​Lobo e Cordeiro, agora amigos

Postado em:

Surpreenda-se (ou não): Lula disse nesta segunda, numa entrevista em Sergipe, que Michel Temer não fez nada de errado para conseguir derrotar na Câmara, logo no início, seu processo de impeachment: “Eu acho que o Temer fez o que qualquer presidente faria, buscar maioria para evitar que ele fosse cassado”. Veja o vídeo em https://twitter.com/claudiotognolli

Lula, bom político, sabe que o pau que bate em Chico bate em Francisco e que os problemas de um são os mesmos do outro. Talvez variem em grau, mas bastam para encerrar carreiras políticas e colocar em risco o gozo, em liberdade, das aposentadorias pelas quais tudo fizeram. Lula sabe que, do outro lado, também há bons políticos, que preferem desfrutar as delícias do poder (ou da oposição) a evitar que seus adversários as desfrutem.

Fernando Henrique, por exemplo, já disse que buscar doações para o acervo de ex-presidentes (como a que o Instituto Lula obteve da OAS, mais de R$ 1 milhão) é absolutamente normal. Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, lembrou que ex-presidentes são obrigados legalmente a manter o acervo presidencial, mas não há destinação de recursos nem de locais para isso. E Lula disse que Aécio jamais pediu algum cargo em seu Governo – com isso, livrou-o da acusação de ter cobrado propinas no período lulista. 

Quem é lobo, quem é cordeiro? Tanto faz – ora um é um, ora é outro.

Time articulado

A direção nacional do PMDB promete punir os políticos do partido que se mostram mais amigos de Lula do que seria conveniente. O governador sergipano Jackson Barreto e seus seguidores seriam os primeiros, pelo calor da recepção a Lula, ora peregrinando pelo Nordeste. Outro alvo podem ser os Renans de Alagoas – o senador Renan Calheiros e seu filho Renanzinho, governador. Mas não é bem assim: o PMDB não vai perder governos cheios de bons cargos só para manter a coerência. E, a propósito, que coerência? Temer foi vice de Dilma. Romero Jucá, Renan e Padilha, até mesmo Gabriel Chalita, todos trabalharam juntinhos com o PT até que ficar com Dilma se mostrou inviável. O governador paranaense Roberto Requião é ainda tão pró-PT que até apoia Nicolás Maduro. Os dirigentes nacionais do PMDB fazem cara de bravos. Bem conversados são muito mais suaves.

Jogo profissional

Mas essa história de brigar no palco e acertar-se nos bastidores não é para todos: só para os profissionais. A senadora Kátia Abreu, por exemplo, que se transformou de líder ruralista em amiga de infância de Dilma, pode ser punida. Ela poderia até parecer muito amiga, mas só de mentirinha.

O mundo gira

No mundo real, a Lava Jato fez estragos de verdade: mesmo que grandes alvos escapem da prisão, imagens e popularidade foram prejudicadas. Um exemplo: em Miguel Leão, município de 1.474 eleitores no interior do Piauí, o prefeito foi cassado pelo TRE por abuso de poder político e houve eleições para substituí-lo. O Piauí é governado por um petista, Wellington Dias (que, segundo Lula, é um gênio da política). Em 2006, Lula teve 87% dos votos em Miguel Leão. O candidato de Wellington Dias e de Lula foi Jaílson de Souza, do PT. Lula gravou vídeo de 30 segundos, enviado aos celulares dos eleitores, dizendo: “O Jaílson é do PT, e você sabe que o PT sabe governar o Brasil, sabe governar Miguel Leão. Por isso, no domingo não esqueça, vote em Jaílson”. Mas quem ganhou, com 51,48% dos votos, e tomou posse nesta segunda, foi Roberto César, Robertinho, do PR. “O eleitor”, disse Robertinho, “sabe que Lula não é o santo que imaginava”.

A semana Lava Jato

Suas Excelências trabalham contra, mas a popularidade da Lava Jato se mantém em alta. Nesta semana, saem dois livros sobre caça a corruptos. O do procurador Rodrigo Chemim, do Ministério Público, Mãos Limpas e Lava Jato: a corrupção se olha no espelho (Citadel Editora), compara a Lava Jato à italiana Mãos Limpas e sugere mudanças para que nossa investigação vá ainda mais longe.  Já à venda, R$ 40,00. E o do jornalista Carlos Graieb, PF – a lei é para todos, Editora Record. Primeira edição, 10 mil exemplares, já vendida. Também estreia um filme com o mesmo nome.

Fofoca da quente

Nota do ótimo portal jurídico Espaço Vital (www.espacovital.com.br):

“Adultério arranhado - A rádio-corredor da OAB do Paraná aqueceu o frio curitibano, ontem (dia 21), com pitadas calientes sobre uma das muitas delações premiadas ainda mantidas em sigilo oficial pelos procuradores da Lava Jato. Trata-se do caso de um operador de propinas que confirmou seu romance com uma parlamentar federal que é... casada.

“As viagens ao exterior eram bancadas com recursos públicos, ou do propinoduto. O oblíquo casal temporário teve também brigas e arranhões causados por recíproco ciúme doentio.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

​Noves fora, zero zero zero

Postado em: - Atualizado em:

Lula está disposto a tudo para ser candidato – e, ao menos por algum tempo, livrar-se de Curitiba. E, para mostrar a seus adeptos que fora ele não há salvação, admitiu na Bahia a possibilidade de ser impedido de disputar a Presidência (é a primeira vez que fala em público sobre esta hipótese). Seu substituto, disse a Mário Kertesz, da Rádio Metrópole, seria escolhido entre os governadores Fernando Pimentel (Minas), Rui Costa (Bahia), Camilo Santana (Ceará), Wellington Dias (Piauí), e o ex-governador baiano Jaques Wagner. Fernando Haddad, que tenta viabilizar-se como candidato, não é citado: claro, perdeu a reeleição por ampla margem, e no primeiro turno.

Nas palavras de Lula, “o golpe (o impeachment de Dilma) não fecha” se ele não for judicialmente impedido de se candidatar. O risco é alto: Lula já foi condenado em primeira instância, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a nove anos e meio de prisão, e se seu recurso for recusado pelo Tribunal Regional Federal cai na Lei da Ficha Limpa. O problema é que, apesar da alta rejeição (que dificultaria sua vitória no segundo turno), ele é o primeiro colocado nas pesquisas. Os nomes que sugere como substitutos nem foram lembrados pelos pesquisadores. E, depois de Dilma e Haddad, a era dos postes, que só existiam por seu apoio, parece ter chegado ao fim.

