​Tira, põe, deixa ficar

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O Governo anunciou a redução da alíquota do Imposto de Renda, a criação de um novo imposto que substituiria quase todos os outros, o aumento do IOF, o aproveitamento da reforma da Previdência proposta por Temer, um regime único de aposentadoria para todos, incluindo os militares e os servidores civis, e nada do que foi anunciado era bem assim.

Mas não diga que aquilo que o Governo diz não se escreve: escreve-se, sim, e muito, em twitters, redes sociais, imprensa. Só não vale o escrito. 

E daí? Boa pergunta: este colunista acredita que o Governo tem vários núcleos, mas só alguns são importantes. Paulo Guedes, general Augusto Heleno, Sérgio Moro, Tereza Cristina, da Agricultura, talvez Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia. Outros podem até ganhar estatura, mas por enquanto só servem como cortina de fumaça, como Damares ou Onyx. Fazem barulho, mas o que definirá o sucesso ou não de Bolsonaro são a Economia e a Segurança. Enquanto, seguindo Damares, se discute a cor das roupas de meninos e meninas, Paulo Guedes e Moro podem trabalhar mais tranquilos. Augusto Heleno é a voz que Bolsonaro ouve. Tereza Cristina só tem de manter o dinamismo do agronegócio. E Pontes – quem sabe? Se der para encaminhar a solução do problema de água no Nordeste, vira herói.

Com a economia indo bem, até Médici foi aplaudido no Maracanã. Se o combate a PCCs e CVs alcançar êxito, o Governo terá sido um sucesso. 

Quem sabe fala

O economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas, disse à jornalista Sonia Racy, do Estadão, que as trombadas até agora ocorridas no Governo são desimportantes. “O que vale, de fato, é que Paulo Guedes e equipe estão preparando uma reforma da Previdência de impacto”.

Sem abusos

Economia é o mais importante, um golpe nas facções criminosas é uma façanha, mas a promoção do filho do vice Hamilton Mourão no Banco do Brasil, com um belo aumento, e a demora nas explicações de Queiroz, que  trabalhava com o filho de Bolsonaro, são fonte de problemas. Não importa que o filho de Mourão mereça a promoção (seu currículo é ótimo), nem que parente algum de Bolsonaro tenha algo a ver com Queiroz, como dizem. Se fatos como esses ocorreram em outros governos, que não se repitam hoje.

Curiosidade

No WhatsApp de Sérgio Moro, a foto é de um jacaré devorando outro. Que significa? Nas diversas mitologias, segundo o Dicionário de Símbolos, várias versões. Na chinesa, o jacaré controla o ritmo e a harmonia do mundo e da vida. Em outra, carrega os mistérios da vida e da morte.

Globo em risco (falso)

Não, não é verdade que o presidente Bolsonaro tenha mandado cobrar uma suposta dívida da Rede Globo. Fala-se em R$ 380 milhões, calculados não se sabe onde – e a Globo, que tem distribuído dividendos de bilhões, certamente não iria quebrar se a dívida fosse essa e se houvesse cobrança.

Globo em risco (real)

Mas há poucos dias Bolsonaro falou num tema que ameaça não apenas a Globo (embora possa ser a principal vítima), mas todo o setor de TV. O tema é a BV – Bonificação de Volume, uma remuneração extra, mas legal, paga conforme o volume de compras de publicidade de cada agência, sem que o cliente seja informado. A BV estimula a agência a anunciar em quem remunera melhor o volume. Funciona como esse sistema de acumular pontos em compras, só que é para valer: quem põe mais anúncios, sejam quais forem os clientes, ganha mais. O veículo fatura o valor do anúncio em nome do anunciante, que paga a porcentagem combinada à agência. E a agência recebe o por fora, com nota fiscal, tudo certinho. Sem a BV, muda tudo, inclusive a análise de onde colocar os anúncios dos clientes.

O perigo

Algumas agências, graças à BV, preferiram oferecer seus serviços de graça. Nada recebem dos clientes, mas a BV lhes dá bom faturamento. Há alguns anos, o Ministério Público quis agir contra a BV: achava que, se o veículo devolvia parte do que lhe foi pago, isso deveria ser entregue ao cliente, não à agência. As agências brigaram e ganharam. Há publicitários contra a BV, que consideram um tipo de suborno, induzindo as agências a anunciar em quem tem BV maior – ou seja, a Globo. Questão explosiva.

A explosão

O deputado federal Alexandre Frota só aguarda a posse para apresentar projeto que proíbe a BV. Ele é Bolsonaro e odeia a Globo desde criancinha. 

Dilma e o general

O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, que comanda os serviços de inteligência e informação do Governo, disse que Dilma não acreditava em inteligência. O general está errado: Dilma jamais deixaria de acreditar em algo que nem conhece.

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​Tá todo mundo louco, oba!

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“Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente”. O autor da frase, Octavio Mangabeira, foi modesto: no Brasil todo há precedentes de tudo. 

Grupos do PT articulam a indicação de Lula ao Prêmio Nobel da Paz. Bom, se for contemplado, ficará ao lado de Obama, que ganhou o prêmio ao chegar à Casa Branca e foi o primeiro presidente americano a passar em guerra todos os dias de seus dois mandatos. Mas o objetivo dos lulistas não é figurar na galeria ao lado de Obama, que afinal de contas era presidente “duzianqui” e o surpreendente líder “dos galeguinho di zóio azul”: é criar um paralelo com Nelson Mandella, que saiu da prisão para dirigir a África do Sul, e deixar mal o Governo, que teria de soltar Lula para receber o prêmio ou mantê-lo preso enquanto o Comitê Nobel tentaria homenageá-lo.

Em Sinop, no Mato Grosso, a mãe foi a um bar com amigos e deixou os quatro filhos pequenos sozinhos. Ao voltar, viu um homem de 36 anos nu na cama com sua menina de cinco anos. Espancou-o com cabo de vassoura e cano de PVC. O cavalheiro foi para o hospital. Ela foi presa por agressão. Lembra um caso recente, em que os mesmos bandidos invadiram a mesma casa três vezes, roubando tudo e espancando os moradores. Na terceira, o dono da casa tomou o revólver de um bandido e matou-os. Foi preso na hora, pela mesma polícia que, enquanto ele era assaltado repetidas vezes, não tinha sequer sido vista nas proximidades do local dos crimes.

