​A culpa da imprensa mentirosa

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Foi um fato normal, dentro da rotina: o vice-presidente da Guiné Equatorial desembarcou em Viracopos, na noite da última sexta-feira, trazendo quase l,5 milhão de dólares em dinheiro e uma coleção de vinte relógios de alto valor: só um deles, modelo exclusivo, todo cravejado de brilhantes, foi avaliado em US$ 3,5 milhões. Nada mais comum: um turista traz um dinheirinho para gastar, e seus objetos pessoais, como o relógio, não é mesmo? A imprensa burguesa e racista só fez barulho porque o referido cavalheiro e seu pai, o presidente da Guiné Equatorial, são amigos do ex-presidente Lula. E, se fossem brancos, de olhos azuis, ninguém estranharia a bagagem.

Talvez haja quem, entre os caros leitores, que ache que a quantia é grande demais. Mas Sua Vice-Excelência explicou direitinho: faria um tratamento médico, e os médicos mais abalizados, como sabemos, estão cobrando caro. E é preciso estar preparado também para enfrentar o preço dos exames médicos. Ele estava: além do US$ 1,5 milhão, trouxe seus cartões de crédito.

Veja como é nossa imprensa: se ele trouxesse pouco dinheiro e não pudesse enfrentar o custo do tratamento, os jornais diriam que ele veio abusar do SUS; como ele trouxe uma quantia que, a seu ver, seria suficiente, também reclamam. Resultado: Sua Vice-Excelência foi embora sem fazer tratamento.

Há até quem diga que ele veio repatriar dinheiro. Besteira: em campanha da turma de Lula, US$ 1,5 milhão e 20 relógios-joia não dão nem para o começo.

Quem é quem

O passageiro dessa viagem tão rotineira é Teodoro Obiang Mang, filho de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, no poder há 38 anos. Segundo a revista Forbes, sua fortuna é estimada em US$ 600 milhões. Mas, em 2015, quando pediu à Beija-Flor que a Guiné Equatorial fosse tema de seu desfile, não quis gastar nada: segundo a Lava Jato, exigiu que uma empreiteira interessada em obras no seu país fizesse o patrocínio, em troca de conseguir os contratos. Não teve dificuldades: acostumada aos pixulecos daqui, o patrocínio de uma escola de samba, de R$ 10 milhões, deve ter-lhe parecido uma pechincha.

Um risco, uma oportunidade

Dois candidatos correm o risco de aposentadoria forçada nessas eleições: Marina, que em vez de subir caiu; e Alckmin, que, mesmo em seu reduto de São Paulo, tem menos intenções de voto que Bolsonaro. Em eleições anteriores, Marina em determinados momentos teve uma onda de apoios, que sempre acabou antes da hora. Se essa onda se repetir, como a campanha é curta, até pode ser que se coloque bem. Alckmin tem quase metade do tempo de TV, mas está mal na fita – tão mal que em 15 Estados é traído por seus aliados. Mas ninguém é inimigo e a lei da política ainda está em vigor: caso ele consiga calibrar a mensagem e dobrar as intenções de voto, o apoio volta.

Quem sobe, sobe

A lei da política é bem exemplificada no Paraná: o ex-governador tucano Beto Richa ia bem na campanha ao Senado até ser preso pela Operação Rádio Patrulha. Primeira reação: a governadora Cida Borghetti, do PP, que foi sua vice e é candidata à reeleição, pediu ao bloco partidário que o apoia que retire sua candidatura, “para que ele possa se dedicar à defesa”. Claro que não é isso: não há melhor defesa do que se eleger e ganhar foro privilegiado. Cida fez também um forte discurso contra a corrupção. E tucanos importantes já apoiam o candidato do PSD, Ratinho Jr., filho do apresentador Ratinho. Beto foi libertado pelo Supremo. Se mostrar força eleitoral, recupera seus apoios.

Aposentadoria

Terminou nesta segunda uma dinastia política do Mato Grosso do Sul: o ex-governador André Puccinelli não conseguiu registro para disputar a Câmara. E por um motivo simples: estava preso. Era o grande líder do MDB local e não tem substituto. Sem foro privilegiado, tem é uma fila de processos.

Ressurreição

Quem está de volta no Estado, como candidato ao Senado, é Delcídio do Amaral, do PTC. Absolvido da acusação de tentar comprar o silêncio de Nestor Cerveró, Delcídio se beneficiou da desistência de César Nicoletti.

Mulheres contra Bolsonaro

Qual a consequência do hackeamento da página Mulheres contra Bolsonaro no Facebook? A página, no último fim de semana, foi capturada por hackers, que até mudaram seu nome. As participantes da página se irritaram; mas, de acordo com pesquisa da Toluna, 49% dos entrevistados não deram a menor importância ao fato. Para 42%, a opinião que tinham sobre Bolsonaro ficou abalada; para 8%, a imagem do candidato até melhorou. A pesquisa apurou também que 50% dos entrevistados conhece alguém que faz parte do grupo, e 52% tiveram conhecimento do ataque virtual. A Toluna fornece informações sobre o consumidor, facilitando o trabalho na economia atual, sob demanda. O estudo completo está no endereço  http://tolu.na/l/b8AZq69C

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​Baile de máscaras

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Fernando Haddad não é mais Fernando Haddad: é Luiz Fernando Lula Haddad. Quem quiser conhecer suas ideias sobre o Brasil, esqueça: ele diz que seu plano de governo, caso eleito, é chamado de Plano Lula. Mas será um dirigente afirmativo: dirá “sim, senhor” a tudo o que Lula mandar.

Bolsonaro é paz e amor. Ele dizia que, depois de quatro filhos, fraquejou e teve uma filha – mas agora sua campanha preparou um vídeo para reduzir a rejeição no eleitorado feminino (se houver referência a “empoderamento” feminino, entretanto, pode ser rejeitado por chatice). E, hoje, simplesmente adora gays: em outro vídeo, cumprimenta amistosamente um homossexual.

Geraldo Alckmin, que, depois de ganhar quase metade do tempo total da TV, já se via no segundo turno, aceita hoje ser o menos pior. A frase, dita por sua vice, a senadora Ana Amélia, é ótima: “Nem na faca, nem na bala. Vote Geraldo Alckmin”. Ana Amélia fez sua parte, Alckmin tem agora de fazer a dele: apanhar de Bolsonaro em seu reduto, São Paulo, é feio demais.

