​Quem paga a vida mansa

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Octavio Frias de Oliveira, o empresário que transformou a Folha no maior jornal do país, costumava dizer que a vantagem de ter idade era ter visto tudo acontecer – e o contrário também. Hoje entendo o que Frias nos ensinava.

Quando eu era garoto, os políticos não eram muito diferentes dos de hoje. Jogavam pesado durante o mandato, faziam o que não deviam na campanha. Mas tudo com dinheiro recolhido por eles: havia quem tomasse algum dos bicheiros, das prostitutas, dos motoristas de táxi, dos pequenos empresários (muitos) e dos grandes empresários (poucos). Havia chantagem, havia toma lá dá cá, havia promessa de favores a quem doasse mais – mas cada partido, cada candidato, cuidava de sua arrecadação, sem botar a mão no bolso dos eleitores. E nunca faltou dinheiro para uma eleição.

Aí inventaram o tal do financiamento público de campanha, pelo qual um eleitor tem obrigatoriamente de contribuir para a eleição de candidatos de que não gosta, de partidos que despreza. E é um monte de dinheiro: no nosso apertado Orçamento, a verba eleitoral atinge R$ 3,7 bilhões. Falta dinheiro para vacinas, falta dinheiro para saneamento, mas não falta dinheiro para dar boa vida a candidatos que, definitivamente, não chegam a nos fascinar.

Fora sustentar os pançudos, há outro problema: abrir partidos virou bom negócio, porque participam da divisão da megaverba. Políticos podem olhar-nos com desprezo. Somos os babacas que pagam quem vai nos desapontar.

Extremos unidos

Os grupos mais felizes com Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro para a Procuradoria Geral da República, são os bolsonarista e os petistas. Os extremos se tocam. Aras não chega a ser fã da Lava Jato e disse que usará o cargo para fazer justiça e não para perseguir políticos e a política. A leitura bolsonarista: Aras não irá perseguir Flávio Bolsonaro. Disse também que não será só acusador, mas buscará absolver os injustiçados. Leitura do PT: “injustiçado” é Lula. Jaques Wagner pediu aos petistas um voto de confiança a Aras. Nada como ter problemas parecidos para apoiar soluções idênticas.

A chance de Lula

No final deste mês, ou no início de outubro, no máximo, o Supremo deve reexaminar o caso de Lula (que acusa Sérgio Moro de ter sido parcial) e a prisão após condenação em segunda instância (a Constituição determina a prisão após trânsito em julgado, ou seja, quando não houver mais nenhuma possibilidade de recurso). Segundo a Folha de S.Paulo, o ministro Celso de Mello não gostou do conteúdo das mensagens que, segundo The Intercept, Moro trocou com os procuradores da Lava Jato. Se Celso de Mello, que votava pela prisão após condenação em segunda instância, mudar de posição, o Supremo retornará à posição anterior, de só admitir prisões após o trânsito em julgado. Dizem os lavajatistas que com isso estará liquidada a Operação Lava Jato: sem ameaça de ir logo para a prisão, para cumprir longas penas, por que alguém iria aderir à delação premiada?

Boa pergunta

Será impossível fazer investigações sem o uso da delação premiada?

A guerra dos impostos

A demissão de Marcos Cintra, secretário da Receita Federal e defensor do Imposto Único, deve gerar crises no bolsonarismo. Empresários que lutam há anos pelo imposto único, liderados por Flávio Rocha, que foi candidato à Presidência tendo essa tese como programa, estão insatisfeitos e já chamaram Cintra para trabalhar com eles. Rocha é um dos apoiadores de primeira hora de Bolsonaro. E, exatamente por causa dos impostos do país, levou boa parte da produção de sua Confecções Guararapes para o Paraguai.

O alegre retorno

Aproveitando o clima político contrário à Lava Jato, deputados federais se preparam para proibir que juízes de primeira instância possam mandar quebrar seus sigilos ou prendê-los. Processar, tudo bem, mas sem atingir as autoridades. Além disso, já foi aprovado na Câmara (e será votado depois de amanhã no Senado) um projeto que muda as regras eleitorais e partidárias. A mudança envolve apenas dinheiro: abre brechas mais amplas para Caixa 2 e dificulta a apuração de irregularidades na prestação de contas.

Garantindo o conforto

E, para evitar novos incômodos, um grupo de deputados (do PT e partidos anexos, com a única exceção do pedetista cearense André Figueiredo) propôs uma CPI da Lava Jato. A informação que divulgam é de que já reuniram as 171 assinaturas necessárias. Tudo agora depende de Rodrigo Maia tocar ou não em frente a instauração da CPI. Sem investigações a vida é bem melhor.

Consequências

Em boa parte por causa desta confusão, a confiança na economia piorou para 38,1% dos profissionais de vendas e marketing. A pesquisa foi feita pela ADVB, Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.

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​Nem sempre é o que parece

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Um dos zeros do presidente, Carluxo, levou cacetadas só por ter dito que, por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer “não acontecerá na velocidade que almejamos“. E, no entanto, Carluxo tem razão. Foi abandonando a democracia que Mussolini fez com que os trens da Itália cumprissem o horário. Tudo bem que algum tempo depois a Itália fosse invadida e ele terminasse seus dias pendurado pelos pés. Mas foi tudo rápido. Como foi rápida a transformação da Alemanha tão logo Hitler fugiu das vias democráticas. Montou avançados campos de extermínio, levou o país a ser atacado com as mais modernas armas então existentes, e depois passar uns 50 anos dividido em dois – algo, convenhamos, transformador, diferente de tudo o que havia antes.

ºHá quem pense que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, movido pelo fervor fundamentalista, errou feio ao tentar apreender os gibis da Marvel em que dois super-heróis se beijavam. Nada disso: Crivella passou a ser criticado por esquecer que o país é laico, que revista compra quem quer e que a censura é proibida pela Constituição. Enquanto isso, não o criticaram pela total inoperância como prefeito do Rio. Crivella, como o prefeito paulistano Bruno Covas, é simpático, bom de conversa, mas concentra defeitos na parte administrativa. Digamos que Crivella é uma espécie de Bruno Covas capaz de citar longos trechos do Evangelho.

Qual a vantagem?