Bobeou, dançou

O ator José de Abreu pisou em falso: em seu twitter, acusou o Mossad, serviço secreto israelense, de ter tramado e executado um atentado falso a Bolsonaro, com a cumplicidade do Hospital Israelita Albert Einstein, onde o então candidato, segundo ele, se fingiu em risco. A prova disso, disse Abreu, é que o primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu veio ao Brasil para a posse de Bolsonaro. Vieram também dezenas de chefes de Estado e de Governo, mas não eram judeus, e Abreu não quis culpá-los.

A reação

O Einstein, um dos melhores hospitais do país, internacionalmente reconhecido pela qualidade de seus serviços, foi difamado: Abreu lhe atribuiu comportamento criminoso, por dizer que as cirurgias que salvaram a vida de Bolsonaro eram apenas parte de uma farsa. E ainda nesta semana o Einstein entra com queixa-crime, por difamação, contra José de Abreu. Propõe também ação civil de reparação de dano moral, sendo a indenização destinada a obras beneficentes. Na ação civil, os advogados do Einstein são Hilton e Décio Milnitzki. Na criminal, o caso está com o escritório de Carlos Kauffmann.

Tentando escapar

José de Abreu postou a mensagem em que culpa os judeus pelo atentado a Bolsonaro e, não muito tempo mais tarde, a retirou. Mas a mensagem já tinha sido gravada: Abreu se esqueceu de que, depois de desferida, não há como esconder a difamação, nem fazê-la simplesmente desaparecer.

Igualdade seletiva

Hélio Negão, o negro mais bem votado nessas eleições, com pouco mais de 345 mil votos, tomou posse como deputado federal do Rio sem notícias especiais, sem manifestações do movimento negro, sem ONGs a apoiá-lo. Há motivo para essa indiferença: Hélio Negão é negro, luta contra o racismo, mas é do PSL, partido de Bolsonaro. E sofre agressões por isso, de cunho discriminatório: um músico ligado a partido adversário o chamou de “Negão do Bolsonaro”. Pelo jeito, um cidadão negro tem o direito de votar em quem quiser, desde que seja no partido dos bem-pensantes,

O grande dia

Sim, a previsão existe – mas nunca se sabe, pois Bolsonaro diz e desdiz, é desmentido por auxiliares de primeiro e segundo escalões, o que fala não se escreve (talvez um twitter, mas nem isso é definitivo), Enfim, prevê-se que as ideias do Governo sobre Previdência sejam reveladas na quarta-feira. O Governo está no início, mas o assunto é urgente: ou consegue votá-lo ainda sob o impacto da vitória eleitoral ou fica para o longínquo futuro.

Olha a chance!

Bolsonaro, falando na posse de presidentes de bancos estatais, prometeu dividir a verba oficial de publicidade de acordo com o retorno oferecido pelos veículos. Perde uma oportunidade única: a de cortar dramaticamente a gigantesca verba de publicidade, mantendo-a apenas para as empresas federais que disputem mercado. As monopolistas, para que publicidade? O Governo, para que publicidade? Para dizer que o presidente come cachorro-quente e hambúrguer? Este colunista também come e não é nem candidato. Que cada veiculo lucre com consumidores e patrocinadores – e apenas eles.

Faz-se a luz

     Palocci está depondo sobre fundos de pensão. Ele conhece.

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​Em pleno verão, o inferno

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Azul e rosa, Força Nacional no Ceará, novos parâmetros da Previdência, privatização da Eletrobrás, isso é para os fracos. A grande sensação deve começar na semana que vem, quando Antônio Palocci, ministro da Fazenda de Lula, chefe da Casa Civil de Dilma, cuja delação premiada atingiu em cheio o PT, volta a depor, agora sobre fundos de pensão. O depoimento deve ser conduzido pelo procurador Frederico Siqueira Ferreira, da força-tarefa que investiga irregularidades nos fundos de pensão das estatais.

As investigações se concentram no Funcef (Caixa Federal), Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Postalis (Correios). Supõe-se (e é isso que se pesquisa) que haja fraudes somando algo como R$ 10 bilhões. Palocci, figura de proa em dois governos petistas, atuando durante muito tempo exatamente na área financeira, tem condições de, em muitos casos, desfazer as dúvidas dos investigadores. Há negociações entre sua defesa e os procuradores para que seja feita outra delação premiada. 

Palocci foi condenado a doze anos; cumpriu dois e, feita a delação premiada, passou à prisão domiciliar, com tornozeleira. Que benefício pode obter com nova delação? Talvez – esse deve ser o ponto básico da discussão entre promotores e advogados – livrar-se também da tornozeleira. Que sabe das coisas, sabe; já disse certa vez ao então juiz Sérgio Moro que o que tinha a contar obrigaria a Operação Lava Jato a ter mais um ano de trabalho.

Dias de medo

Palocci faz muita gente tremer. Mas, no Rio, o grande temor de políticos é que o ex-governador Sérgio Cabral consiga chegar a um acordo de delação premiada. Parece incrível que, depois de tudo o que foi descoberto, ainda haja coisas que Cabral possa contar; mas, para ele, é a única saída, já que está condenado a mais de 200 anos de prisão. E Cabral não está sozinho: se resolver contar o que sabe (e que o público ainda não sabe), é provável que seu vice, Luiz Fernando Pezão, também conte sua parte. Admite-se que, perto de Cabral, Pezão, por mais malfeitos que tenha cometido, joga no dente de leite. Mas, no caso, até o leite e o dentista podem ter sido superfaturados. Há pânico entre os aliados políticos e empresariais dos dois políticos.

Voa, dinheiro! 1

Por que Bolsonaro pensa em acabar com a Justiça do Trabalho? Pelo custo: a Justiça do Trabalho tem pouco menos de 10% das unidades judiciárias do país, mas consome 20% da verba. São R$ 85 bilhões no total, dos quais a Justiça do Trabalho gasta R$ 17 bilhões. Justiça do Trabalho existe numa série de países, não apenas aqui, mas lá fora é mais barata.

