​Nada do que foi será

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Sem discussão: o PT levou uma surra histórica, o bolsonarismo apanhou que nem boi ladrão. Ponto final. Dizer que a esquerda foi demolida é falso: foi derrotada, mas teve quase metade da votação na maior cidade do país, e sem Lula. Marília Arraes teve quase metade da votação no Recife, e contra o filho de um líder político que marcou época, o falecido governador Eduardo Campos. Manuela d’Ávila chegou perto da metade dos votos em Porto Alegre. Boulos, Manuela d’Ávila, Marília Arraes mostraram fôlego eleitoral. Goste-se ou não de cada um deles, todos podem se apresentar sem medo em eleições futuras. Lula perdeu três eleições majoritárias seguidas e só então descobriu o caminho das pedras. Não se pode ignorar a esquerda.

Esquerda, a propósito, é aquele conjunto de partidos que nasceu à sombra do PT e até recentemente funcionava apenas como linha auxiliar. Achar que PSB e PDT são esquerda é praticar o auto-engano. Márcio França, PSB de São Paulo, está tão à esquerda quanto Alckmin. João Campos, do Recife, é esquerda-mamãe: até descobrir o que são direita e esquerda, vai depender só de Renata Campos, que, com a morte do marido, comanda a família. Ciro é PDT, diz que é de esquerda. E existe até mesmo gente que acredita.

Quem ganhou a eleição, no fundo, foram os profissionais do MDB, DEM, PSDB, PSD. Deles depende a interlocução do Governo com o Congresso. E terão a grande chance de, caso se unam, derrotar Bolsonaro em 2022.

Má pontaria

Há algum tempo, Bolsonaro cometeu um erro político grave: saiu do PSL e não entrou em partido nenhum. Eleição não é só prestígio: é planejamento, ação local, alianças. O presidente não tem nada disso e, corretamente, tinha decidido não participar das eleições municipais. Mas não aguentou: escolheu alguns nomes marcados para perder. Crivella no Rio, por exemplo, estava queimado. Russomanno, em São Paulo, tradicionalmente inicia a campanha na liderança e se desfaz no meio do caminho. Tentou ganhar de Kalil em Belo Horizonte, perdeu no primeiro turno. Apoiou a Delegada Patrícia, que estava em terceiro lugar no Recife. Ela caiu para quarto. Mas bolsonarismo é uma coisa e Bolsonaro é outra. Ele não hesitará em juntar-se ao Centrão e, com 20 a 30% do eleitorado que o segue, tentar a reeleição. Por que não?

As lições para 2022

Que é que o resultado das eleições de 2020 nos ensina para 2022? Nada. Falta muito tempo até 2022. Claro, a menos que o vice Mourão se candidate, Levy Fidélix disputará (e perderá) sua 16ª eleição. Tirando isso, é esperar. Em 1992, num simpósio sobre o Brasil nas universidades de Stanford e Berkeley, EUA, o senador Fernando Henrique disse a este colunista e ao jornalista Luiz Fernando Emediato que temia não ter votos suficientes nem para se eleger deputado federal. Dois anos depois, venceria a eleição presidencial no primeiro turno. Em 1974, uma vitória espetacularmente inesperada do MDB, depois de uma série de derrotas, levaria à Câmara até um pintor de paredes, e revelaria Quércia. Dois anos são muito tempo.

O começo do trabalho

Mas, mesmo longe, já há candidatos trabalhando. O governador paulista João Dória reuniu um grande grupo de dirigentes e parlamentares tucanos há dois dias, para discutir a Presidência da Câmara (caso Rodrigo Maia não se candidate à reeleição) e as alianças para 2022. O sonho de Dória é aliar seu PSDB ao MDB e ao DEM. Mas o caminho é longo: Dória gostaria de ser o candidato e boa parte do DEM prefere Luciano Huck (também elogiado pelo patriarca tucano Fernando Henrique). Se conseguirem atrair para a aliança o PDT de Ciro e o PSB da família Campos, será possível estruturar-se para enfrentar ao mesmo tempo o PT (e assemelhados) e o bolsonarismo. Só que Bolsonaro também quer formar essa aliança, varrendo dela João Dória.

Foi uma brasa, Moro

Quem se colocou fora da sucessão presidencial foi Sérgio Moro: aceitou ser diretor de uma grande firma multinacional de advocacia, que trabalha, entre outros clientes, com OAS, Odebrecht, Queiroz Galvão – algumas das empresas atingidas por investigações e julgamentos da Operação Lava Jato. Tem sua lógica: ninguém conhece melhor os problemas jurídicos das firmas que ele mesmo condenou do que Moro. Duro é explicar a mudança ao eleitor.

Capitão da mata abaixo

Lembra da propaganda que dizia que o Brasil é o país que mais preserva árvores? Bom, o desmatamento no Governo Bolsonaro bateu novo recorde: subiu 9,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, segundo o INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, órgão do Governo Federal. Desmataram 11.088 km², maior área em 12 anos de medições. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, fez um elogio ao trabalho do Instituto e garantiu que os números foram “menos ruins do que se esperava”: graças ao trabalho federal, disse ele, evitou-se que o desmatamento fosse quase o dobro disso.

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​A força das palavras

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Pode chamar de “vaChina”, de “vacina chinesa do Dória”, mas o presidente Bolsonaro talvez não tenha saída: a vacina elaborada pelo Imperial College de Oxford, em cooperação com o laboratório AstraZeneca, sofreu um pequeno acidente de percurso. É provável que tenha havido alguma confusão no cálculo das doses. Nada que prejudique a vacina, criada por equipes conceituadas, competentes, e que tem tudo para funcionar com eficiência; mas talvez gere um atraso. É bem possível que a Coronavac seja a primeira a sair, obrigando Bolsonaro a comprá-la. Ele acabará comprando, mas vai odiar.

Das vacinas que estão quase prontas, duas – a Coronavac e a de Oxford – são tradicionais, clássicas: usam vírus inativado ou de baixa atividade. São mantidas em geladeiras. Duas outras, da Pfizer e da Moderna, são revolucionárias, com base em informações dadas ao RNA, o ácido riboxinucleico humano, que a partir daí prepara as defesas do corpo. Ambas exigem temperaturas bem mais baixas, o que complica a distribuição. As vacinas clássicas dão menos trabalho, mas de qualquer maneira será preciso comprar todas, ou não haverá material suficiente para imunizar a população inteira. Mas a primeira a chegar deve ser a vaChina. Justo aquela que o presidente Bolsonaro criticou e disse que não compraria.

