​“Abobrinhas na internet”

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Muita baboseira, muito marketing e desrespeito ao ser humano

O que as pessoas não fazem para aparecer

O que é um aluno? Um ser humano ou uma excelente peça de marketing? Veja, não perguntei quem é o aluno, mas o sim o que é o aluno (coisificação). Aulões, revisões, aulas dicas entupiram os jovens desesperados de informações às portas da boca do “bicho papão”. Canais do Youtube, instagram, redes de televisão não deixaram por menos. Pior, as dicas não batiam, ao contrário, trombavam umas com as outras, como trombam agora os gabaritos de diversos cursinhos, ou seja, marketing de um lado; bagunça oficial de outro.

O Exame Nacional do Ensino Médio fez com que o ensino virasse uma grande “piração” mercadológica. Aluno de baixa renda só é convidado para o show, caso dê retorno de mídia. 1/3 dos alunos desistiu de prestar a prova (o maior número da história). Consulte o cadastro socioeconômico e receberá na cara a resposta óbvia: aumento da exclusão social. Uma pessoa de classe baixa (para ser politicamente correto) não tem condições de competir com um estudante da elite.  A escola pública ficou relegada ao segundo plano.

Alertei para o excesso de informações que mais prejudicava do que ajudava.  A desculpa para “loucura toda” foi dar segurança ao aluno. É isso? Então, “tá bom”. Todo o processo educacional desceu “ralo abaixo”. Essa segurança deveria ser um processo planejado desde que o pimpolho pisou no maternal. Se isso for por demais utópico, então deveria ter sido iniciado no princípio do ano, para evitar a tal da insegurança.

O MEC, para fugir dos famosos “modelitos” de redação, denunciados pelo Guia do Estudante, trouxe um tema esdrúxulo: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. As palavras DESAFIOS e SURDOS eram chaves para desenvolver o tema, mas a coletânea engessava o aluno. O MEC deu um “tiro no pé”. Impediu também o aluno de “pensar” fora do recorte temático. Como sempre, no Brasil, tudo muda para ficar igual.

Por que tanta insegurança? Por que tanto o “piti”? Porque o MEC incentivou, avisou que mudaria muita coisa, mas só mudou quem fez a prova e quem a corrigirá.

Agora aparecem pessoas e mais pessoas afirmando que acertaram o tema que ninguém, de verdade, acertou. Novo show. Sortilégio? Mentira deslavada? Pregação? As cifras que movem a marca ENEM são gigantescas. Vale mentir, espernear. É o vale tudo. Tudo mesmo, até manter a câmera ligada esperando um atrasado para expô-lo em horário pobre.

Quem quer destruir o modelo atual, como eu quero, desista. Não é uma afirmação absurda, nem quero posar de Dom Quixote. Quero destruir o modelo, porque, para mim, ele não incentiva ninguém a estudar, mas sim a adestrar. O “ensino (?)” enenzou, até mesmo nas universidades públicas e agora também nas particulares. A UNESP adora o jeito ENEM de ser. Não à toa, foi convidada a formular o exame. Crianças já falam em ENEM, escolas já são moldadas em função dele. Com a “reforma educacional” (rsrs), tudo ainda piorará.

Fiz duas enquetes na internet, para escrever esse artigo. Primeira: 90% das pessoas concordaram que um aluno de escola pública não trazia o devido repertório cultural para escrever “bem” sobre o tema. A segunda: a “intervenção social”. Não havia como fugir àquela proposta pela coletânea. Agora apareceram os “entendidos” afirmando que o aluno não poderia escrever sobre “deficiência auditiva” e surdez como expressões sinônimas. Quem fizesse isso, tiraria zero. Às duas horas da manhã, recebi uma mensagem desesperada me perguntando se isso era verdade. Ao meio dia, outra trazia o protesto: tema para especialistas.

Nesse exato momento, assisto no JH a uma reportagem sobre a importância do tema para abrir a discussão sobre os desafios para a formação educacional de surdos. Recebi duas revistas de grande circulação que estampavam páginas e páginas de histórias tristes sobre pessoas surdas e os dissabores da vida de um surdo. Jornais trazem agora uma reportagem por dia. Houve gente ameaçando chorar na internet, porque o ENEM tocou em uma questão doída, familiar. Perceberam, porque nem eu, nem vários colegas, nem D. Maria Inês Fini (criadora do ENEM), nem Deus acabaremos com essa praga?


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