Lula está em campanha – oficialmente, “caravana”, porque campanha antecipada é ilegal – por nove Estados do Nordeste. Visita 25 cidades.

...com quem andas

A comitiva de Lula na campanha – quer dizer, “caravana” – inclui Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, acusada de crime eleitoral, lavagem de dinheiro e corrupção passiva, José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, acusado de improbidade administrativa, e o ex-governador baiano e ministro Jaques Wagner – contra quem o Supremo determinou a abertura de processo, acusado de participação no esquema Odebrecht.

A bainha dos tucanos

O PT pode ter candidatos de menos, mas todos farão o que Lula mandar. Já o PSDB tem candidatos demais, três deles já derrotados pelo PT, outro derrotado dentro do partido quando quis se candidatar; e um que aparece bem, mas que por isso mesmo vem sendo sabotado pelos outros. No PSDB todos são amigos desde os bancos escolares, mas ainda acham que as costas uns dos outros são a bainha para seus punhais. Geraldo Alckmin e Aécio Neves, ambos já derrotados por Lula, vêm conversando sobre como anular João Dória Jr., com prestígio em alta (e com o dobro das intenções de voto de Alckmin, nas pesquisas). José Serra, surrado por Lula e Dilma, quer ser lembrado como candidato e não fala mal de Dória; mas seu aliado José Aníbal fala mal por ele. Tasso Jereissati, atropelado por Serra no PSDB quando quis se candidatar, é o presidente do partido – e mandou sozinho no programa de TV, criticado pelos demais tucanos (entre outras coisas, o programa atacou o Governo, em que o PSDB tem quatro ministérios dos bons). Todos querem derrubar Tasso; aceitam até Aécio de volta.

Ao mestre, com carinho

Mas Aécio teve de se licenciar da Presidência do PSDB quando foi alvo das gravações de Joesley Batista, a quem pediu R$ 2 milhões. Joesley diz que era suborno, Aécio diz que era empréstimo. E o Supremo, a pedido do procurador Janot, analisa a possibilidade de mandar prender o senador.

Outra possibilidade é antecipar para outubro a convenção nacional, que escolherá o presidente. E, inicialmente, antecipar as convenções estaduais. No caso, o favorito para presidente é o governador goiano Marconi Perillo.

O PSDB, como sempre, decidiu não decidir. Vão consultar Fernando Henrique, que não é candidato nem quer ser, para que decida por todos.

Quem parte e reparte...

Todos querem votar depressa a reforma política, mas só para garantir a mamata dos R$ 3,6 bilhões de financiamento público de campanha. Como fica a eleição (distrital, distrital misto, distritão, proporcional), não importa muito. Mas, sem decidir esses detalhes, como garantir já a dinheirama? Os parlamentares estudam qual o sistema que melhor lhes facilite a reeleição.

...fica com a melhor parte...

Na terça, promete o presidente do Senado, Eunício Oliveira, entra na pauta o pedido de urgência para extinguir o sigilo dos empréstimos do BNDES. O projeto é do senador Lasier Martins, do PSD gaúcho; e o PT é totalmente contra, com certeza por motivos técnicos e patrióticos. Lasier Martins cita casos em que o fim do sigilo permitirá que se entenda tudo: o porto de Mariel, em Cuba, empréstimo de US$ 682 milhões; o metrô do Panamá, US$ 1 bilhão. As empreiteiras são as de sempre.

...e conhece a arte

Do portal Quanto Custa o Brasil: lista de deputados federais e senadores em débito com a União (goo.gl/Xbxh5f).

COMENTE:

 carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

​O Congresso é fingidor

Postado em: - Atualizado em:

Os assuntos em debate são da maior importância para o futuro de todos nós: reforma política, reforma da Previdência, reforma trabalhista. Mas, para quem os debate, o futuro de todos nós não tem a menor importância: Suas Excelências só querem saber o que é bom para suas carreiras. Até que acertem o deles, fingem que debatem o que precisaria ser debatido a sério.

A reforma política deve buscar um sistema de governo que funcione, uma campanha eleitoral mais barata, uma representação mais autêntica. Para que o Governo funcione, é preciso ter menos partidos – mas enquanto houver abundância de dinheiro público à disposição, mais partidos serão criados. Fala-se numa campanha eleitoral mais barata, única maneira de evitar que os candidatos sejam reféns de seus doadores de campanha; e se imagina o tal “distritão”, que exigirá campanhas mais caras que as atuais, já que os políticos de agora entram na disputa com tremenda vantagem. E nem se pensa em representação mais autêntica – nada que dificulte a vida, por exemplo, de um exibicionista que tatua nos ombros seu puxa-saquismo.

A reforma da Previdência não levou em conta, até hoje, sua capacidade de pagamento. Não dá para usar metade do dinheiro pagando aposentadoria integral a 10% dos aposentados, e a outra metade pagando pouco a 90%. Falta dinheiro, o Tesouro cobre; e quando acabar o dinheiro do Tesouro? A reforma vai gerar chiadeira. Mas que se há de fazer, se falta o dinheiro?

O custo da campanha

Imaginemos que o caro leitor queira se candidatar a deputado por Minas. É honesto, competente, mas não famoso, como Tiririca; e não tem um reduto próprio, como o sindicalista Paulinho da Força. Terá de fazer campanha em 853 municípios, montar uma frota (cada carro com quatro funcionários, dois motoristas e dois pregadores de cartazes, em dois turnos), pagando pneus, combustível, seguro, consertos, alimentação e hospedagem de toda a equipe. Terá de imprimir cartazes anunciando a candidatura. Precisará de cabos eleitorais, sempre pagos. Pense no custo. O voto distrital reduziria os gastos. Claro que o desenho dos distritos vai gerar chiadeira. Quem foi eleito pelo atual sistema não quer outro que possa lhe causar problemas. Mas ou muda o sistema ou cada candidato dependerá de doadores incapazes de decepcioná-lo – e bem capazes de cobrar por isso.