Voa, dinheiro! 2

Números oficiais, levantados pelo Novo Jornal, de Natal: os espantosos 50 maiores salários do Rio Grande do Norte (pagos em junho). O maior foi de R$ 179.887,06, pago a uma desembargadora federal do Tribunal Regional do Trabalho. O menor, de R$ R$ 40.185,15, foi pago a uma juíza de terceira entrância, do Tribunal de Justiça. Mesmo o menor é mais alto que o teto do funcionalismo público, o pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Todos, sem exceção, trabalham na área do Direito: juízes, promotores, desembargadores – e um solitário técnico judiciário, com R$ 52.312,17.

Voa, dinheiro! 3

Por que Bolsonaro ordenou uma varredura nos últimos atos do governo Temer? Uma pista: a ministra dos Direitos Humanos. Damares Alves, suspendeu um convênio (sem licitação) entre a Funai, Fundação Nacional do Índio, e a Universidade Federal Fluminense, no valor de aproximadamente R$ 45 milhões. Foi assinado tão em cima da hora que a publicação no Diário Oficial ocorreu em 2 de janeiro de 2019, já no novo governo. Objetivo do convênio: elaborar um Projeto de Fortalecimento Institucional da Funai. E também criar uma criptomoeda, ou moeda virtual, um tipo de bitcoin, para se transformar no dinheiro dos índios. 

Voa, dinheiro! 4

O presidente Bolsonaro tem uma ótima oportunidade de poupar dinheiro público. Temer nomeou Carlos Marun, seu chefe da Casa Civil, conselheiro de Itaipu. São R$ 27 mil mensais, para participar de uma reunião de dois em dois meses. Bolsonaro, por algum motivo, resolveu deixar pra lá.

Voa, dinheiro! 5

O Museu de Arte do Rio, MAR, apresenta (com dinheiro público) uma exposição, “Arte Democracia Utopia, quem não luta tá morto”, composta por bandeiras do MST, CUT e MTSC, faixas “Amanhã Ocupação” e pichações “A Cidade é Sua. Ocupe-a”. A exposição começou em setembro, um mês antes das eleições. Não há, na exposição, menção a qualquer outra tendência política. O MAR é dirigido por uma ONG, Instituto Odeon, que recebe R$ 12 milhões por ano da Prefeitura pelo serviço. Como diz o letreiro abaixo do leão da Metro, “Ars Gratia Artis” – a Arte pela Arte.

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​Torcer muito, acreditar um pouco

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É tolice querer que o piloto do avião em que todos voamos cometa erros graves. Até domingo, o clima era dominado pelas esperanças de que o voo dê certo. Há boas notícias da economia, que se recupera – lentamente, mas melhora. O desemprego é um pouco menor (e o índice melhora se forem levados em conta os informais). A expectativa da população é boa, segundo a pesquisa Datafolha: 65% acreditam que Bolsonaro fará um bom governo.

Mas há problemas. Michel Temer sancionou o aumentão dos ministros do Supremo, porém não decretou o novo salário mínimo. Nada de especial: de R$ 954 iria para R$ l.006 mensais. Deixou o aumento de despesas para o novo Governo. E nomeou o inacreditável Carlos Marun, amigo de fé de Eduardo Cunha, para o Conselho de Itaipu, com mandato até 2020. Pelas normas das estatais, um conselheiro precisa ter atuado dez anos na área, ou ter quatro em empresa do ramo, de igual porte. Marun – bem, é do MDB. Bolsonaro pode demiti-lo, mas o MDB não aceita bem a perda de cargos.

Há Ônyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil de Bolsonaro. Já responde por caixa 2 no Supremo. Já foi perdoado por Moro por ter pedido desculpas em outro caso de captação de recursos. E descobre-se que, na campanha de Bolsonaro, cobrou da Câmara as passagens aéreas. Ficou bravo: disse que não precisa explicar nada, porque não gastou em sua campanha, mas na do presidente. Ônyx já é um peso para Bolsonaro. Ao falar, ainda se complica.

Calma geral

Houve preocupação, muitos temiam um atentado, mas correu tudo bem. Bolsonaro desfilou de carro aberto pela Esplanada dos Ministérios, sem qualquer problema. O Gabinete de Segurança Institucional, do general Augusto Heleno, foi ótimo na prevenção de anormalidades. Muita gente, provavelmente o recorde de público de posses presidenciais, e nenhum incidente sério. Houve um caso em que o general falou sem necessidade (nota abaixo), mas inaugurou sua temporada no GSI de maneira impecável.

Calma, general

Poucos dias antes do fim do ano, Bolsonaro anunciou que, por decreto, iria facilitar a posse de armas. Nada a explicar: era sua promessa de campanha, e os eleitores o respaldaram. Mas o general Augusto Heleno, hoje chefe do Gabinete de Segurança Institucional, quis ajudar, dizendo que morrem 50 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito e nem por isso se proíbe a venda de automóveis. Argumentou mal: os carros têm uma finalidade e as mortes ocorrem por falha ou imperícia. Já as armas só têm uma finalidade. Não podem ser comparadas com carros.

Calma, governador

O novo governador de São Paulo, João Dória, anunciou ao tomar posse sua primeira providência: não vai morar no Palácio Bandeirantes, sede do Governo paulista. Disse que o Bandeirantes será “o palácio do trabalho” e não de moradia – a seu ver, corta assim privilégios e mordomias para sua família. Só que não é bem assim: o palácio tem um corpo de segurança que garante tanto o ambiente de trabalho como a família do governador. Agora será preciso montar mais um corpo de segurança, para a casa de Dória. Os serviços de apoio para este grupo, já existentes no palácio – academia de atletismo, intendência, atendimento de emergência – terão de ser duplicados. Em termos de economia, não passa de uma falsa boa ideia. A propósito, Collor teve ideia semelhante, e ficou morando na Casa da Dinda.

