​Filhuxos, encolhi as ameaças!

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Talvez sejam os problemas judiciais, talvez a prisão de alguns dos devotos mais radicais, talvez a apreensão de arquivos virtuais – mas, seja qual for o motivo, o presidente Bolsonaro está em nova fase: a de Mito Paz e Amor. O novo ministro da Educação que escolheu pode ser bom ou ruim, mas é uma pessoa normal, que jamais chamaria a mãe de um crítico de “égua sarnenta”. Ministros seus fizeram gestos de paz a Supremo e Congresso, e – surpresa! – Bolsonaro até se mostrou solidário com os 50 mil mortos do coronavírus, e pediu ao presidente da Embratur, Gilson Machado, que tocasse na sanfona a belíssima Ave Maria, de Gounod. Está bem, Machado está longe de ser um Dominguinhos, não tem a voz de um Caruso, mas valeu pela homenagem.

Com Bolsonaro nunca se sabe, mas aparentemente optou pela suspensão das ameaças. Aproximou-se do Centrão, que prefere um ótimo acordo a uma boa briga, mantém-se mais afastado dos devotos do cercadinho, onde costumava fazer declarações explosivas. E, vários dias depois da prisão de Fabrício Queiroz, nada comentou – nem sobre o preso, nem sobre Frederick Wassef, ao mesmo tempo advogado de Flávio Bolsonaro, de Queiroz e do próprio Bolsonaro. Carluxo, o mais belicoso dos filhos, retornou às atividades na Câmara Municipal do Rio, longe do Planalto. Os devotos continuam ferozes, pedindo briga, mas, sem apoio presidencial, até quando?

Conciliação

Os novos ministros são mais conciliadores que os anteriores. Fábio Farias, das Comunicações, tem ótimo relacionamento no Congresso. Carlos Alberto Decotelli, da Educação, deixou boa impressão no meio político, dos tempos em que esteve na presidência do FNDE, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – embora ainda não tenha explicado quem foi o responsável por uma concorrência que o Tribunal de Contas anulou, na qual seriam comprados vários computadores para cada aluno. E, além de ter deixado boa impressão, tem outras vantagens: não é Weintraub nem olavista.

Um bom momento

A corda foi muito esticada, mas talvez ainda seja possível o retorno – se os filhos colaborarem, se o próprio presidente se contiver, se os inquéritos e ações judiciais não puserem seu mandato em risco. E há alguns pontos, neste momento, em favor de Bolsonaro: embora a pesquisa Datafolha indique que ampla maioria acha que ele sabia onde Queiroz estava, isso não abalou sua popularidade. Houve uma ligeira queda, de um ponto percentual, dentro da margem de erro. E, por esses dias, o presidente inaugurou o primeiro reservatório no Ceará que recebe água da transposição do rio São Francisco – obra que se arrastava desde D. Pedro 2º. Justo no Ceará, comandado pela família do adversário Ciro Gomes. Isso deve elevar seu índice nas pesquisas.

Uma vitória

O senador Flávio Bolsonaro ganhou no Tribunal de Justiça do Rio e terá direito a foro privilegiado, por ser deputado estadual na época do episódio das rachadinhas. A decisão permite que o julgamento ocorra em segunda instância, pulando a etapa do juiz único. Talvez essa vitória, que o afasta do juiz Flávio Itabaiana, leve também à anulação da prisão preventiva, ordenada pelo juiz, no mesmo processo, de Fabrício Queiroz. Mas a questão deve ser observada com cautela: o Supremo já decidiu várias vezes que, ao deixar o cargo que lhe dá direito ao foro especial, o cidadão passa a ser julgado em primeira instância (o que acontece, por exemplo, com o ex-presidente Michel Temer). Há uma diferença entre ambos: Temer não mais ocupa cargo público e Flávio passou de deputado estadual a senador, sendo que senador também tem foro especial. Mas o foro vale para problemas ocorridos em função do mandato. O caso de Flávio ocorreu em outro mandato. Que dirá o STF?

A marcha da gripezinha

Em Brasília, no dia 25 de maio, com tudo fechado, houve 6.930 casos de Covid, com 114 mortes. No dia 26 houve o afrouxamento das restrições, com abertura do comércio.  Um mês depois, 24 de junho, houve 37.254 casos, com 495 mortes. As associações de comerciantes haviam prometido erguer um hospital de campanha com 300 leitos de UTI, o impacto previsível. O impacto foi pouco maior, porém os lojistas não cumpriram a promessa. No dia 25 de junho, havia 95 pessoas esperando lugar na UTI. Mas o problema não é apenas de promessas descumpridas: Israel, que havia levantado boa parte das restrições, fechou-se de novo; Portugal também; e, nos EUA, o número de casos e de mortes bateu recordes neste fim de semana.

O grande reinício

Se a questão do emprego é difícil para todos, imagine quem tem mais de 50 anos e já era discriminado antes da pandemia. Pois é: um grande evento de trabalho e reinvenção profissional para os maiores de 50 anos vai-se realizar de 6 a 9 de julho. São mais de 50 palestras ao vivo pelo Instagram, na Kaleydos. Endereço https://bit.ly/MaturiFest2020. Tudo de graça.

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​A hora da vacina

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Ainda há tempo para 2020 terminar bem: a vacina inglesa desenvolvida pelo Imperial College de Oxford e os laboratórios Astra-Zeneca vai bem nos testes e está quase no ponto de ser produzida em todo o mundo, incluindo o Brasil. Nesta semana, disse o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, pode ser assinado o acordo do Laboratório de Manguinhos e da Fundação Oswaldo Cruz com os ingleses. A Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo, e a Fundação Jorge Paulo Leman podem aplicar vacinas em voluntários. É a última etapa antes da produção em massa.

Simultaneamente, o Instituto Butantan, da Universidade de São Paulo, se apronta para produzir a vacina chinesa da Sinovac. Pelo menos mais duas vacinas estão no forno, criadas pelas americanas Gilead e Moderna. A OMS ainda estudará a taxa de imunização de cada vacina, para estabelecer os seus protocolos. Mas, enquanto os estudos tentam apontar a mais adequada, todas estarão à disposição para prevenir a doença. Nada impede que todas acabem sendo indicadas: no caso da paralisia infantil, a vacina mais usada no mundo é a Sabin (a da gotinha), mas a Suécia faz a vacinação com a pioneira Salk.