O vento não leva

Lembra daquelas frases, “palavras o vento leva”, e “as palavras voam, o escrito permanece”? Isso foi verdade por alguns milhares de anos – até que a fala passou a ser facilmente gravada. Bolsonaro várias vezes fez pouco da Covid, “gripezinha” que “atinge bundões e otários”. Agora, com mais de 170 mil mortos no Brasil, ele tenta voltar atrás, e diz que nunca falou em “gripezinha”. Falou, sim, está gravado. Seguiu direitinho a linha ditada por seu ídolo Trump, que dizia coisas parecidas. A última que disse é que quem não se expõe ao contágio é maricas. E por que quer voltar atrás? Bolsonaro só se preocupa com os problemas dos filhos e a reeleição. E viu Trump, mesmo com a estupenda votação obtida nos EUA, com a qual seria vitorioso contra qualquer presidente anterior, foi derrotado por Joe Biden, com votação ainda maior. Ao contrário de Bolsonaro, Trump teve bons resultados no Governo: enorme redução no desemprego, alta do PIB, inflação baixíssima, paz entre Israel e os Estados árabes do Golfo, nenhuma guerra. Mas se perdeu ao negar a Covid e a querer receitar cloroquina. Geriu mal a pandemia, quis brigar com os fatos. Bolsonaro deve estar atento à lição dos EUA. Só falta obter os resultados que Trump obteve.

O silêncio é de ouro

A China, maior parceiro comercial do Brasil, é forte candidata na concorrência do 5 G brasileiro. Os EUA, segundo dos parceiros, querem a China fora da concorrência: apoiam os finlandeses da Nokia e os suecos da Ericsson. Oferecem US$ 1 bilhão de financiamento ao Brasil.

Nos bons tempos do Itamaraty, o Brasil estaria manobrando entre chineses e americanos, para conseguir o melhor negócio. Mas cada Governo brasileiro, de uns anos para cá, cismou em ter sapo de fora na política externa: nos tempos petistas, era Marco Aurélio Garcia; no tempo bolsonarista, é Eduardo Bolsonaro – que o vice Mourão, por algum motivo, apelidou de “Bananinha”. Bananinha já criou alguns incidentes com a China e agora a acusa de espionagem. Para ele, o freguês nunca tem razão. A China ameaça retaliar. E o país perde.

Vamos lá, ministro!

O general Pazuello, que assumiu o Ministério para colocar a cloroquina no protocolo de tratamento da Covid, disse que, se sair da Saúde, “sairá feliz”. Ministro, com certeza não será o único feliz.

O motivo de agora

Não faz muito tempo, Pazuello, em reunião com governadores, assumiu o compromisso de trazer 46 milhões de vacinas da China para que o SUS as aplicasse. Diante do twitter de um seguidor, que reclamou da horrenda possibilidade de tomar vacina vendida pela ditadura chinesa, o presidente voltou atrás, humilhou Pazuello, fez com que ele desse o dito por não dito. Agora, o problema são os pouco mais de sete milhões de testes no final da validade amontoados num galpão em Guarulhos. E há a questão das verbas de combate à Covid: foram aprovadas, estão à disposição, e não há nem plano para gastá-las. A culpa, claro, é do elo mais fraco. Vai sobrar para o general.

Chave de ouro

Acha as notícias ruins? Vai mais uma: o reajuste de aluguéis no mês que vem será de 24,5%. Feliz Natal!

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​Até a solução atrapalha

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Notícias excelentes, enfim, sobre a guerra contra o coronavírus: a Pfizer, a Moderna e a AstraZeneca informam que suas vacinas têm capacidade de imunizar até mais de 90% dos vacinados; o Sinovac, laboratório chinês que desenvolveu a Coronavac com o Instituto Butantan, divulga a capacidade de imunização de sua vacina nos próximos dias. A Rússia, que informa já ter desenvolvido sua vacina, promete publicar os resultados e surpreender o mundo, com mais de 95% de eficiência e metade do preço. E o Brasil?

Bem, deitado em berço esplêndido. Tirando a Coronavac, que já começa a desembarcar em São Paulo, à espera de aprovação, não se sabe bem o que fazer com as vacinas que o Brasil negocia. São pelo menos 400 milhões de vacinas, das quais 76 milhões já acertadas. As do Sinovac e da AstraZeneca, tradicionais, devem ser mantidas em geladeira. As da Pfizer e da Moderna, de outro tipo (em vez de vírus atenuado ou desativado, usam mRNA, que envia mensagens de RNA, ácido ribonucleico, aos sistemas de imunidade dos vacinados), exigem temperaturas bem mais baixas. Em dezembro, deve haver boa quantidade de vacinas no Brasil. Onde ficarão? Há geladeiras nos pontos de armazenamento? Qual a política de vacinação: primeiro os grupos de risco, mais ameaçados, ou pessoas mais jovens, para facilitar a retomada da economia? Geograficamente, como deve ser feita a distribuição?

Vacina tem de ser aplicada. Sem infraestrutura, nem vacina resolve.

Hora de acelerar

Está na hora de correr para resolver esses problemas. A Pfizer já pediu à FDA (Administração de Medicamentos e Alimentos) americana autorização para uso imediato da vacina, considerando-se a situação de emergência em saúde. O pedido à Anvisa brasileira virá em seguida. A Sinovac e o Butantan farão o mesmo pedido à Anvisa (fora os pedidos internacionais). A vacina inglesa da AstraZeneca, em cooperação com o Imperial College, seguirá o mesmo caminho. O Brasil comprou 30 milhões de vacinas AstraZeneca e o Governo paulista fechou com 46 milhões da Sinovac. Em dezembro, meio milhão de vacinas deverá estar no Brasil. Temos pressa não só para combater a pandemia, mas também para guardar e distribuir as vacinas como se deve.