Bate-bate

Dória fez duro discurso contra os adversários – mas adversários de seu próprio partido, o PSDB. Disse que “a partir de agora” São Paulo vai mudar, “vai ter comando”. E que no palácio haverá mais trabalho e menos cafezinho para os visitantes. O PSDB governa o Estado desde 1995, com Mário Covas, Geraldo Alckmin (três vezes), Alberto Goldman e José Serra, com pequeno intervalo de Cláudio Lembo, quando Alckmin se afastou para candidatar-se à Presidência. Antes desse período, Franco Montoro (que seria um dos fundadores do PSDB) governou o Estado, eleito pelo PMDB.

Para apadrinhar Dória, Alckmin brigou com Serra, Goldman, Fernando Henrique, Andrea Matarazzo e outros caciques. Agora, só lhe restam eles. 

O recordista

Michel Temer deixa o Governo batendo uma série de recordes. Apesar da crise, deixou a inflação estabilizada, abaixo da meta; encaminhou a reforma da Previdência; reformou a lei trabalhista; encerrou tecnicamente o período de recessão; e manteve os juros Selic em níveis mais civilizados.

Mas tem recordes para o bem e para o mal. Um presidente nunca havia sofrido, como ele, três denúncias durante o mandato. Não são as únicas: no total, há sete, que incluem de questões envolvendo o Porto de Santos até pedido de propinas em troca de favores. Como Temer está sem mandato, todos os processos deverão ser enviados a juízes de primeira instância.

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AS PREVISÕES DO PAI GORDO

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Um novo Governo assume depois de amanhã. O Pai Gordo, famoso por ler o futuro no fundo de um prato de macarronada, prevê suas promessas:

1 – Repensar e reduzir o gasto público e reduzir o peso dos impostos;

2 – Realizar imediatamente as reformas necessárias, aproveitando o momento político da grande vitória eleitoral;

3 – Cortar na própria carne e reduzir o tamanho do Estado, que vai custar menos e atender melhor à população;

4 – Eliminar as indicações políticas. Agora é meritocracia: só os mais competentes serão nomeados, sempre por concurso;

5 – Chega de mordomias: cada membro do Governo viverá com seu salário, modestamente, sem auxílios, sem carros oficiais, sem penduricalhos.

6 – Todas as acusações contra gente do Governo serão rigorosamente investigadas, sem favorecimentos, antes que sejam atribuídas aos vermelhos petistas que deveriam arrepender-se de seus maus feitos e ir morar em Cuba.

7 – Caso as acusações, mesmo investigadíssimas, se provem verdadeiras, serão imediatamente comparadas com escândalos iguais ou até maiores praticados por governos anteriores, tornando-se, portanto, injustas quaisquer punições – pois, afinal, se todos já fizeram, é sinal de que todos fazem.

8 – Sérgio Moro não perdoará malfeitos nem de colegas de Governo, a menos que, como Ônix Lorenzoni, sejam rápidos para pedir-lhe desculpas.

Sugestão

Arquive esta coluna. Daqui a quatro anos, mantenha-se atualizado lendo tudo de novo.

Assim será

A posse de Bolsonaro ocorrerá em 1º de janeiro, Dia da Confraternização Universal. O PT já avisou que não tem confraternização: não vai à posse, porque a seu ver Bolsonaro ganhou graças ao górpi e “à injusta prisão de Lula, condenado sem provas”. O PT detesta Bolsonaro e o bolsonarismo, mas encara do mesmo jeito que o adversário as acusações contra petistas: a culpa é do acusador, sempre fascista, racista, inimigo do empoderamento feminino e  lacaio duzianqui. Pelo jeito, chamar de “neoliberal” caiu de moda

Suplicy vai preparar a candidatura a senador, em 2020. Se não der, talvez tente algum prédio simpático que esteja sem síndico.

Lula pedirá o centésimo oitavo habeas corpus, que será negado. O PT dirá que isso é prova de que Lula é um preso político e Gleise insistirá: é górpi.

O vice Hamilton Mourão assume quando Bolsonaro fizer a cirurgia que falta. E, embora vá negá-lo, se transforma de fato no líder da oposição. Ele fala o que pensa. Quer até que o tal Queiroz explique o dinheiro. Mas como irão chamar o general de petralha vermelho e exigir que vá para Cuba?

Corta mas deixa

Bolsonaro distribuiu aos futuros ministros um manual de conduta nos primeiros cem dias, que inclui a revisão dos últimos atos do presidente Temer, previsão de corte de despesas, etc. Mas não toca em despesas que poderiam ser reduzidas: a da profusão de carros oficiais, ou a dos cartões corporativos, ou a dos imóveis funcionais. Continua grande o número de auxiliares. O vice Hamilton Mourão, por exemplo, poderia preencher 140 cargos e reduziu bem esse número. Mas fica com 65 – isso para ajudá-lo a esperar as ocasiões em que tiver de substituir o presidente.

Há males…

Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho de Bolsonaro, que movimentou R$ 1,2 milhão aparentemente sem condições para isso, não é ligado ao presidente eleito, não é considerado investigado, mas testemunha, e não há nenhuma conexão visível entre esse dinheiro e Flávio Bolsonaro. Mas depositou R$ 24 mil na conta da esposa de Bolsonaro, como parte da devolução de uma quantia que o presidente eleito disse ter-lhe emprestado (o que ele confirmou), explicou o caso a Flávio Bolsonaro, que achou as explicações “plausíveis”, faltou a dois depoimentos no Ministério Público por motivos de saúde, mas deu entrevista ao SBT. Na entrevista, explicou só parte da história: disse que ganha dinheiro com comércio de carros usados.

…que vêm para bem

Por que seu saldo cresce logo após a data de pagamento dos funcionários de Flávio Bolsonaro no Legislativo? Essa pergunta Queiroz deve demorar a responder: apresentou atestados que, segundo ele, comprovam câncer no intestino, que deve ser operado rapidamente. Só após a operação será ouvido.

Cadê Battisti?