Quando começa a vacinação em massa, como será distribuída a produção mundial de vacinas? Não há resposta exata, ainda, mas a vacinação em massa está perto de começar. Espera-se ainda a aprovação de remédios para quem já pegou a doença. Enfim, o Covid poderá ser comparado a uma gripezinha.

Brasil prioritário

Reafirmando: ao se envolver diretamente nos testes com duas das vacinas, o Brasil estará na lista prioritária para importá-las e produzi-las. A prioridade é essencial: imaginemos que 25% da população mundial tenham de ser vacinados. Serão dois bilhões de doses, se a imunização pedir uma só dose. Produzir dois bilhões de vacinas leva tempo e muitos países ficarão para trás

O custo da vida

Comenta-se, sem maiores detalhes, que a vacina não deve ser cara e que, produzida em bilhões de doses, o custo tende a se reduzir. Mas chegar a ela custou caro: entraram no jogo fundações como a de Jorge Paulo Leman (um dos maiores acionistas da AB-Inbev, da Heinz, da Burger King) e a de Bill Gates, da Microsoft, além dos gigantes farmacêuticos mundiais. Trump pôs em dúvida, antes, a gravidade do Covid, e virou cloroquineiro – igualzinho, igualzinho. Mas mostrou que era diferente ao perceber a gravidade do Covid, e o Governo americano colocou algo como US$ 1 bilhão na Moderna, na busca da solução. Este colunista não se surpreenderá se for informado de que as despesas na busca da vacina e do remédio alcançaram uns US$ 10 bilhões.

Dúvida

O escritor Olavo de Carvalho gravou vídeo em que se queixa de não ter tido qualquer auxílio do Governo e ameaça derrubar Bolsonaro se não o receber. Quantificando, são R$ 2,8 milhões de multas à Justiça, mais recursos para que continue vivendo nos EUA. Disse que condecoraçõezinhas não quer e sugeriu que Bolsonaro as coloque num local que vive citando, até em reuniões ministeriais. A dúvida: já deram ajuda a Olavo de Carvalho? E, como não recebeu nenhuma condecoração, sua sugestão terá sido seguida?

Dia bom

O Senado deve votar hoje o Marco do Saneamento Básico, pelo qual a iniciativa privada terá papel preponderante em levar a toda a população do país os esgotos e a água potável até 2033. Hoje, mesmo cidades como o Rio e São Paulo dispõem de saneamento básico insuficiente – e o presidente até já apresentou isso como uma virtude, o brasileiro precisa ser estudado, pula no esgoto e não acontece nada. Saneamento básico para todos representará forte queda na mortalidade infantil, redução dos custos do SUS, facilidade para o combate a doenças transmitidas por insetos e por roedores. Mais: são obras razoavelmente simples, que empregam muita gente e que podem atrair investimentos calculados em R$ 700 bilhões. Aprovado (e implantado) este Marco do Saneamento Básico, a história do Brasil se dividirá em duas partes.

Números

Hoje, metade da população não tem água tratada. E 1/7 não têm esgotos.

Os extremos se tocam

A casa em Atibaia (que não é nem de Lula nem de Queiroz, mas de amigos deles) não é a única coisa comum a ambos os casos. As explicações são sempre curiosas: nas duas casas o dono não aparece, uma tem placa de escritório de advocacia, e um cavalheiro fica um ano morando lá sem que o dono saiba (isso na primeira versão: na segunda o dono sabe, mas prefere nada comentar para que outro de seus clientes, embora amigo do cavalheiro escondido, não se preocupe). E neste ano jamais conversaram. Normal, né?

Quem defende

Wasseff tinha procuração de Bolsonaro. Karina Kuffa disse que o cliente era dela. Ele então desistiu de defender Flávio. Mas a briga era pelo outro!

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​Os notáveis já comandam

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Há um importante grupo no Governo Federal (chamado genericamente de área militar, embora nem todos os militares que estão no Governo pertençam ao grupo, embora nem todos no grupo sejam militares) que se preocupa com o desgaste político do presidente. Quando até Olavo de Carvalho ameaça derrubar o Governo, quando a prisão de um tal Queiroz, confesso adepto de práticas pouco ortodoxas de arrecadação ameaça atingir a própria família do presidente, o grupo quer reverter a situação com um Ministério de Notáveis.

O nome foi criado no Governo Fernando Collor, com o mesmo objetivo, e houve a ocupação de ministérios por pessoas notáveis. Não adiantou: Collor sofreu impeachment (e mais tarde acusou os notáveis de traição).

Acontece que o presidente Bolsonaro já formou um Governo de notáveis. O ministro do Meio-Ambiente assistiu a uma bela afrouxada na fiscalização ambiental, os dois ministros da Educação que se sucederam foram notáveis pela despreocupação com problemas educacionais, o ministro da Saúde não tem experiência no assunto – mas tudo bem, ele aprende, basta esperar algum tempo e assistir a mais alguns milhares de mortes na pandemia – e até agora só se cercou de militares, sem se contaminar com a presença de especialistas em saúde pública. E há a ministra Damares – querem figura mais notável?

O chanceler pediu o apoio dos EUA ao candidato brasileiro ao BID, para derrotar a Argentina. Trump não deu apoio e ainda lançou candidato próprio. O Itamaraty agradeceu. Perdoa-me por me traíres, diria Nelson Rodrigues.

Posto notável

Há Paulo Guedes, o Posto Ipiranga. Das três reformas que achava essenciais e urgentes, uma, a da Previdência, foi aprovada graças a Rodrigo Maia, e era diferente da que propôs. A administrativa está passando numa boa – uma boa temporada nas gavetas de Bolsonaro, onde estão há um ano. A tributária será proposta algum dia.

O tempo passa

A propósito, não botemos a culpa da pandemia: de janeiro de 2019 a março de 2020, houve tempo. Mas Bolsonaro preferiu, entre outras coisas, analisar esteticamente a esposa do presidente francês. E o Posto Ipiranga se calou, posto em sossego.