Marina, que qual cometa aparece de quatro em quatro anos dizendo ser a favor do bem e contra o mal, incorporou o mais feroz espírito da floresta; bateu forte no general Mourão, vice de Bolsonaro, que andou se excedendo ao sugerir que a atual Constituição seja trocada por outra, em que o eleitor só tenha o direito de votar num referendo. Marina é suave, Mourão é bravo – mas é difícil reagir contra Marina sem parecer prepotente e grosseiro.

O novo Ciro

A surpresa da campanha é Ciro Gomes. Ciro é bom de campanha, tem o que dizer, mas tem também o hábito de se exceder nos comentários e ficar no caminho. Agora está se controlando e pode até chegar ao segundo turno.

As pesquisas

Outra surpresa: as pesquisas não se comportam como era esperado. Alckmin, com TV e tudo, comporta-se como um bom chuchu, Caso se livre da árvore a que está preso, cai, em vez de subir. Nem a TV pôde ajudá-lo: tem o horário gratuito, Bolsonaro tem o tempo todo. Bolsonaro, vítima de atentado, subiu pouco. Está bem na frente, mas já estava antes da facada. E quatro candidatos disputam o segundo lugar, embolados: Marina, Alckmin, Ciro e Haddad. Mas é cedo para fazer previsões. Quantos eleitores de Lula irão para Haddad? Como os bolsonaristas vão reagir a sua ausência da campanha? Se Haddad subir e Bolsonaro cair, a quem irão os antiesquerdistas dar seu voto: Alckmin? Meirelles, tão sem sal quanto ele mas sem TV? Ciro, talvez – e quanto dos votos que o PT considera seus irão para Ciro e Marina? Serão suficientes para levá-los ao segundo turno?

Quero ser ele!

Como homenagem a Lula, Haddad lançou-se candidato na porta da cadeia e, bem treinado, ficou repetindo o nome do padrinho. Levantamento de O Globo mostra que Haddad, em seu primeiro contato com a população, citou o nome de Lula uma vez a cada período de 22 segundos. Fez três discursos, que juntos duraram pouco mais de 11 minutos, e neles citou Lula pelo nome por 31 vezes (houve outras em que o citou, mas sem o nome: só como “presidente” e “ele”). Os animadores de campanha o chamavam de “Fernando Lula Haddad” e “Luiz Fernando Lula Haddad”.

O Alckmin eletrônico

Geraldo Alckmin fez um divertido programa de TV. Nele, incluiu entre as obras paradas do Governo Federal, em Goiás, o aeroporto de Anápolis. Pois é, o aeroporto deveria estar concluído em 2014, continua em obras, o custo, que deveria ser de R$ 270 milhões, já está em R$ 330 milhões, só que o Governo Federal nada tem com isso: a obra é do Governo goiano, foi iniciada (e deixada por concluir) por Marconi Perillo – um dos coordenadores da campanha de Alckmin. E o vice que substituiu Perillo, José Elinton, PSDB, teve de usar a campanha (está, apesar, ou por causa, do apoio de Perillo, bem abaixo de Ronaldo Caiado) para desmenti-lo.

Ele é mas não é

Lembre: numa eleição anterior, Ciro Gomes foi massacrado por dizer que tinha estudado só em escolas públicas (havia entre suas escolas uma particular). Pois é: Haddad também entrou nessa. No site do PT, havia esta frase sobre ele: “Mesmo tendo estudado sempre em escola pública, Haddad se formou em Direito pela Universidade de São Paulo, depois se tornou mestre em Economia e doutor em Filosofia”. O jornalista Josias de Souza, do UOL, pesquisou a informação: Haddad fez educação infantil e ensino fundamental em renomada escola particular, o Ateneu Ricardo Nunes; em seguida, fez o Colégio Bandeirantes, um dos mais caros de São Paulo.

Quero ser ela!

O PT tirou do site a informação falsa, mas não informou que Haddad, antes do curso superior, só tinha estudado em escolas privadas de elite.

Tudo bem: Dilma não dizia que tinha um doutorado que não tinha?

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​Como será o amanhã

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Bolsonaro vai bem, obrigado, com ampla vantagem sobre os adversários. Seus eleitores parecem consolidados – mas, após a facada, ele subiu pouco, não o suficiente para projetar uma vitória no primeiro turno. O segundo turno é outra eleição – aí, até eventuais dúvidas sobre sua recuperação completa são prejudiciais. E há alguns fatores a considerar: sua alta rejeição, o lançamento, enfim, do poste escolhido por Lula, Fernando Haddad; o grande crescimento de Ciro Gomes; um Picolé de Chuchu mais ardido, já que, com aquele jeito de tio bonzinho, Alckmin não decolou e perde de Bolsonaro até em São Paulo.

O que ficou claro, com as pesquisas após o atentado, é que nada está claro. Bolsonaro, que vinha bem, não pode participar da campanha (e talvez também não tenha condições de fazê-la se chegar ao segundo turno). Haddad, se herdar os votos de Lula, fica forte; mas, se tiver que dividi-los com Ciro, estará mal. Ciro percebeu qual é seu principal adversário, e já o escolheu como alvo: lembrou que, com seu apoio e o de Lula, ainda solto, Haddad perdeu para Dória, quando tentou a reeleição, e teve menos votos que os brancos e nulos.

E há Marina. Caiu muito na última pesquisa (de 16 para 11%) mas sempre pode surpreender. Em todas as campanhas presidenciais, Marina ameaçou chegar lá, e não se sustentou. Esta é uma campanha curta. Se Marina crescer na hora certa, perto da eleição, pode chegar ao segundo turno. É difícil, mas conforme o adversário pode até receber o apoio dos outros e virar presidente.

A falsa verdade

As notícias de que o estado de saúde de Bolsonaro é grave e que ele terá de fazer nova cirurgia de porte são verdadeiras; mas foram plantadas para induzir o eleitor a erro. Coisas já sabidas: se está na UTI é porque o estado é grave. E, tendo sido operado do intestino, com desvio para uma bolsa externa, haverá outra cirurgia de porte, passado o risco de infecção, para repor tudo no lugar.

É importante saber se um candidato tem saúde para aguentar a carga e a tensão da Presidência. Mas isso é algo que só se saberá daqui a algum tempo.