Césare Battisti, condenado na Itália por quatro homicídios e com ordem de extradição do Brasil, continua foragido. Há quem suspeite que continue no país, escondido na casa de alguém que o apoie, talvez importante, para reduzir as chances de uma batida policial. Mas também já pode ter saído do país. Teve tempo suficiente para planejar a fuga e buscar um governo amigo.​

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​Enfim, uma boa notícia

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O dia é bom: a ceia de Natal normalmente é caprichada, os religiosos ou foram à Missa do Galo ou a viram pela TV, houve presentes, famílias se reuniram (claro, com brigas, mas isso faz parte: acaba se incorporando ao folclore da festa). Há boa disposição, portanto. E a boa disposição faz com que a boa notícia possa ser bem recebida, sem o mau humor habitual de quem se habituou a ouvir lorotas. A notícia: embora a situação econômica seja ainda muito ruim, é bem melhor do que já foi. E indica a possibilidade real de que possamos chegar a um ritmo aceitável de crescimento e acelerar a criação de empregos. O desemprego é de 12%, altíssimo, mas há um ano o número de desempregados era quase 1,5 milhão superior ao atual. O PIB, produto interno bruto, cresce a lentíssimos 1,3% no ano, quase nada diante dos 7% de queda com Dilma. Ainda se gasta muito, mas o déficit público está longe do buraco de 3,7% do PIB na época do impeachment. A inflação, que com Dilma flertava com 10%, está dentro da meta de 4%.

Falta muito: é preciso reduzir despesas, baixar os gastos da Previdência, negociar com o Congresso a aprovação de reformas importantes, verificar se é politicamente possível mexer na estrutura tributária na hora em que os Estados estão sem dinheiro e temem a possibilidade de perder receita. Falta dar impulso à indústria, estudar como outros setores da economia poderão repetir o êxito do agronegócio – quase tudo, enfim. Mas se vê que há saída.

A má notícia

Há saída, claro, se houver esforço conjunto para conter despesas. Estão os políticos tentando economizar? Não: há dias, o Congresso aprovou verba de R$ 927,7 milhões, em 2019, para o Fundo Partidário. De 1996 para cá, a quantia destinada aos partidos cresceu perto de 500%. O Fundo é formado por recursos do Orçamento, mais multas eleitorais. Seu crescimento explica a febre de criação de partidos políticos no país. Em 1996, segundo levantou o O Estado de S. Paulo, havia 19 partidos com acesso ao Fundo Partidário. Hoje, são 30. Ter um partido vale a pena: dá dinheiro. A propósito, o Fundo existe para custear a estrutura dos partidos, mas é usado na eleição.

Diferente, mas igual

Como agora existe a cláusula de barreira (um número mínimo de votos para que o partido seja representado no Legislativo, e o dinheiro do Fundo só é dado a quem tenha representantes), muitas legendas devem se fundir, para que continuem a receber suas verbas. Reduz-se assim o número de partidos? Talvez – mas há também os partidos a ser fundados. A disputa no PSDB entre cabeças brancas (que querem o partido na oposição, embora não sistemática) e os cabeças pretas (que querem um partido bolsonarista) deve terminar com o atual PSDB nas mãos da facção Dória e a criação de um novo partido por cabeças brancas como Fernando Henrique, Alckmin, Serra, Tasso, Goldman e outros – como Paulo Hartung, do Espírito Santo, que quer um partido centrista, desejo também de Fernando Henrique. E, não esqueçamos, o Partido Novo estreou com sucesso, elegendo até mesmo um governador. Seu exemplo deve estimular a criação de outros partidos.

A boa ideia

O deputado Alceu Moreira, do MDB gaúcho, presidente da FPA, Frente Parlamentar da Agricultura, disse que não foi difícil emplacar a candidata do grupo ao Ministério da Agricultura. Em entrevista a Os Divergentes (https://osdivergentes.com.br), contou que Bolsonaro pediu ao grupo uma lista com três nomes, para que ele fizesse a escolha. A FPA atendeu ao pedido: os três nomes eram 1) Tereza; 2) Cristina; 3) Corrêa da Costa Dias. Era o nome da deputada Tereza Cristina, então presidente do grupo, em três pedaços. Bolsonaro gostou da ideia bem-humorada e nomeou a indicada.

A má ideia

Talleyrand, o grande diplomata francês que conseguiu ser ministro no Reinado e na República, com Napoleão e com os inimigos de Napoleão, dizia que a palavra foi dada ao homem para disfarçar seu pensamento. Em boa parte, diplomacia é isto: a troca de confrontos armados por negociações em que as palavras, por definição, não podem transmitir agressividade.

O Brasil age ao contrário, ao retirar o convite para que Cuba, Venezuela e Nicarágua assistam à posse de Bolsonaro, por condenar seus regimes ditatoriais. Tudo bem – e a China, o maior parceiro comercial do Brasil, será uma democracia? Alguém irá “desconvidá-la”? E a Arábia Saudita, o Irã, a Guiné Equatorial, o Sudão, serão por acaso democracias? No fundo, com o sinal trocado, é a mesma posição de Lula ao apoiar abertamente a eleição de Evo Morales na Bolívia, também por motivos ideológicos.

O mundo como ele é

O futuro chanceler, Ernesto Araújo, disse que o Governo “terá postura firme e clara na defesa da liberdade”. Um belo pensamento, digno de aplauso. Mas de quem é que o Brasil vai comprar petróleo quando precisar?

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​Jingle Bells

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Esta é a maior festa cristã. Festeja o nascimento de um menino judeu, mas não no dia em que ele nasceu: a data foi fixada, para atrair novos fieis, no dia de uma festa pagã, do Deus Sol. Comemos panetone de origem italiana e esperamos a chegada de um monge turco, São Nicolau, que traz presentes num trenó do tipo usado no Norte da Europa, mas voador, e puxado por renas. São Nicolau é chamado pelo nome alemão de Santa Klaus (ou Pai Natal, em Portugal, ou Papai Noel, no Brasil). Cantamos música cristã: White Christmas, composta por um judeu russo, Irving Berlin, Noite Feliz, austríaca, de Franz Gruber, e Jingle Bells, americana, de James Pierpoint, originalmente composta para o Dia de Ação de Graças.