Os testes, abandonados

Quando o general Pazzuelo foi nomeado ministro da Saúde, informou-se que era especialista em Logística – o que é essencial no combate à pandemia. Mas há hoje no Brasil mais testes de Covid, armazenados e com a validade no final, do que os que foram aplicados até agora. São 6,8 milhões de testes comprados pelo Ministério da Saúde e armazenados em Guarulhos, com a validade entre dezembro e janeiro. Não é por falta de aviso: em junho, cinco meses atrás, O Antagonista disse que havia 5,6 milhões de testes esquecidos em Guarulhos. Ficaram por lá. Mesmo que sejam retirados, como aplicá-los? Cadê a Logística em que o general da Saúde é tão especialista?

Comparando os números

Há 7,1 milhões de testes em Guarulhos. São do tipo RT-PCR, do bom, que identifica se a pessoa tem Covid. Destes, 6,8 milhões são os que estão no fim da validade. Comparando: até hoje, o SUS aplicou cinco milhões de testes. Só com o material já comprado e abandonado, o SUS mais do que dobraria este número. Os testes que estão vencendo custaram R$ 290 milhões. Que diz o presidente Bolsonaro? Que foi tudo “enviado para Estados e Municípios, e se alguém não o usou deve apresentar seus motivos”. Imaginemos que Bolsonaro tenha razão. Mas, sabendo desde junho que o material estava largado, não teve a ideia de tomar alguma providência?

Black Friday

O Supremo Tribunal Federal deve analisar a rachadinha nesta sexta. Que é crime, é; mas qual sua gravidade? O caso envolve a ação penal em que o deputado Silas Câmara, do Amazonas, é acusado de peculato. É um caso parecido com o do senador Flávio Bolsonaro, e esta análise influenciará o julgamento de seu caso. Mais um problema para incomodar o Planalto.

Tem jeito não

O deputado Arthur Lira, do PP e do Centrão, candidato à Presidência da Câmara, perdeu ontem uma batalha importante: o Supremo aceitou denúncia contra ele por recebimento de propina. Para padrões brasileiros, nem é tanto assim: pouco mais de R$ 100 mil. Seu adversário na disputa da Câmara não está definido: poderia ser Baleia Rossi, do MDB, mas o PT e assemelhados não o aceitam, por achar que foi um dos líderes do impeachment de Dilma. Boa parte da Câmara está convencida de que Rodrigo Maia, se achar uma brecha, será candidato, embora violando a Constituição, que proíbe nova reeleição. Beleza: um viola a Constituição, outro responde por corrupção.

Ói elaí tra veiz

Cuidado: a inflação está tentando botar novamente a cabeça de fora. E o maior vilão é o preço dos alimentos – justo o que derruba candidatos.

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​Bolsonaro e o pau no chão

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No início do Governo, a fiscalização encontrou invasores derrubando árvores amazônicas. Usavam aquelas máquinas enormes, com correntes, que arrancam grandes árvores com raiz e tudo, para abrir uma clareira na mata, onde implantariam uma fazenda em terra pública e supostamente preservada. As árvores, ilegalmente abatidas, seriam ilegalmente vendidas. Os fiscais agiram conforme as normas: puseram fogo nas máquinas, única maneira de desativá-las, já que seria impraticável tirá-las de lá. O presidente Bolsonaro entrou em erupção: na hora, suspendeu a política federal de destruição de máquinas usadas para botar abaixo as árvores. Dado o sinal de vale tudo, em pouco tempo começaram os incêndios na Amazônia – havia até um grupo de WhatsApp coordenando as queimadas. Na comoção dos incêndios, que desviou as atenções, os desmatadores foram derrubando árvores. O Governo Bolsonaro não pode ver pau em pé; deixa que os grandes troncos beijem o chão, sejam vendidos e só então interfere, para botar a culpa nos países e empresas estrangeiras que compram ilegalmente a madeira ilegalmente abatida. Gringos espertos! São capazes de se entender com os espertos daqui!

Alguém acredita que um jacarandá de 25 metros de altura (um prédio de oito andares) e tronco de 80 cm de diâmetro sumiu sem que ninguém notasse sua viagem para o porto? Um ipê de 40 metros (12 andares de altura!) pode ter entrado escondido no navio ilegal, sem conivência de ninguém? A culpa é só dos gringos? E aqui trabalhamos para preservar a Floresta Amazônica?

Depondo as armas – as nossas

Bolsonaro está completando dois anos no poder e já botou o tacape no solo. Em março último, revogou a fiscalização da madeira no porto. Basta declarar que é madeira nativa. Autorização de exportação? Não precisa mais. O Centro das Indústrias do Pará agradeceu-lhe a liberação das exportações de madeira. Os gringos piratas também. Há ainda a pressão sobre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Se seus dados contrariam o desejo presidencial, vem a crise. Bolsonaro gosta de Astronauta, tem um de ministro, mas é para cuidar do uso de vermífugos contra coronavírus.

Fala ou não fala?

Na reunião dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), Bolsonaro disse que anunciaria quais os países que mais compram madeira ilegal brasileira. Prometeu mas não cumpriu: já mudou a promessa e seu alvo serão as empresas importadoras – cujos nomes, aliás, ele deixou para depois. Mas garante que fará com que a importação de madeira pirata se torne um mau negócio. Já existe uma técnica que atrapalha muito esse tipo de crime ambiental: chama-se “fiscalização”. Há outra: “civilização”.

Racismo...

Como a confusão começou, não se sabe exatamente. João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, negro, saiu do Supermercado Carrefour, em Porto Alegre, e deixou a esposa no caixa, pagando as compras. Quando ela saiu, seu marido estava sendo espancado por dois seguranças do supermercado. Ela e outros clientes tentaram interferir, foram contidos por oito outros seguranças, que protegiam os agressores. João Alberto foi assassinado por asfixia, por pressão nas costas, na noite do dia 19 – véspera do Dia da Consciência Negra.

Os dois matadores estão presos.

...violência...

Não, não foi acidente: João Alberto foi espancado até a morte (uma das cenas do vídeo mostra 12 socos seguidos) depois de avisar os agressores de que estava com dificuldade para respirar. Não, não estava armado. A delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios, responsável pela investigação, disse que não racismo. Por que? Não disse. O vice-presidente da República, general Mourão, afirma também que o caso não foi de racismo.