Parece que está sendo difícil defender a gestão de Crivella como prefeito. Ao brigar com os super-heróis, passa a ser defendido por eleitores que, como ele, se opõem a fotos, desenhos ou frases que pareçam ser contra a religião. Embora o trio Batman, Robin e Alfred, e as duplas Mandrake e Lothar, o Fantasma e Guran, o líder pigmeu, nunca tenham dado margem a dúvidas.

Salvador sem pornografia

ACM Neto, prefeito de Salvador, promulgou a lei que proíbe pornografia em eventos da Prefeitura. OK – mas como definir o que é pornografia? No Carnaval de Salvador dificilmente as letras estão distantes do tema proibido. Nos bons tempos em que Carlos Moreno era garoto-propaganda da Bombril, uma das músicas do Carnaval de Salvador, composta pelo pessoal da agência de publicidade que cuidava da conta, tinha como refrão “Pega no Bombril dela”. Nos tempos da censura do regime militar, as revistas de mulher pelada receberam instruções sobre o que era proibido ou permitido. Mulher nua só podia exibir um dos seios. Mas, com uma camiseta molhada, transparente, podia mostrar os dois. E havia a proibição do impossível: não era permitido mostrar uma foto frontal de bunda. Essa nem Picasso conseguiria.

Boa notícia

O Brasil continua sendo um dos recordistas mundiais de assassínio, mas melhorou um pouco: pela primeira vez em três anos, caiu o número de pessoas assassinadas. Em 2018, houve menos assassínios que em 2014. Não é uma grande redução, mas é uma redução: houve 57.341 pessoas assassinadas. Mas o número de mortos pela Polícia alcançou o recorde de 6.220. Não se sabe se um número deriva do outro. Está aí um bom tema para debates: quando a Polícia mata mais, o número total de assassínios se reduz? Ou, o que também é possível, um número não tem nada a ver com o outro?

O bem-bom, de novo

Deu no Estadão: “Com aval de Rodrigo Maia, um grupo de parlamentares liderados por Luiz Flávio Gomes (PSB de São Paulo) quer impedir que juízes de primeira instância determinem medidas drásticas contra políticos, como prisão, quebra de sigilos bancário e telefônico, além de busca e apreensão.” Isso é para evitar “o ativismo judiciário”, nome que dão ao trabalho do juiz de primeira instância quando determina medidas contra alguma Excelência.

Todos são iguais perante a lei, mas há os que querem ser mais iguais.

Meninos, eu li

O vice-presidente general Hamilton Mourão, comentando a frase de Carluxo Bolsonaro sobre a dificuldade de transformar rapidamente o país por causa da democracia, disse que democracia é o pilar da sociedade. Vivemos todos para testemunhar, caros leitores, um general linha-dura ensinando a importância da democracia a um civil que ganha a vida graças a ela (já que seus salários de vereador são pagos porque foi votado e se elegeu).

Buscando médicos

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, PSDB, propôs o Contrato do Programa de Médicos (sucessor do Mais Médicos), para ampliar o sistema de saúde do município. Os três senadores do Estado o apoiaram e, reunidos com o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, acertaram a assinatura de convênio, já previsto no orçamento municipal. E daí? Daí, nada: Erno Harzheim, secretário da Assistência Básica do Ministério da Saúde, está emperrando, por algum motivo desconhecido, a assinatura do convênio. Quem manda lá?

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​A imagem vale mil palavras

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Bolsonaro, na sexta, concedeu doze aeroportos. Há investidores, portanto, acreditando que não haverá mudança nas regras do jogo e que suas apostas são seguras, poderão dar lucro. Disse o presidente que seu Governo “está recuperando a confiança do país”. É aí que se engana: embora, em pouco menos de nove meses, tenha adotado boas medidas, que agradaram o mercado, o grande problema de seu Governo é a desconfiança de que é alvo.

Não sou bolsonarista, nem petista, nem comunista. Sou jornalista. Quem quiser xingar que xingue, mas o jornalismo é crítico e desconhece aliados.

Bolsonaro obteve a reforma da Previdência, que em algum tempo irá aliviar o déficit fiscal, o Congresso deve fazer a reforma tributária, e com apoio dos governadores (a nova distribuição de impostos pode prejudicar alguns Estados), os juros oficiais jamais estiveram tão baixos, o que também irá contribuir para aliviar o déficit, o tratado União Europeia-Mercosul, que levou 20 anos de negociação, foi assinado (ainda falta que os parlamentos o aprovem), a BR, distribuidora da Petrobras, sai do colo estatal. O quadro é bom – mas o líder da oposição é o aguerrido Jair Bolsonaro. Seus rompantes ganham mais destaque do que suas conquistas. O Brasil nada ganha quando o presidente e o cordão que cada vez aumenta mais dizem que a mulher de Macron é feia, ou que nazismo é de esquerda O Governo tem aspectos positivos, não só negativos, mas a imagem é ruim. E imagem é o que se vê. 

Problema externo

Leia jornais e revistas europeus: Bolsonaro é fascista, inimigo do meio-ambiente, machista, mais feroz contra os índios do que John Wayne. Um bobo, disposto a derrubar a última árvore amazônica para caber mais uma vaca do agronegócio. Por anos, Bolsonaro caprichou em frases infelizes, hoje usadas para provar que é intolerante. Bem, ele enviou o filho, com o chanceler, para uma reunião com Trump.  Que tinha ele a dizer ao presidente dos EUA? Ninguém investigou: admitiu-se que a viagem era um presente ao filho. Os europeus dizem que a floresta é vital para todos. E é. Por que cabe só ao Brasil o ônus econômico de preservá-la? É justo que outros países, que dela se beneficiam, ajudem a pagar a conta. Os dois que ajudavam foram atacados por Bolsonaro. Por isso tantos gringos nos olham com má vontade.

Problema interno

Toda a equipe do Ministério Público Federal que trabalha na Lava Jato se afastou. Sérias divergências, não rebelião: não se fez nada fora da lei. Os lavajatistas não queriam que Raquel Dodge ficasse na Procuradoria Geral da República, mas também não gostaram de Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro. Queriam que o escolhido estivesse na lista tríplice enviada por eles – à qual Aras não concorreu porque a lista não é prevista em lei e por achar que o MP não deve ser uma corporação fechada que indica os próprios dirigentes. O STF, comenta-se, gostou de Aras. Moro não deve ter gostado – é lavajatista. Mas nem foi consultado. Silenciou: o superministro é mais Clark Kent do que super. Quais as consequências do desagrado dos procuradores? Talvez nenhuma: deixaram os cargos onde há poder.