Quando nasceu, dizem os Evangelhos. Jesus foi visitado pelos magos – não se sabe quantos, nem quais seus nomes, nem de onde vieram. Como lhe deram três presentes, imagina-se que sejam três. Foram chamados de reis uns 300 anos mais tarde; e 800 anos após o nascimento, São Beda lhes deu nomes e outras características. Belquior, 70 anos, saíra de Ur, hoje no Iraque; Gaspar, de seus 20 anos, vinha das montanhas perto do Mar Caspio; Baltazar, 40 anos, vivia no que hoje é a Arábia Saudita. Diz a tradição que os três foram sepultados na Itália; e há mil anos levados para a Catedral de Colônia, na Alemanha, onde há túmulos com seus nomes.

O Natal, a grande festa cristã, é de todos nós. Festejemos. Feliz Natal!

Não precisa exagerar

A Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel, seguiu o bom hábito de tantas empresas e fez uma festa de fim de ano. Mas convidou 800 pessoas e gastou R$ 182 mil. Espero que o caro leitor aprecie a notícia, pois foi quem pagou: o dinheiro saiu da Taxa de Fiscalização, cobrada na conta de luz.

Crise armada

O Senado americano, de maioria oposicionista, tende a rejeitar a verba para construir o muro na fronteira com o México – US$ 5,7 bilhões. Trump já disse que, se a verba não constar no Orçamento, ele não o assinará. Sem orçamento, o Governo para: em países organizados, se não há orçamento não há condições de fazer despesas. É o “shutdown”. Houve um em 2013. O país se recupera, mas dá um trabalhão botar as contas no lugar.

Mais empregos

O futuro secretário da Receita, Marcos Cintra, promete uma medida que leve à criação imediata de novos empregos: desoneração total das folhas de pagamento, eliminando os valores hoje recolhidos para o Incra, educação e Sistema S (Senai e congêneres) e mudando a base de contribuição para o INSS. É bom – mas como vai ser feito? Isso Marcos Cintra não contou.

Bons nomes

Armínio Fraga e Paulo Tafner integrarão a equipe do ministro Paulo Guedes que cuidará da reforma da Previdência, informa o bom blog de Valdo Cruz. É importante: se os contribuintes hoje pagam os aposentados e existe déficit, como resolver o problema se os contribuintes passarem a cuidar de suas próprias aposentadorias? Sem resolver a aritmética, não há nenhuma possibilidade de reforma viável da Previdência.

Goiás trabalhando

O novo presidente da Apex, Associação de Promoção das Exportações, Alecxandro Carreiro, só toma posse no ano que vem. A bancada federal goiana recém-eleita também espera sua hora. Mas já trabalham juntos: em reunião na Câmara, coordenada pelo novo deputado federal Major Vitor Hugo, discutiram o aumento das exportações de produtos goianos com as entidades representativas dos diversos setores da produção.  Na opinião do coordenador, é bom aproximar a bancada dos representantes de áreas produtivas. O Major Vitor Hugo é amigo de Bolsonaro há mais de 30 anos.

Bahia tropeçando

Durante a campanha, o governador Rui Costa garantiu que a situação financeira da Bahia estava bem resolvida. Reelegeu-se. Agora se sabe que a Bahia não tem recursos nem para por em dia as contas da saúde. Clínicas e hospitais que atendiam servidores públicos limitaram o serviço que prestam aos segurados, com a alegação de que os pagamentos do Governo baiano estão atrasados. Há revolta no funcionalismo – mas que fazer depois de, com seu voto, ter contribuído para a ampla vitória do petista Rui Costa?

Virtude no meio

São três partidos, com 70 deputados federais: PDT, PCdoB e PSB. Falta pouquinho para que se forme um bloco de oposição a Bolsonaro dentro da civilidade – por isso, o PT foi afastado das articulações. “Nosso caminho mostra que podemos fazer oposição sem do contra pelo único motivo de ser do contra”, disse o deputado federal André Figueiredo, do PDT cearense. O PDT decidiu esquecer as alianças com o PT depois de assistir à luta petista para bloquear a candidatura de Ciro Gomes à Presidência.

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​O certo e o errado

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Bolsonaro já desmentiu a notícia, mas até pode só estar voltando atrás. Enfim, as obras sacras do Palácio da Alvorada, em que vai morar, ficam no local de sempre. Certo: se era para evitar o domínio de símbolos de uma só religião, pois o país é laico, teríamos de mudar mais coisas, até nomes com os quais nos acostumamos: São Paulo, Santa Catarina, São Luís, Salvador.

Mas é errado haver obras sacras (e não sacras) na casa do presidente. As obras deveriam estar em museus, para que todos as vissem. O presidente é um cidadão como todos: por que esse privilégio típico de milionários? Sim, o presidente não deve ser privado da arte. Mas boas réplicas – por que não?

Há mais coisas estranhas nessa história da retirada de obras de arte sacra do Palácio da Alvorada. Uma das obras realmente saiu de lá: a estátua de Santa Bárbara, que vem a ser padroeira da Artilharia. Foi para o Palácio do Jaburu, casa que será do vice, Hamilton Mourão. Como Santa Bárbara é a padroeira da Artilharia, e o general Mourão foi artilheiro, por que não?

Porque não; porque é errado. O lugar de uma escultura do século 18, de madeira, é um museu, com temperatura e umidade controladas. Nas mãos de pessoas não-especializadas, numa residência, a tendência é de que se  deteriore o que deve ser conservado. Se Mourão for devoto de Santa Bárbara, que mantenha com ele tudo o que se refira à santa. E deixe a estátua, patrimônio cultural do país, para ser vista pelos cidadãos do país.

O homem e sua imagem

João de Deus está preso, e sob intenso ataque; perto de 400 mulheres o acusam de atos que vão de assédio sexual a estupro. Mas a surpresa não tem sentido: houve processos contra ele por contrabando, por exemplo. E por ato libidinoso contra adolescente – isso há mais de dez anos, em 2008. A moça, de 16 anos, fez a denúncia e depois se calou. Qual ato libidinoso? A adolescente foi apalpada; teve a mão colocada no pênis de João de Deus. A Justiça reconheceu os atos libidinosos, mas ele foi absolvido porque “a vítima poderia ter exprimido sua vontade”. A moça lá estava para tratar-se de Síndrome de Pânico. O fato é que, com esses processos e outros, João de Deus foi louvado até por Oprah Winfrey. E, em 2014, foi condecorado pelo governador goiano Marconi Perillo, com a Medalha do Guardião do Estado de Goiás, concedida por “ações reconhecidas como abnegadas”.