As notáveis consequências

As ações do notável Ministério provocam problemas também notáveis: um dos mais graves é dificultar o acordo Mercosul-União Europeia e colocar em risco o comércio já existente entre europeus e o Brasil. Menos pelas queimadas na Amazônia e mais pelas declarações de que isso não tinha importância, o Brasil sofreu bloqueio de recursos europeus destinados à preservação. Some-se a isso frases de Bolsonaro sobre reservas indígenas e o afrouxamento da fiscalização ao desmate ilegal (antes, equipamentos usados em desmatamento ilegal eram incendiados. Agora, são devolvidos), e há restrições de parlamentos de países europeus ao acordo. A Europa se beneficiaria com ele – estima-se que suas empresas poupariam € 4 bilhões ao ano. Mas é fácil boicotar o acordo: a imagem internacional de Bolsonaro é ruim (basta ver como é tratado pela imprensa europeia), e o lobby dos agricultores europeus contra o agronegócio brasileiro, com o qual não conseguem competir,  usa isso contra o Brasil. Tirando a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ninguém dialoga com os clientes.

Duvidar é preciso

Fabricio Queiroz, amigo de Bolsonaro, assessor de seu filho Flávio, foi preso na casa de Atibaia de um advogado de Flávio. Não estava escondido, mas hospedado: não havia nenhuma ação legal contra ele. Mas o advogado, em várias entrevistas, disse não saber onde ele estava. Aliás, se é do Rio e se tratava de câncer em São Paulo (onde Veja o entrevistou, no Hospital Albert Einstein), por que foi morar em Atibaia, a 60 km de distância? O presidente Bolsonaro disse que é porque a casa do advogado ficava perto do hospital onde se tratava. Enganou-se: o Hospital Nova Atibaia, onde ele disse fazer o tratamento, negou a informação. E o Einstein fica longe: dá uns 80 km, com o trânsito paulistano no caminho. Outra dúvida: se Bolsonaro e Flávio não tinham contato com Queiroz, como o presidente sabia do hospital de Atibaia? E por que surgiriam a respeito dele tantas invenções? Questão de hábito?

O outro também

Boa parte da argumentação bolsonarista nas redes sociais se refere ao caso Queiroz como perseguição política. Havia 20 gabinetes parlamentares que, segundo o Coaf, tinham movimentação financeira atípica. Flávio Bolsonaro era o 19º da lista, com R$ 1,3 milhão (Queiroz era o operador). A lista era encabeçada pelo gabinete de um deputado petista, André Ceciliano, com 49,3 milhões. É natural que um assessor do filho do presidente eleito fosse mais citado que os demais. Mas o justo é que contra todos os envolvidos na lista haja um inquérito semelhante. Justiça é Justiça, sem perseguir ninguém.

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​A bala de prata e o lento moinho

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As afirmações de Sérgio Moro não foram a bala de prata que iria liquidar o Governo Bolsonaro. A grotesca reunião do Ministério em que se tratou de tudo, menos de administração e de combate à pandemia, também não foi o tiro decisivo. Bolsonaro buscou apoio nas Forças Armadas, lançou ameaças, disse várias vezes que sua paciência estava finda. Bem, há mais de cem anos o Leão da Metro ruge nas telas, e até hoje nunca feriu ninguém.

Empate? Não: a grande ameaça ao Governo Bolsonaro vem sendo forjada aos poucos. O moinho da Justiça mói lentamente, mas o que mói vira farinha. Bala de prata para que? O maior risco que Bolsonaro corre é ser corroído pelas beiradas, por inquéritos sobre apoiadores, financiadores e movimentos ilegais na campanha eleitoral. O general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, um dos primeiros a sentir a direção dos ventos, advertiu indiretamente o Tribunal Superior Eleitoral a “não esticar a corda”. 

O problema é que há mais de uma corda: o inquérito das fake news ameaça o Gabinete do Ódio, área de propaganda onde se movem com facilidade dois dos filhos do presidente; o inquérito no Rio sobre as rachadinhas, pelas quais um parlamentar se apropria de parte dos salários de assessores, é um risco para Queiroz – lembra-se dele? – que já disse que seu chefe Flávio Bolsonaro de nada sabia, mas que o dinheiro ilegal pagava mais  gente para auxiliá-lo. Talvez surja uma bala de prata, mas não é essencial.

Em nome do filho

Até agora, sabia-se que no fim do arco-íris dos inquéritos estavam os filhos 01, 02 e 03 do presidente da República – mas isso não era dito por ninguém. O silêncio terminou: o procurador Sérgio Pinel, do Ministério Público do Rio, citou “fortes indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro” contra Flávio Bolsonaro. Segundo o jornal O Globo, desde 2003, quando assumiu seu primeiro mandato, Flávio comprou 19 imóveis.

O moinho mói

Há dois inquéritos em que o resultado das investigações é intercambiável: o do TSE, no qual corre o pedido de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, e o das fake news, do STF. Há quem conteste a legalidade do inquérito das fake news, por ter sido aberto no Supremo sem que alguém o acionasse. Mas, quando Sérgio Moro deixou escapar a gravação da conversa em que Dilma prometia a Lula que o “Bessias” lhe levaria a nomeação para o Ministério, evitando que os federais o incomodassem, estava na ilegalidade (a gravação foi feita fora do prazo permitido), tanto que pediu desculpas e foi advertido, mas Lula não virou ministro e o Governo Dilma acabou em impeachment. E quem julga a legalidade de um inquérito no Supremo? O próprio Supremo.

Virando farelo

A constatação de que Bolsonaro ocupou todo o espaço político, a ponto de fazer oposição a si mesmo, vale também para apoiadores e ministros. Sair disfarçado de Ku Klux Klan, grupo racista e criminoso dos EUA, jogar fogos de artifício no Supremo, desafiar um ministro do STF para uma briga de rua... nem se a oposição fosse competente desgastaria tanto o Governo. E aí vem o ministro Weintraub apoiar os desordeiros. Até Bolsonaro, sempre beligerante, disse que Weintraub se tornou um problema. Mas resolvê-lo é difícil. Os filhos do presidente e o escritor Olavo de Carvalho, a quem muito prezam, apoiam Weintraub. Há militares dentro do Governo que adorariam afastá-lo. Olavo ataca os militares, que não reagem publicamente. Curioso é que tanto os que querem manter Weintraub quanto os que querem afastá-lo não discutem seu desempenho na Educação (talvez porque não haja nada a discutir). Discute-se quem manda mais, quem são os favoritos de Bolsonaro.

Para as duas alas e para o ministro, Educação é apenas um detalhe.