A festa do dinheiro

A próxima campanha já tem, garantidos, R$ 5 bilhões e 400 milhões de recursos públicos – o seu, o meu, o nosso dinheiro. Há 3,6 bilhões a dividir pelos partidos; há R$ 1,8 bilhão gastos no pagamento das emissoras pelo horário “gratuito”. Há ainda o Fundo Partidário: perto de R$ 1 bilhão por ano, pingando mês a mês no caixa dos partidos. Há poucos anos, quando o fundo era de pouco mais de um terço do atual, o presidente de um partido obscuro se queixava de receber “a merreca de R$ 100 mil mensais”. Se há dinheiro sobrando, haverá partidos sobrando. Por que não criar um partido para receber o Fundo Partidário, alugar seu horário gratuito na TV, oferecer a legenda para algum candidato correto – ou seja, que pague em dia - se tudo está disponível para isso? Com dinheiro se faz até uma aliança sincera.

Quem é quem

E, esquecendo todos os fatos acima, é bom lembrar quem é que discute a reforma política. O maior partido, o PMDB, é dirigido por Romero Jucá; o PT, por Gleisi Hoffmann; o PP, por Ciro Nogueira – por coincidência, os três com problemas no Mensalão. Quem preside o PSDB é Aécio Neves, que acaba de se livrar do inquérito de Furnas. O PTB é controlado por Roberto Jefferson, que já cumpriu pena por seu papel no Mensalão, e o PR segue Valdemar Costa Neto, que há pouco deixou a prisão. Difícil, não?

Nuvens passageiras

Política, ensinava o mineiro Magalhães Pinto, é como nuvem: você olha e ela está de um jeito, olha de novo e ela já mudou. Não vale a pena, pois, especular, faltando mais de um ano, sobre o candidato do PSDB às eleições de 2018. Mas pode-se dizer que a guerra Dória x Alckmin existe mais na torcida de quem não gosta de um ou de outro do que na vida real. Alckmin e Dória, aparentemente, repetem a dança (que deu certo) da escolha do primeiro presidente civil da República, após a ditadura militar: Tancredo e Ulysses posicionados, Franco Montoro à espera, e o que estivesse em melhor posição no momento da escolha sairia candidato com o apoio dos demais. Saiu Tancredo e se elegeu com apoio de Montoro e Ulysses.

A vida como ela é

Diversão garantida hoje, na Câmara dos Deputados: está marcada para hoje a sessão em que representantes da empresa argentina Pampa Energía serão ouvidos sobre a compra da Petrobras argentina por US$ 892 milhões, no último dia do Governo Dilma, e efetivada pelo presidente da empresa, Aldemir Bendine, hoje preso. O PSDB considera que o preço foi baixo.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann                         

Ganham tudo e mais um pouco

Postado em:

A monarquia balançava, mas e daí? Em 9 de novembro de 1889, na Ilha Fiscal, Rio, houve luxuoso baile em homenagem aos tripulantes do navio chileno Almirante Cochrane. Ali se gastou 10% do orçamento anual da província do Rio. Seis dias depois, caiu o imperador e veio a República.

Michel Temer balança, é uma pinguela, como disse Fernando Henrique, mas e daí? O Governo enfrenta um buraco de R$ 139 bilhões; não sabe onde buscar mais R$ 20 bilhões para chegar até o fim do ano; e a Câmara destina R$ 3,6 bilhões de dinheiro público para pagar a campanha eleitoral. O leitor (não o chamo de "caro leitor" porque caro é o deputado) quer pagar a campanha de alguém? Pois terá de fazê-lo. E, se os R$ 3,6 bilhões são a maior fatia do bolo, não são o bolo inteiro: há o Fundo Partidário e o horário gratuito, mais uns R$ 2 bilhões. Ainda temos a troca de carros do Senado, 83 Nissan Sentra novos para o conforto das senatoriais bundas.

O Rio do Baile da Ilha Fiscal não paga o salário dos servidores há três meses. Mas o governador Pezão licita o aluguel de um jatinho para seu uso, gastando R$ 2,5 milhões por ano – assim viaja na hora que escolher.

Mas não culpe apenas os governantes descontrolados e os parlamentares pelo delírio. O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região, Salvador, licita empresa "para assessorar magistrados e servidores em aulas de corrida e caminhada". Enfim, querem tudo! Não percebem que a paciência acabou?

Um limite, enfim

Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, decidiu não pedir elevação do orçamento. O aumento dos ministros é de 3%, e ponto final. Com isso, sufocou a reivindicação do Ministério Público, que queria quase 17%. O salário dos ministros do Supremo é, por lei, o máximo que o Estado pode pagar a qualquer servidor (na prática, há inúmeras brechas legais, e há quem ganhe o triplo dos vencimentos de um ministro).

Lavando...

A informação publicada na coluna anterior, a respeito da grande união para estancar as investigações da Lava Jato e congêneres, cada vez mais se confirma: a Polícia Federal enviou ao Supremo o resultado da investigação sobre Aécio Neves, informando que não há motivo para pedir que ele seja processado. Um dos pontos-chave da conclusão da PF foi o depoimento de Lula, seu adversário político, segundo o qual Aécio "não pediu nenhum cargo em nenhum de seus mandatos". Lula disse ainda que não acredita que Aécio "possa ter pedido qualquer cargo a algum de seus ministros".

...a Lava Jato

Antes disso, Fernando Henrique já tinha dito ao juiz Sérgio Moro que a posse de presentes recebidos como presidente e a busca da doação de recursos para mantê-los e armazená-los é prática normal. Por lei, os objetos são de interesse público, e portanto o governante não pode larga-los no depósito do palácio. Tem de levá-los; o transporte, segurança e manutenção são caros, e por isso há a procura de doadores que enfrentem as despesas. E o Governo ainda não tem meios para receber os presentes, catalogá-los e distribuí-los por seus museus. Fernando Henrique disse que, a seu ver, se o ex-presidente quiser pode até vender os presentes, depois de oferecê-los ao Tesouro, mas que ele não o fez e que Lula também não o havia feito. Com isso, Fernando Henrique praticamente matou um dos processos contra Lula.