Dois pesos

As acusações contra João de Deus lembram muito as referentes a Roger Abdelmassih, que era médico especializado em reprodução humana. Roger Abdelmassih fugiu do país e foi encontrado graças ao empenho de uma das vítimas; condenado a 278 anos de prisão, conseguiu transformar a pena em prisão domiciliar. João de Deus, por atos semelhantes, está trancado numa cela, em prisão preventiva. E nem julgado foi! Abdelmassih saiu-se melhor.

Certo

O deputado federal eleito Tiago Mitraud, do Partido Novo, prometeu em sua campanha que cortaria mais da metade de sua assessoria parlamentar, de 25 para doze assessores. Depois de eleito, Mitraud participou do curso da Câmara sobre o trabalho legislativo e mudou de ideia: em vez dos 12 assessores com que planejava desempenhar seu trabalho, decidiu ficar com seis. Algo mais? Sim: para preencher esses seis cargos, abriu concurso. Se todos fossem como ele, nosso Legislativo seria muito mais ágil e barato.

Errado

A coluna anterior noticiou que o senador gaúcho Lasier Martins viajou de Brasília ao Rio para atender a compromisso familiar, usando as passagens fornecidas pelo Congresso. Esta parte da notícia está certa. Lasier explica que o fornecimento de passagens com nosso dinheiro está amparado no Regimento Interno do Senado, que a passagem aérea para o Rio é mais barata do que para Porto Alegre e que ele gasta menos de 20% da cota de passagens a que tem direito. É verdade; mas o senador não agiu certo. Espera-se que use as passagens a serviço e não para compromissos familiares. A segunda parte da notícia está errada: segundo Sílvio Ribas, assessor de imprensa de Lasier, ele se hospedou no Rio por conta própria. A coluna reconhece o erro cometido, esclarece o caso e pede desculpas.

Chega!

Um dos advogados mais conhecidos do país, Ives Gandra Martins, leitor assíduo desta coluna, discorda de nota publicada na última coluna. Nela, se sugeria que o Governo reduzisse a zero a publicidade oficial e mantivesse apenas a verba para empresas que disputam o mercado, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e outras. Diz Ives Gandra Martins, e com toda a razão: “Banco oficial com clientes institucionais garantidos pela Constituição Federal (art. 164 § 3º), não deveria gastar dinheiro em publicidade”. É isso: não cabe a governos sustentar ou sufocar veículos de comunicação. Eles que sejam independentes e vivam sem o governo.

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​Dinheiro sai

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O presidente eleito Jair Bolsonaro se declarou indignado com os gastos da Caixa com publicidade, que estima em R$ 2,5 bilhões por ano (a Caixa diz que é menos: R$ 685 milhões, ainda assim espantosos). Bolsonaro disse que vai rever esses gastos e também outros, como os da Presidência.

Bolsonaro que nos perdoe, mas está totalmente errado: deve é eliminar a publicidade oficial. Empresas que competem no mercado, como a Caixa e o Banco do Brasil, precisam de publicidade (embora, se forem privatizadas, o problema desapareça). Mas para que fazer publicidade do BNDES, que não tem concorrentes? E do Governo Federal, um monopólio que não tem nem com quem disputar mercado? Por que gastar dinheiro com a divulgação dos slogans oficiais – a menos que se queira influenciar o resultado de eleições futuras com dinheiro público, o que é crime, ou usar recursos do Tesouro para comprar a boa-vontade dos meios de comunicação, o que é indecente?

Gastar dinheiro público para fins particulares virou hábito. O senador Roberto Requião editou agora, por conta do Senado, um livro contra Sérgio Moro. Aproveita o finzinho do mandato, porque os eleitores o mandaram para casa. O senador gaúcho Lasier Martins viajou de Brasília para o Rio, e lá se hospedou no Hotel Windsor, para assistir à formatura de uma parente. A parente é dele, o dinheiro é nosso. Bolsonaro pode mudar esses hábitos. Que tal começar cortando o meio bilhão de propaganda da Presidência?

Tira, põe...

É cedo para analisar a história do R$ 1,2 milhão movimentado por um dos funcionários do deputado estadual (e senador eleito) Flávio Bolsonaro: a COAF, que monitora nosso comportamento financeiro, só apontou o caso e não fez qualquer denúncia; o próprio Fabrício Queiroz, o funcionário, não disse nada. Primeiro, eliminemos as objeções: a COAF não apontou os R$ 51 milhões de Geddel, apontou há anos a movimentação de umas dezenas de milhões, de Lula, e não avançou. É verdade. Mas, se o caso é irregular, deve ser investigado, não importa se casos parecidos foram ignorados.

...deixa voltar

A história parece a de sempre: assessores de parlamentares recebem seu salário e devolvem boa parte ao parlamentar. É uma forma (das mais asquerosas) de transferir dinheiro público para bolsos privados. Quanto? Um assessor disse que recebia R$12 mil e ficava com R$ 2 mil, e o restante era entregue ao parlamentar. O total de R$ 1,2 milhão em um ano é grande demais? Depende: um assessor pode receber várias devoluções para entregá-las ao parlamentar. Isso é crime. Se vai para o Caixa 2, é crime. Como a posse é agora, talvez tudo seja esquecido. É uma boa saída, não é?

Aprovação em alta

A questão do motorista do filho não parece ter afetado a popularidade de Bolsonaro. Pesquisa feita pelo Ibope para a CNI, Confederação Nacional da Indústria, indica que 75% dos entrevistados acreditam que o presidente eleito está no caminho certo. São 20 pontos percentuais acima da votação de Bolsonaro no segundo turno. Traduzindo: muitos dos que não votaram nele concordam com suas posições. E 14% acham que o presidente eleito está no caminho errado – contra 45% que votaram contra ele. Os que não responderam à pergunta ou ainda não têm posição somam 11%.

Expectativa

Na mesma pesquisa, 64% dos ouvidos esperam que Bolsonaro faça um governo ótimo ou bom. Isso significa, pela ordem, melhorar os serviços de saúde, impulsionar a oferta de empregos, combater a corrupção, combater a criminalidade e melhorar a qualidade da educação.