...ou coisa pior

Mas, se não é racismo, se o motivo da violência da agressão não foi a cor da pele da vítima, a coisa é ainda pior: qualquer cliente dos Supermercados Carrefour (onde, não esqueçamos, já houve a perseguição de uma pequena cadela mansa por seguranças do estabelecimento, que a mataram a pauladas) pode ser vítima de funcionários que cultuam a agressão e não se importam com a vida dos outros. Um sueco albino pode ser seu alvo, ou um negro, ou um cavalheiro alto e gordo, com estranhos cabelos alaranjados. Se não é racismo, a imbecil ojeriza por alguma etnia ou cor de pele, é pura maldade. E como uma empresa multinacional deste porte contrata este tipo de gente?

De sete reais por R$ 7,00

O Procon paulista está conversando com as empresas que provocaram o maior número de reclamações na Black Friday do ano passado. Mas sugere que os clientes anotem os preços agora para evitar o golpe dos falsos preços baixos. É sempre bom se prevenir. Ou o produto de sete reais, além de baixar para R$ 7,00, acabará sendo oferecido em dez prestações de R$ 7,00.

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​Orgulhosamente sós

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Enquanto o Reino Unido, o Império Onde o Sol Nunca se Punha, libertava as colônias, enquanto a França deixava a Argélia, enquanto a Bélgica desistia da selvagem colonização do Congo, enquanto a Europa enriquecia, Portugal, dirigido por Salazar, uma espécie de Bolsonaro que deu certo, lutava em Angola e Moçambique para manter as colônias. Morria gente aos milhares (mas todos um dia morreremos, tá OK?), nenhum dos tradicionais aliados de Portugal lhe dava apoio, e Salazar proclamava: “Orgulhosamente sós”.

Quando os portugueses conquistaram a democracia, as colônias se tornaram países independentes e parou de morrer gente em guerras colonialistas, Portugal retomou suas alianças e enriqueceu. “Sós” – para que?

O Brasil, hoje, está orgulhosamente só. Biden, futuro presidente dos EUA, quer o Acordo do Clima, a preservação da Amazônia. Trump, que luta para ficar, não quer isso. Mas também não fez concessão alguma ao Brasil.

Os EUA são o nosso segundo maior parceiro comercial. A China, a primeira, acaba de se associar a 14 países asiáticos, entre eles Coréia e Japão, no maior acordo de livre comércio do mundo. Juntou-se um terço da população e da economia internacional, com redução de tarifas de 92% dos produtos que negociam. O Brasil não consegue implementar o acordo União Européia – Mercosul, em boa parte por rejeitar a proteção ao meio-ambiente. E por insultar não só os países europeus, mas até a esposa de um presidente.

Belicosamente sós

O Brasil não se limita a ficar “orgulhosamente só”. No Mercosul, é clara a hostilidade de Brasília ao Governo argentino, a segunda nação do bloco, a quarta parceira comercial do Brasil. Dos dez maiores parceiros brasileiros, além de China (que vem sendo seguidamente atacada por nosso Governo) e EUA, há Holanda, Espanha, Alemanha, todos defensores do Acordo de Paris contra a poluição. Há a Argentina, que é considerada “comunista”. Difícil.

A hora do Itamaraty

Mas o Pacto Asiático (nome oficial, RCEP, ou Regional Comprehensive Economic Partnership) é problemática: dos três mamutes em cena, RCEP, EUA e União Europeia, o Brasil está longe dos três. Seria uma boa oportunidade para a diplomacia brasileira procurar as vantagens possíveis nessa divisão. Mas o Itamaraty se aparelhou para servir de apoio à política externa americana – essa de Trump, anti-China, que está a pique de mudar.

Hostilizando chineses

A coluna A Voz do Povo, de Aziz Ahmed, transcreve relato do jornalista Bruno Thys: “O coronel da reserva Jorge Luis Kormann, indicado por Bolsonaro para a Anvisa, é dos bons. Nas redes sociais esculhambou a vacina Coronavac, a OMS, chama o Dória de ‘China boy’, curte os posts de Olavo de Carvalho e de Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação. Excelente currículo. Esse vai longe”. Não é um modo interessante de lidar com o maior parceiro comercial do país? Lembrando: o coronel conhece vacina pela marca no braço, e opina sobre uma vacina que ainda não foi lançada.

Um bom exemplo

Apenas para dar uma ideia do que são esses mamutes econômicos, olhe seu celular: os EUA desenham o Apple, em grande parte fabricado na China, e criam os softwares que China, Coreia e Japão utilizam; a Samsung faz os projetos de seus celulares na Coreia e usa a China e outros países da Ásia como plataforma de produção; a China produz celulares. A empresa mais avançada em 5G é a Huawei chinesa. Há a Ericsson, sueca, a Nokia, finlandesa (empresas de ótima reputação, mas bem menores) e a Qualcomm americana, conceituada mas que, no caso do 5G, está longe das líderes. Não vamos ficar sem celulares, mas tecnologia e produção estão nos blocos.

Fala, Bolsonaro

O presidente Bolsonaro, na reunião dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), prometeu divulgar “nos próximos dias” uma lista de países que importam ilegalmente madeiras amazônicas, oriundas do desmatamento fora das normas. Ótimo: chega de ver o comprador acusar o vendedor, como se não tivesse responsabilidade alguma. Mas este colunista tem uma dúvida: se alguém quiser exportar chicabon, terá de cumprir inúmeras formalidades. Como exportar madeira ilegal, muito mais visível, que ocupa mais espaço?

Explicando

Um empresário com negócios na Amazônia explica: há muito tempo, na década de 90, quis exportar madeira de acordo com a lei. “Era tão complicado conseguir a documentação que desisti. O custo da burocracia não compensava, para minha escala de produção.” Alguns anos depois, conta o empresário, soube de compra e venda de guias. Houve gente que enriqueceu.

Voto na urna

É cedo, demasiado cedo, para analisar o resultado das eleições. Tudo muito chato: ah, o partido tinha cem cidades, hoje tem 50... E se uma delas é uma metrópole?