Foice e martelo, mas de grife

socialite Roberta Luchsinger, membro da família que controla o banco Credit Suisse e ex-mulher do delegado Protógenes Queiroz (hoje foragido, com sentença de prisão transitada em julgado), decidiu doar dinheiro e objetos a Lula, no valor de R$ 500 mil, para que ele não fique sem recursos, já que o juiz Sérgio Moro mandou bloquear pouco mais de R$ 9 milhões de suas contas. Roberta Luchsinger ofereceu a Lula um cheque de perto de € 30 mil (mais de cem mil reais) e objetos como sapatos Louboutin, relógio Rolex e vestido Chanel; e pediu aos admiradores de Lula que também façam doações, em dinheiro ou objetos que possam ser vendidos para gerar mais recursos. Roberta não é petista, mas está próxima do partido: quer ser candidata a deputada pelo PCdoB.

As armas turcas

A PM paulista promoveu licitação internacional para comprar cinco mil pistolas .40. Até agora, a Taurus era a fornecedora obrigatória, por ser a única nacional; mas não pôde participar porque vendeu à PM armas com problemas. Primeira surpresa: fabricantes como Colt, Jericho, Sig Sauer, Glock, H-K, Smith & Wesson, Uzi, Walther não entraram na concorrência, que ficou restrita a duas marcas: Beretta, italiana, e Girsan, turca. Segunda surpresa; a Girsan, pouco conhecida no Brasil, venceu a Beretta. O preço foi mais baixo e a arma deve ser boa, já que obedece aos padrões da OTAN; mas por que outros fabricantes decidiram não entrar?

COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann           

​Atrás da porta

Postado em: - Atualizado em:

O PT, liderando a esquerda, quer se vingar de Temer, derrubando-o. Os partidos adversários querem botar Lula na cadeia e destruir o PT. Temer está disposto a ser impopular para reformar o Brasil. E a Mula sem Cabeça expele fogo pelo nariz – que, como os bens de certos políticos, não é dela.

Para acreditar numa dessas lendas, melhor acreditar na da Mula sem Cabeça. Vai decepcionar-se menos. Os fatos: o PT gostaria de se vingar de Temer, muita gente quer botar Lula na cadeia, e Temer, que já é impopular mesmo, sabe que ou há reformas, e rápido, ou o Brasil quebra. Quem perder essas brigas ficará com menos poder, menos mordomias. É chato, mas tolerável. Já o adversário real, Sérgio Moro (e outros juízes, e promotores), põe em risco boa parte da fortuna, todo o poder e a liberdade dos políticos da esquerda à direita. Para o poderoso, como tolerar a cadeia?

Neste momento, os inimigos entre si negociam como se amigos fossem, para neutralizar a Lava Jato e outras iniciativas semelhantes. Há manobras subterrâneas, como a redução das verbas, a redistribuição dos inquéritos; e há manobras abertas, de denúncia de questões reais de chefes das ações anticorrupção – procuradores e juízes com penduricalhos salariais que ganham acima do teto constitucional, longas prisões sem julgamento, bons acordos, muito bons, para delatores. Afinal, ninguém imaginaria que o Poder se entregasse sem usar todos os recursos – até mesmo os legais.

A raiz da luta

Aliás, a guerra entre Gilmar Mendes (STF) e Janot faz parte da questão.

A lei anda!

Há um projeto de lei na Câmara, o PL 6726/2016, que está parado desde o último 15 de dezembro. Agora, um deputado do PPS do Paraná, Rubens Bueno, decidiu cuidar do caso: está coletando assinaturas para colocar o projeto em votação, em regime de urgência. Uma coincidência: o PPS faz parte do bloco governista, e o PL 6726 fecha as brechas para salários superiores ao teto constitucional de servidores públicos, atingindo grande número de magistrados e promotores. Auxílio-moradia, auxílio-educação, vencimentos, tudo terá de caber no teto constitucional de R$33.763,00, equivalente aos vencimentos  de ministros do Supremo. Só em São Paulo, 718 magistrados recebem mais que o teto constitucional.

Inimigos amigos

E que ninguém estranhe a aliança de inimigos tradicionais diante de um inimigo comum mais perigoso. Faz parte do jogo. Quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética, o dirigente britânico Winston Churchill se aliou formalmente ao líder soviético Yossef Stalin, a quem sempre atacara com dureza. Quando lhe cobraram a mudança de posição, Churchill explicou: “Se Hitler invadisse o Inferno, eu faria pelo menos uma referência favorável ao Sr. Demônio na Câmara dos Deputados”.

Por falar em benefícios

A petroquímica Braskem, joia do grupo Odebrecht, estuda a mudança de sua sede para os Estados Unidos. Lá está investindo US$ 2,2 bilhões numa nova unidade. Segundo o presidente da empresa, Fernando Musa, “nos próximos cinco ou dez anos”, a Braskem vai investir fora do Brasil. Aqui, pouca coisa, “sem um salto relevante”. A Braskem nasceu poucos meses antes do início do Governo Lula, e se transformou rapidamente numa gigante mundial. A Odebrecht tem 38,25% do capital; a Petrobras, 32,15%. A Odebrecht, controladora da Braskem, fez acordo de delação premiada para que seu presidente, Marcelo Odebrecht, já condenado, pudesse cumprir a pena em casa, a partir do dia 19 de dezembro.

A união dividida

Quanto à esquerda, foi-se o tempo em que o PT comandava um bloco unido. Quando a Câmara apreciou a denúncia contra o presidente Temer, o PT, que queria evitar a votação, sugeriu que os deputados de esquerda não dessem número para a sessão na qual a denúncia seria rejeitada; e Temer continuaria exposto ao desgaste da luta para sobreviver. O PCdoB quis marcar posição, compareceu, votou em bloco contra Temer. Outra divisão: o governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, candidato à reeleição, avisou os aliados de que Roseana Sarney, PMDB, que andava meio sumida, voltou com força total e, no comando do poderoso esquema Sarney, pode retornar ao poder. O PT ainda não se mexeu (há até quem esteja com Roseana) para salvar Dino, o aliado candidato à reeleição

Fora do tom

E há um caso curioso, o de Agnaldo Timóteo, que passou por vários partidos, entre eles o PDT, parte da aliança de esquerda. Ele cometeu o imperdoável pecado de falar mal de Leonel Brizola, fundador e ídolo do partido. Falar mal de Brizola, para o PDT, é como, para o PT, falar mal de Lula: uma heresia. Timóteo está entrando no PT. O PDT já resmunga.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

​Caminhos cruzados

Postado em:

Vencido o primeiro obstáculo à sua permanência no poder (o procurador Rodrigo Janot pretende propor outros), Michel Temer ganha fôlego para mudar a imagem ruim do Governo: até o fim do ano, aprovar a reforma tributária e da Previdência. É provável que já tenha votos para isso: os 263 que se expuseram e o apoiaram na impopular rejeição da denúncia contra ele (e são maioria absoluta), mais alguns dos 62 que aceitaram a denúncia mas apoiam as reformas e integram partidos da base governista. Se conquistar 45 votos, terá os 2/3 necessários para emendas à Constituição.