Confiança

O general Mourão, vice de Bolsonaro, disse na Rede Bandeirantes, ao entrevistador Cláudio Humberto, que confia na recuperação do seu cabeça de chapa, porque é tão forte que, no Exército, tinha o apelido de “Cavalão”.

A luta continua

Houve trégua, mas já acabou a gentileza. Alckmin lembrou que Bolsonaro votou com o PT contra o Real, a quebra do monopólio do petróleo, a quebra do monopólio das telecomunicações. Citou as pesquisas: “Perde de mim, perde do Ciro, perde do PT. Bolsonaro é um passaporte para a volta do PT”.

A metralha de Palocci

Ex-ministro da Fazenda, ex-chefe da Casa Civil, ligado a Lula e Dilma, Palocci começou a falar, em depoimento ao Ministério Público. O que disse:

Previ: antes de ser presidente, Lula agiu a pedido de Emílio Odebrecht para que o delegado do PT no fundo parasse de criar problemas para a Braskem.

Pré-sal: Lula passou a atuar diretamente nos pedidos de propina

Campanhas: Lula sempre apoiou as iniciativas de financiamento ilícito de campanha, sabendo que eram ilícitas.

Caças: Lula assinou protocolo com o presidente francês Sarkosy, passando por cima da área de Defesa, que cuidava do assunto. Isso gerou propinas. Mais tarde, teve envolvimento pessoal na compra dos caças suecos Grippen.

Belo Monte: Lula se envolveu diretamente no caso de Belo Monte, e sabia que a partir desse investimento e desse projeto haveria pedido de propina.

Dilma: era ministra da Casa Civil e agia como Lula. “Em relação aos fundos ela foi igual a Lula, ela insistia, inclusive usava muito, que aquilo era uma ordem do presidente Lula e ela fazia reuniões com os fundos na Casa Civil e forçava a barra para os fundos investirem“,

As assessorias de Lula e Dilma desmentiram seu ex-ministro e o acusaram de mentir, sem apresentar provas, apenas para sair da prisão.

A Odebrecht disse que reafirmava seu compromisso de atuar com ética.

A arte subversiva

O Facebook não costuma explicar por que pune com suspensão de acesso alguns associados. Não costuma porque seria difícil: há poucos dias, bloqueou uma imagem e, pouco depois, suspendeu por 18 horas o associado “por usar o Facebook de maneira que os sistemas consideraram pouco usual”. Em suma, a mesma mensagem com que censuram fotos que consideram pornográficas.

É qual era a imagem tão perigosa que teve de ser bloqueada? Um quadro mundialmente famoso do excelente pintor espanhol Joan Miró, “El Gallo” – O Galo. Verifique: vá ao Google, “El Gallo – Miró”, e aparecerá o clássico do surrealismo, sem qualquer conotação de política ou de pornografia.

Oficialíssimo

“El Gallo” já foi exposto no Brasil na mostra “A Magia de Miró”, em 2014, de fevereiro a setembro, em cinco capitais – sempre na Caixa Cultural.

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​Mais forte que o ódio

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A política é a luta pelo poder. Violência, portanto, faz parte do jogo. No passado, disputava-se o poder guerreando o adversário, e matando-o. Hoje, o jogo político reduziu a violência. Infelizmente, ainda não pôde eliminá-la.

A violência política no Brasil tinha um limite. A última vítima de atentado, entre os candidatos aos principais cargos políticos, tinha sido João Pessoa, vice na chapa de Getúlio Vargas, em 1930 – há 88 anos!

Mas, faz algum tempo, a violência política começou a crescer, no clima do “nós contra eles”. O governador de São Paulo, Mário Covas, bem que tentou conversar com professores em greve, mas foi agredido. José Dirceu disse então uma frase famosa: “Têm de apanhar nas urnas e na rua”. E tudo desandou: um professor carioca propondo o fuzilamento de toda “a direita”, o post de uma jornalista – que pessoalmente é tranquila – exigindo que um Governo petista se inicie construindo um “paredón”; e Bolsonaro do outro lado sugerindo “metralhar os petralhas” – dizem que brincando, mas hoje não dá para brincar assim. Nenhum dos lados deve brincar com as palavras.

Esse clima, que levou ao atentado, deve influenciar as eleições. E não deveria: levar uma facada não melhora nem piora um candidato. É preciso votar com a cabeça, não com o coração; só isso nos libertará da cultura do ódio. Votar naquele que se considerar o melhor nome. Não se pode deixar que as eleições sejam influenciadas por um idiota com uma faca na mão.

Besteirol em alta

A prova de que, quando se fala em política, muita gente deixa de pensar, está na enxurrada de mensagens que negam o atentado: dizem que é falso, ou, em bom português, fake. Vídeos e fotos são montados, os médicos participam (e, claro, os enfermeiros também). A imensa farsa envolve três hospitais – o Einstein, onde Bolsonaro foi internado, o Sírio, que enviou um grupo de avaliação a Minas para analisar a remoção do ferido, e a Santa Casa de Juiz de Fora, onde houve a cirurgia que salvou a vida do paciente. Aliás, não falam apenas em falsificação: foi “grosseira falsificação”. Pode?

O melhor de tudo

Parece até o sítio de Atibaia, aquele que não é de Lula: o acusado que não deu facada nenhuma, embora tenha confessado, não era militante de esquerda, embora tenha dito que era, embora tenha sido membro do PSOL por sete anos, embora estivesse com camiseta vermelha Lula Livre. Pois é.

O dilema dos outros

Dilma Rousseff é coerente: falou besteira. Acusou a vítima pelo ataque. Mas a posição oficial do PT é condenar o atentado. É a posição de todos os partidos. Mas a preocupação é outra: como ajustar a propaganda diante dos novos fatos. O mais preocupado é Alckmin: ele era quem mais criticava Bolsonaro, em busca das intenções de voto tucano que tinha migrado. Na campanha, Alckmin era o administrador sensato, capaz de pacificar o país, e Bolsonaro um político descontrolado, uma espécie de petista visto pelo espelho. Se os anúncios eram ou não eficientes, ainda não dá para saber. Mas eram vistos, e não só na TV, onde Alckmin tem quase a metade do tempo disponível: segundo O Globo, meio milhão de pessoas viram dois dos vídeos na Internet, e os outros também tinham audiência. Só que agora não dá para atacar Bolsonaro, que é vítima; nem deixar de atacá-lo, pois aí fica difícil retomar os eleitores perdidos para ele. O PT só não tem esse problema porque precisa explicar que Lula agora é um universitário de terno e gravata, com sobrenome árabe, que não consegue falar sobre nenhum assunto, nem sequer dar um bom-dia, depois de visitar Curitiba.