Contra Bolsonaro

O professor Victor Nussenzweig, médico, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, um dos maiores pesquisadores mundiais da prevenção da malária (milhões de infectados por ano, uma das maiores causas de morte de crianças na África), escreve para esta coluna para falar de política. A mensagem do professor Nussenzweig:

“Estou nos EUA há 60 anos. Vou ao Brasil no fim do ano e quero falar sobre o MAL-sonaro. Saí do Brasil em 1964 fugindo dos militares e vejo que a praga continua. Lugares de militares são os quartéis, não a política. Fácil ganhar a eleição pondo a oposição na cadeia!”

A crítica às opiniões do professor Nussenzweig, como sempre ocorre nesta coluna, é livre – desde que se use linguagem civilizada e se mantenha o respeito devido a um grande cientista brasileiro. Discordar não é insultar.

É quente

Preste atenção no major Vitor Hugo, deputado federal eleito por Goiás, amigo de Bolsonaro há dezenas de anos e muito bem preparado. Deverá ter influência no governo. Indicou a Bolsonaro o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas. E amanhã já participa com ele de reuniões em Goiás.

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​De vento em proa

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No tempo da ditadura que agora há gente que diz que não houve, corria uma piada sobre delação: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca, quem denunciasse dois comunistas ganharia um Opala, quem denunciasse três comunistas seria preso, por conhecer comunistas demais.

Pois é: a Polícia Federal, com base na delação de Joesley e Wesley Batista, promoveu busca e apreensão na casa de figurões políticos, como Aécio e sua irmã, o senador Agripino Maia, o deputado Paulinho da Força e outros. As delações dos Batista atingiram de empresários, que emitiam notas frias para eles, ao presidente Temer. Beleza: não era costume, no Brasil, a Polícia investigar gente importante. Mas com que resultado?

Como quem conhecia comunistas demais na ditadura, Joesley e Wesley conheciam corruptos em excesso. Isso não os impediu de, na primeiro hora, usar o dedo endurecido para se livrar da cadeia (o que só falhou quando se descobriu que tinham omitido parte da história). E, mesmo atingidos pela lei, estão hoje R$ 2,5 bilhões mais ricos que na época da delação. 

Este colunista não sabe qual a parte dos Batista no total de devoluções de dinheiro sujo. Mas as devoluções estão, no conjunto, bem atrasadas: o STF homologou acordos pelos quais 170 delatores teriam de pagar R$ 1,3 bilhão de multas. Teriam; mas R$ 422,9 milhões já vencidos simplesmente não foram pagos. O barco está no rumo certo, mas com vento contra.

Um número, um exemplo

De acordo com Joesley Batista e um de seus diretores, Ricardo Saud, só o JBS deu a Aécio uns R$ 110 milhões em propina. Um governador recebe, em geral, outras ofertas, de empreiteiros, fornecedores, empresários. A quanto podem montar as propinas? Quantos dirigentes as terão recebido?

É golpe

Uma novidade no mercado da invasão de cartões de crédito de outras pessoas: alguém telefona para um telefone fixo e pergunta pelos donos da casa. Quando um dos donos atende, chamam-no pelo nome e perguntam se fez uma compra em loja fina de outro Estado. Quem liga se identifica como funcionário da loja e diz que, se não houve a compra, não fará a entrega da mercadoria. E aconselha quem atendeu a procurar a empresa emissora, cujo telefone está gravado no cartão, e fazer a queixa. Não faz perguntas sobre o cartão, nada. A pessoa liga, é atendida – mas em algum lugar da linha houve um desvio e a chamada é dirigida para o telefone dos golpistas. Ali lhe dizem que, como o cartão foi clonado, deve ser bloqueado. E ao mesmo tempo já providenciam o novo cartão. Na conversa, apuram os dados que lhes faltam (números, etc.) e vão às compras com o dinheiro dos outros.

O cerco a João de Deus

Em quatro dias, desde que foi feita a primeira denúncia contra João de Deus, que se apresenta como médium, o Ministério Público de Goiás já recebeu 78 denúncias de mulheres que dizem ser vítimas de abusos sexuais por ele cometidos. João de Deus é conhecido por promover sessões de cura espiritual em Abadiânia, Goiás, cidade que praticamente vive em torno de suas atividades. diz incorporar o espírito de Santo Ignácio de Loyola, que criou a Ordem dos Jesuítas. Sua fama é tamanha que a cidade vive lotada de pessoas em busca de cura espiritual e é difícil conseguir um horário em sua agenda. Desde que a denúncia foi feita, no programa Conversa com Bial, Rede Globo, no dia 7, João de Deus não apareceu em público.

Por trás do Nobel

É um livro grosso, com quase 600 páginas de texto; mas é fácil de pegar e de não querer largar. Maldito Prêmio Nobel conta as histórias que ninguém contava a respeito do Nobel – inclusive os problemas políticos, inclusive as inclinações ideológicas, inclusive quem é que, na hora da concessão do prêmio, procura influenciar os votantes contra ou a favor de algum dos candidatos. Um exemplo: as tentativas de impedir Albert Einstein de recebê-lo. Um belíssimo trabalho de um grande jornalista: João Lins de Albuquerque, correspondente internacional da Folha de S.Paulo, da revista Visão, do jornal português Expresso. João trabalhou na BBC em Londres, na Swedish Broadcasting Corp. em Estocolmo, foi diretor da Rádio da ONU em Nova York, e por vinte anos cobriu cada edição do Nobel. Ele conhece; pesquisou; e beneficiou-se com a mudança nas normas do Nobel, que passou a divulgar as atas 50 anos após cada prêmio. Boa leitura, ótimo livro, que se transforma em referência para ter em casa.

Homenagem

Neste domingo, no Cemitério Israelita do Embu, SP, a partir das 12 horas, haverá a cerimônia religiosa de descoberta do túmulo de um dos maiores jornalistas do Brasil, Alberto Dines. Dines (um dos padrinhos intelectuais deste colunista) criou no Brasil a crítica da imprensa – que falta isso faz hoje! E em suas mãos o Jornal do Brasil foi o melhor do país.

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