o dedo até para ministros do Superior Tribunal de Justiça.

...e o óleo esfriou

As toneladas de petróleo que invadiram a costa nordeste do país levaram o ministro do Meio-Ambiente a acusar o Greenpeace (que a guerrilha dos bolsonaristas na Internet chamou de “greenpiche”). Houve falatório sobre a Shell; sobre um navio grego; sobre o modo pelo qual o petróleo, identificado como venezuelano, tinha chegado até o Brasil; e sobre uma misteriosa fonte de óleo sul-africano. A preocupação foi tamanha que a Câmara abriu uma CPI sobre o tema, com o pomposo e vasto título de “Comissão Parlamentar de Inquérito com a finalidade de investigar as origens das manchas de óleo que se espalham pelo litoral do Nordeste, bem como avaliar as medidas que estão sendo tomadas pelos órgãos competentes, apurar responsabilidades pelo vazamento e propor ações que mitiguem ou cessem os atuais danos e a ocorrência de novos acidentes”. Pois ontem havia reunião da CPI, às15 horas. Vazia, vazia. Suas Excelências assistiam ao jogo do Flamengo.

Pobres togados!

Um excelente jornalista e fiel leitor desta coluna, Mário Marinho, mostra o outro lado dos salários pagos a juízes e desembargadores baianos – muitas vezes maiores que vencimentos de ministro do Supremo, teto definido pela Constituição para qualquer tipo de funcionário público. Lembra Marinho que, além dos penduricalhos habituais, deveria haver os bônus Peru de Natal, Uísque de Natal, Frutas Natalinas (caríssimas!) Champanhe, vinhos com premiação internacional, ceia, tudo caro. E não se pode esquecer que, uma semana depois, essas despesas se repetem. Coitados dos desembargadores que tiveram de se contentar com pouco mais de R$ 200 mil mensais!

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