Ansiedade em crianças: entenda o que pode estar por trás do problema

O excesso de tecnologia e a falta de contato com a natureza são fatores que podem afetar os pequenos

Postado em: em Comportamento

Ninguém disse que esperar é uma tarefa fácil – ainda mais quando se é criança e o mundo parece oferecer possibilidades inesgotáveis de diversão! Mas é consenso entre pais, médicos e psicólogos que meninos e meninas de hoje nascem muito mais acelerados e com bem menos paciência… E nascem mesmo.

O imediatismo e a ansiedade são características próprias da geração alpha, nome dado às crianças nascidas a partir de 2010. Diferentemente de gerações anteriores, elas já chegam ao mundo hiperconectadas, imersas em ambientes onde a tecnologia dita o ritmo do trabalho e das relações.

Uma pesquisa realizada com 510 crianças entre 6 e 9 anos, em parceria com o Instituto Play, mostrou que 81% delas se informam por meio de sites de canais infantis e 83% pela TV por assinatura. Além disso, 61% acessam o YouTube, 42% o Facebook e 40% até navegam em sites de compra online. 

Emanuelly Espírito Santo de Souza tem apenas 2 anos, mas já está dentro dessa estatística. “Ela adora assistir a desenhos pelo celular. Se deixarmos, passa horas ali”, conta a mãe, a cabeleireira Adriana Aparecida do Espirito Santo, 30. Ou seja, antes mesmo de ganhar todos os dentes de leite, essa geração já tem intimidade com o mundo virtual. E isso, é claro, influência de forma determinante o comportamento e os valores desses pequenos.

De um lado, os gadgets oferecem respostas imediatas. Basta um toque para dar play em um vídeo, tirar uma foto, enviar uma mensagem. De outro, o acesso ilimitado a sites e redes sociais expõe as crianças a uma quantidade de informações sem precedentes. 

Por isso, essa imersão tão precoce nas tecnologias modifica tanto a forma como elas lidam com o tempo quanto a maneira como absorvem e processam as informações. E ambos os fatores podem colaborar para o aumento nos níveis de ansiedade.

Uma pesquisa realizada por dois psicólogos americanos, Jean Twenge, da Universidade Estadual de San Diego (EUA), e Keith Campbell, da Universidade da Geórgia (EUA), associou o uso de telas por pequenos a partir dos 2 anos à ampliação dos níveis de ansiedade e maior ocorrência de diagnósticos. 

O estudo também observou que, entre as crianças de até 4 anos, aquelas que eram mais expostas às telas apresentaram o dobro de chances de perder a paciência e, pouco menos da metade delas, 46%, apresentaram menor probabilidade de se acalmar em situações de excitação ou estresse.

Para a educadora e neuropsicóloga Adriana Fóz, pesquisadora do LiNC, Laboratório Interdisciplinar de Neuroimagem e Cognição da Unifesp (SP), o problema não está no uso de gadgets e computadores por si só, mas no exagero. “Se as tecnologias são, desde cedo, a maior distração da criança, isso pode se tornar um problema, porque o cérebro infantil ainda não está preparado para lidar com esse excesso de informações”, explica.

Mais natureza

Para o escritor americano Richard Louv, cofundador da rede internacional Children and Nature Network, há outro fator além da tecnologia que pode contribuir de forma significativa com o aumento dos níveis de ansiedade entre as crianças: a ausência do contato com a natureza. “Não é por acaso que, com nossa crescente urbanização, ou pelo menos com a disseminação da urbanização desnaturada, temos incidências cada vez mais comuns de ansiedade e depressão”, defende. Louv é autor do livro A última criança na natureza: Resgatando nossas crianças do transtorno do déficit de natureza  e baseia seu trabalho em uma série de pesquisas recentes que mostram como retomar o contato com ambientes naturais pode trazer benefícios psicológicos e físicos para crianças e adultos.

Adriana sabe dos ganhos de brincar ao ar livre: para equilibrar o tempo que Emanuelly gasta com tecnologia, a família montou um balanço no quintal de casa, onde a pequena passa boa parte do dia. “Estudos sugerem fortemente que passar um tempo em meio à natureza pode auxiliar muitas crianças a construir confiança em si mesmas, reduzir os sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e ainda ajudá-las a se acalmar e a se concentrar”, explica ele.

É indiscutível que o ritmo de vida que levamos hoje, com muita tecnologia, pouco verde e muito estresse – no trabalho, no trânsito, na escola e nas mil atividades extracurriculares das crianças – contribui para que a ansiedade aumente. Mas não dá para colocar tudo na conta da modernidade.

“Se fosse apenas pela demanda de atividades ou pela demasiada exposição à tecnologia, toda criança seria ansiosa”, explica o psiquiatra Fernando Asbahr, coordenador do Programa de Transtornos de Ansiedade na Infância e Adolescência do IPq, Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (SP). Ou seja, o ambiente pode influenciar, mas não pode ser inteiramente responsabilizado pela ansiedade das crianças.

Já o comportamento dos pais, esse sim pode ser um fator determinante. Um exemplo são os filhos de pais que cobram deles performances cada vez melhores: eles precisam ser excelentes alunos, obedientes, inteligentes, enfim, dar conta de tudo com eficiência máxima. Diante de tanta pressão, os pequenos acabam mais ansiosos, vítimas das cobranças externas e da autocobrança.

“A ansiedade da criança está muito ligada a como os pais enfrentam esse estilo de vida moderno. Pais habilidosos em relação a esse desafio, que entendem que precisam filtrar demandas e informações, provavelmente terão mais chances de criar filhos que sabem lidar melhor com expectativas”, explica a psicóloga Rita Calegari, do Hospital São Camilo (SP). Por outro lado, pais que têm mais dificuldade de trabalhar com a própria ansiedade e o estresse tendem a passar esse comportamento adiante. E isso tem até explicação biológica. Por causa dos neurônios espelhos, que apresentam o auge do funcionamento até os 10 anos, a criança aprende pela imitação. Observa o outro e reproduz. E com a ansiedade também funciona assim. “Não é por acaso que, muitas vezes, ao procurar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra, os pais também são encaminhados para a terapia”, conta Rita.

Mas há ainda um outro ponto essencial quando se fala sobre ansiedade infantil. É preciso saber que há manifestações normais de ansiedade, que são completamente diferentes de ter um comportamento ansioso. O problema é que os próprios pais costumam fazer confusão entre uma coisa e outra...


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