Problema futuro

Na Polícia Federal, aguarda-se a demissão, por Bolsonaro, do diretor-geral Mauricio Valeixo, da confiança de Moro. Para seu lugar, fala-se no secretário da Segurança de Brasília, Anderson Torres. E Moro? Gente que o conhece desde que era estagiário acha que vai aguentar tudo: acreditam que tem um objetivo e engolirá sapos até atingi-lo. Bolsonaro mostrou que para ele Moro já rendeu o que tinha de render. Se ficar, tem de obedecer e olhe lá.

Um aceno...

Mas Bolsonaro faz acenos públicos de deferência a Moro e à Lava Jato. Fez mais do que pediam: em vez de vetar nove ou dez dispositivos, vetou 36. De acordo com os vetos, o juiz que mandar prender alguém em manifesta desconformidade com a lei e as provas não terá punição. Deixa de ser crime violar direitos ou prerrogativas de advogados – inviolabilidade do escritório, por exemplo. Numa busca e apreensão, pode-se apreender os computadores e será violado o sigilo de todos os clientes sem ordem da Justiça. Continua sem punição a execução de decisões judiciais “de forma ostensiva ou desproporcionada”. Quando o juiz quiser ouvir alguém, se a Polícia o prender com escândalo, para desmoralizá-lo perante os vizinhos, não haverá o que punir. Punição para o uso irregular de algemas – vetado em súmula do STF – deixa de existir na lei. Cenas como a de Sérgio Cabral algemado por mãos e pés, pela lei que Bolsonaro sancionou deixam de ser crimes.

...em vão?                                      

Só que a lei foi aprovada por ampla maioria. E há fortes possibilidades de que os vetos sejam todos rejeitados. Se Bolsonaro tivesse vetado cinco ou seis dispositivos, as chances de negociação seriam grandes. Com 36 vetos, é provável que o Congresso derrube tudo e restaure a lei como foi aprovada.

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Armai-vos uns aos outros

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Faz mais de 500 anos, pouco depois da descoberta do Brasil. Na França, o Governo católico perseguia os huguenotes, protestantes. Numa só noite, só em Paris, três mil protestantes foram assassinados, apenas pela religião (foi a Noite de São Bartolomeu). O líder dos huguenotes era Henrique de Navarra. Certo dia, ele foi informado de que herdaria o trono da França caso se convertesse ao catolicismo. Disse uma frase célebre, “Paris bem vale uma missa”, converteu-se, chegou ao trono. E deu liberdade religiosa aos huguenotes. Depois de mais de 30 anos de guerra, a França voltou a crescer.

Faz mais de 500 anos, mas a lição de que a tolerância é essencial ainda não foi aprendida. Há dias, um restaurante de palestinos refugiados da guerra na Síria foi atacado em São Paulo – parece que apenas por ser palestino. Um humorista, Gustavo Mendes, foi ameaçado de agressão em Teófilo Otoni por fazer piadas sobre Bolsonaro (só ameaças – mas porque ele saiu com escolta policial). Abra o blog de Caio Blinder, há pessoas que o odeiam por ser judeu e postam slogans antissemitas.

Só no Brasil? Não, na França há atentados contra judeus e contra imigrantes muçulmanos. Em Londres, manifestantes contrários ao primeiro-ministro Boris Johnson sugerem que ele e seus seguidores sejam mortos em câmaras de gás, “como em Auschwitz”.

Protestantes, católicos, judeus, islâmicos creem no mesmo Deus único. Só existe uma raça, a humana. Diante disso, como se pode ser intolerante?

 O Mal, espalhado

O Irã condena homossexuais à morte, nos EUA, Inglaterra e França, que guerrearam o nazismo, há nazistas. Há quem discrimine negros. No Brasil, alguns antibolsonaristas supõem que 53 milhões de fascistas votaram nele; e alguns bolsonaristas acham que quem é contra Bolsonaro é comunista. Para Bolsonaro, comunistas deveriam ir para Venezuela ou Cuba, apenas por pensarem diferente. Desconhecem a boa política: não fique tão perto que se transforme em adesista, nem tão longe que não possa reaproximar-se. O mundo vai mal, acreditando em loucuras.

O Brasil da “solução mulata” de Silveira Sampaio, da abençoada miscigenação, vai aderir à loucura geral?

 Os doidos em ação

Lembra daquele doido que outro dia tentou invadir o Congresso, quebrou as portas de vidro e teve de ser algemado? Há um vídeo dele na Internet, em que promete dar uma facada mortal em Bolsonaro e matar ministros do STF. Precisa surgir alguém propondo trégua e tolerância. Ou vamos acabar mal.

 Morro abaixo

A popularidade do presidente Bolsonaro está em queda, conforme as duas últimas pesquisas: pelo Datafolha, ele é reprovado por 38%, contra 29% que o apoiam (em julho, eram 33%, contra e a favor). O Atlas Político, citado pelo site O Antagonista, informa que a rejeição ao presidente ultrapassou os 50%, embora por pouco, pela primeira vez: 50,9%. A avaliação positiva, em junho, era de 50,3%. Em julho, de 46,2%. Agora, caiu para 42,9%.

 Moro acima

Já o ministro da Justiça, Sérgio Moro, mantém sua lenta ascensão, diz o Atlas Político. Está com imagem positiva para 51,7% dos eleitores. Em julho eram 51,4%. Em junho, 50,4%. Aparentemente, a divulgação das conversas entre Moro e procuradores da Lava Jato não o prejudicou. Segundo a Paraná Pesquisas, 58,8% querem que ele fique no cargo, contra 34,3% contrários.

 O risco do herói

Em público, Bolsonaro acostumou-se a desdenhar pesquisas, lembrando que previam que ele perderia o segundo turno contra qualquer adversário. Na prática, já começou a cortar as asas de Moro, dizendo que não prometeu nomeá-lo para o Supremo, chamando-o de “ingênuo” e lembrando que certos cargos são de livre nomeação do presidente, e não de ministro nenhum. Não há quem seja possível candidato à Presidência que deixe de ser atacado: João Doria e Luciano Huck foram apontados como beneficiários de empréstimos privilegiados do BNDES, para comprar jatos executivos da Embraer. Não é verdade: a beneficiária era a Embraer, que ganhava condições de vender seus jatos.

E daí? Moro, se continuar em alta, pode ser a próxima vítima.

 Dinheiro falta

A Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, anunciou que, pelo Orçamento, só terá dinheiro para pagar metade das bolsas de pós-graduação em 2020 – sim, isso significa que teremos menos gente altamente preparada. O CNPq, Conselho Nacional de Pesquisas, anunciou que o dinheiro de suas 80 mil bolsas dura até o quinto dia útil de setembro.

 Dinheiro abunda

Falta dinheiro para ciência e pesquisa, mas o Orçamento prevê aumento de 48% no Fundo Eleitoral, para pagar a campanha deles com nosso dinheiro. Isso significa que PT e PSL terão R$ 250 milhões, cada, em 2020.

Faça as contas, caro leitor: seus rendimentos aumentam 48% de um ano para outro?

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​Palavras que inflamam

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Bolsonaro conseguiu o impossível: transformar os incêndios que ocorrem todos os anos na Amazônia numa crise internacional, em que o Brasil, vítima do fogo, é punido com represálias de importadores, como se fosse culpado. É dupla tragédia: na hora de apagar o incêndio, nos obrigam a explicá-lo, a combater a imagem de poluidores, de réus. Bolsonaro, falando sem parar, se colocou como inimigo do meio-ambiente, das minorias, até da democracia.

Há incêndios criminosos - há também os naturais, os causados por descuido, as queimadas para remover resíduos da colheita e preparar a terra para novo plantio. Criminosos têm de ser capturados e presos (o Governo demorou a agir); descuidados devem pagar multas altas e trabalhar na restauração da mata (isso ainda não ocorre). Mas deixar que tradicionais poluidores nos acusem é consequência de más declarações do presidente.

O fogo deve acabar logo, com as chuvas. Mas provar aos importadores que couro não sai da mata, que não há soja sem transporte, que boiada só existe onde há frigoríficos, sal, vacinas, isso atinge as exportações. Bolsonaro teria coisas boas a dizer: inflação e juros oficiais baixos, as reformas que os investidores tanto reclamam estão sendo votadas. Mas prefere o atrito, o conflito, o desrespeito (como atacar a esposa do presidente francês por sua aparência física). Queima a imagem do país. Prejudica o futuro não só de seu Governo, mas também o da população brasileira.

Exemplo vizinho

Há incêndios gigantescos na Amazônia boliviana. Mas deles ninguém fala: o presidente Evo Morales, que além de não mobilizar o país para enfrentar os incêndios muda a lei a toda hora para se eternizar no poder, que preside um grande produtor de drogas, sabe que é hora de ficar em silêncio.

Um pouco de ação

A má imagem trazida pelo fogo começa a ser combatida. Nove ministros vão à Amazônia. Bolsonaro marcou reunião com líderes de outros países amazônicos e conversou com a primeira-ministra alemã Angela Merkel.

Imagem dos procuradores

O Ministério Público Federal pediu pesquisa à FSB sobre sua imagem. Há questões sobre MPs estaduais, o STF, a Procuradoria Geral da República, mulheres, minorias, LGBTS, meio-ambiente, Assessoria de Imprensa, Informações. Querem saber, sempre, como são vistos pelos jornalistas.

Lula livre?

A decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, de anular o julgamento de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil e da Petrobras na era PT, provocou um terremoto jurídico. Bendine alegou que os delatores premiados funcionam, de fato, como auxiliares da acusação; assim, quem não delatou deve depor por último, podendo responder a todas as acusações. 

Por essa tese, o julgamento de Lula deverá também ser anulado, e ele posto em liberdade. Mas o ministro Edson Fachin, voto vencido, pediu que as decisões futuras sejam tomadas por todo o plenário do STF, não só pelos cinco ministros que formam cada turma. Depende do plenário, pois, aceitar ou não a tese. Bendine já está solto. Os meios jurídicos se dividiram: de um lado, a lei não prevê a divisão entre réus delatores e não-delatores; de outro, como se defender de acusações que só serão feitas mais tarde?

Atenção

O governador de São Paulo, João Dória, busca transferir para seu PSDB gente importante do esquema Bolsonaro. Conquistou o apoio de Paulo Marinho, do Rio, em cuja casa operou o QG bolsonarista; e transformou em tucano o deputado federal Alexandre Frota. Agora, disse a Sergio Moro que, se sair do Governo Federal, terá espaço no Governo paulista.

Eis o Queiroz!

Há meses desaparecido, Fabrício Queiroz, que foi assessor de gabinete do deputado estadual (hoje senador) Flávio Bolsonaro, foi achado pela revista Veja. Estava no café do Hospital Albert Einstein, onde se trata de câncer. Foi o protagonista de um caso ainda não esclarecido, em que movimentou quantias que dificilmente poderia ter obtido só com seus salários. Depositou R$ 24 mil na conta de Michelle, esposa de Bolsonaro. O Ministério Público supõe que o dinheiro venha de um “rachid”, que consiste em receber de cada funcionário do gabinete uma parte de seu salário. Queiroz nada falou a Veja.

O SUS e os remédios O SUS

O SUS está passando um recado esquisito à população: é melhor recorrer à Justiça para receber remédios caros. Medicamentos para a epilepsia, que atinge uns 2% da população, já deveriam há meses estar na lista do SUS, e não estão ainda. Mas 90 pacientes que entraram na Justiça e obrigam o SUS a gastar com eles R$ 100 milhões por ano já aguardam que o remédio entre na lista, mesmo sem ter ainda cumprido todas as etapas normais. Tradução: é melhor ir à Justiça do que aguardar o processo normal do SUS.

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​Fumaça nos olhos

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As queimadas na Amazônia foram politicamente boas para todos os lados: o presidente francês Macron se mostrou preocupado com a floresta, com a ecologia, e ganhou também com a grosseria de Bolsonaro, que foi atingir a primeira-dama da França; e Bolsonaro, que comprovou ter apoio de Trump, e obteve também o suporte de Japão, Canadá, Alemanha, Inglaterra. De certa forma ganhou o Brasil, já que a política de preservação da Amazônia acabou entrando em discussão, prós e contras. Mas que Bolsonaro não permita que a fumaça da Amazônia prejudique sua visão política: tem a popularidade em baixa, e o motivo, obviamente, não é queimada nenhuma. É a economia.

Estão no forno algumas reformas importantes, mas nenhuma tem efeito imediato no que importa: na baixa do desemprego, no desenvolvimento, no aumento do poder de compra. Há muito menos gente interessada na floresta do que nas contas a pagar, no emprego, nas necessidades da família.

Por isso a pesquisa da Confederação Nacional de Transportes, CNT, está tão ruim para o Governo: Bolsonaro é avaliado como ruim ou péssimo por 39,5% dos pesquisados, enquanto 29,4% o consideram bom ou ótimo. Se os índices são ruins, ficam piores quando se nota que estão em queda. Em fevereiro, 39% o avaliavam como bom ou ótimo. Velhos tempos, belos dias.

Brigas internas, insultos externos, embaixador chamando o presidente de meu paipai, tudo é teatro. Mas quem vota é o bolso. A Argentina é o exemplo.

Quem diria

A imprensa europeia mostrou uma jovem que, estarrecida pelo incêndio, foi à Amazônia e salvou uma girafa, bicho que ali nunca houve.  Bolsonaro criticou a Noruega num vídeo que mostrava a caça de baleia por dinamarqueses. Macron disse que a Amazônia é o pulmão do mundo (não é: plantas adultas consomem o oxigênio que geram). Para Bolsonaro, a menos que se reduzam reservas indígenas e quilombolas, e áreas de preservação, não haverá espaço para a agropecuária. Haverá: o Projeto Jari, monumental, preserva 90% da mata, é produtivo e dá lucro. A Alemanha protesta contra o incêndio, mas uma indústria pertencente ao Governo alemão, a Volkswagen, promoveu há tempos o que chamou, em anúncios, de “a maior queimada da História”, na Amazônia, em sua Fazenda do Vale Cristalino. Uma empresa cujo capital é 30% da Noruega, a Norsk Hydro, tem na Amazõnia uma imensa jazida de bauxita, que só poderá explorar se tirar a floresta de cima.

Brasil brasileiro

Há anos, o Incra leiloou terras na Amazônia. Os vencedores investiram para cercar as terras, instalar-se, aí veio a Funai e os tocou de lá, porque era região de índios. Cadê os índios? Eram poucas dezenas, chefiados pelo cacique Manuel. Se eram poucos, por que tanta terra? Os índios perambulavam, disse a Funai. Bom, este colunista fez as contas: andando dia e noite, a tribo levaria seis meses para ir de uma ponta a outra da reserva. E quem comprou a terra do Governo, pagou e investiu? Talvez pudesse recorrer ao papa, porque a lei vedava saídas judiciais. Como a reportagem foi publicada, o Incra ofereceu aos vencedores do leilão terras de valor equivalente, em outro local. E toca a fazer o investimento de novo, gastando mais tempo e mais dinheiro. Segurança jurídica? A expressão é bonita.

 A verdade, enfim

Falou-se muita bobagem – como atribuir a atual queimada a uma só causa, quando a Amazônia brasileira é do tamanho da União Europeia. Há várias causas: a seca própria da época; queima dos rejeitos da colheita; o crime, que desmata para criar fazendas clandestinas, ou ampliar fazendas (legais) já existentes. E os malucos: o grupo paraense Sertão (este a Polícia deve pegar), combinou por WhatsApp provocar incêndios no Dia do Fogo, 10 de agosto, para ocupar uma reserva florestal de 1,3 milhão de hectares. Contrataram motoqueiros para botar fogo no capim seco à beira das estradas e operadores de motosserras para que nada sobrasse. No grupo há garimpeiros, grileiros, fazendeiros interessados em expansão, gente da cidade que quer virar fazendeiro sem se dar ao trabalho de comprar terra. Talvez haja também fanáticos políticos, como os que encheram de pragas os cacaueiros baianos. A culpa só é do Governo porque passou uma ideia errada, de que não era lá muito importante preservar o meio-ambiente. Isso acabou no liberou geral.

Atenção

Fique atento aos movimentos do ministro da Justiça, Sérgio Moro: apesar da pesada campanha contra ele, da troca de mensagens com os procuradores, do mau gosto de tantas mensagens (como ridicularizar o luto de Lula pela morte de seu irmão, de sua esposa, de seu sobrinho – que coisa feia!), apesar de estar no Governo apenas decorativamente, Moro continua sendo o mais popular dos ministros. Talvez espere ir para o Supremo (embora não seja, como quer Bolsonaro, “terrivelmente evangélico”). Mas, se não for, pode sair candidato à Presidência, com Bolsonaro ou contra Bolsonaro. Ainda falta tempo, talvez até lá ele se enfraqueça. Mas hoje é um nome de peso.

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​A fogueira das vaidades

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O que até agora era bravata, “não é insulto, é o jeito dele”, “ele não é diplomata mesmo”, está a ponto de virar problema sério: a pedido da França, o G7, grupo dos países mais ricos do mundo, está reunido para ver o que faz com “a crise na Amazônia” – sem que ninguém se desse ao trabalho de avisar o país em que a queimada acontece, o Brasil. Tudo bem, os Estados Unidos (que tiveram gigantescos incêndios na California, com dezenas de mortos, sem que nenhum país europeu discutisse “o que fazer com a crise”) devem matar a bobagem, como maior economia do G7. Mas países europeus, cuja opinião pública está pronta para revidar as ofensas que Bolsonaro já lhes dirigiu, podem dificultar as importações do Brasil (e prejudicar o andamento do acordo União Europeia – Mercosul). Os agricultores franceses e alemães, que sobrevivem com altos subsídios, ficariam felizes. E é politicamente correto atingir um presidente cujas declarações públicas são tão inadequadas.

A última agressão, aliás, não é de Bolsonaro, mas de Eduardo, diplomata da família. Compartilhou no twitter a mensagem “França em crise: Macron é um idiota”. A França é parceira do Brasil na construção de submarinos e de um reator nuclear destinado a produzir isótopos para remédios.

Pode ser que o G7 decida oferecer ao Brasil ajuda para combater o fogo. Mas depois que o presidente disse que não precisamos de doações europeias?

O fogo e o fato

Há queimadas e queimadas. Há as queimadas legais, em áreas agrícolas consolidadas, e queimadas ilegais, em áreas de preservação invadidas para formar fazendas, abrir caminho para garimpos, ou facilitar o transporte das árvores de boa madeira clandestinamente abatidas. Tereza Cristina, ministra da Agricultura, ligadíssima ao agronegócio, pediu a prisão dos incendiários. Mas, com as notícias que circulam na Europa, não será difícil colocar a culpa no agronegócio, que está fora disso, e afastar a competição brasileira.

O fogo de sempre

Já as queimadas legais – para tirar o mato que atrapalha o plantio – essas sempre ocorreram. Como ocorrem em canaviais não mecanizados, em que se bota fogo na plantação para permitir a colheita. Quem mora perto de  canaviais sabe o que é a queimada. Suja tudo. É ruim, mas ainda essencial.

Em tempo

A situação não é tão péssima quanto se imagina, mas já é suficientemente ruim para nos preocuparmos. É tão ruim que até Bolsonaro já se mobiliza para enfrentá-la. Em vez de acusar as ONGs e os governadores adversários de tocar fogo na floresta, estuda medidas de emergência para circunscrever o incêndio e evitar que se propague ainda mais até que as chuvas o apaguem. A mobilização envolve Forças Armadas, Força Nacional e até colaboração com os governadores da região, por mais adversários que sejam. O incêndio não é o fim do mundo, mas é preocupante. Exige um esforço concentrado, com menos discursos, menos explicações e mais estudo, com ação imediata.

Moro, quem?

Desta vez Bolsonaro não se limitou a passar por cima de Sérgio Moro, como em outras ocasiões, como quando jogou para o futuro o projeto anticrime que é a paixão do ministro da Justiça. Disse que não quer no cargo o diretor-geral da Polícia Federal e, se ele não pedir demissão nem for demitido por Moro, o ministro da área, ele mesmo o trocará. “Por lei, o diretor-geral é indicado por mim, não por Sérgio Moro”. Moro nada disse, como nada disse quando foi desautorizado outras vezes. O que se comenta é que ele ficará no Governo apesar de tudo, esperando que Bolsonaro assuma o ônus de demiti-lo – a ele, seu ministro mais popular. O fato é que Bolsonaro prometeu a Moro, ao convidá-lo, total liberdade de ação, E ele acreditou.

Foi sem ter sido

Talvez Bolsonaro não se dê ao trabalho de demitir Sérgio Moro, que tem popularidade e não cria problemas públicos, aceitando ser desautorizado sem romper o obsequioso silêncio a que se submete. E para que afastar do Governo um ministro que nunca chegou a fazer parte do Governo?

O nome do jogo

Bolsonaro só corre um risco: o de Sérgio Moro se manter popular, mesmo depois de tudo o que vem passando. Pois aí vai virar candidato à Presidência.

O adversário

Quem se movimenta muito para ser candidato em 2022 é o governador de São Paulo, João Dória, PSDB. Vem fazendo críticas duras a Bolsonaro (a quem apoiou discretamente no primeiro turno e abertamente no segundo), mas mantendo certa elegância. O que se diz é que Dória aguarda a eleição do ano que vem, em que o apoio ou a omissão de Bolsonaro terão grande importância – em São Paulo, por exemplo, ambos podem apoiar a mesma candidata, Joice Hasselmann. Mas, passada a eleição municipal, João Dória abriria a mala de ferramentas e passaria a bater com mais dureza que o PT.

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O bom do silêncio

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Bolsonaro disse que não adianta exigir dele a postura de estadista, por que não é estadista. Ele tem razão – e nem precisava ter dito. Aliás, há muita coisa que não precisava ter dito. Não precisava fazer brincadeira com motosserra, aludindo à questão do desmatamento. No duro mundo dos negócios, em que agricultores europeus menos eficientes que os brasileiros adorariam proibir as importações de carne e grãos “produzidos em áreas desmatadas da Amazônia”, a brincadeira se transforma em coisa séria. O agronegócio brasileiro não tem nada a ver com o pessoal que desmata a Amazônia, garimpeiros e madeireiros ilegais. Mas vá explicar esse fato a quem está feliz com a oportunidade de recuperar seu mercado perdido.

A imprensa europeia já chamou Bolsonaro de Borat, já disse que os brasileiros querem cultivar pastos e soja na Amazônia desmatada, já pediu sanções contra o Brasil (no grupo está a maior revista alemã, Der Spiegel), já obteve a suspensão das doações alemãs e norueguesas à preservação da floresta (“por que doar dinheiro para conservar as matas a um Governo que não quer preservá-las?”). Bolsonaro já ignorou o chanceler francês, acusou a Noruega de matar baleias por meios cruéis (é verdade – mas, se eles não têm autoridade moral, têm influência política), sugeriu que os alemães reflorestem seu país – o que eles já fizeram faz tempo. Quem fala demais dá bom-dia a cavalo. O pior é que nós é que pagamos a conta.

Questão de imagem

Bolsonaro passou a impressão de que seu Governo não se importa com o meio-ambiente e não gosta de índios. Resultado: exatamente aquelas ONGs europeias de que ele não gosta ganharam espaço para divulgar suas versões (exageradas) sobre desmatamento. De acordo com o Banco Mundial, 94% da Amazônia estão intactos. Mas em negócios o que vale é a versão – no caso, a de que a floresta tropical já está em agonia. E o que se disser sobre maus-tratos a índios vai valer como verdade. Há pouco tempo, informou-se que garimpeiros tinham invadido a terra dos índios wajãpi, no Amapá, e assassinado seu cacique Emyra. Líderes internacionais protestaram. Só que não há nenhum sinal de invasão na terra wajãpi. O cacique morreu, mas não há indício de assassínio.

Aldo Rebelo, ex-PCdoB, ministro de Lula e Dilma, adverte para as falsas acusações ao Brasil (http://www.chumbogordo.com.br/27268-as-vitimas-do-drama-da-terra-indigena-wajapi-no-amapa-por-aldo-rebelo/o). O mundo como ele é.

A voz da América

Abraham Lincoln, notável presidente americano (e republicano, como Trump, ídolo de Bolsonaro), disse que é melhor se calar e deixar que os outros pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida.

A dança das cadeiras

Não leve a sério as corporações que ameaçam se rebelar se Bolsonaro escolher um procurador-geral da República ou um diretor regional da Polícia Federal que não aprovem. Não vão se rebelar, não. As modificações vão ocorrer – e já estão ocorrendo. O subsecretário-geral da Receita, José Paulo Fachada, foi exonerado, numa tentativa do secretário da Receita, Marcos Cintra, de manter o cargo. Mas não deve durar, apesar de ter demitido seu subsecretário. E Paulo Guedes não se moverá para segurá-lo.

Com a passagem do Coaf para o Banco Central, seu presidente Roberto Leonel, escolhido pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, deve sair. Guedes disse que iria mantê-lo; mas, como o Coaf saiu da Economia, tudo mudou.

Abusos, sim

O Ministério Público e o ministro Sérgio Moro pedem que Bolsonaro vete vários artigos da lei que pune abusos de autoridade. Devem ter razão em alguns pedidos, mas há pontos óbvios exigindo punição. Por exemplo, alguém, sem ser intimado, vê na porta de sua casa um forte aparato policial, que o detém e leva para depor, sem advogado – sendo que, por lei, poderia se recusar a fazê-lo. Ou quando as acusações vazam do inquérito para os meios de comunicação.

Um bom exemplo: Eduardo Jorge, que foi secretário-geral do Governo Fernando Henrique, sofreu perseguição por parte de procuradores, que o acusaram de corrupção e vazaram as acusações para a imprensa. Ele abriu processo. Levou 17 anos, mas a União foi condenada a indenizá-lo em R$ 100 mil. E os procuradores que, agora comprovadamente, o perseguiram? Não vão pagar nada. Julgados por seus pares, um foi suspenso e um advertido. Ou seja, eles perseguiram e nós vamos pagar a conta da perseguição, com nossos impostos.

Os jatinhos do BNDES

Há certa confusão no ar: quem comprou jatos da Embraer com financiamento do BNDES (a juros baixíssimos) não cometeu ilegalidade, nem está na “caixa preta”. A Embraer teve apoio do BNDES para financiar suas vendas. Foram financiados 134 aviões em cinco anos.

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​Meu cargo, minha vida

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Ao formar seu Governo, parecia que Jair Bolsonaro se escorava na fama de dois de seus ministros, ou superministros: Sérgio Moro e Paulo Guedes. Bolsonaro se revelou um profundo conhecedor da natureza humana: os dois são importantes, mas a caneta presidencial é mais importantes do que eles.

Guedes, que no mercado financeiro sempre operou com eficácia e em silêncio, passou a falar, sempre repetindo o discurso do Capitão do Time: agora, além de dar palpite na política interna de um país vizinho, chegou a perguntar desde quando o Brasil precisou da Argentina. Ele sabe a resposta, claro: desde que a Argentina é a maior importadora de carros brasileiros, desde que a Argentina dá ao Brasil US$ 4 bilhões de superavit comercial. O economista Paulo Guedes sabe o valor de US$ 4 bilhões. 

Pior é Moro, que no Ministério se tornou um colecionador de derrotas. E é ótimo para aceitar desfeitas. Bolsonaro prometeu-lhe que, como o Coaf não ficaria sob seu comando, manteria o presidente indicado por ele. Em seguida, mandou afastar o citado presidente. Embora a Polícia Rodoviária Federal seja subordinada ao Ministério da Justiça, Bolsonaro disse num discurso que a mandaria suspender o uso de radares móveis (pode ser que depois tenha avisado o ministro). Em seguida, sempre sem ouvir Moro,  mandou trocar o diretor da Polícia Federal no Rio. Bolsonaro age como se não houvesse ninguém no Ministério da Justiça. E talvez tenha razão.

O absurdo

Bolsonaro prometeu continuar lutando para acabar com os radares que monitoram as rodovias federais, reduzindo acidentes, mortos,  feridos. Como não diria Bóris Casoy, isto é um absurdo. Que pensa Sérgio Moro da posição do presidente, que proibiu a Polícia Rodoviária Federal de usar radares móveis? Apóia, o que seria incrível? Ou aceita, pensando em futura escolha para o STF? Emhttp://www.chumbogordo.com.br/27195-zero-de-visao-por-helio-schwartsman/, o que se faz na Suécia para salvar vidas.

Lava quem?

É provável que o Moro juiz reagisse contra o pedido (vitorioso) de Flávio Bolsonaro ao STF que suspendeu as investigações sobre ele. Já o Moro ministro se manifesta por um estrondoso, retumbante silêncio. Comenta-se que a estreita relação de Bolsonaro com o presidente do STF, Dias Toffoli, tem o objetivo de tirar as pedras do caminho dos enrolados e usá-las para cobrir casos passados: Geddel, por exemplo, Lula e outros. Há fortes chances de que Lula seja solto em pouco mais de um mês, talvez com os processos anulados pelo STF – e Toffoli próximo de Bolsonaro.

Barbaridades…

Em discurso no Piauí, Bolsonaro disse coisas inaceitáveis: por exemplo, que os vermelhos devem ir para a Venezuela ou Cuba. Um general que Bolsonaro admira, João Figueiredo, último presidente militar, dizia que lugar de brasileiro é no Brasil. Quem discorda do Governo exerce um direito. Pode, como os fundamentalistas, ser chato, mas é chato brasileiro.

…e acertos

Por mais que os adversários de Bolsonaro o critiquem, há ocasiões em que está inegavelmente certo. No mesmo discurso do Pìauí, falou da vocação agrícola do Estado, que tem clima, terras e água, está mais perto do mercado europeu do que outros Estados e pode se transformar em polo produtor e exportador de frutas. Tem condições – o que é verdade – de se tornar um Estado de alta renda per capita, como um tigre asiático.

Barbaridades e acertos

Bolsonaro diz que o Brasil não precisa do dinheiro norueguês e alemão para cuidar da floresta amazônica, e desafia Alemanha e Noruega a fazer o reflorestamento do seu próprio território. Bobagem: os dois países fizeram isso há tempos (e cuidam também do meio-ambiente tratando todo o esgoto antes de lançá-lo nos rios e mares). Mas tem razão em outros pontos: só a Floresta Amazônica é maior que toda a União Europeia. O Amazonas preserva 94% de seu território; o Amapá, mais de 99%. O desmatamento ilegal (para o comércio de madeiras de lei, por exemplo) é nocivo e tem de ser combatido. Mas é banditismo, é questão de polícia, e de polícia bem armada que o pessoal é perigoso. Mas desmatar não é política de governo.

Recomendação

Para quem estiver em São Paulo nesta terça-feira, dia 20, recomendo a noite de autógrafos de Marli Gonçalves, ótima jornalista com quem tenho o prazer de trabalhar há quase 30 anos (temos até gatos gêmeos, a dela a Love, o meu o Vampeta). Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres e para homens também, livro que mostra, com precisão e bom texto,  que o feminismo é uma causa justa, será autografado na Livraria da Vila, alameda Lorena, 1.731, a partir das oito da noite. A editora é a conceituadíssima (e exigentíssima) Contexto. Estarei lá, claro. Como poderia faltar? 

​Cada quadrado no seu quadrado

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Um economista que sabe das coisas diz que se você volta à Argentina vinte dias depois de ter saído, vê que tudo mudou. Se volta depois de vinte anos, vê que nada mudou.

Faz uns noventa anos que a Argentina, com raros intervalos, é peronista. Houve até luta armada e sangrenta  entre peronistas de extrema direita e de extrema esquerda. Inimigos, inconciliáveis, mas todos peronistas.  

É difícil de entender? Por isso mesmo o presidente Bolsonaro se coloca em má posição ao envolver-se na política interna de los hermanos. Põe em risco, por exemplo, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, importantíssimo para nosso futuro. Ameaça as boas relações com nosso terceiro maior parceiro comercial, que nos rende uns 4 bilhões de dólares ao ano de superavit. Esquece que a Argentina é o país que mais importa carros brasileiros. Não se diga que que lutar contra a esquerda é mais importante do que manter boas relações comerciais e de amizade com nosso vizinho. A China é uma ditadura comunista, que mantém fortes laços com um partido que faz oposição ferrenha a Bolsonaro, o PCdoB, mas com a China ninguém mexe. Será a Argentina mais esquerdista que a China? Não: essa história de fronteiras ideológicas é para boi dormir. Os argentinos são como são. E não querem nem aceitam conselhos.

Cartão amarelo

Se na eleição argentina se repetir o resultado da prévia, Macri estará derrotado no primeiro turno, e Alberto Fernandez, o poste escolhido por Cristina Kirchner (sua  candidata a vice) será o próximo presidente. Se deixar a raiva de lado, Bolsonaro verá claramente o motivo da fraqueza de Macri: ele era a esperança de reverter o caos econômico do kirchnerismo. E não atendeu as expectativas. Seu liberalismo econômico foi para o brejo na primeira oportunidade: como a inflação não cedia, congelou os preços. E, como de costume, não deu certo. Ruim por ruim, escolheram o passado.

Manda pra nós

As incessantes declarações de Bolsonaro sobre qualquer tema que se apresente são levadas a sério no mundo desenvolvido. Já teve problemas com Noruega e Alemanha; e continua falando. A Alemanha cortou 150 milhões de dólares da ajuda à Amazônia como protesto pelo aumento da derrubada da floresta, e Bolsonaro disse que os alemães deixam de comprar  a Amazônia em prestações e que não precisamos desse dinheiro. Mas é um dinheiro que faz falta, e que vem a fundo perdido: é dado, não emprestado.

Retrato do Brasil

Os cálculos são da Anefac, Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, instituição que há meio século se dedica a fazê-los. De março de 2013 até julho de 2019, considerando-se todas as mudanças na taxa básica Selic, os juros reais baixaram 17,24%, caindo de 7,25% ao ano para 6% ao ano. Já os juros cobrados de pessoas físicas subiram 29,05%, subindo de já espantosos 87,97% ao ano para 117,02%. As pessoas jurídicas também foram esfoladas, mas menos: no seu caso, os juros subiram 11,68%, passando de 43,58% para 48,67% ao ano.

Onde se gasta, e como

Vale a pena acompanhar a newsletter Don’t LAI to Me – um trocadilho bilingue que mistura o “não minta para mim” à LAI, Lei de Acesso à Informação. Nela estão os gastos dos diversos presidentes da República em seus cartões corporativos. Dá trabalho acompanhar, mas vale a pena. É grátis: basta entrar no Google em Don’t LAI to me e fazer a ficha. É uma fonte de informações inestimável – e tudo com dados oficiais.

Dinheiro não falta

O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia decidiu, no dia 9 último, conceder aposentadoria a um técnico de nível médio, com R$ 30.956,00 mensais. O salário do técnico de nível médio é de R$ 5.767,91 – o restante é penduricalho, tipo vantagem pessoal eficiência, vantagem pessoal AFI símbolo, função gratificada, etc. Como há o teto constitucional para quem recebe vencimentos do Tesouro, o técnico receberá R$ 30.471,10. Mas dá para viver. Reforma da Previdência só vale para nós, não para eles. 

Chegando ao destino

A Reforma da Previdência deve estar pronta para votação na segunda quinzena de outubro. Com isso, o Governo ganha fôlego para investir e, se trabalhar direito, iniciar a recuperação da economia. Já está no forno a medida provisória da liberdade econômica, que reduz a interferência do Governo nas atividades privadas. A reforma tributária, a proposta pelo deputado Baleia Rossi (que se baseou em estudos do economista Bernard Appy), talvez combinada com a de Paulo Guedes, deve rapidamente ser submetida ao Congresso. Pois, como Macri está demonstrando na Argentina, se a economia não andar o Governo perde as eleições.

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