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Metade manda, metade aguarda

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Donald Trump é hoje o vice-campeão de votos da História americana. Só foi superado (e por pouco) por Joe Biden. Teve mais votos que Obama, mais que Clinton. É extremamente provável que suas tentativas de impugnar as eleições sejam frustradas; mas o trumpismo continua forte. O trumpismo é maior que o Partido Republicano: Trump atingiu seu recorde de votos tendo a reprovação aberta de ícones republicanos como o general Colin Powell e o abandono por outros caciques, como o ex-presidente Bush, seu irmão, o ex-governador Jeb Bush, a viúva do senador John McCain.

A política americana é decidida por americanos, mas influencia o mundo todo. Seria um erro grave achar que o trumpismo desabou. Como é que um personagem estranho como Trump, com aquele topetão alaranjado, que conduziu desastradamente o combate à Covid, tem tanta popularidade? Como, tendo passado boa parte de seu tempo falando mal de imigrantes, foi ganhar na Florida, paraíso da imigração? Como, depois de combater o Black Lives Matters com dureza, ganhou em Estados onde o voto negro é decisivo?

Em parte, a resposta é a economia. Até a pandemia, Trump reduziu dramaticamente o desemprego e manteve a economia crescendo. Em parte, foi porta-voz de quem se irritava com restrições à extração de petróleo, com metas de poluição e proteção ao meio-ambiente. Seus seguidores se tornaram fundamentalistas, prontos a insultar adversários. E a rachar a nação.

Serrada ao meio

Quando o Jornal da Tarde estava no auge, o sonho do grande redator Renato Pompeu era fazer a manchete “O povo dança nas ruas”. Pois o povo dançou nas ruas, comemorando a derrota de Trump. Os ânimos não estavam acirrados de um lado só: os EUA racharam – e as duas metades têm tamanho equivalente. A tarefa de unir a nação é dificílima, e importantíssima. Trump não vai ajudar: vai manter sua linha agressiva, que lhe valeu uma avalanche de votos. Dirá por quatro anos que foi vítima de fraude. Se quiser, e a saúde ajudar, aos 78 anos será o candidato republicano em 2024. Com todos os fundamentalistas que puder juntar, dizendo a verdade que só eles veem.

E as pesquisas?

As agências americanas de pesquisas devem uma explicação: erraram feio prevendo que Biden teria até 10% a mais de votos populares que Trump. Que não lancem a culpa no voto envergonhado (o entrevistado diz que escolheu um candidato mais bem considerado e vota em outro). O fenômeno não tem nada de novo e deveria estar previsto. Como diria o Bóris, é uma vergonha.

Informação em risco

A Fox News interrompeu a transmissão de uma entrevista de porta-vozes de Trump alegando, na palavra do repórter Neil Cavuto, que Kayleigh McEnan acusava o Partido Democrático de “acolher fraudes e votos ilegais”, sem que tivesse como sustentar suas afirmações. Traduzindo: ele censurou a porta-voz de Trump por discordar do que ela dizia. Trump e seus porta-vozes mentiram muito, mas não podem ser impedidos de dizer o que pensam. Que o jornalista, a seguir, investigue as declarações e publique os desmentidos. Nenhum jornalista, por mais competente que seja, tem o direito de impedir o entrevistado de dizer o que quer. Pode contestá-lo ao vivo, deixando claro que nada daquilo é verdade, pode contestá-lo depois, com profundidade. Mas censurá-lo não é aceitável. E as tevês americanas estão insistindo na censura.

Genérico em guerra

O presidente Bolsonaro, uma espécie de Trump mal-acabado, não está contente em não ter oposição: quer porque quer criar uma oposição, mesmo que seja brigando com mais aliados. A última vítima é o general Mourão, seu vice. Mourão, faz tempo, traduz para linguagem civilizada algumas frases menos polidas do presidente. Agora, explicou por que Bolsonaro não cumprimentou Biden: disse que ele o fará na hora certa, quando não houver mais pendências legais. Bolsonaro ficou furioso: disse que esta é a opinião de Mourão, não dele, que não conversaram sobre isso, e que, aliás, não tem falado sobre qualquer assunto com seu vice. Só que Mourão não é o general Pazuelo, que aguentou desfeitas sem se queixar (talvez tenha tomado algum calmante à base de cloroquina). Mourão é mais linha dura e talvez seja mais direitista que Bolsonaro – só que mais educado. Quando reagir, haverá crise.

Oração aos mortos

Vergonhosa a atitude do Governo Federal: para atingir o governador João Dória, mandou paralisar as pesquisas da Coronavac, vacina contra a Covid a ser produzida pelo Instituto Butantan. Bolsonaro não se pejou de proclamar seu objetivo: disse “Bolsonaro ganhou mais uma”. Só pensa em se reeleger. Quem precisa da vacina que morra. O motivo da suspensão é mais vergonhoso: um dos voluntários que participam dos testes morreu – só que por suicídio, sem nada a ver com a vacina. Ainda nem se sabe se tomava vacina ou placebo. Bolsonaro usa a nossa vida como arma de reeleição.

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​Tudo azul, mais ou menos

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Que é que muda no relacionamento do Brasil com os Estados Unidos, que logo vão estar sob nova direção? Em princípio, nada; são países amigos, os dois maiores exportadores mundiais de alimentos, com interesses às vezes convergentes, às vezes divergentes. As convergências são muito maiores e permitem que as divergências sejam negociadas e superadas. Mas há sempre a observação, tão brasileira, de Caetano Veloso: ou não.

A onda azul (cor dos democratas) superou a vermelha (Bolsonaro que não nos ouça, mas é a cor do Partido Republicano e de Trump). O discurso volta ao globalismo, aos Acordos de Paris contra a poluição atmosférica, à busca de maior ligação com a Europa Unida. Mas a vantagem numérica de Biden, pequena, mostra que boa parte da população americana tende a seguir a linha antiglobalista de Trump. Uma rápida vista no mapa das apurações mostra uma linha de Estados azuis circulando grande número de Estados vermelhos.