Não haverá represálias, portanto, contra os que, embora governistas, não o apoiaram. Primeiro, porque precisa deles para chegar à maioria de 2/3; e porque não é seu estilo. Temer perdoa – mas não esquece quem perdoou.

A luta pelas reformas, acredita o Governo, pode tirar o foco da opinião pública dos políticos de quem é próximo, e que, para usar uma frase gentil, não chegam a representar uma renovação. De velhas raposas espertas, que passam de um governo a outro, o país se cansou. O foco do eleitorado seria transferido para a Economia, para a inflação em baixa e, apesar da crise, para a leve tendência de melhora no nível de emprego e nos investimentos.

O Congresso já não debate a luta Temer-Janot. Só se preocupa com o dinheiro público na campanha eleitoral. Uns R$ 4 bilhões – e quem quer debater outro assunto? Talvez só você, caro leitor, que vai pagar a conta.

Tem mais, tem mais

Não pense que a conta vá parar nos R$ 4 bilhões para a campanha. Ainda há R$ 1,5 bilhão anual do Fundo Partidário. Não é coisa nova, mas cerca de três anos atrás a conta era de aproximadamente R$ 300 milhões.

Agilidade total

O Congresso tem pressa de votar o financiamento público de campanha, ou “bolsa-eleição”, para os íntimos. A votação, na Comissão de Reforma Politica da Câmara, deve começar na terça, dia 8, e terminar na quinta, dia 10. Imediatamente depois, vai para votação em plenário, na Câmara e no Senado. Estará aprovado em setembro, sem falta, para vigorar em 2018.

O voto e o candidato

Deve ser também reformado o sistema de escolha dos parlamentares. Hoje vigora o voto proporcional: a votação de todos os candidatos de um partido é somada e verifica-se quantos lugares o partido conquistou. Os candidatos mais votados vão ocupando as cadeiras. O problema do voto proporcional é que o eleitor vota num candidato e elege outro; e os partidos procuram pessoas populares, mesmo sem noção do que é política, para "puxar votação”. Tiririca levou para a Câmara um bom grupo de parlamentares puxados por seus votos. A mudança mais provável é o “distritão”: os mais votados de cada Estado ocupam as cadeiras. Parece mais democrático; mas os partidos perdem importância porque o candidato não depende mais do voto dos companheiros (e o Governo é obrigado a negociar com um por um, o que sai muito mais caro): e a tendência é que se elejam os candidatos mais conhecidos, o que reduz a renovação. Sendo o Congresso é o que é, imagine-se com renovação mais lenta!

Apenas um retrato...

O país sofre hoje de pesquisite aguda: um ano e meio antes das eleições, antes que se saiba quem serão os candidatos, sem que se saiba quais os temas em debate, já há pesquisas até sobre segundo turno. Para dar uma ideia de quão longo é esse tempo, no final de 1991 o senador Fernando Henrique Cardoso achava difícil se reeleger (foi o que disse a este colunista e ao hoje editor de livros Luiz Fernando Emediato, numa conversa em San Francisco, EUA). Achava difícil até ser eleito deputado federal e pensava em voltar para a vida acadêmica. Pouco mais de dois anos depois, elegia-se presidente da República no primeiro turno, derrotando Lula.

...e como dói

A pesquisa, hoje, mostra que 5% dos eleitores apoiam Temer – ou seja, consideram seu Governo “ótimo” ou “bom”. Mas, como nota o excelente colunista gaúcho Fernando Albrecht (http://fernandoalbrecht.blog.br/), há algo como 20% dos pesquisados que consideram seu Governo “regular”. Ou seja, não o acham lá essas coisas, mas o aceitam com tranquilidade. Somando tudo, dá um quarto do eleitorado. Impopular, sim; mas não se pode dizer que Michel Temer não tenha um bom contingente a seu lado.

A reforma como ela é

Chega de achismos, chega de análises de quem não leu a lei da reforma trabalhista mas opina, contra ou a favor, com base no apoio ou oposição ao Governo. O advogado trabalhista Sérgio Schwartsman, bom profissional, leu a lei e mostra os pontos em que mudou, favorecendo assalariados ou empregadores. Schwartsman foi escolhido pela Globonews para explicar a lei. E põe cláusula por cláusula, por escrito, em http://wp.me/p6GVg3-3I9.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

Fica combinado assim

Postado em: - Atualizado em:

Aldemir Bendine, na Polícia Federal, disse que entrou no Banco do Brasil como office-boy. Saiu de lá como presidente, para assumir a Presidência da Petrobras. Está preso como suspeito de corrupção no Banco do Brasil e na Petrobras. Bendine disse também que é um homem honrado.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, recebeu R$ 217 milhões da JBS, segundo disse, como pagamento por trabalho realizado quatro anos antes. Talvez, claro, tenha esquecido de fazer a cobrança; e, é claro, a JBS é que deve tê-lo lembrado do caso, pois fazia questão de não ficar devendo.

Michel Temer divulgou nota, segunda-feira, chamando seu delator de “o bandido Joesley Batista”, chefe de quadrilha e “meliante da Friboi”. E pensar que Temer, talvez por não ter informações sobre ele, o considerava tão boa gente que o recebia em casa, sozinho, para prosear, trocar ideias!

Já Joesley publicou artigo se queixando de que, de uma hora para outra, deixou de ser tratado como “maior produtor de proteína animal do mundo” e passou a “bandido confesso”, entre outras “expressões desrespeitosas”. E só porque confessou ter comprado políticos e autoridades para favorecê-lo.