Multa para poucos

Por decreto do governador Ibaneis Rocha, é proibido andar nas ruas de Brasília sem máscara facial. Bom, os vinte ou trinta ativistas comandados por Sara Winter montaram um acampamento em lugar proibido e ficaram lá por vários dias; quando desalojados, montaram tranquilamente as bases para o lançamento de fogos de artifício contra o edifício do Supremo. Nenhum jamais usou máscara, exceto quando se disfarçaram de Ku Klux Klan, com tochas e tudo, para manifestar-se contra o Supremo. O presidente Bolsonaro cansou de circular sem máscara pela cidade. Aliás, em um mês de vigência da obrigatoriedade da máscara, só três multas foram aplicadas. O terceiro dos multados foi Weintraub, quando se juntou a um grupo de manifestantes.

Por que só ele, e não os manifestantes também? Por que só ele, e não o presidente Bolsonaro, que deveria dar o exemplo? Parece perseguição. E é.

Sem fantasia

Cinco partidos (Cidadania, PSB, PDT, PV e Rede) apresentaram pedido de impeachment de Bolsonaro. Não é para valer. Rodrigo Maia vai deixá-lo em banho maria. Só anda se houver uma tremenda crise, além das atuais.

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​Sílvio Santos vem aí

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O número de ministérios seria reduzido à metade. Nenhum acordo com o Centrão, representante da Velha Política. Abaixo a esquerda. E chega de PT.

O número de ministérios não foi reduzido à metade, o Centrão virou símbolo da Nova Política e surge mais um ministério - Comunicações. O mais novo ministro, Fábio Faria, foi eleitor de Lula e Dilma. Foi também vice-líder do bloco de esquerda formado por PCdoB (comunistas linha chinesa), PDT (o partido de Leonel Brizola e de Ciro Gomes), PSB (socialistas), PMN e PRB. Fábio Faria está no PSD – partido cujo presidente, Gilberto Kassab, foi ministro de Dilma. Este é o perfil, digamos, ideológico, do novo ministro das Comunicações do governo que gosta se dizer de direita.

Mas o melhor vem agora. Todos garantem ter sido surpreendidos com a criação do Ministério das Comunicações e a escolha de Fábio Faria. Kassab, o mestre da negociação, um dos políticos mais bem informados do país, diz que não soube das negociações de Bolsonaro com Faria. Tem mais: Faria é genro de Sílvio Santos, casado com Patrícia Abravanel. Pois não é que Sílvio afirma que não sabia de nada? Pois é: todos dizem que as negociações foram mantidas em sigilo para que nada vazasse. E só quando o Diário Oficial da União já estava entrando no ar é que o informaram. Sílvio não ficou nem um pouco chateado – como se sabe, ele não se preocupa em saber tudo o que ocorre em seu redor, em detalhes. Mas ninguém ia mentir. Nós acreditamos.

Negócios da China

A intimidade de Fábio Faria com TV, por meio do sogro, e o bom contato com os chineses, via PCdoB, podem ajudá-lo numa das mais difíceis tarefas do Ministério das Comunicações: a escolha do 5G a ser implantado no Brasil. O 5G promete uma revolução não apenas nas comunicações mas, pela velocidade e estabilidade, na própria maneira de viver – será mais fácil, por exemplo, trabalhar em casa. Há duas empresas no duelo: a chinesa Huawei, que lidera a corrida, e a americana Qualcomm. O presidente Trump, que tem forte influência sobre Bolsonaro & Filhos, acha que a Huawei é um braço da espionagem chinesa. Outra tarefa será preparar os Correios para a privatização. E, ao mesmo tempo, passa a ser responsabilidade de Faria a propaganda do Governo. Agora ele é o chefe de Fábio Wajngarten; e é quem terá de lidar com Carluxo, o filho 02, líder extra-oficial de toda a propaganda.

Hora H

O momento é importante para a área de Comunicação. Bolsonaro está mal de popularidade. A pesquisa XP-Ipespe (a XP é uma corretora e as pesquisas ajudam escolha dos investimentos) é a melhor para ele: o índice dos que acham seu Governo mau ou péssimo caiu de 49 para 48%, os que o acham ótimo ou bom subiram de 26 para 28% - alterações dentro da margem de erro. A pesquisa DataPoder diz que 48% gostariam de afastar Bolsonaro e 46% preferem mantê-lo. A pequena diferença mostra a divisão no país.

As razões da má vontade

O leitor Edson Chiavegatto comenta a nota da coluna sobre a dificuldade de firmar acordos comerciais com outros países, atribuída em boa parte à má imagem que o Governo criou em áreas como preservação ambiental. Trecho da mensagem: “Reprovo algumas atitudes ou ações do Governo, mas a verdadeira razão para essas dificuldades é a forte influência do lobby do agronegócio daqueles países sobre seus governos. Há décadas é assim, independente do Governo e suas políticas, e assim seguirá sendo”. É verdade – mas o lobby anti-Brasil usa os argumentos que lhes fornecemos. Sem esse nosso discurso, ficaria mais difícil a eles impor o afastamento do Brasil.

Ameaças, não

Um cavalheiro enviou duas cartas de ameaças a este colunista (seu nome só será divulgado após termos a certeza de que não é alguém usando o nome de outra pessoa). Decidi lavrar boletim de ocorrência. Segue a carta como chegou (atenção: contém palavrões): ”O Sr. Não passa de um comunista vagabundo, sua coluna é uma merda, gosta de intriga, não gostada de Geraldo Alkimin, vivia caluniando, agora é a vez do Governo Federal, calúnias contra o presidente, fez intrigas entre Moro e o presidente, Moro se fodeu. Melhor você calar essa sua boca de esquerda comunistas, e não escrever mais porra nenhum a respeito da vida política do presidente, vem falar do STF?, quem são ele?, corte de merda,bandidos nomeados para proteger bandidos condenados. É melhor calar a boca, você faz parte da Imprensa marrom que juntos com os Governadores e Prefeitos,montaram uma organização de marginais para derrubar o presidente. Fabricam as quantidades de pessoas contaminadas e mortes pelo coronavírus, Hospitais no esquema, dando laudos forjados de mortes por coronavírus, para receberem uma bolada do dinheiro que vem sendo roubado, pelos Governadores e Prefeitos, isso você não divulga na sua coluna. Vou dar só mais um aviso, já falou demais, já encheu o saco.Amor Febril pelo Brasil.”

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​Chore as mortes. E proteja a carteira

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Existe gente que, diante da pandemia, vai com coragem à linha de frente para ajudar a enfrentá-la. Há gente que segue o conselho médico e se mantém isolada, protegida. Tem gente que, em busca de proveito político, chega a negar a doença que já matou quase 40 mil brasileiros. E o pior das gentes são aqueles que, enquanto tantos choram, tomam seus lenços e carteiras.

Não, não são aqueles egoístas que, com bons salários e excepcionalmente bons penduricalhos, não desistem de um só centavo para ajudar no combate à pandemia. São piores: aqueles que, tendo os maiores salários que o Tesouro pode legalmente pagar, dispondo de penduricalhos que multiplicam estes salários, aproveitam o momento para tentar pegar mais algum. Desta vez, ao menos por enquanto, se frustraram; mas nenhum precisará perguntar quanto custa o carro que quer comprar – aliás, o carro está entre suas mordomias, com chofer, combustível, manutenção e troca periódica pelo modelo novo.

A coisa aconteceu, mais uma vez, no Tribunal de Justiça da Bahia. Nesta segunda, o TJ decidiu antecipar o pagamento do abono e adicional das férias do primeiro e segundo períodos do ano que vem. Motivo? “A diminuição de renda familiar de alguns magistrados nesse momento de crise".

O corregedor nacional de Justiça, ministro Humberto Martins, foi rápido: mandou suspender o pagamento. E deu dez dias de prazo para que o tribunal baiano lhe envie as explicações de tamanha generosidade.

Sem fantasia

Não leve a sério a aceitação de denúncias contra Bolsonaro em Haia, na Corte Internacional de Justiça, nem na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Vão ficar por lá, numa gaveta. Mas não serão enviadas para a cesta seção: caso esteja fraco demais, politicamente, pode até ser que o julguem. Mas não é provável. O problema é outro – a erosão da imagem brasileira.

O pior da coisa

*A Comissão de Assuntos Tributários da Câmara dos Deputados americana se opôs ao plano de expandir os laços econômicos dos Estados Unidos com o Brasil. Motivo: o comportamento do Governo Bolsonaro na questão dos direitos humanos e do meio-ambiente. “O Governo Bolsonaro “desconsidera totalmente os direitos humanos básicos”, diz a Comissão.

*O Parlamento holandês veta acordos com o Brasil por problemas com o meio-ambiente.

*A Alemanha cortou o aporte que fazia ao Fundo Amazônico. A Noruega também, mas a Noruega não faz parte da União Europeia.

O principal trunfo econômico de Bolsonaro é o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que abre amplas portas às exportações brasileiras. Mas o acordo tem de ser aprovado pelo Parlamento de cada país envolvido, e também pelo Parlamento europeu. As restrições da Holanda e Alemanha dificultam essa aprovação. E há uma bancada no Parlamento da França que lembra os comentários sobre a aparência da mulher do presidente Macron.

Estes problemas foram criados pelo Brasil – e por que? Que é que o país ganhou falando mal dos índios, reduzindo o combate ao desmatamento ilegal da Amazônia, acusando os europeus de, há séculos, ter destruído florestas?

Eleições mais tarde

Tudo indica que, devido à pandemia, haverá adiamento por um ou dois meses das eleições municipais. O novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, conversou com médicos de várias especialidades que enfrentam a pandemia e disse que há consenso para que as eleições municipais sejam adiadas, mas se realizem ainda neste ano, com tempo para que os novos eleitos assumam quando se encerrar o mandato dos atuais prefeitos e vereadores. A informação já foi transmitida aos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e David Alcolumbre. As datas mais prováveis estão entre final de novembro e meados de dezembro. Em 20 de dezembro, no máximo, o nome de todos os eleitos deverá ser anunciado.

Coisa nova

Campanha no meio da pandemia é coisa nova, que exigirá novas atitudes e estratégias dos candidatos. Quem tiver melhor informática leva vantagem. Pesquisas, cruzamento de dados, propaganda – quem souber interpretar a situação tem tudo para ganhar. As notícias falsas (em bom Português, fake news) devem perder força, até porque as redes sociais estarão vigilantes.

O cansaço de todos

Em parte, as violentas manifestações americanas contra o racismo se relacionam com a tensão em que todos vivem, por causa da pandemia e da quarentena. Esse tipo de cansaço aparece aqui não só nas manifestações (os manifestantes arriscam a vida, aglomerados, sem máscaras) como nas pesquisas de opinião. Pesquisa Ibope, na cidade de São Paulo, mostra que Dória e Covas caíram bem, embora ainda tenham 51% de aprovação. Bolsonaro caiu de 26% para 21%. Todas as autoridades se desgastaram.

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A queda, a queda e a queda.

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O presidente Bolsonaro foi a Águas Lindas, em Goiás, para inaugurar um hospital de campanha que já estava pronto há 40 dias, o primeiro construído pelo Governo Federal para as vítimas da pandemia. Desceu do helicóptero, escorregou e caiu no chão de terra. Levantou-se em seguida, sem problemas.

No fim do ano passado, Bolsonaro já havia tido uma queda, escorregando no banheiro do Palácio da Alvorada e batendo a cabeça. Passou a noite em observação, no hospital. De manhã voltou ao palácio, sem problemas.

Mas piores são as quedas políticas: o presidente Donald Trump, seu ídolo, que antes dele já falava em cloroquina, disse que se os EUA tivessem lidado com a pandemia como o Brasil (e a Suécia), sem uma rígida quarentena, poderiam ter tido de um a dois milhões e meio de mortos, em vez de 105 mil. Justo Trump, que já chamou Bolsonaro de “Trump tropical”. E nosso vice, general Hamilton Mourão, abriu o jogo sobre como Bolsonaro vê o Governo: se o Ministério da Segurança Pública for separado do Ministério da Justiça, o objetivo será “acomodar aliados”, que “trariam um apoio maior para a base governamental dentro do Congresso”. O Centrão sabe seu valor.

Mourão falou também sobre o desempenho do Governo. Diz que deveria ter criado tratado de conter o desmatamento da Amazônia no ano passado, e que o Brasil “perdeu a narrativa do ponto de vista ambiental e é tratado como vilão”. Para quem cai nas pesquisas, perder Trump e ouvir Mourão é terrível.

 Firme

Nada disso significa que Bolsonaro esteja à beira da queda, embora seja difícil, com apoio reduzido, retomar os patamares de popularidade em que já esteve. Bolsonaro tem menos de um terço do eleitorado, dificultando, em termos políticos, uma tentativa de impeachment. Talvez metade desse terço seja seu núcleo duro, que não irá abandoná-lo. E a, digamos, conquista do Centrão impede a aprovação do impeachment no Congresso. Bolsonaro é do ramo, mas é difícil que mesmo ele crie uma crise em que perca o cargo.

 Olhando o exemplo

Só que, em política, as coisas podem mudar rapidamente. Donald Trump era favorito na luta pela reeleição. Mas a forma pela qual lidou com a pandemia – inicialmente negando-a, depois anunciando que a cloroquina era a solução (o caro leitor não se lembra de algo?) e, numa frase especialmente infeliz, sugerindo injeção de desinfetante para tratar coronavírus – minou sua popularidade. Ficou pouco abaixo do adversário Joe Biden. Veio então o episódio George Floyd, no qual Trump não teve a menor participação. Caiu mais e, nas últimas pesquisas, ficou com 41%, contra 51% de Joe Biden.

 Tumultos americanos

George Floyd era um segurança negro, grande e forte, detido por suspeita de tentar passar US$ 20 falsos. Tentou fugir, resistiu, acabou subjugado, com um policial pressionando-o no pescoço. Disse algumas vezes que não conseguia respirar e, após nove minutos de pressão, morreu. O policial, branco, está numa prisão de segurança máxima, acusado de homicídio. Não há qualquer evidência de que tenha morto Floyd de propósito, ou por ser negro. Mas, de qualquer maneira, exagerou. E, por algum motivo, o assassínio incendiou os Estados Unidos: o slogan “Vidas de negros importam” pegou fundo, e tudo virou um protesto violento contra o racismo – protesto em que manifestantes acabaram matando um policial negro. Trump ameaçou colocar o Exército na parada, o que é proibido pela Constituição (e os militares foram os primeiros a dizer isso). A Guarda Nacional atua, mas sob o comando dos governadores, não do presidente.

 Os números

Condenar o racismo é sempre válido. Mas saquear lojas e incendiá-las? E vejamos números oficiais americanos (fonte, FBI, relatório sobre 2013). Número de assassínios por milhão de habitantes: negros mortos por brancos, 0,77. Brancos mortos por negros, 9,83. Brancos mortos por brancos, 10,22; Negros mortos por negros, 53,94. Sim, há causas que levam a isso, que têm de ser corrigidas. Mas por que esta morte, justamente esta, inflamou o país?

 Terceiro do mundo

O Brasil tem a quinta população do mundo e é hoje o terceiro em mortos pelo coronavírus, atrás apenas de Estados Unidos e Grã-Bretanha. Chegou a esta posição 79 dias depois da morte da primeira vítima do Covid, em 17 de março. A “gripezinha” matou, até quinta-feira, 34.021 pessoas no Brasil. No mundo, já morreram 390 mil pessoas. Especialistas se dividem: há quem diga que a pandemia já reduziu a taxa de contaminação e logo isso irá se refletir em menos casos; há quem diga que vivemos o pico da doença, que logo mostrará sinais de queda; há quem diga que o pico da doença virá daqui para a frente e só começará a cair em agosto.

E há os que temem a volta da pandemia, a “segunda onda”, que atingiria até quem já teve Covid e pensa estar imunizado.

Nós, não especialistas, o que podemos fazer é rezar e torcer.

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​A força das novas forças

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De um lado, os manifestantes bolsonaristas não estão interessados no Supremo, nem em Direito, e não se preocupam com a corrupção parlamentar – ou não apoiariam a aliança de seu mito, a quem querem como ditador, com o Centrão. De outro, as torcidas organizadas que os enfrentaram em nome da democracia e do antifascismo são organizadas, mas como grupos belicosos, daqueles que marcam brigas de rua pela Internet, nas quais já morreu gente, e não estão interessadas em democracia ou em luta antifascista – ou não aceitariam entre seus integrantes um cavalheiro todo de preto, ostentando no peito uma suástica, símbolo maior do nazismo. De ambos os lados, são desordeiros, aglomerando-se sem se importar com o coronavírus, nem com as pessoas que irão contaminar. A morte dos outros é apenas um detalhe.

A briga nas ruas chama a atenção. Mas o importante acontece em outra frente, a política. A oposição, anestesiada desde a surra eleitoral que tomou, começa a sair de sua paralisia, acordada pelas declarações autoritárias de Bolsonaro & Filhos e impulsionada pela sociedade civil. Nada, ainda, a ver com partidos, mas com movimentos como “Somos 70%”, “Estamos juntos” e o manifesto “Basta!” Há neles união de tradicionais adversários políticos e ideológicos, em nome de um objetivo maior – oficialmente, a democracia. Mas não se pode esquecer que “Basta!” foi um dos editoriais do Correio da Manhã às vésperas da deposição do presidente João Goulart, em 1964.

A ausência

Lula está fora: não quer se unir a adversários que, com o impeachment de Dilma, tiraram o PT do poder. Mas Lula, convenhamos, já não é o Lula de antes. A CUT vacila (perder o imposto sindical foi um golpe duríssimo), ele mesmo parece ter perdido o fogo dos velhos tempos, aliados importantes o abandonaram: não apenas Ciro Gomes, mas até mesmo o PCdoB conversa com outros setores. As conversas ainda devem avançar, mas o exemplo histórico anterior funcionou: a campanha das Diretas Já começou assim e, apesar dos percalços, deu certo e levou ao fim da ditadura militar.

Um número

O “Estamos Juntos” já reuniu mais de 200 mil assinaturas. É um início promissor. No início da campanha das Diretas Já, os idealizadores e líderes do movimento couberam no terraço de cobertura da Folha de S.Paulo, onde foram fotografados (todos riram muito da foto, que pretendia representar a sociedade civil – e representou). O primeiro comício reuniu cinco mil pessoas. O último ocupou o Vale do Anhangabaú inteiro, em São Paulo.

O tempo passa

Bolsonaro ainda tem considerável capital político, apesar do desgaste dos últimos tempos. Mas perdeu mais de um ano em que jogou sozinho, sem oposição. Ele e os filhos ocuparam o papel de oposição ao próprio Governo. Hoje, além do possível surgimento de uma nova oposição fora do Congresso, há o problema do coronavírus. Não foi ele que trouxe a pandemia, embora atrapalhe e muito as tentativas de combatê-la. Mas é quase inevitável que os problemas dela decorrentes ajudem a reduzir seu apoio popular. No caso, por sua culpa: Mandetta ia bem, era bem visto pela opinião pública, era Governo. E foi fritado. Moro também era popular, era Governo, e foi fritado. É como afastar Messi do time para mostrar que o bom ali é o técnico, não o craque.

Achar os hackers

Outro problema para Bolsonaro, que talvez contribua para desgastá-lo, é o dos hackers do movimento Anonymous, que começa a divulgar seus dados pessoais e de alguns de seus ministros. A ação dos hackers não tem sentido: não há interesse em saber seus números de CPF ou endereços particulares, a não ser como elemento de chantagem. E está na hora de reparar um grave erro: quando houve a divulgação das trocas de mensagens de Sérgio Moro, houve ações contra Glenn Greenwald, que as divulgou. Mas ele, jornalista, estava dentro da lei: a divulgação não é crime. O crime era o hackeamento, e os hackers não foram incomodados. Cibernético ou não, crime é crime. Interceptar conversas alheias é crime e deve ser esclarecido. Simples assim.

Heróis? Não...

E, por favor, vamos parar de chamar os desordeiros que fizeram baderna em Curitiba de “antifascistas”. Antifascistas eram os partigiani, combatentes corajosos que minaram dentro de casa o fascismo italiano. Em Curitiba, os baderneiros eram black blocs, que não combatem o fascismo nem sabem o que é isso. Quebrar vitrines a pedradas e bastonadas é coisa de vândalo, de bandido, que se divertem causando prejuízo a quem não tem nada com isso.

...anti-heróis

E botar fogo em bandeira do Brasil? Este colunista não gosta de ver um grupo político-partidário se apropriar de símbolos nacionais. O símbolo é de todos, não de um partido. Mas a bandeira, mesmo sendo hoje usada por bolsonaristas, é de todos nós, é do Brasil. E merece, tem de ser respeitada.

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​A anatomia da crise

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Bolsonaro não tem nada contra Rodrigo Maia, Alcolumbre ou Celso de Mello. Nada tinha contra Moro ou Valeixo. Bolsonaro pensa em reeleição, mas não é por isso que busca brigar com o Supremo, o Congresso e os governadores que querem disputar a Presidência com ele; nem é o que o leva a reunir sua torcida em passeios de carro para apoiá-lo. Bolsonaro cismou que a hidroxicloroquina é o máximo, mas não é isso que o leva a querer crise. Pandemia, mortos? E daí? Como ele disse, um dia nós todos morreremos.

O problema de Bolsonaro é proteger os filhos. Se, com ele presidente, os filhos já estão sitiados, imagine se deixar a Presidência. Este colunista acredita que, se fosse possível garantir-lhe um indulto à família, ele deixaria de lado a aversão à China, a luta contra o comunismo, o amor à hidroxicloroquina, a reverência a Trump e abandonaria a vida pública, voltando a ser um cidadão comum, daqueles que tomam cuidado com o radar em vez de brigar com ele e jamais sonharam com o filme Pequim contra 000.

Dos três zeros à esquerda, o filho 01 luta há quase dois anos para se livrar de investigações sobre a rachadinha – a parte do salário que seus funcionários de gabinete devolviam ao amigo Queiroz; e seu suplente garante que ele disse ter recebido informações sigilosas da Polícia Federal. Os filhos 02 e 03 podem ser envolvidos no inquérito das notícias falsas, fake news. E o filho 02 chega a ser apontado como criador e comandante do Gabinete do Ódio.

Opinião pública - Datafolha

Bolsonaro está em baixa: pelo Datafolha, 43% consideram seu governo ruim ou péssimo, contra 33% que o acham bom ou ótimo. Os números favoráveis não variaram. Mas os desfavoráveis cresceram cinco pontos de um mês para cá. A maioria absoluta, 52%, três pontos acima da última pesquisa, acha que o presidente perdeu as condições de dirigir nosso país. O número dos que acham que tem condições, sim, se mantém estável em 45%.

Opinião pública – Atlas

Números do Instituto Atlas: 22,5% aprovam o Governo Bolsonaro; 58,1% o desaprovam. O desempenho pessoal do presidente é aprovado por 32,9% e desaprovado por 65,1%. Sobre a pandemia, 24,3% se preocupam mais com o impacto econômico, como Bolsonaro; e 68,1% com as mortes. Distanciamento social? A favor, 72,1%; e, acompanhando o presidente, 24% contra. A ditadura (muito citada por Eduardo Bolsonaro, que fala em Ato 5) é rejeitada por 83,1% e aprovada por 8,9%. Imagem pública: Bolsonaro está em quarto lugar (32%), atrás dos ex-ministros Mandetta (52%), Moro (42%) e do ministro Paulo Guedes (38%); um pouco à frente de Lula, 28%, e de João Dória, 27%. Bolsonaro tem a maior rejeição, 64%, seguido por Dória (54%), Lula (52%), Guedes (44%), Moro (43%) e Mandetta, 29%. O mundo gira: hoje, Mandetta seria um candidato presidencial mais forte que Moro.

E 53,9% querem Lula preso, contra 29,1% que o querem solto.

Fechando as contas

Conforme a pesquisa Atlas, 58% aprovam o impeachment do presidente;  36% são contra.

Balanço geral

Mais da metade dos eleitores optou por Bolsonaro há menos de dois anos. Hoje, seu apoio oscila na casa dos trinta, trinta e poucos por cento. É para este grupo que Bolsonaro fala: precisa mantê-lo unido, porque é o grupo que o mantém no poder. E radicaliza ao máximo: quer levar os outros Poderes e os investigadores a reduzir ou retardar as ações contra ele, ou partir para o tudo ou nada, sabendo que ficar parado é aguardar o desastre – no caso, as investigações sobre seus filhos. Por isso ele se arrisca. E arrisca todo o país.

Sem esmorecer

Um personagem-chave na luta de Bolsonaro para manter-se no poder é o procurador-geral Augusto Aras. Nos últimos dias, o presidente acenou a Aras com a possível nomeação para o Supremo, numa eventual terceira vaga (duas ocorrem nos próximos meses, com a aposentadoria compulsória dos ministros Celso de Mello e Marco Aurélio; uma terceira se algum outro ministro se aposentar ou vier a falecer). E condecorou Aras com a Medalha do Mérito Naval (no mesmo decreto, concedeu a condecoração também ao ministro da Educação, Abraham Weintraub). Por que numa terceira vaga? O presidente já disse que quer nomear um ministro “terrivelmente cristão”, no caso um evangélico – talvez o atual ministro da Justiça, André Mendonça, evangélico praticante, que declarou considerar Bolsonaro “um profeta”. Mas sobra uma vaga: por que não para Aras? Deve imaginar, suponho, que Aras, querendo garantir a cadeira, não irá querer bater de frente com ele.

Mortes, doença? E daí?

Informação de O Globo, com base em documentos oficiais: o Ministério da Saúde tem R$ 34,4 bilhões disponíveis para ações de combate direto à pandemia. Até o dia 28, tinha gasto R$ 8,1 bilhões, ou 23,6% do total.

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​Roubando o remédio do doente

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Bolsonaro tem suas culpas – tantas, tão graves, que não é preciso inventar culpas novas para falar mal dele. No caso da busca e apreensão no Rio, em que o governador e sua esposa foram atingidos, ele até que gostaria de ser o responsável pela Operação Placebo da Polícia Federal, mas o comando é outro: quem pediu ao Superior Tribunal de Justiça que autorizasse a busca, a apreensão e a quebra dos sigilos foi a Procuradoria Geral da República. O procurador-geral, Augusto Aras, foi indicado por Bolsonaro, mas se o STJ autorizou a ação é que havia motivos para realizá-la. A coisa no Rio parece mesmo brava: dos sete hospitais de campanha, só três foram entregues. Um hospital, dado como pronto, só tinha as paredes: o equipamento, já pago, lá não existia. A empresa terceirizada que cuida da construção e manutenção dos hospitais já gastou um terço da verba total para seis meses, sem concluir sequer metade das obras de construção. E a manutenção?

Mas, se o responsável pela operação não é Bolsonaro, que tanto queria mudar a direção da PF no Rio que por isso até demitiu Sérgio Moro, se a operação ocorreu logo após a mudança por pura coincidência, resta explicar uma coisa. Na véspera da operação, a deputada ultrabolsonarista Carla Zambelli disse à Rádio Gaúcha que a Federal iria agir contra governadores. Era verdade – mas como é que ela soube? Quem, e por que, violou o sigilo?

Cadê o sigilo?

Carla Zambelli é uma parlamentar pronta a defender o presidente, mas não está no primeiro escalão bolsonarista. Além dela, quem mais sabia da operação? Ela sabia de mais coisas: na entrevista, disse que a PF tinha outras operações “na agulha”, que acabaram não sendo feitas. De novo a pergunta: como é que sabia? O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, garante que começou o tsunami. É só palpite ou sabe de algo? Se sabe, como?

De tudo um muito

O Ministério Público diz ter provas de que houve fraude no orçamento até dos geradores dos hospitais de campanha do Rio. Mais: que, no topo da organização que fraudou o orçamento, está o governador Wilson Witzel.

Primeiro o deles

Há gente arriscando a vida para cuidar de quem contraiu o coronavírus. Há gente que se mobiliza para ajudar os que, por causa do coronavírus, estão precisando de dinheiro, comida e roupas. Há empresas que fizeram pesadas doações para ajudar a combater a pandemia – entre elas, louve-se enfim, a sempre criticada JBS, que também não demitiu funcionários. E há gente que, mesmo sabendo dos problemas que os vários governos enfrentam para pagar os custos do combate ao coronavírus, dão de ombros. E daí? Não é com eles. Na Bahia, um lúgubre retrato do que pode acontecer. No Tribunal de Justiça, saiu uma listinha de salários. Lembre: diz a lei que nenhum salário pago por cofres públicos pode ultrapassar o de ministro do Supremo, algo como R$ 40 mil mensais. Nos Estados, são cerca de R$ 36 mil. Na lista de 19 nomes do TJ da Bahia, o menor salário é de Itabuna, de um diretor de Secretaria de Vara, R$ 39.722,80. O maior é de Salvador, de um subescrivão de gabinete de desembargador, R$ 54.563,22. No miolo da lista, há um escrivão, com R$ 45.1448,29; um atendente de recepção, R$ 50.305,29; um técnico de nível médio, R$ 47.298,65. Tudo deve estar bem explicadinho, com certeza. E ajuda a encontrar a explicação da falta de dinheiro para pagar funcionalismo.

Alô, alô, colegas!

Não existe “protesto a favor”. Existe “manifestação a favor”. Protesto é uma manifestação contrária. Portanto, “protesto a favor de Bolsonaro” é uma contradição em termos: ou é protesto, ou é a favor. Segundo: na manifestação deste final de semana na avenida Paulista, em São Paulo, havia pelo menos uma bandeira da Pravy Sektor, a milícia fascista da Ucrânia. Deve ter sido falha deste colunista, que não viu menção a esta bandeira, nem entrevistas com quem a transportava. Só vi uma menção à Ucrânia, que talvez seja fake news: uma entrevista atribuída a Sara Winter, ex-feminista que hoje lidera um grupo radical de bolsonaristas. Segundo o áudio que lhe é atribuído, ela diz ter sido treinada na Ucrânia e que chegou a hora de ucranizar o país.

Tem de saber puxar

John Foster Dulles, o secretário de Estado do presidente Eisenhower (1953-1961) disse que os Estados Unidos não tinham amigos, mas países com interesses comuns. O presidente Bolsonaro, ingênuo ao ponto de achar que ele e seu filho tinham conquistado a amizade do presidente Trump, já enfrentou problemas mais de uma vez (como na indicação para a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE). Agora Trump proibiu a entrada nos EUA de pessoas que tenham passado pelo Brasil há menos de 14 dias, já que aqui o coronavírus cresceu exponencialmente. Até aí, vá lá; mas as palavras de Trump foram duras, “não quero ninguém entrando aqui para infectar nossos cidadãos”. Muy amigo.

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