Divirta-se!

Gostou de um candidato e gostaria de saber mais sobre ele? Quer falar mal do candidato de algum amigo? Seus problemas acabaram: ligue no link www.tchauqueridos.net e entrará no site Tchau, Queridos. Basta escolher o Estado e o nome da pessoa que aparecerá tudo sobre ela, votos, processos, etc. Não é perfeito – afinal, um site que consiga cobrir todos os envolvidos em corrupção deve exigir supercomputadores – mas é útil e bem divertido.

Preocupe-se

O apoio popular à Operação Lava Jato vem diminuindo – lentamente, mas diminui. A informação é de uma pesquisa do instituto multinacional Ipsos, realizada entre 1º e 11 de agosto. Embora o apoio às investigações se mantenha altíssimo 86%, cai desde junho de 2017, quando era de 96%. E a desconfiança aumenta: antes, 74% acreditavam que a Lava Jato investigava todos os partidos. Hoje, o número caiu para 46%. 

Uma informação relacionada a esta, obtida na mesma pesquisa: 30% dos eleitores votariam num candidato envolvido em escândalos de corrupção, “desde que fosse um bom presidente”. Boa parte desses eleitores apoia com entusiasmo a Lava Jato e acha que o combate à corrupção tem de ir até onde for possível, mas não se opõe ao “rouba mas faz”.

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​A história por trás do fogo

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O mesmo fogo que queima também ilumina. O incêndio que destruiu o Museu Nacional iluminou histórias que viviam ocultas nas sombras.

A primeira: por que um museu deve depender de uma universidade? Nada contra as universidades, mas não é esse seu objetivo básico. Um museu exige muito – muita dedicação, muito estudo, muito dinheiro, administração própria. O Museu Nacional, sob a Universidade Federal do Rio de Janeiro, não tinha um contrato de manutenção elétrica – pelo menos não constava na prestação de contas da UFRJ. O Museu do Ipiranga faz parte da USP, Universidade de São Paulo. Seu prédio estava em condições tão precárias que foi fechado em 2013 para reformas, com reabertura prevista para 2022. Nove anos fechado.

Há pouco mais de 20 anos, o empresário Israel Klabin, ex-prefeito do Rio, conseguiu US$ 80 milhões do Banco Mundial para restaurar e modernizar o Museu Nacional. Só havia uma exigência: o Museu deveria ser autônomo. Ou fundação ou Organização Social, com conselho, compliance (compromisso de seguir as leis, com transparência) e governança. Um grupo de voluntários se formou para trabalhar num pré-projeto de reforma para apresentar ao Banco Mundial. Mas a UFRJ rejeitou a proposta: o Museu era dela e ponto final. Mas os R$ 600 mil anuais da manutenção foram sendo reduzidos desde 2014. A receita da UFRJ cresceu, a verba do Museu caiu. Detalhe: um secretário de Estado, Wagner Victer, previu em 2004 o incêndio, por falta de manutenção.

Ideologia

Não se trata, aqui, de apontar responsáveis pelo incêndio: isso é tarefa dos investigadores. Na nota acima, falou-se das estruturas administrativas inadequadas, que é preciso modificar. Aqui, sem culpar ninguém, o tema é outro: a unanimidade ideológica no comando de uma universidade pública. O reitor, a vice-reitora, a pró-reitora de Extensão, o pró-reitor de Pessoal são simpáticos ao PSOL; o pró-reitor de Graduação é simpático ao PCB; o pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças é simpático ao PCdoB. Não existirá nenhum professor capaz de exercer algum desses cargos e não seja simpatizante de algum partido de extrema esquerda? Haveria a possibilidade de que a UFRJ tenha sido entregue a esses partidos em um “acordo de governabilidade” com os governadores Sérgio Cabral e Pezão?

Cala-te, boca!

Este colunista ouviu, ninguém lhe disse: o ministro da Cultura, Sérgio de Sá Leitão, disse que a restauração do Museu se dará em várias fases, a última das quais é comprar o que for necessário para recompor o acervo que o fogo destruiu. Claro, claro: é só ir às compras que, mesmo pagando mais caro, será simples comprar fósseis de plantas já extintas, o fóssil de Luzia – que, aliás, já estava velhinho, com 12 mil anos – e que levou o mundo inteiro a refazer as pesquisas sobre a chegada dos seres humanos à América; talvez, por que não?, outro trono, para substituir o perdido, do rei africano do Daomé, Adandozan, na hipótese ainda não comprovada de que ele tivesse duas bundas.

Há estoque

Já repor o acervo de múmias será simples. Basta promover um evento com determinadas autoridades e fechar as portas. A turma se sentirá em casa.

O início do fim

“Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa outra História.” Do escritor tcheco (naturalizado francês) Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento.

Frase

“Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro”. Era isso que estava escrito no chão, em frente ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro.

Exportador no vermelho

Exportadores gaúchos informaram o deputado federal Jerônimo Goergen que o Governo cubano está atrasando os pagamentos – algo como 40 milhões de euros, equivalentes a uns R$ 200 milhões, há mais de 60 dias. Pode ser que haja atrasos no pagamento também a exportadores de outras regiões. Uma exportadora gaúcha de proteína animal já acumula cerca de R$ 5 milhões de prejuízos. Goergen, da Frente Parlamentar da Agropecuária, lembra que o atraso atinge em cheio o agronegócio, exatamente o setor mais dinâmico da economia brasileira, na produção, industrialização e venda.

Perillo réu

O ex-governador goiano Marconi Perillo é réu por corrupção e lavagem de dinheiro perante o juiz de primeira instância, em Goiânia. Com ele, estão sendo processados o empreiteiro Fernando Cavendish (da Delta) e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Perillo só escapa da primeira instância se for eleito para o Senado (aí ganha foro privilegiado), mas corre risco de ser derrotado.