Nesta terça, saiu a medida provisória que perdoa a dívida dos produtores rurais com a Previdência. Mas, claro, isso não tem nada a ver com os votos da bancada ruralista, hoje, no processo contra Temer. Pura coincidência.

Orson Welles filmou, no Brasil, É tudo verdade. Não concluiu o filme.

Então, tá

As pesquisas de terça-feira revelaram que ainda havia muitos indecisos: votar contra Temer ou não? Por exemplo, no DEM, partido aliado a Temer, 21 deputados de uma bancada de 29 se declaravam indecisos. Eles não iriam mentir, não é? Não conseguiam chegar a uma conclusão, na véspera da votação, depois de três meses de debates sobre o tema. É que, até a hora de votar, ainda podiam ser convencidos a apoiar um presidente com a caneta cheia de tinta, pronta para assinar medidas favoráveis á população.

Olhando o futuro

Embora no Brasil o passado seja imprevisível, o futuro pode ser visto com alguma facilidade. Por exemplo, nesta noite de quarta não haverá uma derrota de Temer. Quem quiser autorizar a abertura de inquérito pelo STF a respeito do presidente precisará reunir 342 votos. Menos do que isso, pode ser até 341 a zero, o pedido será rejeitado. O que pode acontecer: conforme garantiu o presidente da Câmara, a sessão só será aberta se 342 deputados estiverem presentes. Se não houver esse número, a questão será decidida em outra data. Temer terá empatado. Aberta a sessão, Temer terá ganho o jogo. Pode ser um número pequeno, mas a autorização estará negada. E uma grande vantagem, além de negar o pedido, será uma demonstração de força política de Temer: se, só com 5% dos eleitores a seu lado, ele tem essa maioria, imagine se fizer as reformas e reduzir mesmo as despesas.

Do avesso

Há algumas verdades em que é difícil acreditar. E algumas verdades consolidadas, em que todos acreditam, nem sempre são tão verdadeiras. Por exemplo, aquela clássica, de que a educação resolve todos os problemas.

O ótimo site jurídico Espaço Vital (www.espacovital.com.br) levantou uma pérola: a de que há algo em comum entre Emílio Odebrecht, Marcelo Odebrecht, César Mata Pires (OAS), Antônio Carlos Mata Pires (OAS), Ricardo Pessoa (UTC), o marqueteiro João Santana, Geddel Vieira Lima. Todos– alguns em épocas variadas, outros simultaneamente - foram alunos de uma das escolas mais conceituadas de Salvador, o Colégio Marista. Os Irmãos Maristas (ordem católica fundada por São Marcelino Champagnat) são reconhecidos em todo o Brasil como criadores de grandes escolas.

Lugar certo

Bolsonaro escolhe o PEN, Partido Ecológico Nacional, para disputar a Presidência da República em 2018. Não estranhem a escolha: Bolsonaro há muito tempo é ecológico. Adora o verde. O verde-oliva das fardas.

Banditismo escancarado

Um site de nome inocente publica na Internet notas favoráveis ao PCC, Primeiro Comando da Capital, uma das maiores facções do crime organizado do país. Publica também documentos do PCC, louva suas ações, destaca a disciplina que impõe, faz pouco do combate oficial ao crime organizado – e está agora sob investigação do Ministério Público, informa o repórter Cláudio Tognolli (http://wp.me/p6GVg3-3Hn), em bela reportagem, documentadíssima. E preocupante: aonde vamos parar? 

O literato

Lula, em entrevista à Rádio Tiradentes, de Manaus, Amazonas, disse:

“A palavra propina foi inventada por empresários e pelo Ministério Público para tentar culpar os políticos”.

Muitos dos quais gostaram da palavra e não querem viver sem ela.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

​Os mudos falantes

Postado em: - Atualizado em:

Um dos sintomas universais de crise é a epidemia de discursos de quem tem por obrigação manter-se calado. Juiz, ensina a tradição de nosso Direito, deve falar apenas nos autos. Aqui todos seguem este princípio: falam nos autos sempre que os repórteres enfiam os microfones pela janela, e só param de falar quando o motorista enfim pisa no acelerador. Generais devem falar nas ordens do dia, e até isso muitas vezes é perigoso; aqui, estão dando entrevista. E, como o general Sérgio Etchegoyen, de primoroso currículo, respeitado dentro e fora do Exército, falam da participação militar na segurança pública. Com um detalhe: ele sentado e o ministro da Defesa atrás, de pé, na condição de papagaio de pirata.

Vazamentos de informação de documentos usados como prova na Justiça têm fontes conhecidas: promotores interessados em punir futuros réus destruindo sua imagem pública, antes mesmo que sejam levados a julgamento. A técnica (a propósito, fora do bom procedimento legal) foi usada na Itália, na Operação Mãos Limpas. E é usada há muito tempo no Brasil, alegando-se informalmente que se não for assim os acusados, “que têm dinheiro para contratar bons advogados”, escaparão ilesos após cometer ilegalidades. Elogia-se quem contrata um bom médico, um bom arquiteto, mas quem contrata um bom advogado – hummmm, aí tem!

 Mudos estão falando. E quando os mudos falam a democracia se cala.

Primeiro os meus...

Cá entre nós, essa história do Ministério Público pedir aumento de 16% não pode passar despercebida. Tem de pegar mal. Para padrões brasileiros, um promotor ganha bem: algo como R$ 30 mil. Mas não fica por aí: com o vale-alimentação, o auxílio-moradia, o auxílio-livro, as duas férias por ano, as diárias, há promotores em São Paulo que ganham R$ 130 mil mensais (a cifra, espantosa mas de fonte oficial, foi levantada pela Agência Pública (http://apublica.org/2016/12/direito-ou-privilegio/) com base na Lei de Acesso à Informação). Boa parte dos promotores paulistas ganha mais que o teto salarial previsto na Constituição, o salário de ministros do STF. São Paulo gasta com o Ministério Público a soma das verbas destinadas a Habitação e Agricultura. E, considerando-se a ótima (e normalmente merecida) imagem pública dos promotores, que exemplo dão à população neste momento de crise, exigindo mais salários de um Tesouro exaurido?