Cautela, pois: Biden é mais afável, menos impetuoso que Trump, mas não vai revolucionar nada. Embora saiba que Bolsonaro só não foi aos EUA votar em Trump porque a lei não o permite, não dá bola para isso: é profissional. E se Bolsonaro fizer carreatas contra ele, como esta programada para hoje em Maceió, vai se divertir muito. Mas há um ponto em que deve jogar duro: o ambiental. Rainforest, floresta úmida, é um tema popular. Vai defender a preservação da Amazônia. O Itamaraty saberá lidar com isso – se deixarem.

Chega de intermediários

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5 G. Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Binden, não se sabe. Mas para o Brasil, que têm EUA e China como seus principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

A mão que afoga 1

Celso Russomanno tem retumbantes votações para o Legislativo mas falha ao tentar o Poder. Já foi o deputado federal mais votado do Brasil, já foi o segundo mais votado; entretanto, quando se candidatou a prefeito de Santo André, e depois duas vezes à Prefeitura de São Paulo, nem chegou ao segundo turno, embora tenha sempre iniciado a campanha como favorito. Perde substância no meio do caminho. Desta vez, quando começou a perder a vantagem inicial sobre Bruno Covas, que tenta a reeleição, resolveu buscar um apoio de fora: o do presidente Bolsonaro. Tão logo o recebeu, despencou nas pesquisas. E continua se dissolvendo: começou com 29, caiu para 20 em 22 de outubro, na pesquisa Datafolha, caiu agora para 16, em empate técnico com Guilherme Boulos, do PSOL (que tem conseguido agregar votos petistas), 14 pontos, e Márcio França, do PSB, 13%. Ciro Gomes entra agora na campanha de França. Um belo teste de popularidade.

A mão que afoga 2

Bolsonaro não tem partido. Tinha decidido não participar das eleições, ao menos no primeiro turno. Mas não resiste a uma boa casca de banana para escorregar: decidiu apoiar Russomanno (que despencou), Marcelo Crivella (que tenta a reeleição no Rio e tem dificuldades para chegar ao segundo turno – se houver, já que Eduardo Paes tem o dobro nas pesquisas) e em Roberto Engler, em Belo Horizonte – onde o prefeito Alexandre Kalil tem 59%. Para quem não queria entrar, abraçar três derrotados, e só eles, é uma façanha.

O problemão

Mas perder eleições em três capitais importantes não é o problema maior de Bolsonaro. Nem a iminente despedida de seu ídolo-mor, Donald Trump, o afeta tanto. O grande problema de Bolsonaro, agora é a acusação a Flávio, seu filho mais velho, feita pelo Ministério Público ao órgão especial do TJ do Rio: de acordo com o MP, Flavio Bolsonaro comandava uma organização criminosa. É acusado de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, peculato e formação de quadrilha, juntamente com Queiroz, a esposa de Queiroz e 14 outras pessoas. Em resumo, é a história das rachadinhas: Queiroz já admitiu que obrigava os funcionários do gabinete de Flávio a lhe entregar parte dos salários, que seria usada em benefício do próprio Flávio.

Família acima de tudo

Bolsonaro ficou profundamente irritado ao ter a notícia da entrega pelo MP da acusação a seu filho. Dizem os jornais que seus gritos foram ouvidos em outros andares do palácio. Natural: Bolsonaro é pai. E tem, certamente, grande amor pela família: depois que se elegeu, trabalhou para que seus três filhos mais velhos se elegessem, usando apenas seu sobrenome. E também abriu campo para que a mãe dos três filhos, de quem está separado há muitos anos, use seu sobrenome para tentar se eleger neste ano. Melhor que pensão.

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​Muito trovão, pouca chuva

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Nestas eleições, uma antiga definição de Republicanos e Democratas (de quem será? Não consegui localizá-la) deixa de ter valor: a de que os dois partidos são como garrafas iguais, com rótulos diferentes, ambas vazias. Trump é diferente dos democratas (e, embora hoje os lidere, também de boa parte dos republicanos). Trump governa por conflito, adora ter inimigos, não sonha com união nacional. Mas, ganhe Biden ou Trump, não haverá grandes mudanças mundiais. Há pesos e contrapesos no governo americano. Como um enorme porta-aviões atômico, o país é grande demais para manobrar bruscamente. Cada presidente influi na rota, mas só um pouquinho.

Trump fez muito barulho, confrontou a China, ameaçou a Coreia do Norte com armas atômicas, prometeu um muro entre EUA e México, a ser pago pelo México, negou a pandemia e pregou a cloroquina. Mas, quando se viu doente, não falou mais em cloroquina, e mandou milhões de comprimidos de presente para quem acreditava nela. Negou a pandemia, mas fechou as fronteiras dos EUA. Fez um pedaço do muro e convenceu o México a bloquear a passagem de centro-americanos. Ameaçou a Coreia do Norte mas foi o primeiro presidente americano a pisar lá. Movendo todo o aparato militar, está terminando seu mandato sem guerras. Biden sempre foi mais guerreiro do que ele. Enfim, o eleitor americano já decidiu e falta apenas saber quem é o eleito. Seja qual for, fiquemos frios: a vida continua.

E?

Trump foi um bom presidente? Na minha opinião (de longe, sem contato com a realidade americana), não. Mesmo medidas corretas como a de fechar fronteiras, da maneira como foram tomadas, apresentaram amplo grau de ineficiência. Estimular movimentos alucinados como os que acreditam numa conspiração internacional de banqueiros comunistas, com apoio do papa e de uma rede mundial de pedófilos satanistas, visando criar um governo único para todos os países, com apoio chinês e sob o comando direto do Camarada Belzebu, definitivamente não é coisa que se faça. Ameaça desafiar a lei se perder. Mas sua eventual reeleição não provocará nenhum cataclisma.

O Brasil?

Para o Brasil, a eleição de Joe Biden não deverá criar tantos problemas, apesar de Bolsonaro ter declarado apoio à reeleição de Trump (o que deve ter provocado uma sacudida nas Bolsas, de tanto rir), Biden é um político profissional, hábil, que costuma (em geral, com êxito) criar consensos. Sabe que um país não tem amigos nem inimigos, tem interesses. É interesse americano ter boas relações com seu maior concorrente na produção de alimentos. Haverá, sem dúvida, jogo para a torcida, sobre o meio-ambiente –Pantanal e Amazônia, aquecimento global, Acordo de Paris sobre redução de carbono na atmosfera. O Brasil pode lucrar com isso: venda de créditos de carbono, exportações de produtos sustentáveis, venda de etanol para substituir em parte o petróleo. E, especialmente, preservar a “rainforest” tem um custo: a não-exploração de jazidas minerais (inclusive uma grande, de bauxita, dos noruegueses). O Brasil pode faturar para não tocar nesses recursos. Biden falou em US$ 20 bilhões. Até onde pode chegar? E haverá um extraordinário ganho para o Brasil: com Biden, sem Trump, ninguém mais pensará no Bananinha como embaixador do Brasil em Washington.

A nossa política

O vice-presidente general Mourão fez seguidas declarações desmentindo o presidente Bolsonaro. Primeiro, disse que o Governo iria comprar a vacina Coronavac, desenvolvida pelos chineses da Sinovac e o Instituto Butantan, o que Bolsonaro tinha descartado. Depois, ao criticar a decisão de fazer despesas adiáveis, foi atacado por Bolsonaro, que o acusou de desconhecer a Constituição. Agora, embora tenha declarado que seu preferido nos EUA é Trump, disse que se Biden ganhar, Brasília e Washington continuarão a se entender do mesmo jeito. Anote: talvez esteja em gestação uma nova crise.

Boa notícia

Num ano ruim para o investimento estrangeiro, em que R$ 84,5 bilhões deixaram o Brasil, algo de bom: outubro foi positivo em movimentação de investimentos, com entrada líquida de R$ 3,1 bilhões. Operadores dizem que, com a desvalorização do real, os papéis brasileiros ficaram baratos. Mas ninguém garante que essa entrada de dinheiro tenha tendência a se repetir.

Explicando as novas notas

Terminado o temporal do senador do cofrinho, torna-se possível mostrar detalhes da nova nota de R$ 200,00, a do lobo-guará. A nota tem foco na sensibilidade: marcas táteis no canto inferior direito, tamanho que facilita a identificação por quem tenha problemas visuais. Segundo a especialista Mariana Chaimovich, era preciso criar a nova nota, por causa da pandemia: ficou mais fácil fazer com que o dinheiro chegasse a todos, em todo o país.

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​A arte de exibir o inútil

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Sempre é hora de admitir o erro: passei a vida acreditando que, de eleição em eleição, os eleitores aprenderiam a separar os enganadores e, aos poucos, iriam reduzir seu número. Não seria questão ideológica: ficaria óbvio que, não importa o que o candidato prometesse, isso teria de estar a seu alcance.

Bobagem: nesta eleição, temos candidatos a prefeito propondo medidas que não estão ao alcance das prefeituras, e só poderiam ser realizadas pelo Governo Federal, ouvido o Banco Central. Em compensação, aquilo que é da competência das prefeituras, como cuidar dos problemas da cidade, está sendo solenemente esquecido. Coisas básicas, como garantir as verbas de manutenção para as obras municipais – quem, em que cidade, ousou propor?

Mas, com dezenas de partidos e bilhões de reais em dinheiro público para financiar as campanhas, os candidatos a vereador transformam os colegas prefeituráveis em estadistas. Há candidatos que se orgulham de ser donos de prostíbulos, ou de ter sobrenomes, reais ou não, que evocam aquilo que têm dentro da cabeça, ou que, lembrando atividades que desempenharam ou desempenham, ameaçam o eleitor com um “vote em mim senão eu conto”.

Uma pena: aquela que deveria ser uma festa democrática virou proibidão e, se há algo que ensina, é a tratar como piada a escolha dos dirigentes das cidades. Claro que em seguida todos vão criticar as atitudes e as despesas dos vereadores e a incompetência do prefeito que elegeram. Como sair disso?

Os maus e os bons

Claro que, nessa mixórdia de dezenas de partidos, centenas de candidatos, verba pública à vontade nas mãos dos donos das legendas, há gente boa. Só que a gente boa, com competência, capaz de viver com o salário público sem buscar fontes ilegais de renda, é ocultada pela massa de pessoas que não têm a menor ideia do que faz um vereador, ou de quais prioridades urbanas que um prefeito tem de tratar. Essa massa de candidatos aumenta muito se fizermos a conta dos que sabem o que querem fazer – enfiar a mão no pudim. Eleger alguém exige de cada eleitor muita dedicação: ouvir amigos confiáveis, nem pensar em eleger alguém só porque “é celebridade”, dar uma pequena vista de olhos nas atividades de quem já exerce algum cargo e pretende voltar a ele. Dá trabalho, mas pode resultar numa cidade melhor.

Acredite se quiser

Houve casos em que fui pesquisar, saber se o que estava vendo como propaganda eleitoral não era apenas piada. Não, não era: vi gravações reais de candidatos que não sabiam o nome da cidade em que queriam eleger-se, e encontravam enormes dificuldades para dizer que, uma vez eleitos, iriam dar força à saúde, educação e segurança. O eleitor jamais o escolheria para qualquer emprego; mas alguns serão escolhidos para governar sua cidade.

Tudo tem saída

De qualquer forma, não perca a esperança: hoje é Dia de Todos os Santos, dia propício a milagres. O Dia das Bruxas foi ontem. É festa americana, mas como Trump comemora Bolsonaro também deve tê-lo comemorado. E soube escapar das travessuras, oferecendo gostosuras ao Centrão.

Atenção: é agora

Depois de amanhã, os Estados Unidos elegem seu presidente. A eleição americana pode ter mais repercussão no Brasil que a brasileira. Se Trump for derrotado por Joe Biden, a diplomacia brasileira vai ter de trabalhar, já que o presidente e seus filhos deram apoio total a Trump. Depois de brigar com a União Europeia e a China, perder o apoio americano deixa o país isolado.

Inacreditável 1

Celso Russomanno, candidato bolsonarista à Prefeitura de São Paulo, hoje em segundo lugar nas pesquisas (embora em queda), disse com todas as letras que o candidato favorito, Bruno Covas, pode morrer – é fato que vem há tempos se tratando de câncer. E, morrendo Covas, seu eleitor teria dado o voto não a ele, mas ao vice. Russomanno tem razão: todos -todos- podem morrer de uma hora para outra. A doença de Tancredo, bem na véspera de tomar posse, foi inesperada, como inesperada foi a morte de Faria Lima, ex-prefeito de São Paulo, no momento em que os militares se uniam a seu redor para levá-lo à Presidência, no lugar do marechal Costa e Silva.