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​Fingem tão completamente

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Lula finge que é candidato; finge que, já que a ordem dos fatores não altera o produto, é preso político, embora seja na verdade um político preso. Gleisi finge que é advogada de Lula, Haddad finge que é candidato a vice, embora louco para sair à Presidência como se Lula fosse. A Globo finge que não teve nada a ver com o regime militar e que não recebe quase nada de anúncios públicos. Marina finge que tem opiniões sobre os temas mais importantes, e finge que revela essas opiniões. Ciro, que foi ministro de Lula e colega de Governo de Meirelles, finge que é contra os dois. Finge também que é de esquerda desde criancinha, justo ele que implantou o Plano Real de Fernando Henrique e, antes, tinha sido da Arena Jovem.

Bolsonaro finge que é direita pura e dura, embora tenha declarado o voto em Lula em eleições anteriores. Manuela d’Ávila finge que apoia a chapa Lula-Haddad, embora torça para que Lula caia fora de uma vez e ela possa ser a vice de Haddad. Meirelles, que de 2003 para cá dirigiu por oito anos o Banco Central e foi o todo-poderoso ministro da Fazenda por dois anos e meio, finge que não tem culpa nenhuma pela situação atual do país. 

Para todos, a mentira é uma verdade que não aconteceu.

No fundo, Geraldo Alckmin é o mais sincero dos candidatos. É político há muitos anos, mas se formou em Medicina com especialização em Anestesia. E, quando discursa ou é entrevistado, põe todos para dormir.

Pesquisa fresquinha

Esta foi a última pesquisa antes do início do horário eleitoral gratuito – que, como ensinava o professor e jornalista Oliveiros S. Ferreira, é o início da campanha real, e pode (ou não) modificar todo o quadro. Foi feita pelo IPESPE para a XP, que, empresa de investimentos, segue com cuidado o quadro eleitoral. Bolsonaro (no quadro sem Lula) é líder isolado, com 21% das intenções de voto, seguido por Haddad apoiado por Lula (especificado  assim na pesquisa) com 13%; Marina tem 10%, Ciro 10% e Alckmin 8%. Pela margem de erro (3,2%), Alckmin está tecnicamente empatado com Ciro e Marina, e Ciro e Marina com Haddad Apoiado por Lula. 

Outros quadros

Quando o nome de Haddad não é associado a Lula, Bolsonaro sobe para 23%. Com Lula na pesquisa, ele é líder com 33%. Bolsonaro é o segundo. 

Opinião do Dinheiro

Há poucos dias, houve palestra promovida por um grande banco, para clientes empresários, proferida por especialistas em mercado financeiro. Sua opinião sobre as eleições: acreditam que, mesmo com pouco tempo de TV, Bolsonaro irá para o segundo turno. Terá como adversário Alckmin, que deve crescer por dispor de quase tanto tempo de TV quanto os demais candidatos somados, ou o candidato indicado por Lula. Em ambos os casos, acreditam, Bolsonaro será derrotado, por ter o maior índice de rejeição, 57%, e que vem crescendo ao longo do tempo.

Isso vale, claro, se tudo correr normalmente e nada ocorrer que derrube um candidato ou transforme outro em herói.

Todos contra

Preste atenção: na TV, todos os candidatos procurarão ampliar a rejeição a Bolsonaro. Segundo se comenta, Alckmin tem o vídeo de Bolsonaro em que declara apoio a Lula numa eleição presidencial.

Pague, mas saiba

O levantamento é da Fundação Índigo de Políticas Públicas, com dados do Fundo Monetário Internacional, FMI: “Quanto os parlamentares ganham a mais que o povo?” A base da pesquisa é o salário básico do parlamentar, sem penduricalhos, em relação à renda média da população. São 21 países, em diferentes estágios de crescimento de renda, muito ou pouco populosos, nos mais variados tamanhos. O Brasil, como o caro leitor já terá imaginado, lidera o ranking de parlamentares mais bem pagos do grupo: cada um recebe em média o equivalente a pouco mais de 16 vezes a renda média da população. O segundo colocado é a África do Sul, com pouco menos de 14 vezes. Chile e México, ambos latino-americanos como o Brasil, pagam aos parlamentares o equivalente a nove vezes a renda média da população.

Os ricos

O Japão, a Alemanha, a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos estão no ranking. O Japão paga aos parlamentares o equivalente a cinco vezes a renda média da população – pouco menos de um terço do Brasil, em termos proporcionais. A Alemanha, pouco mais que o dobro. A Grã-Bretanha e a França pagam pouco mais que o dobro, mas menos que a Alemanha. Os Estados Unidos pagam aproximadamente três vezes a renda média da população, proporcionalmente 20% do Brasil. E eles são ricos.

Causa e efeito

Talvez sejam ricos por não desperdiçar o dinheiro dos contribuintes.

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​Dia D, Hora H

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Agora é hora de começar a campanha verdadeira: sábado, 1º de setembro, começam os 35 dias de propaganda política na TV. O horário gratuito e os anúncios espalhados pela programação normal vêm sendo, a cada eleição, as armas decisivas da campanha. Sim, muita gente hoje se limita à TV aberta; e a força da Internet nunca foi tão sensível. Mas a TV aberta tem acesso a maior número de pessoas do que tevês fechadas e redes sociais, somadas. TV mexe com as emoções do público e, na hora H, são as emoções que decidem o voto.

Neste mundo de imagens e sombras, o rei é Geraldo Alckmin, da coligação liderada pelo PSDB, com 44,2% do tempo. O PT (com Lula, ou com o boneco de ventríloquo que falará em seu nome) tem 18,9%. Bolsonaro, que vem bem nas pesquisas, tem 1,2%. Em números absolutos: Alckmin tem 11 minutos de programa por dia, mais 433 anúncios de 30 segundos em 35 dias. O PT tem 4m44s de programa, mais 185 anúncios. Bolsonaro, 11,6 segundos, mais 11 anúncios – pouco menos de um a cada três dias. Quem ganha? Nunca se sabe: boca de urna pode ser surpreendente. Mas este colunista, que já viu elefante voar e coelho atacar onça, que viu o Santos de Pelé, Pepe e Zito perder de 6x4 para o Jabaquara, desde que há horário gratuito nunca viu vitória sem boa TV.

Alckmin é o rei da TV, mas também pode ser surpreendente. Vestiu-se de garoto-propaganda de estatais para debater com Lula, estatizante consagrado. E foi surrado no segundo turno com menos votos do que teve no primeiro.

Temer? Quem é?1

Romero Jucá chegou ao Governo ao lado de Temer, como seu amigo de fé e irmão camarada. Romero Jucá faz parte do Governo porque para ele esta é a condição natural: esteve em todos os governos desde Figueiredo até hoje, com a única exceção do período de Itamar Franco, e sempre em altos cargos.

Mas fim de mandato é fim de mandato: Jucá acaba de deixar o Governo e abandonar Temer, segundo diz por divergências – ele, que nunca divergiu de Figueiredo e Collor, de Fernando Henrique e Lula, de Dilma e Temer. Dizem que quer se dedicar à campanha da reeleição, já que as pesquisas o colocam em terceiro quando só há duas vagas, e para ele perder o foro privilegiado não é saudável. Fim de governo é fim de feira. Nem a xepa quer ficar exposta.

Temer? Quem é?2

Henrique Meirelles, solidamente ancorado na parte de baixo das pesquisas, girando em torno de 1%, já tem pronto aquilo que chama de seu primeiro programa eleitoral. Veja só, caro leitor, que descuido! Vazou na Internet!

Meirelles, que foi até há pouco ministro da Fazenda de Temer, se coloca na faixa de Lula. Pois é: lembra que foi presidente do Banco Central no Governo Lula, de 2003 a 2010, desenterra duas antigas gravações em que Lula o elogia, coloca fotos e vídeos de Lula. Temer não aparece. Aliás, quem é esse Temer?

Promessa ou ameaça?

Ciro foi bem na entrevista a William Bonner e a Renata Vasconcelos,  no Jornal Nacional. Os dois o entrevistaram com competência, levantando uma série de perguntas difíceis, e Ciro, tranquilamente – calmo! – respondeu sem problemas. Mas fez uma promessa que soa como ameaça: disse que tem cega confiança no presidente de seu partido, Carlos Lupi, PDT. “Lupi terá no meu governo a posição que quiser, porque tenho a convicção de que é um homem de bem”. Pois é: pegou mal. Conforme Bonner lembrou (e Ciro manteve sua opinião), Lupi responde a inquérito no Supremo sobre compra de apoio político para Dilma, é réu por improbidade administrativa no Distrito Federal, foi demitido do Ministério do Trabalho de Dilma por recomendação da Comissão de Ética da Presidência. Ciro negou que ele fosse réu. Ciro violou uma regra básica da política: para mentir, é preciso combinar, e mentir juntos.

Botar a mão no foto por Lupi é namorar o apelido de Capitão Gancho.

Pagando sempre

A coisa foi discreta, passou meio despercebida, mas aquela antipática taxa cobrada pelas companhias aéreas para transportar a bagagem de seus clientes acaba de ser autorizada também para as empresas de ônibus intermunicipais. O decreto 9.475, de 16 de agosto de 2018, assinado pelo presidente Michel Temer, autoriza as empresas a cobrar meio por cento do valor da passagem a cada quilo de bagagem acima de determinada franquia, Mas há uma concessão ao politicamente correto: cadeira de rodas pode ser levada sem taxa extra. 

É impressionante como as más ideias se espalham rapidamente. A cobrança da taxa por bagagem foi criada para baratear a viagem de quem viaja só com a maleta de mão; e acabou encarecendo a viagem de todos os outros, sem baratear a de ninguém. Ônibus é pior: nele vai quem não pode pagar o avião.

Bem brasileiro

Frase do pensador de língua alemã Georg Lichtenberg (1742-1799), lembrada pelo jornalista Linoel Dias, e que por algum motivo nos fez lembrar do Brasil de hoje: "Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito"

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​A primeira vítima

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Novidade eleitoral: a antiga assessoria de imprensa dos candidatos, que dava sua versão do que estava acontecendo, foi trocada por assessorias digitais, que dão sua versão do que não aconteceu. Inventa-se uma nova realidade política, que nada tem a ver com a realidade propriamente dita – tática utilizada, com êxito, pelos nazistas, orientados por Joseph Goebbels.

Espalhar que Bolsonaro não irá a todos os debates porque tem medo não é verdade: ele tem se saído bem, já que lhe fazem sempre as perguntas, para as quais já tem resposta. Não vai porque, líder nas pesquisas, é o alvo natural dos demais candidatos. Collor não foi a debates, também. E ganhou,

Espalhar que Lula é o favorito porque, embora não possa se candidatar, lidera as pesquisas, é falso. Se não pode se candidatar não é favorito. Ele sabe que não é candidato, finge que é mas já escalou seu reserva. E quer seu nome na urna para levar o eleitor menos informado a votar no reserva.

Os partidos que apoiam Alckmin dizem que ele crescerá com o domínio do tempo de TV. Pode ser – mas os partidos não acreditam no que dizem, tanto que seus dirigentes fazem comícios louvando candidatos adversários. Alckmin está mal nas pesquisas. Para subir, precisa mostrar que não é só um Picolé de Chuchu. Mas quem nasceu para Chuchu, Chuchu é e será.

Nas eleições de 2018, como nas guerras, a primeira vítima é a verdade.

Pernas curtas

A propaganda falsa fantasiada de jornalismo traz riscos: comunicação não é o que se diz, mas o que se escuta, Um grande publicitário estudou o tema. E constatou que a palavra “populismo”, que se considera pejorativa, é muito bem aceita: para boa parte dos eleitores, quer dizer “favorável ao povo”. E “autoritário” não é um termo depreciativo: muitos o consideram positivo, atribuído a quem exerce de fato a autoridade. Insistir muito num tema é perigoso: um ótimo jornalista perguntou ao jardineiro em quem iria votar. Em qualquer um, menos Bolsonaro. “Eu voto lá nesse comunista?”

Coisas estranhas

 coisas que só acontecem por aqui. O PT informou que o deputado Reginaldo Lopes é o coordenador da campanha Lula/Haddad/Manuela em Minas. Este colunista é do tempo em que dois cargos, presidente e vice, eram preenchidos por duas pessoas. Três, no lugar de dois, é novidade.

Duas gêmeas candidatas, uma a deputada federal, outra a federal, são milagrosas. Se eleitas, o emprego vai voltar, a economia vai melhorar, a aposentadoria vai garantir e a pobreza vai acabar. Ruim? Não: ruim mesmo é o jingle, cantado aos berros por uma voz esganiçada. É mais agradável ouvir Suplicy imitando os Racionais MC e massacrando Bob Dylan.

A pesquisa de agora

Uma pesquisa fresquinha, recém-saída do forno, elaborada pelo IPESPE para a XP Investimentos: Lula (que, embora não possa ser candidato, está na planilha) cresceu dentro da margem de erro. Na menção espontânea, foi de 15 para 18%; na estimulada, de 31 para 32%. Num hipotético segundo turno, tem vantagem de oito pontos sobre Bolsonaro. Entretanto, Lula tem a maior rejeição entre os pesquisados: 60%, contra 59% de Bolsonaro. A alta rejeição dificulta seu crescimento e permite que surja um novo nome entre os favoritos. A TV, normalmente, influencia muito o eleitorado.

O poste

Como Lula não é candidato, qual a posição de seu reserva Haddad nas pesquisas? Haddad perdeu dois pontos no cenário em que aparece como “apoiado por Lula”, caindo de 15% para 13%; e um ponto se substituir Lula como candidato, embora com nome e número de Lula na urna. Mas, como é provável que a Justiça examine a situação de Lula no início de setembro, se o ex-presidente entrar no horário gratuito ficará poucos dias. E a situação de Haddad se tornará clara para os eleitores.

Brasil de ontem

Este estudo não é partidário (abrange governos do PSDB e do PT), não tem nada a ver com campanha eleitoral, mas mostra qual tem sido o rumo do Brasil de 1995 até hoje: para baixo. Em 1995, o Brasil (com renda por habitante de US$ 8.524) era mais rico do que sete países com nível semelhante de desenvolvimento: Croácia (US$ 8.477), Uruguai (US$ 8.045), Estônia (US$ 7.314), Turquia (US$ 7.000), Polônia (US$ 6.540), Lituânia (US$ 5.324) e Letônia (US$ 5.135).

Em 2015, a Estônia liderava o grupo (US$ 17.003 – valor constante, dólar de 2010; seguem-se Lituânia (US$ 15.347), Polônia (US$ 14.655), Letônia (US$ 14.320), Uruguai (US$ 13.944), Croácia (US$ 13.876), Turquia (US$ 11.523). E, na rabeira, Brasil (US$ 11.212).

A pesquisa é da Fundação Índigo de Políticas Públicas, com números oficiais do Banco Mundial. Uma curiosidade, observada por este colunista: quem cresceu foram os países que reduziram o tamanho de seus governos.

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​De ponta-cabeça

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Vida de jornalista não era o que queria. Gostava mesmo de ler, de estudar. Gostava de teatro, de literatura, de Sam Shepard. Mas coube a ele, aos 26 anos, dirigir o jornal da família; e o dirigiu como se fosse esta sua ocupação preferida. Foi um diretor rigoroso, vigoroso; revolucionário. A Folha de S.Paulo, em suas mãos, se manteve até agora como o maior jornal do país.

Pouco conheci do Otávio fora do jornal: reservado, sério, formal, nada dizia de sua vida particular. No jornal, conheci-o bem: de poucos sorrisos, mas aberto a sugestões e enfoques não habituais. Quando assumiu a direção, aos 26 anos, esmagou as reações com mão de ferro. Dizia-se que não confiava em ninguém com mais de 30 anos. Impôs-se. A Folha, que já tinha mexido com a imprensa ao abrir-se a intelectuais das mais diversas tendências e ao mergulhar na luta por eleições diretas, avançou na ênfase ao pluralismo. Daí as bobagens de que a Folha é petista ou inimiga do PT. A Folha é a Folha.

Dois dos jornalistas que melhor se deram com ele foram Ricardo Kotscho e eu, ambos o oposto do que preconizava. Os dois informais, ele formal; ambos distantes da Academia ele defensor de PhDs, másters, professores; ele cultor dos especialistas, os dois adeptos da reportagem geral. Ao escolher quem iria ao México para cobrir a Copa de 1986, ele optou pelos dois – que jamais haviam trabalhado em Esportes. A aposta, modestamente, deu certo.

Ele era capaz de confiar em quem era seu oposto.

O título

Da confiança nos opostos nasceu o título desta coluna – o mesmo de um livro do Otávio, que reúne seus artigos na Folha.

A notícia

Otávio Frias Filho, 61 anos, morreu na madrugada desta terça-feira, vítima de câncer no pâncreas. Trabalhou até os últimos dias, escrevendo no hospital. 

Renovação, só com os mesmos

O eleitor está saturado dos atuais políticos: isso se percebe numa conversa e se confirma nas pesquisas. Mas a renovação no Congresso será baixíssima: a combinação de campanha curta e proibição de doações de empresas faz com que os nomes já conhecidos levem ampla vantagem. O financiamento público de campanhas é entregue aos partidos, que escolhem quem irá recebê-lo. Claro, os caciques de sempre. Por isso, ¾ dos congressistas vão tentar se reeleger. E entre os que não tentam a reeleição há quem queira só mudar de cargo, disputando o Executivo. No total, apenas 7% dos parlamentares estão dispostos a largar o osso. Poucos decidiram abandonar de vez a boa vida.

Tirando da reta

Mas, de qualquer modo, haverá alguma renovação, e gente importante que troca de cadeira. O grande fator é a Lava Jato. Ninguém quer correr o risco de cair nas mãos de juízes de primeira instância. Três senadores ameaçados preferiram não tentar a reeleição e lutar pela deputança, onde é mais fácil se eleger e o foro privilegiado é o mesmo: Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, Aécio Neves, ex-presidente nacional do PSDB, e José Agripino Maia, ex-presidente nacional do DEM. Gleisi tem um inquérito na Lava Jato, Agripino é réu em dois processos no STF e Aécio está na lista dos gravados por Joesley Batista. Mas todos apresentam motivos nobres para a desistência: pensam em reforçar a bancada federal em benefício de seus Estados. Agripino, para atingir esse objetivo, fez com que seu filho Felipe desistisse da Câmara.

Os Lulas

Gleisi Hoffmann, para garantir a eleição à Câmara (mantendo, assim, o foro privilegiado), concorre com o nome de “Gleisi Lula”. Mas não é a única petista a buscar identificação com seu ídolo maior. No Maranhão, surge Ney Jefferson Lula; em Pernambuco, Neide Lula da Silva; no Espírito Santo, Eduardo Lula Paiva; e, em São Paulo, há um que se registrou só como “Lula”.

A hora do voto

O pessoal de Bolsonaro canta vitória, os petistas acreditam que, se der para  colocar nome e fotografia de Lula na urna, votos que seriam dele serão transferidos para o candidato que ocupar seu lugar (hoje, Fernando Haddad). As pesquisas dão Lula na frente, com Bolsonaro em segundo; ou, sem Lula, com Bolsonaro na frente. Só que a campanha de verdade começa agora, com o horário gratuito. A TV sempre foi e ainda é a maior arma de campanha, apesar das redes sociais. Alckmin não tem charme, mas tem 11 minutos de tempo de TV. Deve subir. Bolsonaro tem dois blocos de quatro segundos por dia. Pode cair. Haddad, diz a pesquisa, terá 17% dos votos que seriam de Lula. Marina herdaria 12%. Daqui até 7 de outubro muita coisa pode mudar.

Meirelles, o coerente

Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda, ex-presidente do Banco Central, é um homem coerente: sempre lutou pela estabilidade da moeda. Agora mantém a estabilidade das intenções de voto: não passam de 1%, seja qual for o cenário, com Lula ou sem Lula.

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​Me engana que eu gosto

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A informação é dos advogados de Lula, ao registrar sua candidatura à Presidência, no dia 15: seus bens declarados somam R$ 7.987.921,57.

A informação é dos advogados de Lula, em 15 de maio, ao mencionar a quantia congelada cujo desbloqueio imediato solicitavam: R$ 16 milhões.

Claro que esses valores não envolvem o apartamento em Guarujá que não é dele, nem o sítio de Atibaia que não é dele. Mas a dúvida é outra: em que data a defesa de Lula usou o dado certo, do desbloqueio ou do registro?

Mas, para seu eleitor, tudo bem: se Lula entra nas pesquisas, lidera com 31% contra 20% de Bolsonaro. A pesquisa, primeira após o registro dos candidatos, foi feita para a XP Análise Política, ligada à XP Investimentos.

Só que Lula não será candidato – disso o próprio PT sabe, tanto que colocou Haddad de vice sabendo que ele deve sair para presidente no lugar de Lula, e deixou Manuela d’Ávila, do PCdoB, de fora, sabendo que ela deve ser vice. Sem Lula, Bolsonaro lidera com 23%; Marina é a segunda, com 11%. Depois vêm Alckmin (9%), Ciro (8%) e Haddad (7%). Quando contam ao bem informado eleitor que Haddad é o candidato de Lula, ele passa para 15%. Mas a maioria dos eleitores, 56%, acredita que Lula não será candidato (já 40% acham que ele poderá concorrer). Os eleitores de Haddad são os mais ansiosos para trocar de candidato: 75% acreditam que terão a oportunidade de votar no Lula original e escapar do Lula-fake.

Fica fora

Metade dos eleitores acha que Lula, condenado em segunda instância e preso, deveria ser proibido de concorrer. E 44% são favoráveis a que ele concorra, apesar da expressa proibição da Lei da Ficha Limpa. Por incrível que pareça, têm a mesma posição de Eduardo Cunha, deputado federal que perdeu o mandato e os direitos políticos e está também preso em Curitiba: declarou que Lula deveria poder concorrer (o que, claro, seria usado pelos  advogados de Cunha para pedir que fosse liberado, por equidade).

A hora das pesquisas

O Ibope divulga amanhã, segunda-feira, sua primeira pesquisa após o registro. O Datafolha já registrou sua pesquisa no TSE. A campanha começa a esquentar, mas uma definição só virá depois do início da TV.

Errar é humano

Engano parecido com o da equipe de Lula ocorreu na declaração de bens da presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que se candidata a deputada. No caso, o valor de seus bens declarados em 2014 foi diluído pela falta de zeros. Gleisi informa que seu patrimônio total é de R$ 34 mil, incluindo um apartamento de R$ 111,00 e outro de R$ 24.550,00. Um deles, de acordo com a declaração antiga, é avaliado em R$ 1.110.113,16; o outro é de R$ 245.000,00. Errar é humano. E, quando isso contribui para que o patrimônio pareça pequeno, pode até servir para atrair mais votos.

Os mais ricos

De acordo com a declaração de bens de cada um, o candidato mais rico é o engenheiro (e ex-executivo de bancos) João Amoêdo, do Partido Novo. Seus bens somam R$ 425.066.485,46. O segundo é o engenheiro (e ex-executivo de bancos) Henrique Meirelles, do MDB, até recentemente ministro da Fazenda do presidente Michel Temer. Patrimônio declarado de Henrique Meirelles: R$ 377.496.700,70. Curiosidade: os vices dos dois candidatos mais ricos estão longe de ser pobres, mas seu patrimônio é de cerca de 1% do valor dos bens dos cabeças de chapa.

Os do meio

Seguem-se os outros candidatos, pela ordem de bens declarados: o terceiro mais rico é o escritor João Goulart Filho (PPL), filho do ex-presidente João Goulart, com R$ 8.591.035,79; Lula  (PT), que aponta como ocupação “torneiro mecânico”, é o quarto candidato mais rico, com R$ R$ 7.987.921,57 – ver na nota Me engana que eu gosto os números de declaração anterior, pela qual seria o terceiro mais rico; quinto, Eymael (DC), empresário, com R$ 6.135.114,71; sexto, Álvaro Dias (Pode), R$ 2.889.933,32; sétimo, Jair Bolsonaro (PSL), que apresenta como ocupação declarada “membro das Forças Armadas”, com R$ 2.286.779,48; oitavo, Geraldo Alckmin (PSDB), que se apresenta como médico, com R$ 1.379.131,70; Ciro Gomes (PDT), advogado, R$ 1.695.203,15, é o nono; décimo, Marina Silva (Rede), historiadora, R$ 118.835,13.

Os mais pobres

A décima-primeira é Vera Lúcia (PSTU), ocupação declarada “outros”,  R$ 20.000,00; décimo-segundo, Guilherme Boulos (PSOL), historiador,  R$ 15.416,00; décimo-terceiro, deputado Cabo Daciolo (Patriota), nada.

Nada a ver

O patrimônio declarado de cada candidato nada tem a ver com posição nas pesquisas. Se tivesse, Meirelles e Amoêdo estariam ambos no páreo.

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