...e os meus também

Mas não se critique um único grupo. O Senado decidiu alugar 85 carros para Suas Excelências, gastando R$ 8,3 milhões em 30 meses. São 83 Nissan Sentra para 80 senadores, e dois Hyundai Azera para o presidente da Casa – embora não haja nos anais menção a um presidente com duas bundas. O Azera este colunista não dirigiu; o Sentra é ótimo, macio, uma tentação. Mas sempre resta uma pergunta: por que temos de pagar carro aos parlamentares? Carro, casa, passagens – não é meio muito? E o motorista, também pago por nós, mas na conta do gabinete de cada parlamentar?

Busquemos um bom exemplo: nos Estados Unidos, há três carros oficiais de representação, um para o presidente de cada poder. Digamos que um juiz do Alasca seja convidado para a Suprema Corte: ele deve viver com seu salário, sem carro oficial, sem apartamento funcional. Ponto final.

...e os nossos?

Tadinho do Governo Federal, que deve manter o enorme buraco do Orçamento do tamanho em que está, sem aumento? Calma: a verba de publicidade de 2017 foi de R$ 153 milhões, uns 30% mais que em 2016.

Um dia, talvez

Dentro de poucos dias, 2 de agosto, a Câmara decide se dá autorização para que o Supremo investigue a denúncia apresentada pelo procurador Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer. Temer deve ganhar de lavada: fez o que podia e o que não podia para garantir que entre 250 e 300 parlamentares o livrem da chateação. Miro Teixeira, político experiente, a favor da investigação, jogou a toalha: não há condições de ganhar a parada.

Talvez, quem sabe

Quanto à lenda de que quem votar por Temer perderá votos, continua sendo uma lenda. Temer tem só 5% de aprovação – o menor índice desde o tempo da TV a lenha. O deputado Bonifácio Andrada, velho conhecedor do jogo, diz que basta uma discreta melhora na economia para absolver quem apoiar um presidente tão mal avaliado. A leve melhora até que está acontecendo: a taxa básica de juros caiu um ponto e deve diminuir de ponto em ponto a cada reunião do Conselho de Política Monetária, a inflação continua abaixo da previsão, há uma levíssima redução no desemprego. Mas os juros do cartão de crédito continuam perto de 500% ao ano. Bonifácio Andrada diz que o eleitor é fraco de memória e, diante de uma pequena melhora, esquece o que está errado. Mas cadê a pequena melhor?

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

​Vote em – em quem mesmo?

Postado em: - Atualizado em:

Lula candidato? Difícil: pode cair na Lei da Ficha Limpa, caso seja condenado em segunda instância. Mas também pode cair por outro motivo: foi condenado em primeira instância e é réu em outras ações. Da mesma maneira que Renan Calheiros foi mantido na Presidência do Senado, mas proibido de assumir a Presidência da República (é o segundo da fila) por ser réu, Lula não poderia ser candidato. Marco Aurélio, ministro do STF, diz que não é bem assim: o presidente não pode ser processado por fatos ocorridos fora de seu mandato. Mas a disputa judicial será longa. E envolve também Jair Bolsonaro, réu no Supremo. A lei é a mesma para ambos.

Lula, segundo pesquisa do Ipsos, tem 29% de intenções de voto. Um bom número – mas é o quarto entre os nomes pesquisados. Antes dele vêm Sérgio Moro (64%), Luciano Huck (45%),Joaquim Barbosa (44%). E a presidente do STF, Carmen Lúcia, está em seus calcanhares (28%). Só que nenhum destes nomes mais populares admite ser candidato.

Michel Temer? Política é como nuvem, muda de forma. Mas é difícil reverter sua rejeição recorde de 94%; e 95% dos pesquisados acham que o Brasil está no rumo errado. O PMDB é o maior partido do país, mas não tem candidato viável. O PSDB pode desistir de Aécio (rejeição de 90%), Serra (de 75%) e Alckmin (67%). Bolsonaro, fora eventuais problemas judiciais, tem rejeição de 53%. É hora de renovação: quem se apresenta?

O candidato

Lula se apresenta e no PT não tem contestação. Se não puder sair, seu candidato à Presidência  é Fernando Haddad, mal avaliado como prefeito de São Paulo e derrotado no primeiro turno ao tentar a reeleição.

Frase notável 1

De Lula: "Sou o maior interessado na verdade". Um estadista que sabia das coisas, Churchill, líder inglês na guerra ao nazismo, disse que a verdade é tão preciosa que deve ser protegida por uma muralha de mentiras.

Frase notável 2

Lula disse – disse mesmo, está gravado – que “a palavra propina foi inventada pelos empresários para tentar culpar os políticos – ou pelo Ministério Público (...) agora transformaram as doações em propina, então ficou tudo criminoso”. Parece incrível, mas Lula não deixa de ter razão.

Quando era sindicalista e denunciava essas coisas que na época só os outros faziam, não lhes dava o nome de propinas. Eram maracutaias. 

A posição dos procuradores

Os jovens, bem preparados e corajosos procuradores estão preocupados: na reunião do Conselho Nacional do Ministério Público, no início desta semana, dedicaram boa parte do tempo à discussão de maneiras de evitar as restrições orçamentárias e conceder-se um sólido aumento de 16,7% (que naturalmente não se chamará “aumento”, mas “reajuste”). A reivindicação está para ser votada no Congresso. O problema é que, com o aumento – quer dizer, reajuste – os procuradores podem ganhar mais que os ministros do Supremo, que por lei têm os vencimentos mais altos dos servidores públicos. Outro problema: o aumento (desculpe, reajuste) não está previsto na proposta de orçamento para 2018. E vem mais: a subprocuradora-geral Maria Hilda diz que o aumento (a palavra escapou: é REAJUSTE) já está defasado, porque cobre perdas de 2014 a 2015. Falta reajustar dois anos.

Um empresário...

O empresário Domingo Alzugaray, 84 anos, proprietário da Editora Três e da revista IstoÉ, morreu nesta segunda-feira. Seu corpo foi cremado na terça. Alzugaray, modelo fotográfico na Argentina, mudou-se para o Brasil na década de 1950, a convite da Editora Abril, para trabalhar nas então populares revistas de fotonovelas. Cresceu dentro da Editora, da qual se tornou diretor. Mais tarde, em companhia de um notável jornalista, Luís Carta, e do empresário Fabrizio Fasano, montou a Editora Três.