Inacreditável 2

Piadinha do presidente Bolsonaro, ao provar o Guaraná Jesus, um popular refrigerante maranhense: como o Guaraná Jesus (pronuncia-se Jésus) é cor de rosa, disse que ia ficar boiola como os maranhenses. Os bolsonaristas já lembraram que Lula fez algo semelhante numa conversa com o prefeito de Pelotas, ao dizer que a cidade era um polo exportador de veados. Isso quer dizer que, para Bolsonaro, Lula é um exemplo? Bem, a neta do criador do Guaraná Jesus ficou furiosa. Contou que seu avô, lá pelos idos de 1920, era simpático ao comunismo. Errou o alvo: em 1920, o comunismo era coisa da União Soviética. Bolsonaro só ficaria com enjoo se fosse comunismo chinês.

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​Cavaleiros de Granada

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A reforma da Previdência definhou, as outras estão paradas, privatização é ainda um sonho, só o custeio da máquina do Estado consome praticamente todo o dinheiro que é possível arrecadar, estourar o teto dos gastos públicos é o sonho de toda a manada de chifrudos fura-tetos, o Governo está dividido, a Covid já matou 160 mil brasileiros e o que se discute no país? Se o SUS deve incluir na distribuição de vacinas a Coronavac. Quais os problemas que o presidente Bolsonaro vê na Coronavac? Na verdade, nenhum, já que ainda se testa a vacina e até agora não houve problemas. Mas a vacina tem, aos olhos de Bolsonaro, dois grandes defeitos: o laboratório é chinês e trabalha em cooperação com o Butantan, subordinado ao governador Dória. Trump mandou sabotar os chineses, Bolsonaro obedece; Bolsonaro manda sabotar Dória, seus subordinados obedecem. E daí? Daí, é perder tempo: mesmo se todas as vacinas em teste forem aprovadas, não serão suficientes. Iremos usar as chinesas, a inglesa, as americanas, ou não haverá o suficiente. Se a chinesa funcionar, será usada. Se não funcionar, não poderá ser usada. É simples.

Isso não lembra o famoso poema de Cervantes, citado no título? Riscando os cavalos! Tinindo as esporas! Través das coxilhas! Saí de meus pagos em louca arrancada! — Para quê? — Para nada!

Na verdade, este poema não é de Cervantes, é de Ascenso Ferreira. Mas se até a discussão está toda errada, por que o poema tinha de ser o certo?

Todos o kerem

O presidente prometeu um ministro “terrivelmente evangélico” no STF, depois prometeu alguém que tomasse Tubaína com ele. Acertou: Kassio Nunes talvez nunca tenha tomado Tubaína, mas vai tomar. E, se precisar, vai misturar com Diet Dolly e Licor de Ovos. Vejamos as características de Sua Excelência: liberou aquele famoso cardápio de lagostas e vinhos premiados, o que o torna credor de alguma simpatia no Supremo; não concorda com o cumprimento da pena após decisão em segunda instância, o que lhe traz a simpatia do PT, de boa parte dos parlamentares, daquele senador que gosta tanto de dinheiro que mantém com ele relações profundas; sua esposa já foi funcionária de senadores do PT; diz ter simpatias pelo chavismo. Talvez até possa cumprir a ordem de Bolsonaro, de comprar arroz na Venezuela. Só é criticado pelos lavajatistas e pela ala mais radical do bolsonarismo – mas os filhos do presidente iriam brigar com quem se opõe à prisão em segunda instância? Bolsonaro acertou em cheio: Kassio é um retrato do Brasil de hoje.

O rigor implacável da Lei

Tão logo acharam aquele rolo de cédulas no cofrinho do senador, o país se alvoroçou: o ministro Barroso decidiu afastá-lo do mandato, mesmo sabendo só o esconderijo do dinheiro, sem investigar sua origem; falou-se em reunir o Comitê de Ética do Senado. Na prática, o afastamento do mandato pelo STF ficou pra lá, a Comissão de Ética não se moveu, o senador pediu licença por 121 dias. Este colunista até achou que Sua Excelência iria mesmo precisar de algum tempo de recuperação para sentar-se de novo na cadeira, mas a licença era só para dar posse ao suplente, por coincidência seu filho. Graças ao paipai, tem bom salário, nomeações à vontade – coisa fina.

Família acima de tudo

Não é só o senador Chicofrinho Rodrigues que mistura cargo com família. O suplente de Alcolumbre, presidente do Senado, é o irmão José Samuel. O senador Ciro Nogueira tem a mãe, Eliane, na suplência. O senador Eduardo Braga, a esposa, Sandra. O Senado aprovou emenda constitucional que proíbe parentes na suplência. Mas sabe como é, né? O rigor implacável da lei não é para os amigos. A emenda está parada há uns sete anos na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Para que mexer no que agrada a todos?

Fato fake

O ministro Ricardo Salles e o general Luiz Ramos fizeram as pazes. Mas não é para levar a sério. Um cairá fora. O general tem apoio do Centrão, mas o ministro Salles é apoiado pelo olavismo e pelos filhos do presidente.

Problema 1 – Goiânia

O ex-governador Maguito Vilela, MDB, candidato a prefeito de Goiânia, com boas chances, tem quadro sério de coronavírus, com pulmões atingidos. Foi transferido para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Problema 2 – Jayme Lerner

Ex-prefeito de Curitiba, com administração internacionalmente elogiada, ex-governador cujo trabalho se transformou em lenda, Jayme Lerner está no hospital, recuperando-se de cirurgia de apendicite realizada no domingo, 25. A cirurgia foi bem sucedida, mas Lerner, 83 anos, só descansa quando está internado. Atualmente, dedica-se à campanha de seu amigo e assessor Gerson Guelmann, que colaborou em suas principais obras, e que pela primeira vez disputa uma eleição. A propósito, dá vontade de ser curitibano para votar em Guelmann, por ele mesmo e em homenagem a Jayme Lerner.

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