...que faz falta

Montar uma editora de revistas para concorrer com Abril e Rio Gráfica (hoje Globo) demonstra ousadia; sobreviver à disputa, a competência. Este colunista se tornou seu admirador incondicional por um episódio que nada tem a ver com ousadia e competência, mas com caráter. Durante o regime militar, na mesma operação que prendeu o jornalista Vladimir Herzog, que seria assassinado, policiais foram à Editora Três para prender um de seus funcionários, Fernando Morais – hoje escritor de sucesso. Domingo Alzugaray e Luís Carta informaram aos policiais que o jornalista ainda não tinha chegado, e os levaram à sala da diretoria, com cafezinho, água gelada, uma bela recepção. A horas tantas, um dos dois saiu para ir ao banheiro e foi à mesa de Fernando Morais: “Cai fora que a polícia está atrás de você”.

Morais saiu, escondeu-se e sobreviveu. Carta e Alzugaray se arriscaram para salvá-lo, quando salvar alguém era perigoso. Devemos isso a eles.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

​Voa, dinheiro! E o dinheiro voa

Postado em: - Atualizado em:

Um presidente da República, na opinião de seus aliados, não pode se submeter à humilhação de um voo com escalas. Foi isso que Lula alegou para não usar um excelente jato da Embraer, que até serviria de propaganda para a indústria brasileira, e preferiu o Airbus conhecido como AeroLula. E Temer alega o mesmo motivo para alugar um Boeing 767: pode fazer viagens 2.500 km mais longas sem o incômodo de pousar para reabastecer.

No Interior de São Paulo, onde nasceram este colunista e Michel Temer, dir-se-ia: “Que frescura!” Ou, no caso de Lula e de Temer, talvez não seja frescura. Afinal, quem paga não são eles, somos nós. Eles só desfrutam. 

Esquisitice: o AeroTemer é alugado de uma empresa, a Colt Transportes Aéreos, proibida de voar. Seu Certificado de Empresa de Transporte Aéreo foi suspenso há nove meses, pelo mesmo Governo que alugou o avião, entre outros motivos “por deficiência (...) de execução de tarefas de manutenção”. Outra empresa do grupo, a Colt Táxi Aéreo, teve a licença cassada pelo Governo por, segundo o jornalista Igor Gielow, da Folha de S.Paulo, que descobriu o caso, “problemas técnicos e trabalhistas”. Mas alguém no Governo tem bons motivos para confiar neles.

A Colt ganhou a licitação para alugar o Boeing até 2019 por US$ 19,77 milhões; o preço inclui manutenção e logística (o que a FAB poderia fazer com perícia) e seguro. No pagamento estão incluídos nossos impostos.

Pague, pague

O presidente dos Estados Unidos tem 377 pessoas trabalhando a seu lado. O presidente do Brasil tem 3.800, segundo levantamento do jornalista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br). A Justiça americana tem um carro de representação: o de uso do presidente da Suprema Corte. Os demais magistrados americanos não têm carro de representação. No Brasil, a partir da segunda instância, os magistrados (800, aproximadamente) têm carro de representação, com motorista, combustível, tudo por conta do Tesouro – ou, falando claro, por nossa conta. Os EUA, com população 50% maior que a do Brasil, têm 78 deputados federais a menos. E, com 50 Estados, têm cem senadores. O Brasil, com 27 Estados, tem 81 senadores.

Pague mais, pague mais

Os magistrados americanos têm salário parecido com o dos brasileiros. Mas não têm os penduricalhos, como auxílio-moradia, auxílio-escola e gratificações diversas. Por lei, nenhum servidor público brasileiro pode ganhar mais que um ministro do Supremo, uns R$ 34 mil mensais. Mas há desembargadores com subsídios mensais de R$ 200 mil. Em média, segundo levantamento de O Estado de S.Paulo, em 2016 o desembargador mineiro ganhava pouco mais de R$ 56 mil mensais; o paulista, cerca de R$ 52 mil. Parlamentares brasileiros ganham mais que os canadenses, ingleses, japoneses, alemães, noruegueses, israelenses, suecos, franceses. Ainda têm plano ilimitado de saúde, apartamentos funcionais, auxílios diversos. E têm algo de valor inestimável: pagadores de impostos que sustentam tudo isso.

Fingindo, fingindo

Agora vai: o presidente Michel Temer decidiu enviar 800 homens da Força Nacional de Segurança para melhorar a segurança pública no Rio. Com isso, o Rio terá um total de mil homens do Governo Federal na área.

O Rio tem 46 mil soldados na Polícia Militar. Mais mil não são um reforço considerável. O Rio, por lei, deveria ter 60.471 PMs; e não tem. No Brasil, há um policial para 473 habitantes, diz o IBGE; parâmetros internacionais recomendam um policial para 250 habitantes. E, de preferência, bem armados, bem protegidos, bem pagos. Não devem precisar aguardar o colega para usar o mesmo colete à prova de balas. Nem devem morar na favela, submetendo-se às ordens de traficantes ou morrendo.

Terror, terror

Quando o presidente Michel Temer anunciou o envio de mais 800 soldados ao Rio, a Linha Vermelha, que liga o centro da cidade à Zona Sul e à Baixada Fluminense, foi interditada pela 15ª vez neste ano (na média, mais de duas vezes por mês), porque havia tiroteios na região. Quando o trânsito para, há arrastões. Enquanto isso, assaltantes pesadamente armados tomaram tudo de pacientes na fila do Instituto Estadual de Diabetes. E que faziam eles na fila? Aguardavam – o laboratório não estava funcionando.

De novo, de novo

O juiz Sérgio Moro marcou o interrogatório de Lula (em outro processo, o do sítio de Atibaia) para 13 de setembro. Não, Lula não terá de explicar os R$ 9 milhões que tinha aplicado num plano de previdência privada (a menos que o interrogatório se desvie da rota normal). Será, provavelmente, replay do interrogatório sobre o apartamento triplex na praia do Guarujá.

Mais interessantes serão as preliminares: Marcelo Odebrecht, no dia 4, e Antônio Palocci, no dia 6. Palocci, especialmente, pode trazer surpresas.

COMENTE

carlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann